Livros, Opiniões, Resenhas

Três Maneiras de Exclusão nos Três “Diamantes Pretos no Meio de Cristais”

Por Domingos Inácio Mucambe

Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).

A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.

O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.

Juno em Kansas (1856)

No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.

Anna na Cidade do Cabo (1961)

Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.

Elvira em Maputo (2001)

Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.

Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.

A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?

Lançamentos!, Resenhas

Énia Lipanga carrega a sua poesia e coração pelo Brasil com “Compostas de Ti”

A poeta e activista moçambicana Énia Lipanga é uma força da natureza. A sua arte e luta não são apenas para admirar – mas também para sentir, celebrar e partilhar com o mundo, num carrocel de emoções de tirar o fôlego. Assim, durante este mês de Setembro, esta diva da poesia levou a sua magia para o Brasil, numa digressão intitulada “Composta de Ti(s)”, uma experiência única e que ficará na memória, a qual artista partilha nas suas próprias palavras:

“Realizamos com todo o sucesso do mundo a minha primeira digressão artística internacional.

Não consigo encontrar palavras que caibam para expressar a minha emoção pela concretização deste sonho.

Fizemos o sarau Palavras São Palavras no lindo quilombo urbano Aparelha Luzia, em São Paulo, e de surpresa recebemos Preta Rara.

Realizamos uma oficina de escrita criativa com escritoras negras.

Estivemos a palestrar na Universidade de São Paulo.

O Rio de Janeiro ofereceu-me uma jornada de tirar o fôlego.

Realizamos três saraus com a presença de poetas de vários movimentos de declamação de poesia e teatro.

Estivemos no Bar do Papa, que lugar mágico e preenchemos a rua. Estivemos também na majestosa Sala Carlos Couto, no Teatro Municipal de Niterói (outra cidade linda).

Ganhei uma irmã gêmea por aqui. Chama-se Doralyce, é rapper, poeta, ativista e revoltada como eu. Ela recebeu-me e abrimos espaço para que o público viesse testemunhar a nossa miscigenação.

Falamos sobre a nossa moçambicanidade numa palestra na Universidade Federal Fluminense.

Ganhei uma avó do outro lado do Atlântico. Fui acolhida por uma das escritoras mais respeitadas do mundo e não poderia estar mais grata por este feito. Conceição Evaristo foi, com certeza, um sonho; ouvi as suas histórias e caminhei de mãos dadas com ela pelas ruas da favela.

E, para encerrar com chave de ouro, vim encontrar mulheres loucas aqui em Florianópolis.

Duas conversas com poesia e o sarau E quando me tornei corpo, organizado pela Secretaria de Cultura, Artes e Esportes da Universidade Federal de Santa Catarina, e estou, neste momento, ainda sob efeito destes momentos.

Sou grata aos meus amigos em Moçambique por acreditarem em mim. Aos grandes produtores culturais brasileiros: Laís, Basquiat, André, Colmeia, Oluwa, Gdarkestampas.
Às irmãs de trincheira: Tatiana Pequeno, Eliane Debus, Catita, Vera

Obrigada por terem sido o caminho: Carla, Andrea, Margot, Evellyn, Ivone, Laura, Eliza, Letícia (poetas que não mencionei aqui, o abraço ficou, e estou organizando uma publicação de todo o mundo).

Perdi-me bastante por aqui, fiquei confusa pelo lado contrário do trânsito, pela falta de dinheiro vivo para pagamentos, e só não tropecei graças ao guia turístico mais lindo de Fortaleza e do mundo Gabriel Carrião.”

Opiniões, Resenhas

A Transcendência nas aguarelas de Aldino Languana, na procura de “Esmolas”

Por Domingos Inácio Mucambe

A grandeza dos anseios do ser humano levou, ao longo da história, a sua criação de forma mais poderosa, de forma a adquirir força para tudo, saber o indecifrável sobre os enigmas da vida, estar em qualquer lado e, acima de tudo, a benevolência que é raridade entre a humanidade. Languana, de forma magistral, estampa nas nossas caras a obsessão com o ‘além nós’ na obra “Esmola”, aguarela sobre papel com as dimensões 55 x 68 cm, ano 2024. Esta obra faz parte da exposição “Jardins de sonhos”, inaugurada no dia 03 de Julho de 2024, na Fundação Fernando Leite Couto, e que esteve em exibição até 03 de Agosto do corrente ano.

