Opiniões, Resenhas

RELAÇÕES LÍQUIDAS EM “RIVAIS”, DE TWENTY FINGERS

Olhando para o ano transacto na arena musical, e procurando aquilo que poderia ter sido a criação musical que teve mais aceitação pelo público, lembramo-nos da composição pop que exibe o título sugestivo e provocativo “Rivais”, do cantor Twenty Fingers. A aceitação do público pode ter dois viesses. Numa sociedade com gostos primitivos no que toca a apreciação e a degustação das artes, a qual está propensa e tende a compartilhar para ridicularizar, é uma tarefa para os próprios artistas pensarem a sua condição de sucesso e fama, pois pode ser uma aceitação pela negativa. A aceitação de Twenty Fingers como artista é o reflexo da sua qualidade artística, apesar de ser um artista pop fazendo arte pop e que, como muitos artistasdesse ramo, cria para agradar o público. Nesse tipo de sociedade dos streamings a qualidade da obra é, às vezes, confundida com o número de likes, streamings e compartilhas (shares) que a mesma arte terá em relação a própria arte. Se Dionísio Bahule questionou sobre a redefinição da arte quando disse que havia certos movimentos artísticos os quais transformam qualquer coisa humana em arte só porque está exposta num determinado lugar, ou seja, tudo o que é exposto numa galeria X, apesar de ser apenas uma colher, é arte só porque foi exposto ali – então também posso afirmar que na era digital e tecnológica tudo pode ter selo de qualidade artística se obtiver mais gostos, streamings, e compartilhas.

“Rivais” é uma composição musical que retrata uma mulher que convida as amantes do seu marido para um dedo de conversa pacífico e aconselhador; exemplo da passagem em que o eu lírico enuncia “Só te vou dizer que ele não te vai cuidar bem” (Rivais, Twenty Fingers, Mp4). E anterior a essa questão em particular da rivalidade aceite, surge a constatação da arte musical moçambicana. Por muito tempo os artistas limitaram-se em escrever sobre amor, relacionamento, casamento, traição e tudo o que advém desse âmbito. É muito amor que se canta e se escreve para uma sociedade que, pelos vistos, desistiu do amor e do romance. Ligando esse ponto e a temática da composição trazida por Twenty fingers surge a constatação sociológica de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida, amor líquido e relacionamentos líquidos. No livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Ed., 2004, trad.), Bauman refere que a modernidade troca a ideia de relacionamento por rede, pois enquanto um significa durabilidade o outro é flexível. “Ele [a conectividade/desconectividade trazida pelo conceito de rede] promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (Ibidem). Em poucas palavras, a concepção rede traz a ideia de que pode ser conectado e desconectado, ligado e desligado, basta que o desejo comece e/ou acabe.

Provavelmente é essa a base teórica com a qual se pode analisar a sociologia dessa música. A questão, aqui, não é a moralidade conceitual da composição, onde iremos analisar sobre o bem e o mal da proposta para a sociedade, mas um veículo para ver o comportamento da mesma. Nesse caso, partindo da música “Rivais” e aliando a constatação de Bauman, a nossa sociedade vive em tempos líquidos, onde relacionamentos não duram como antes. E isso tem levantado debates. Nesses tempos, há incerteza sobre relacionamentos e medo, mas, mesmo assim, as pessoas não resistem e não desistem ao todo de entrar num, o que desemboca nesse meio-termo: um relacionamento líquido com slogans populares como “o que ninguém sabe ninguém estraga”, “solteira sim, mas sozinha nunca”, e mais. Nesses relacionamentos, é tão fácil entrar e sair num tanto quanto é fácil conectar e desconectar-se de uma rede qualquer (imagine wi-fi sem senha).

Contudo, Bauman apenas explica a flexibilidade dos relacionamentos e o quão são superficiais, onde ninguém mais entra num relacionamento por completo; “é só carne e não coração”, mas não toca nessa questão central da música “Rivais”. O autor afirma que as pessoas entram numa rede, perdem o tesão e saem da mesma correndo para uma outra, e a permanência em uma mas, ao mesmo tempo, procurando outras para o mesmo objectivo- penso eu…