Languana (n. 1972) pintou-nos as vistas com as suas aguarelas mágicas que revelam muito mais do que o formalismo artístico. Uma exposição recheada de cores que reverberam nas almas dos espectadores, e são obrigados a uma jornada entre “Jardins e Sonhos”. Depois de consumidas as obras, despertamos de um profundo sonambulismo e questionamo-nos: onde estávamos?

Pela qualidade das obras, a textura aliada à leveza e translucidez, convém-nos especular que o artista tem Winsor & Newton como marcadores predilectos (o que só pode ser confirmado pelo próprio artista). A paleta de cores inclui skin tones, que personificam certas figuras. Temos, ainda, a ocean blue; o azul é a marca- parece- do artista. Contudo, usado nas medidas certas, sem o esbanjar. O berry red transparent e a neutral grey trazem profundidade adicionada. 

A neutral grey está entrelaçada nas tonalidades cinzas e algumas aguareladas pretas, que podem significar desde ser negro até profunda melancolia, desespero e avidez de alguma “esmola”. Temos, ainda, um tom amarelo dourado ou golden yellow, que nos oferece possibilidades de degustação e interpretação distintas rasgando, numa primeira vista, o quadro em dois: talvez o material e a transcendência. Vêem-se dois planos separados por uma linha visível e ténue, porém forte o suficiente para deixar a marca de dualidade dimensional, sem que haja um ponto singular onde há interceptação. Isso é visível num quadro em que nem as mãos do pedinte transpõem o véu laranja, nem o pássaro, nem a face humana e nem os três grãos invadem o mesmo véu amarelo.

A mesma cor também parece uma incessante labareda: aquele laranja dourado arde nos nossos corações, provoca chama dentro das nossas almas. A terra, assim, revela-se incandescente. Ou por outra, a vida na terra está em brasa provocando um sofrimento perpétuo como se fosse o próprio lago do fogo.

O ser humano no mundo material está numa posição de consternação. A ausência de pés retratada na imagem simboliza o desmoronamento dum mundo, a falta de chão e o rastejar nesses espaços divididos com figuras que possuem formas estranhas, ou mesmo demónios. Além de cortados os pés, borra-se a face, oculta-se a identidade.

Ou será o caso de não ser um indivíduo e sim um colectivo, uma povo ou toda humanidade.

A figura humana representada na pintura apresenta mãos estendidas para o céu, pedindo esmolas aos seres sobrenaturais. A aguarelada traça um humano em súplicas, pedidos, talvez prantos, que conseguimos ouvir bem no fundo dos nossos corações, mesmo no silêncio das cores de Languana.

Do ponto de vista metafísico, caem as respostas em migalhas de pássaro. Estas caem do bico, e denotam a efemeridade em procurar alento em seres superiores para acabar com o sofrimento do mundo. Isso espelha a incessante luta em pedir a tranquilidade. Mas, na realidade, enganamos a nós mesmos porque a vida segue as suas correntezas que trazem sofrimento e dor, com pouca felicidade e bem-estar. Esse pouco é bem representado por três migalhas ou grãos de bonança.

A pomba geralmente representa paz e tranquilidade- talvez sejam grãos de paz e tranquilidade. O pássaro parece ser uma extensão da face humana, ou pelo menos conecta-se a ela. A face é a divindade na qual o humano vê-se como “medida de todas as coisas” (Nieztsche, 1886), significando que cria ele deuses à sua imagem e semelhança. Que Deus é esse? A pomba oferece identidade ao mesmo Deus da paz e tranquilidade.

“Esmola” presenteia-nos com essa dura realidade, tratando-se de dois mundos: o de sombras e assombrados, e o de paz e harmonia, revelada pela serenidade da face do divino; uma contradição presente. Entre apertos de chamas da vida, roga-se às entidades superiores por felicidade, mas ela sempre chega em migalhas, grãos que não chegam a saciar as dores do mundo.

O ciclo da vida continua assim: um eterno sofrimento possibilitado pela procura de um bem maior fora do próprio humano, uma felicidade transcendental que nos cai em migalhas- pequenas esmolas, na ilusão de um futuro totalmente tranquilo. 

SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.

Resenhas

The Real Slim Shady Revisitado em The Death of Slim Shady (Coup de Grâce), de Eminem

Fonte: Stream

I should like to bury something precious in every place where I’ve been happy and then, when I’m old and ugly and miserable, I could come back and dig it up and remember.

Evelyn Waugh in Brideshead Revisited

O último álbum de Eminem, intitulado The Death of Slim Shady (Coup de Grâce), marca um retorno surpreendente do alter-ego icónico do rapper Slim Shady. Desde a sua estreia com The Slim Shady LP, em 1999, Slim Shady tem sido uma parte essencial da identidade de Eminem, representando o lado mais controverso e provocativo de sua persona artística. Este novo álbum não só reafirma a presença de Shady, mas também reflecte a evolução contínua de Eminem como artista e o estado actual do movimento hip-hop.

The Death of Slim Shady chega após uma série de álbuns que exploraram diferentes facetas da vida e da carreira de Eminem, desde reflexões pessoais até críticas sociais e políticas. O resgate de Slim Shady neste trabalho representa uma volta às raízes, onde em Renaissance– a primeira faixa do álbum, o cantor se introduz adoptando uma abordagem mais contemporânea e, como de costume, irreverente e ousada. O conceito do álbum é uma exploração da dualidade entre Eminem e Slim Shady, mostrando como essas duas identidades coexistem e se influenciam mutuamente.

Em termos de letras, o álbum é um passeio selvagem pelo universo caótico de Slim Shady. O rapper mergulha de cabeça em temas que vão desde críticas mordazes à cultura pop, a de cancelamento do politicamente correcto até introspecções sobre a sua própria carreira e vida pessoal. As letras são pontuadas por uma combinação de humor negro e auto-depreciação, reflectindo a habilidade de Eminem em provocar e entreter simultaneamente. Faixas como Trouble e Houdini são particularmente notáveis por suas abordagens audaciosas e pela maneira como incorporam a persona de Slim Shady para explorar questões controversas.

A ressurreição de Slim Shady permite a Eminem uma liberdade criativa que não estava tão presente em seus trabalhos mais recentes. O álbum faz uma crítica ao próprio papel de Eminem na indústria musical e à percepção pública de sua carreira. Em Road Rage, o artista aborda a cultura das celebridades e a forma como a mídia o retrata, enquanto em Lucifer faz a reflexão dos altos e baixos de sua jornada pessoal e profissional.

Musicalmente, The Death of Slim Shady apresenta uma produção robusta que mistura o som cru dos primeiros álbuns de Eminem com elementos modernos. A produção de Dr. Dre- um colaborador frequente de Eminem- é uma das forças motrizes do álbum. A combinação de batidas pesadas, samples provocantes e uma ampla gama de estilos musicais cria um pano de fundo dinâmico para as letras afiadas de Slim Shady.

O álbum não se prende a um único estilo, mas mistura diferentes influências para criar uma experiência auditiva multifacetada. Faixas como Evil trazem um som mais sombrio e agressivo, enquanto Temporary e Somebody Save Me oferecem um toque mais leve e experimental. Essa diversidade na produção mantém o álbum fresco e cativante ao longo de suas 19 faixas.

A volta de Slim Shady é significativa não apenas para os fãs de longa data de Eminem, mas também para a indústria musical. O álbum demonstra que Eminem ainda é um dos artistas mais versáteis e provocativos do rap, capaz de se reinventar enquanto permanece fiel às suas raízes. Essa volta destaca, ainda, a capacidade de o artista em questão se conectar com os novos ouvintes de uma maneira que poucos outros artistas conseguem, usando a persona de Shady para explorar questões relevantes e polémicas actuais.

A crítica ao Mainstream e à cultura pop faz um paralelo interessante com a era em que Slim Shady ganhou destaque; quando sua crítica social e seus comentários muitas vezes desafiavam o status quo. Este álbum reforça a relevância de Eminem como comentarista cultural e artista que não tem medo de se aventurar em temas controversos e provocativos.