Essa, por sua vez, é uma questão respondida por Luís Batalha nos seus estudos antropológicos sobre o matrimónio na era moderna. Para este, “nas sociedades tradicionais monogâmicas sempre existiu uma poligamia informal não institucionalizada por detrás de uma fachada social monogâmica” (pag. 125). Se nas sociedades onde a monogamia é muito mais cultural, tradicional e institucionalmente antiga, o que falar das sociedades africanas actuais, confusas ao nível cultural e tradicional quanto a tudo e, em especial, ao casamento? Em Moçambique, por exemplo, a institucionalização da monogamia não é antiga e culturalmente somos polígamos. Na união dessas duas realidades antagónicas só pode haver essa disparidade e caos, onde se renega a poligamia, mas pratica-se de maneira informal. E, é nesse prisma epistemológico e cultural em que toda a música se insere: num contexto onde a poligamia não é aceita a céu aberto, mas bem no fundo de todos aceita-se. A aceitação dessa poligamia verifica-se quando o eu lírico, uma das mulheres do homem com várias mulheres ocultas, convida as suas rivais para um bate-papo sem confusão, mas com aconselhamentos. Das nove mulheres, nenhuma parece estar apta a abrir mão do homem, todas aceitam essa realidade.

A poligamia parece ser um facto. Além dessa forma informal de poligamia, que é a forma que mais perto está da poligamia formal, há a poligamia em série (Batalha, 2004:134), onde pessoas se casam sucessivamente durante a vida toda. Casam com um, separam-se, tem um outro relacionamento, voltam a se casar e assim anda. Ou pode acontecer que namoram esse, noutro tempo namoram aquele, e depois disso namoram um terceiro. Nesse caso, rodam namorados/parceiros durante a vida toda estando naquilo que apelido de poligamia rotativa, esse que muitos moçambicanos estão inseridos nele. Esse é o espelho que a música nos traz. Uma sociedade líquida, principalmente nas cidades, em que, por um lado, a incerteza e insegurança nos relacionamentos resulta em negação de relacionamentos profundos e duradouros e, por outro lado, revela-nos uma sociedade que nega a poligamia a céu aberto, mas aceita-a na informalidade.

por Domingos Mucambe

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Um Herói que Não Existe, de Zaiby Manasse – Opinião

Sinopse

“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.

A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”

Opinião

Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.

Que viagem!

A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.

Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.

Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!

Sobre o autor

“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.

Resenha de Virgília Ferrão

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| A Substância | Opinião

Título: A Substância

Direcção: Coralie Fargaet

Género: terror corporal (body horror)

Elenco: Demi Moore; Margaret Qualley; Dennis Quaid

Ano: 2024

“A beleza é um enigma que não pode ser totalmente desvendado.”

Umberto Eco

Coralie Fargeat, cineasta francesa, depois da sua realização de estreia, “Vingança” (2017), retorna com “A Substância” (2024), sua segunda realização que, mantendo a mesma postura feminista, desafia as indústrias e os seus consumidores. A ideia de um corpo perfeito e mais jovem a cada medida que a idade avança, tem sido desde a era dos sex symbols de Hollywood, uma tendência com que as indústrias cinematográficas e cosméticas propõem os seus padrões de beleza. O filme “A Substância” retrata de forma surrealista a busca insaciável pela perfeição no universo das celebridades. A obra é marcada por uma abordagem visceral e perturbadora das tendências humanas, mergulhando no desespero da protagonista Elizabeth Sparkle, que vê sua carreira de ginasta de televisão a terminar por conta da idade e, em última instância, busca rejuvenescer a qualquer custo. A fragilidade da identidade, o desejo de permanecer relevante no olhar público, levam Elizabeth a fazer escolhas desesperadas e, por fim, trágicas.

A trama faz intervenções extremas na medida que constrói um retrato distorcido da obsessão pela perfeição física e pela manutenção da beleza, criticando a superficialidade da fama e a pressão que as celebridades enfrentam para se manterem “relevantes” às audiências. A proposta é clara: Fargeat utiliza o body horror para expor a efemeridade da beleza da mulher, sua fragilidade e a inquietante transformação do corpo em algo cada vez menos atraente.

Elizabeth Sparkle (interpretada por Demi Moore), inicialmente famosa e admirada, simboliza as protagonistas de muitas histórias de Hollywood que, com o passar do tempo, tornaram-se invisíveis e solitárias aos olhos do público. A decadência da fama e a tentativa de ressurgir com uma aparência renovada, ainda que artificial, tornam-se os motores da trama. Aqui, o desejo de Elizabeth pela reconquista de sua beleza é um reflexo da sociedade que valoriza a imagem e o eterno culto à juventude. Fargeat apresenta o processo de transformação de Elizabeth em “Sue” (interpretada por Margaret Qualley), como uma série de escolhas perigosas, das quais ela não pode mais escapar. As intervenções que ela faz em seu corpo não são apenas físicas, mas também psicológicas, já que ela passa a se ver como um produto que precisa ser constantemente aprimorado.

Ao longo da trama, o corpo de Elizabeth, agora transformada em “Sue”, torna-se num território de constante metamorfose, onde o body horror é explorado de maneira crua e gráfica. As cenas que retratam as transformações corporais não são apenas viscerais, mas também metafóricas, explorando o impacto psicológico que a obsessão pela aparência pode ter sobre a identidade de um ser humano. O corpo de Elizabeth fragmenta-se, desintegra-se e, em muitos momentos, degenera-se de maneira grotesca. Através dessa perspectiva, Fargeat apropria-se de um dos principais elementos do género body horror: o corpo que se transforma de maneira incontrolável, sugerindo o desespero e a perda de controle.

O filme não poupa o espectador de imagens desconfortáveis, mas faz isso com um propósito claro: mostrar que o corpo, quando manipulado de maneira excessiva e irresponsável, pode-se tornar um campo de guerra contra si mesmo. A transformação física de Elizabeth em “Sue” intensifica-se à medida que ela se aproxima de seu ponto de não retorno, criando um paralelo com a perda de controle sobre sua própria identidade e a pressão constante de ser perfeita. Cada intervenção que ela faz em seu corpo é uma tentativa de se manter visível e jovem, mas também é uma metáfora para o quanto ela perde da sua humanidade nesse processo. A desumanização é clara; especialmente quando se observa que “Sue” se torna numa fachada de si mesma, uma construção superficial e fragmentada.

A Substância vai além do género de terror físico para se tornar numa reflexão crítica sobre a sociedade contemporânea, onde a juventude e a aparência são frequentemente colocadas como as únicas qualidades que definem o valor de uma pessoa. O filme coloca em questão até onde uma pessoa está disposta a ir para manter-se no topo, e como isso pode ser prejudicial para a saúde física, mental e emocional.

Coralie Fargeat, que também é responsável pelo roteiro, é hábil ao combinar as convenções do body horror com uma crítica social bem articulada. O filme é visualmente impactante, com uma direcção que faz uso de uma estética limpa, mas que vai se tornando cada vez mais desconfortável à medida que a história avança. O uso da luz e da câmera contribui para uma atmosfera de crescente claustrofobia, onde o corpo de Elizabeth não é mais apenas uma prisão física, mas também mental. O ritmo do filme é imersivo, e a trama é conduzida de forma a deixar o espectador com uma sensação de desconforto e reflexão, sem perder a tensão que o género exige.

Resenha de Denilson Monjane

Resenhas

José dos Remédios e Ethale Publishing entre os vencedores do PREICC 2024

Acaba de ser realizada a gala da segunda (II) edição do Prémio das Indústrias Culturais e Criativas (PREICC), uma iniciativa de prestígio promovida pelo Ministério da Cultura e Turismo e pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas de Moçambique (INICC).

Esta iniciativa visa homenagear indivíduos e pessoas colectivas que contribuem significativamente para a cultura do país, reconhecendo tanto talentos já estabelecidos, como emergentes. O PREICC engloba o reconhecimento em várias categorias, incluindo a dança, o teatro, a música, literatura, o jornalismo, fotografia, moda, gestão cultural, carreira, entre outros.

A gala desta segunda edição foi realizada neste dia 21 de Dezembro de 2024, no Centro Cultural Moçambique-China, e entre os contemplados estão José dos Remédios, na categoria de jornalismo, e a Ethale Publishing, na categoria de literatura. José dos Remédios é ensaísta, jornalista e escritor, conhecido pelos seus ricos e perspicazes ensaios na literatura moçambicana e pela divulgação da cultura moçambicana dentro e além-fronteiras, com um trabalho que tem sido fundamental para os alicerces da mesma no país.

A Ethale Publishing, co-fundada por Jessemusse Cacinda, é uma editora moçambicana proeminente, dedicada à promoção da literatura africana, à várias iniciativas para a formação de leitores, e que tem de igual modo, publicado e promovido diversos autores moçambicanos.

Noutras categorias, foram homenageados, na moda, Mabena, música, twenty fingers, cinema e audio visual, maningue magic, entre outros.

Por ocasião da cerimónia, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, prestigiou os homenageados e mencionou alguns marcos do ministério durante o período de 2020 a 2024, tendo referido, entre vários, a inscrição do parque de Maputo como património cultural, e os dossiers do Parque das Quirimbas e do Xigubo para o mesmo efeito.

A todos os vencedores os nossos parabéns!

Diário de uma Qawwi

21.12.2024

Opiniões, Resenhas

A Celebração do Estilo Hip-Hop da Costa Oeste em “GNX”, de Kendrick Lamar

Por Denilson Monjane

A lot of times, when people say hip-hop, they don’t know what they’re talking about. They just think of the rappers. When you talk about hip-hop, you’re talking about the whole culture and movement. You have to take the whole culture for what it is.