The Death of Slim Shady é uma celebração bem-vinda do alter-ego que ajudou a definir a carreira de Eminem e a moldar o cenário do rap. O álbum é um testemunho da habilidade do rapper em equilibrar o passado e o presente, combinando a irreverência característica de Slim Shady com uma perspectiva madura e introspectiva. Embora algumas críticas possam apontar para uma repetição de fórmulas antigas ou uma dependência excessiva do personagem de Shady, o álbum no geral oferece uma experiência rica, envolvente e nostálgica aos que o escutaram na virada para os anos 2000. Houdini nos faz lembrar de Without Me, faixa do seu terceiro álbum The Eminem Show (2002), Brand New Dance lembra Same Song and Dance, do álbum Relapse (2009), devolvendo aos ouvintes já familiarizados alguns dos ritmos que evocam o estilo de Slim Shady.

Este álbum reafirma Eminem como um artista que continua a desafiar expectativas. É uma obra que homenageia o legado de Slim Shady, enquanto aborda novos temas, dimensões da criatividade e da expressão artística. Para os fãs e para a indústria, o álbum é um lembrete de que Eminem, com toda a sua complexidade e controvérsia, ainda tem muito a oferecer. Shady’s Back!

Denilson Monjane

SOBRE O AUTOR

Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.

Resenhas

“Xo teka mitxumo swaku”, o apelo de Assa à mudança de narrativa

Fonte: Facebook

Assa Matusse! Duas palavras, dois nomes, uma única mulher com uma voz capaz de fazer-nos levitar adormecidos, avivar-nos pelos poros no transpirar do coração. A genialidade que imprime em cada composição sua coloca-a numa posição acima de muitos fazedores de música em Moçambique, diria também, em África, e quiçá no mundo. Com a sua voz que se assemelha a um presente dos espíritos do Msaho, embala todos que a ouvem com temáticas do nosso dia-a-dia e os seus ritmos dançantes. Assa Matusse conseguiu reunir, como uma perfeita tecedora de conceitos, gritantes piolhos que nos incomodam as cabeças, nós os lúcidos, fazendo com que cocemos cada vez mais forte até sangrar. Trouxe questões como ‘machismo’, o ‘feminicidio’, as ‘desigualdades sociais entre homens e mulheres’, tudo isso em um dos mais recentes trabalhos musicais intitulado “Xo teka mitxumo swaku swa nsila”, tema que faz parte do álbum “Mutchangana”, lançado no ano 2023.

A “menina do bairro”, como é carinhosamente tratada a Assa Matusse, nasceu em 1994, no bairro de Mavalane, em Maputo. A sua infância, parece-nos, é bem retratada pela autora na música “menina do bairro”. Nessa música ela fala exactamente da sua infância sofrida nos becos. Filha de Matusse, sabe-se que é de pequeno que torce o pepino, teve o gosto pela música e dança através do seu pai muito cedo (como se houvesse ‘muito cedo’ para arte).

Poderíamos, a partir daqui, tentar entender e traçar a genialidade da própria Assa Matusse com as palavras de Fiódor Dostoiévski, que diz: “O sofrimento acompanha sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza”. A infância da Assa Matusse é o ingrediente principal da artista que hoje temos. Por conta disso, a Assa Matusse tem muito por contar, dizer e chorar em suas músicas, como o tem feito falando de uma forma profunda, principalmente, da condição da mulher numa sociedade enraizada em ditames machistas.

Na sua obra, Assa Matusse vai pacientemente, com uma agulha tênue, desfazendo as linhas invisíveis que se interligam e criam aquilo que se chama cultura e tradição, na mesma medida em que desconstrói essa forma de ser e estar, também vai ajudando com o canto a tecer uma cultura  melhor, inclusiva e acolhedora. O álbum é basicamente isso, um questionar e romper com a forma com que lidamos com certos assuntos, a exemplo da “Aprendeste aonde?”, em que retrata o amor entre pai e filha tido como tabu.

Na música em questão, ela nos faz ver e ouvir a humilhação em que as mulheres são submetidas, de forma coerciva e continuada, usando discursos e narrativas depreciativas quando “criticam, condenam, reclamam e complicam” as mulheres. E quando a compositora enfatiza “Djula Munwani, Lweyi a lulameké” (procura outra que é a correcta ou perfeita) traz-nos essa apreciação defeituosa do ser mulher, fazendo com que essa condição criada socialmente seja e se pareça até algo anterior ao berço, isto é, natural. No mesmo verso, ela denuncia, em bom português para todos bem ouvirem, “a sociedade doente (…) que inferioriza a mulher” em que todos vivemos e vemos, mas nos calamos ou replicamos os métodos que subjugam o feminino numa tendência sempre subjacente.