Afrika Bambaataa

Com o lançamento surpresa de “GNX”, Kendrick Lamar abala a comunidade Hip-Hop com uma abordagem mais clara e simples. É o seu projecto mais objectivo em comparação aos seus álbuns anteriores. Conhecido por suas explorações complexas de temas sociais e culturais, Kendrick presta, desta vez, tributo ao estilo hip-hop da Costa Oeste, homenageando suas raízes musicais e culturais. Ao invés de suas narrativas densas e intrincadas, Kendrick apresenta uma proposta de exaltação e celebração da cultura na periferia californiana, destacando as sonoridades clássicas e as rivalidades regionais de forma mais acessível e informativa.

Comecemos pelo título: “GNXé um acrónimo de ”Grand National Experimental”, um modelo de carro da marca “Buick”, aderido ao fim de uma turnê, sendo este o mesmo modelo de carro que seu pai Kenneth viria a transportar o futuro rapper a saída do hospital após o seu nascimento.

Logo na faixa de abertura de “Wacced out Murals”, Kendrick estabelece o tom do álbum com uma batida minimalista sustentada por um fragmentado discurso melódico em espanhol, cantado pela mexicana Deyra Barrera, que se vai completando ao longo do projecto:Siento aquí tu presencia/ La noche de anoche/Y nos ponemos a llorar… ‘Sinto sua presença aqui/A noite passada/E nós começamos a chorar…’ Isto, lembrando a famosa declamação fragmentada do poema “Another Nigga, que se ia completando ao longo do seu terceiro álbum “To Pimp a Butterfly (2015). O som é pesado, sem pretensões de sofisticação excessiva, sem um contraste deliberado e muito menos complexamente narrativo como “To Pimp a Butterfly” ou “Good Kid, M.A.A.D. City”. A simplicidade das batidas e o uso de estilos vocálicos característicos do gangster rap da Califórnia fazem com que o ouvinte se sinta imediatamente transportado para as ruas de Los Angeles e seus bairros, onde a violência e a rivalidade de gangues coexistem com um senso de comunidade, pertencimento e estilo de vida.

Essa abordagem minimalista é consistentemente explorada ao longo do álbum. Faixas como “Squabble Up”, “Hey Now” e “Peekaboo”aprofundam a imersão na realidade das ruas com Kendrick, abordando questões como lealdade, a luta pelo respeito e as tensões entre as diferentes facções, mas honrando a cultura da Costa Oeste. As letras são directas, sem perder a força emocional, e as produções ressoam com uma autenticidade que reverbera o legado de figuras como Snoop Dogg e Tupac Shakur, mas com uma sensibilidade mais contemporânea.

Com “GNX”, Kendrick Lamar se reafirma como um defensor do legado musical que ajudou a definir o hip-hop nos anos 90, a era considera como Golden Age Hip-Hop ou Era de Ouro de hip-hop. A faixa “Reincarnated” é uma clara homenagem a essa tradição, utilizando uma batida pesada combinada com piano e um baixo marcante, reminiscente das produções de Johnny J, então produtor da canção controversa “Hit Em’ Up”, de Tupac Shakur. Em “Dodger Blue”e “Heart pt. 6”. As canções são uma verdadeira viagem pelas ruas de Los Angeles, com suas referências ao dia-a-dia da cidade e à cultura local, mas também um reflexo do espírito resiliente da Costa Oeste, onde a música se torna uma ferramenta para a sobrevivência e para a construção de identidade.

As faixas “Luther”e “Gloria’, outras das faixas de destaque, uma fusão perfeita entre a modernidade e a tradição do hip-hop da Costa Oeste. As batidas, com seus ritmos pulsantes, são ao mesmo tempo dançantes e introspectivas, e as letras celebram a resistência das comunidades ao som único da região. Kendrick usa a música como um veículo para contar histórias de superação, resistência e identidade, trazendo um senso de orgulho à cultura da Costa Oeste, mas sem ignorar suas complexidades e contradições.

Um dos aspectos mais notáveis de “GNX” é como Kendrick Lamar propõe a união entre gangues rivais, isso já ressoando desde “Good Kid M.A.A.D City”e “To Pimp a Butterfly”, que são os projectos que minimamente dialogam com “GNX”. Essa ideia se reflecte especialmente em “GNX”, a faixa homónima do álbum. O som é agressivo, com um ritmo pausado e versos que evocam um senso de luta colectiva. Em suma, Kendrick Lamar sugere que, em vez de continuar as disputas violentas, as gangues poderiam usar sua energia para construir algo maior, como uma rede de apoio mútuo e resistência contra as adversidades. O álbum transmite tanto um desejo de união na medida em que dá crédito a relevância dos dois lados, propondo uma reflexão mais ampla sobre como as ruas da Califórnia podem unir-se em torno da música, cultura e comunidade.