Essa tendência subjacente, em que a sociedade toma como um lugar natural da mulher, faz com que haja, consequentemente, “só opressão, limitação”, e mais degradante ainda, faz com que as mulheres “implorem [por] aceitação”. A mulher é violentada ou, pelo menos, reprimida de muitas coisas na sociedade que a faz “morrer lentamente” e, noutros casos, até em silêncio, engolindo muitos sapos até não aguentar mais, chorando entre cantos escuros do seu coração sem que ninguém a veja pois até as próprias mulheres chancelam essa degradação dizendo  “ukati  dza kazata” (casamento é difícil). Esses dizeres foram também bem retratados na música da Lizha James intitulada “Mama”, onde o Eu lírico é uma mulher que roga aos seus pais para que devolvam o lobolo (dote) pois ela já está cansada de tanto sofrer. Tendo em conta o casamento, quando o “casamento não vai bem, a culpada sempre sou eu (a mulher) só por ter nascido mulher”. Isso evidencia a precariedade em que se encontram muitas das mulheres nos casamentos em Moçambique, um lugar de constante guerra, batalha, e sacrifícios, até da própria alma.

Quando se pensa nessa realidade sufocante, imagina-se que seja o ápice, contudo a Assa Matusse respira fundo, permite-nos respirar e limpar o pouco de líquido cristalino e salgado que morre nas maças da cara. Toca na ferida quando diz que têm “salários diferentes, porém fazem trabalhos iguais (aos homens)”, trazendo, mais uma vez, a questão de desigualdade entre géneros, que se circunscreve essencialmente no tratamento discriminado das mulheres. Quer dizer, esse assunto de discriminação, além de ser pessoal, familiar, cultural passou a ser, também, por um dado momento histórico, sistemático.

Não se ficando por aí, reclama com a sua voz a problemática dos homicídios que acontecem vitimando as mulheres, que até tendem a diminuir (salvo o equívoco, talvez não acompanhe bem as notícias). Essas são vítimas simplesmente por causa da sua “beleza, nobreza e delicadeza” que são próprias das mulheres. A artista, por evidenciar a questão “beleza” fica a dúvida se acha que a beleza é imanente do ‘ser mulher’ ou retrata a forma como as mulheres são vistas na sociedade. Aqui fica uma nota importante, não se sabe ao certo do posicionamento do Eu lírico, se sublinha a “beleza” como algo importante nas mulheres ou se sublinha a forma como a sociedade é obcecada na beleza da mulher, relegando outros atributos ao segundo plano. Entretanto, é mister que se comece a criar narrativas em que as mulheres sejam vistas além físico, analisadas, descritas, e faladas por sua “inteligência” e “astúcia” que também são características a ter em conta, o que é de extrema importância na luta contra a sexualização do corpo da mulher.

Essa visão superficial da mulher, que a reduz a simples objecto sem dispositivo cognitivo instalado, propícia actos macabros, conforme diz o eu lírico da música “nos matam por prazer de satisfazer o desejo carnal”. A supermassificação da ideia de que a mulher é bonita, até pode ser uma forma de trazer auto-estima de uma mulher estilhaçada pela sociedade, entretanto sem colocar adjacentes e de forma continuada as ideias de que também “pensa”, “resolve conflitos” e “têm ideias inovadoras”, faz com que a mulher não seja vista além do superficial. Sempre associa-se a ideia da mulher com a “beleza”, nada mais que isso. Então questionamos, o que é beleza para a sociedade? Ter ancas, rabos, peitos, e com uma face que se adequa a um padrão já pré-estabelecido, o que nos faz crer que a beleza é também uma coisa dialética-discursiva. Se isso é o que é a beleza, então o homem só vai querer isso na mulher, então só irá mesmo querer a mulher para satisfazer os seus desejos carnais. É urgente a mudança de narrativa.

Bem no fundo, sentimos ares de alguém que desamarrou-se das correntes culturais, e grita “ignore us if it’s necessary, but stop taking our lives”: esse é o sentido de empoderamento que tenta trazer, duma mulher que se quer criar usando suas próprias narrativas.

Assa Matusse canta em inglês, francês, português e changana. Eu vou tendo alguma ideia de que a Assa Matusse quer levar o que é de Moçambique para o mundo, diferente dos que trazem do mundo para Moçambique. Isso lembra o verso de Azagaia na música alternativos (c/participação de Valete) que diz “nacionalizas o global, eu globalizo o nacional”. Também, demonstra algum laço com a sua cultura por meio da língua predominante nas suas composições apesar de residir actualmente em França. Esse Changana a conecta com as suas origens e propicia a valorização da sua cultura (só nesse aspecto). Usa o português, inglês e francês como forma de querer ser entendida por todo o mundo, agora que canta para o mundo. Também, é um sinal de respeito para com a cultura alheia, de pessoas que, espero, a acolheram bem.

Nessa música não foi diferente, usou Changana, inglês e português. Faz isso com tanta naturalidade que ilustra a sua genialidade poética. Junta cá palavras rongas, algarvias e anglófonas, recombinando num poema. Essa “Fraternidade das palavras”, dita pelo velho mulato, faz com que “as palavras, mesmo estranhas, se têm música verdadeira, só precisam de quem as toque ao mesmo ritmo para serem todas irmãs”. E, fazendo com as línguas conversem num ritmo de harmonia, sentimos que é possível o conviver com pessoas de línguas diferentes de forma harmoniosa e poética.

A guitarra não falha nas suas composições. Apesar de ser um instrumento indispensável no mundo da música, também pode fazer sentir a sua infância junto do seu pai no momento de êxtase, onde o racional e o irracional cruzam as mãos criando conexões neuronais fazendo com que se sonhe com alguma pousada dos deuses ou espíritos. A sua voz é bem colocada nas batidas. Além da língua Changana, o ritmo das suas músicas faz com que todos que a ouvem visitem em instantes o lugar chamado África, Moçambique, quiçá mavalane também.

“Xo teka mitxumo swaku swa nsila” é uma crítica cerrada, conduzida por uma voz de empoderamento, de quem conhece e viveu na pele as contrariedades em que a mulher vive na sociedade profundamente machista e patriarcal.

Domingos Inácio Mucambe

SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.

Resenhas

O Jardineiro que Usava um Chapéu de Feltro

Por Celso Celestino Cossa

Contada meia hora depois de a conversa com o alienígena ter-se iniciado, veio-lhe à mente o dia em que discriminara, entre as estrelas da Ursa Maior, um rasto luminoso que percorreu num piscar de olhos o firmamento até se extinguir para lá do hemisfério celestial sul. Talvez fosse um desses cometas periódicos, da mesma forma que um esteroide não podia ser descartado, ou quem sabe um telescópio confirmaria tratar-se de uma estrela cadente. Pensara-o em virtude de assim o entender: naves espaciais são engenhocas do imaginário da ficção científica. E ainda que não o fossem, continuou, por motivos que se atinham ao modesto avanço tecnológico, seu cepticismo colocava África nos últimos lugares em que extraterrestres iniciariam a colonização da Terra.

No lugar do jardineiro recentemente contratado, com o qual cumpria o costume de todas as noites, que consistia em discorrer sobre o que de mais notável espreitava a maldição da riqueza antes de recolherem, o dono da propriedade em que se encontrava o jardim para a imponente construção de três andares atrás deles e o jardineiro para a cubata do outro lado da rua, no lugar de um homem alto, robusto, cabelos alvos, acompanhava-o, sentado num dos bancos do jardim, um alienígena de mais de dois metros, braços longos, um par de dedos compridos nas mãos, na cabeça oblíqua três olhos enormes, dois orifícios e um corte vertical no lugar do nariz e da boca, e no dilatado peito um coração que emitia uma luz que acendia e apagava a cada contracção, permitindo que se lhe vissem o perfil do esqueleto, das veias, das artérias e dos capilares, bem como de todos os órgãos internos.

— Filhos?

— Por enquanto só temos o Guerreiro.

— Deve ser aquele.

— É ele mesmo. A minha esposa foi quem o adoptou. Não parece uma obra de arte?

— Parece. Como faz para se locomover?

— Arranjamos-lhe um mecanismo de duas rodas, que encaixamos no seu dorso, permitindo-lhe quase todas as traquinices movimentando as patas dianteiras. A minha esposa acha que, de quando em vez, é bom que o deixemos à mercê das suas limitações.

— Instinto de mãe.

— Pois é. Suponho que não foi para vir falar da minha família que me procurou.