Com “GNX”, Kendrick Lamar reafirma o Gangster Rap da Costa Oeste. As faixas como exploram uma realidade e uma visão de união usando a música como ponto de convergência. Kendrick, com seu talento único, consegue equilibrar a celebração da cultura hip-hop da Califórnia com uma mensagem poderosa de resistência e solidariedade.

Ao escolher esse caminho, Kendrick não apenas homenageia o legado da Costa Oeste, mas também solidifica a sua relevância dentro dessa tradição, contribuindo para um novo capítulo na história do hip-hop. “GNX” é um álbum que não só reafirma a importância de Kendrick Lamar no cenário musical, mas também propõe um diálogo urgente sobre união, identidade e transformação social, utilizando a música como um veículo para a mudança.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| Pedro Páramo | Opinião

Por Zaiby Manasse

Fonte imagem: heavenofhorror

Título: Pedro Páramo

Direcção: Rodrigo Prieto

Género: drama; realismo mágico

Ano: 2024

Plataforma: Netflix

Opinião

Tenho tentando explorar mais o mercado cinematográfico fora dos Estados Unidos que de uns tempos para cá nos brinda com a mesmisse como se não existissem mais ideias. Foi nessa senda que me deparei com esta produção mexicana dirigida por Rodrigo Prieto, adaptando de forma directa o livro homônimo escrito por Juan Rulfo e lançado originalmente em 1955 com o mesmo título do filme, Pedro Páramo.

A trama se passa na cidade de Comala, no estado de Colima. A época não é explicitada precisamente, mas há indicações de ser contemporânea à Revolução Mexicana e à Guerra Cristera (informação tirada no Google). A história é narrada em uma mistura de primeira e terceira pessoas, com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o que faz o filme ficar um pouco confuso, mas a medida que avança vai explicando alguns acontecimentos já vistos. O filme vai e volta, dentro do passado vai ao futuro desse passado e também, muitas vezes, volta para o passado desse passado para explicar algum personagem ou um determinado acto do filme do tempo em questão. O carácter de Pedro Páramo, figura central do filme, é deslindado pouco a pouco por meio desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. É estranho que essa contradição vai prendendo (a mim prendeu, como se estivesse a ser sugado por uma espiral). O filme começa com Juan Preciado, que após a morte da mãe, volta à cidade de Comala para procurar o pai, Pedro Páramo. Logo que chega, fica a saber que este já havia morrido há anos. Em Comala entra em contacto com diversos moradores, todos, de alguma forma, ligados ao falecido pai. Aos poucos, pequenas contradições e absurdos vão-se sucedeendo: ouvem-se fantasmas, borram-se os limites entre o real e o sobrenatural, sono e vigília, passado e presente, até que se entende que todos, inclusive os diversos narradores, que se alternam, estão mortos. Apesar de não estarem conscientes do seu próprio estado, os habitantes do lugar percebem que os demais estão mortos.

Ao ver o filme pensei no livro de Gabriel Garcia Marques, 100 anos de solidão que dás cinco vezes que li, não terminei devido a complexidade do mesmo que é para mim, causada pela densidade do livro. Penso eu, que se tivesse lido o livro Pedro Páramo teria tido a mesma dificuldade. Se um filme tende a diluir as coisas e este estava denso, não quero imaginar o livro. Sempre achei que o livro de Gabriel Garcia Marques daria um óptimo filme ou série. Recomendo o filme para aqueles que não têm preguiça de pensar e que gostam do género Realismo Mágico.

Zaiby Manasse

Opiniões, Resenhas

A Exploração Rítmica de Khruangbin: Sobre A La Sala

Por Denilson Monjane

“All great music is in one way or another psychedelic.”

Genesis P-Orridge

O trio texano Khruangbin, formado por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald “DJ” Johnson (bateria), tem-se destacado ao longo da última década por sua sonoridade única, que mescla influências de funk psicodélico, soul, música tailandesa, maliana, jazz e ritmos do Oriente Médio. A banda tem, de forma gradual, consolidado um estilo que mistura e reinventa fronteiras musicais, mantendo sempre um fluxo de experimentação. Com o lançamento de A La Sala (2024), Khruangbin se afasta, em parte, de seus lançamentos anteriores e adentra um novo território sonoro, que transita entre o groove e a introspecção, com uma estética que remete a fusão de uma ambiência visual nostálgica e de espaços abertos.