— Se entendermos  família no seu sentido mais amplo, muito além do conceito que se restrinja a si, a sua esposa e ao vosso cão, posso dizer que sim, a razão da minha visita é precisamente a sua família.

De que família estava o alienígena a falar? Seria a de africanos? Se fosse o caso, pensara-o o proprietário do edifício de três andares, não se teria o ocidente  aliado à espécie a que pertencia o alienígena para tornar ainda mais estreito o fosso entre o colonialismo e o neocolonialismo? Não seria? Repensou no que pensara e pensá-lo  fê-lo repensar. Mais do que o medo que lhe estremecia o corpo ao encontrar os olhos do alienígena compenetrados nos seus, crescia-lhe o medo de que o que pensava não se tratasse de uma teoria de conspiração e ter o alienígena no lugar do jardineiro naquela noite sem retalhos de nuvens no céu dissesse respeito à implementação de um plano maior que o universo.

— Posso servir-lhe alguma coisa?

— Se a minha presença correspondesse à necessidade de me alimentar, pode ter a certeza de que esta conversa não teria chegado ao momento em que a presa se convida para o predador. Contudo, agradeço-lhe a boa vontade. Prometo que farei chegar aos meus semelhantes e às outras espécies da minha galáxia que os africanos são um povo muito hospitaleiro.

— A minha família também agradece, prometendo o mesmo tratamento aos demais.

— Uma pergunta.

— O que quiser.

— Espera por alguém?

— Porquê?

— Mal consegue tirar os olhos do relógio.

— Pois é. É o José. Ele já devia estar aqui. Estranho. O nosso jardineiro nunca se atrasa.

— Em alguns encontros, quem se atrasa somos nós que não devíamos ter esperado.

Os olhos saltaram-lhe das órbitas. De chapéu de feltro à cabeça, calças de pano cinzentas e um casaco cinzento a combinarem com uma camisa branca que tinha a gola cingida por uma gravata também cinzenta, num piscar de olhos, o jardineiro José estava no lugar do alienígena, sentado exactamente no mesmo lugar, na mesma posição, o delineamento do rosto e os traços fisionómicos a condizerem-lhe o perfil. Como areia escapa por entre os espaços da rede de um crivo, o alienígena havia evaporado para dentro do seu próprio corpo. Ninguém acreditaria se lhe fosse dito que ali estava um Ser de origem exterior ao nosso planeta.

— Entre várias outras características, a minha espécie é metamorfa.

— E o José?

— O José não existe. Fabricámo-lo. Depois de interceptarmos o teu anúncio na internet, através de pesquisas no sentido de se apurar os perfis corpóreos e psicológicos do jardineiro que interessaria à sua esposa, usamos da nossa tecnologia para inventá-lo. Como já prevíamos, ele foi pela sua esposa admitido sem qualquer espécie de sobressalto.

— O que querem com a minha família?

— Como várias outras distribuídas pelo continente, ela não passa de uma amostra.

— Para que fim?

— A minha espécie acredita que a colonização do planeta Terra, pelas suas raízes históricas, pelo seu valor cultural e, sobretudo, pelas suas riquezas naturais, deve começar em África. Daí a necessidade de o pesquisarmos antes da invasão efectiva.

— E o Guerreiro?

— A resposta está no dia em que ele perdeu as patas traseiras.

— Lembro-me que chovia muito. Estava com a Sofia. Eu mal conseguia ver o asfalto. O velocímetro do carro estava dentro do permitido. Qualquer necessidade de uma manobra de emergência, eu daria conta. Quando, de repente, um cão, ou seja, o Guerreiro atravessou a rua. Tentei esquivá-lo. Já era tarde. O carro passou-lhe por cima. Perdi o controlo. Capotámos. Um ano depois, acordei de um coma profundo. Foi um acidente. Não me diga que vocês é que provocaram?

— Fomos nós. O Guerreiro também é um dos nossos.

— E a Sofia?

— Nunca estranhou o facto de ela ter saído do acidente sem um arranhão sequer?

— Por que o deveria?

— Porque você foi o único sobrevivente.