Em comparação com os trabalhos anteriores como “The Universe Smiles Upon You” (2015), “Con Todo El Mundo” (2018), “Mordechai”(2022) e “Ali”(2022), que se baseavam fortemente em influências psicodélicas e elementos de músicas do mundo, “A La Sala” apresenta uma sonoridade mais consistente e contemplativa. As composições no novo álbum tendem a ser mais introspectivas e sutis, sem perder o groove inconfundível que se tornou marca registada da banda. A transição para um som mais atmosférico e refinado não é uma ruptura, mas uma evolução natural do trabalho do grupo.

Uma das características mais evidentes neste álbum é a atmosfera espacial e etérea que predomina em várias faixas. A combinação da guitarra suave de Speer, com a linha de baixo pulsante de Laura Lee e a batida hipnótica de Donald Johnson cria paisagens sonoras que mais evocam uma sensação de deslocamento no espaço do que uma construção de uma narrativa linear. A música parece funcionar como uma espécie de espaço entre o real e o imaginário, com momentos de leveza e transcendência.

O álbum abre com a “Fifteen Fifty-Three”, que inicia com uma estrutura de groove suave e se dissolve em camadas sonoras vibrantes do baixo, bateria e guitarra, criando um clima que é, ao mesmo tempo, cativante e melancólico. A textura sonora da banda é mais refinada aqui, com o baixo pulsando de forma quase hipnótica, enquanto a guitarra de Speer desliza por linhas melódicas que lembram tanto o soul dos anos 70 quanto os sons experimentais da música global.

Em “May Ninth”, a fusão entre o psicodélico e o electrónico se torna ainda mais pronunciada, com a introdução de batidas minimalistas e um toque de jazz, enquanto a voz de Laura Lee, mesmo que presente de forma contida, adiciona uma certa sensualidade ao ambiente sonoro. Já em “Ada Jean”, o uso de percussões mais orgânicas e um trabalho de guitarra mais focado na repetição cria um loop quase hipnótico, que leva o ouvinte a um estado de imersão. A escolha de deixar a guitarra mais esparsa nas composições também permite que a instrumentação se sobressaia, o que dá uma sensação de espaço e liberdade.

“Farolim de Felgueiras”é outra peça-chave no álbum. Com uma pegada mais directa, a faixa é um jogo entre o groove e o minimalismo, algo que Khruangbin já havia explorado, mas aqui de forma mais subliminar. A faixa traz uma melodia etérea que poderia facilmente ser um tributo aos sons melancólicos latinos mas, ao mesmo tempo, é suficientemente original para não cair na simples repetição de estilos. A banda consegue equilibrar referências com inovação, criando algo familiar e ao mesmo tempo novo. “Pon Pón” mostra que o Khruangbin também é capaz de explorar sons mais bailados sem perder a característica de criar atmosferas envolventes. A faixa parece um interlúdio, sendo menos sobre o ritmo a ouvir e mais sobre a sensação que deixa no ouvinte a vontade de dançar. E depois volta-se ao ritmo relaxado e pausado com “Todavía Viva”, com a voz suave de Laura Lee melodicamente acompanhando as cordas da guitarra de Speer.

Uma das grandes virtudes do álbum “A La Sala” é justamente a sua habilidade de criar complexidade dentro da simplicidade. A banda continua a demonstrar um domínio impressionante do uso do espaço e da dinâmica musical. O modo como as texturas sonoras se intercalam ao longo do álbum oferece ao ouvinte uma experiência sensorial mais do que intelectual. Não é um álbum que exige grandes análises ou interpretações complexas, mas sim uma experiência que pode ser sentida e vivida. Em muitas faixas, há a sensação de que a música é mais um estado de espírito do que uma expressão convencional de composição.

Essa abordagem é evidente em faixas como “Luego y Nubes”, que utiliza uma percussão repetitiva e uma linha de baixo discreta para criar uma sensação de movimento lento e constante. A melodia da guitarra é sempre sutil, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo essencial, contribuindo para a construção da atmosfera substancial do álbum. O minimalismo apresenta-se como uma escolha estética onde menos é mais, e a repetição torna-se uma ferramenta poderosa para criar um estado meditativo.

“A La Sala” não é apenas um passo à frente na carreira do Khruangbin; é uma reflexão sobre como a banda pode continuar a expandir suas influências enquanto mantém sua identidade intacta. Em vez de se basear em fusões óbvias e fórmulas repetitivas, o trio dedica-se a explorar novas formas de criar e compartilhar sua música. É um trabalho que ressoa com as qualidades imersivas que sempre foram a marca da banda, mas com uma ênfase maior no amadurecimento e na experimentação sonora. O álbum, por fim, confirma o lugar de Khruangbin no cenário musical contemporâneo, enquanto oferece aos fãs um convite para se perderem em suas paisagens sonoras.

Livros, Opiniões, Resenhas

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Opinião

Autor anónimo

Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.

Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.

Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.

Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.

Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.

Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.

Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.

Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que  tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.

Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.

Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.

Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.

À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.

O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.

Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.

Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.

Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.

Resenhas

Pátria Minha: uma telenovela brasileira que poderia ter sido inspirada na realidade moçambicana | Opinião

Há alguns dias, publicamos uma citação de Graciliano Ramos que diz: “a primeira coisa que uma obra de arte nos diz é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.”

Se é verdade que a arte se inspira na vida e muitas vezes nos mobiliza para a acção, é igualmente verdade que muitos de nós encontramos consolo, expressão e liberdade na arte. Como uma pessoa profundamente movida pela sétima arte desde a tenra idade, as telenovelas brasileiras sempre foram uma fonte significativa de entretenimento e reflexão para mim.

Nesta breve resenha, gostaria de revisitar Pátria Minha, telenovela brasileira que foi ao ar pela primeira vez em 1995 na TV Globo há quase três décadas. Apesar do tempo, os temas desta novela parecem ressoar de forma marcante, não só no contexto brasileiro da época em que ela foi feita, mas também, e surpreendentemente (senão algo alarmante) no contexto contemporâneo de Moçambique. Ora vejamos:

A Narrativa de “Pátria Minha”

De entre as inúmeras tramas interligadas, destaco duas narrativas centrais que me parecem particularmente relevantes: primeiro, a história de Pedro (interpretado por José Mayer), um imigrante brasileiro que vive em Nova York há anos e decide voltar ao Brasil. Sua esposa, Ester (Patrícia Pillar), ex-professora de português, resiste à ideia de regressar. Ela articula a sua reluctância com palavras que são dolorosamente familiares até o dia de hoje e passo a citar:

Eu não quero voltar. Me dá medo. A gente vai voltar para um país em que o professor não consegue dar aulas porque está com meses do salário atrasado, um salário de fome. Onde nem sequer tem giz”.

Eventualmente, Pedro convence a esposa, e eles voltam para o Brasil – apenas para descobrirem que a família está a residir numa favela. Isso os introduz às duras realidades que se observa no país, como a desigualdade, tema central da novela.

Paralelamente a está trama, está a história de Alice, uma jovem estudante rotulada de rebelde, que ousa confrontar Raul Pelegrini, um inescrupuloso empresário corrupto e poderoso. Alice lidera uma resistência contra Raul, depois que ele ordena o despejo da família de Pedro e de outros moradores de um terreno. O confronto intensifica-se, culminando num violento protesto onde tanto Ester, esposa de Pedro, como Gustavo, filho de Raul, saem gravemente feridos.

Eis um trecho desta passagem:

Vídeos: Pátria Minha | Pátria Minha | memoriaglobo

A tragédia atinge o ápice quando Ester é levada para um hospital público, onde espera durante horas para ser atendida, para no fim descobrirem que a instituição não tem o equipamento necessário para realizar os exames precisos. Sem cuidados atempados, Ester acaba por morrer. Gustavo, por outro lado, é imediatamente levado para uma clínica privada bem equipada, onde é tratado, mas também sucumbe aos ferimentos.

Esta justaposição gritante dos sistemas de saúde públicos e privados, sublinha a desigualdade sistémica que permanece demasiado familiar em muitas sociedades, particularmente a que se vê nos dias de hoje em Moçambique. O nosso país, tal como o Brasil fictício retratado em Pátria Minha, debate-se com disparidades sociais e económicas, que por vezes parecem intransponíveis. Os desafios enfrentados por Pedro, Ester e Alice podem ser facilmente revistos nas lutas dos moçambicanos – com professores cujos salários estão atrasados, alunos sem escolas, juízes em greve, famílias deslocadas e cidadãos a navegar num sistema de saúde sobrecarregado. A corrupção encarnada por Raul Pelegrini também parece estranhamente familiar. E tal como Alice, muitos moçambicanos estão a levantar-se para contestar estas realidades, com contornos alarmantes e grandes custos pessoais para todos os lados.

A meu ver, Pátria Minha, não é, entretanto, apenas uma história de desespero e de lutas. Na sua essência, é um lembrete de que, como cidadãos, somos todos administradores da nossa pátria. Enfatiza que, mesmo em meio às adversidades, permanece um dever duradouro nosso, de cuidar e elevar a nossa nação, buscando sempre o bem para ela.

Se na ficção é possível um final feliz, um arco de redenção e o triunfo da paz, como acontece em Pátria Minha, na realidade que sonhamos e queremos para nós, a mesma coisa deve acontecer. Histórias como estas nos instigam a imaginar um caminho bom, um final feliz, um Moçambique, por exemplo, onde o diálogo se realiza e a paz é restaurada. Um desfecho que nos leve aonde a saúde, a educação e a justiça sejam acessíveis para todos. Devemos todos nós olhar para além das nossas divisões e diferenças, e trabalhar juntos para um futuro comum.

A música Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, um dos temas principais da novela, traz uma grande reflexão sobre racismo, desigualdade e resiliência. Vale a pena conferir.

A nossa classificação: 4,5 entre 5 estrelas

Por Virgília Ferrão

Livros, Opiniões, Resenhas

Vestígios do Silêncio, de Amosse Mucavele

Por Domingos Mucambe

Um livro é uma viagem; e um livro de poesia é uma viagem para um destino incerto. Ao ler Vestígios do Silêncio perpassam-nos muitas ideias- às vezes contrárias umas das outras- mas, a profundidade mostra-nos um abismo que, adentrando nele, acabamos perdendo-nos. Parafraseando Nietzsche: “não se olha tanto tempo no abismo sem se tornar, por consequência, num outro abismo.” É nessa aventura abismal que nos sentimos quando lemos os poemas curtos, outros com apenas uma única estrofe de Amosse Mucavele, em Vestígios do Silêncio, publicada pela primeira vez em 2022.

A obra, longe de ser um conjunto de poemas colocados arbitrariamente, assume uma posição de melancolia – não há réstias de esperança em cada palavra impressa a preto no papel branco. Saímos do desespero, passamos por saudades carregadas pelos ecos do silêncio, adentramos na profunda solidão que cai dos céus de forma sólida, quando lhes dá atributos de “granizos”, e chegamos também na vila “dos que amam a morte”. A cada fim de um verso julga o peito que há nessas linhas, um mundo ainda por se (re)descobrir, onde as palavras parecem efémeras.

As 52 páginas do livro dividem-se em quatro partes indistintas. Primeiramente, as composições têm nomes de lugares e infra-estruturas, mas essas têm aspectos de vivo, com alma e espírito. Tais lugares e infra-estruturas ora são abatidos pelo silêncio da saudade ora são combalidos pela “fria solidão”. Esse desviar do lamento do Eu lírico para objectos com sentimentos, memórias e sonhos, não nos impede de reflectir em nós mesmos as dores do “Fragmento de um suicídio”, onde nos remete a questão da “extinção” que será volátil ou mesmo da “ternura da corda que incendeia a ausência”.

As partes todas são acompanhadas por fotografias com um aspecto sombrio, e um sinal claro de “silêncios”. Adentrando nas fotografias, estendemos o significado de silêncio, que é a ausência de barulho (som), para ausência de almas e de vida. A ausência, o vazio, o abandono são imagens que nos ocorrem na cabeça. Essas imagens de ruínas, definham os nossos sentimentos e, apoiando-nos a esses sentimentos, experimentamos o silêncio e o vazio que nos preenchem os espaços que partilhamos com os outros.

 A primeira parte é “Variações Sobre o Mapa”. Além do “Fragmento de um Suicídio”, também visitámos a “Fábrica Braço de Prata”, que também se silencia no “corpo do abandono” e chora “’os retalhos da decadência”.

Depois segue-se “Das Ruínas vê-se o Mundo”. Com palavras e versos, faz-se um remember the time da Vila do Algarve I, II, III, mas também temos o Cinema Império, que se “desola à beira de um país”. Depois desse capítulo temos a “Elegia da Ruína” e, no fim, temos “Construções Ocultas”, que no lugar de serem erguidas vão-se ocultando no silêncio, ou nas cerimónias fúnebres do tempo, ou até na destruição de um edifício, ou de nós mesmos.

As metáforas usadas são complexas e eruditas, dificultando a compreensão do texto na sua integridade. Então, de que integridade se deve trajar um poema? Para quê se explicar um poema? Ela só é útil quando lhe dá um soco no estômago, e deixa cair a máscara como escreveu Hilda Hilst (in eu sem poesia). E isso nos parece, na verdade, cada verso que lemos, uma boa bofetada na boca do estômago.

A linguagem nos remete sempre a um sonho, um lugar onde o onírico encontra-se com a realidade. Mas, como casamento entre o consciente e o inconsciente de Freud, a realidade perde suas forças, e é engolida pelo sonho. A forma como junta as palavras criando versos loucos e doentes, mostra muito desse seu lado embriagado de ser.

Amosse Mucavele trouxe-nos um escrito com um outro sentido de poesia, aliás, muito mais poético. Diz sem dizer. Nesse pequeno livro tudo é embriagado. A primeira leitura é enganosa, a segunda aterra-nos sem segurança, e é na terceira onde enxergamos, com olhos já doentes, os vestígios de silêncio.