A bomba fora lançada. Geralmente, os responsáveis por feitos semelhantes não esperam para ver os estragos. Com o alienígena transformado no jardineiro José foi diferente: ele é que se encontrava no epicentro da explosão, ele é que viu, entre a nuvem de fumaça, chamas e destroços em forma de cogumelo, o seu corpo evaporar-se-lhe como se nunca tivesse existido, ele é que sucumbiria aos efeitos da sua decisão anos mais tarde, embora saber que a sua esposa estava morta fosse para o único sobrevivente do acidente menos doloroso que ter engravidado um alienígena.

— Não a devia ter engravidado!

Então aquela coisa é sua…?

— Infelizmente.

— O que é isso na sua mão?

— É uma arma.

Uma discussão inflamada acerca de quem dos dois deveria morrer instalou-se. Esgrimidos os argumentos que foram esgrimidos, o alienígena a defender que ele é que deveria morrer, em razão de o outro alienígena lhe ter trocado pelo terráqueo e disso ter resultado uma gravidez, o único sobrevivente do acidente, por sua vez, a defender que somente um tiro na cabeça abonaria o tão almejado reencontro com a sua amada, chegaram a um entendimento: enveredar pela roleta-russa seria a decisão mais justa para ambos. E, transcorridos os minutos que tiveram que transcorrer, um disparo foi efectuado.

Respondia pelo nome de Marcos, o homem que desmoronou como um castelo de areia. Era forte, alto e bonito. Por onde passasse, com muita facilidade tomavam-no por um jovem asteroide do Show Business nacional, embora lhe faltassem semanas para que desse a sua quinquagésima volta em torno do Sol. Acreditava-se ser uma peça fundamental da secreta ou da espionagem. Um vínculo com qualquer instituição pública que fosse nunca havia chegado ao conhecimento de quem quer que seja. Se não estivesse na varanda da sua casa a deleitar-se com o cromatismo das flores ou a conversar com o jardineiro José no jardim da sua casa, gostava de ficar num bar a alguns quarteirões da sua casa, sentado na penumbra de um canto discreto, a beber uísque e a escutar Elcides Carlos ao fundo, como se sorver aquele sabor granulado, amadeirado e de carvalho com notas de caramelo, baunilha, frutas e especiarias equivalesse a ter uma Gibson 175 à mercê das mãos virtuosas do talentoso guitarrista.Acreditava que o lugar onde estamos não deve ser mais bonito que o lugar para onde olhamos. Por isso o bar era sempre o mesmo, sem muitas variações no lugar em que se sentava, como se a sua esposa ali ainda trabalhasse, e ele continuasse a admirar-lhe os detalhes atrás do guiché, os gestos delicadíssimos, as angelicais feições do rosto, a voz aveludada, a sua eterna Sofia.

— O que foi que você fez?

— Nada. Ele era destro. Veja o ferimento na cabeça. Havíamos chegado ao consenso de que um único projéctil seria colocado numa das câmaras do revólver, girar-se-lhe-ia o tambor e, por fim, cada um, na vez que lhe coubesse, descobriria se a bala estava na câmara engatilhada ou não. Ao contrário disso, ele esperou a minha vez passar, afastou-se ligeiramente e, com o cano do revólver encostado na têmpora, puxou o gatilho repetidas vezes.

O jardim entristeceu, como nunca uma flor foi vista triste. As flores, pelo odor que exalavam e pelas cores que não mais alardeavam, desproviram-se do seu poder de atracção. Abelhas, borboletas e outros bichos não mais pousariam nelas para espalhar o pólen e garantir o esgarçar de outras flores. Marcos estava morto.

Deitado sobre o seu corpo, o alienígena transformado em Sofia fechou os olhos do Marcos como se abrisse um portal de onde uma profusão de dor e sofrimento devastar-lhe-iam a alma. Como os olhos que o alienígena transformado em Sofia usou da sua mão para fechá-los penosamente, Marcos, o morto, contemplava as estrelas, o que não se podia dizer o mesmo das estrelas ou mesmo dos seres que, sem que o saibamos, nos observam.

— Foi por amor.

— Como pode alguém declarar o seu amor a outrem tirando a própria vida?

— Morrer pode ser a melhor forma de se ser eterno no coração de quem nos rejeita.

— Mas eu nunca o rejeitei!

— Nem podias. Não eras a esposa dele. Ou queres que eu também me transforme no Marcos?

— Nem ouses! Transforma-te em quem tu quiseres. Menos no pai do meu filho.

— Estás grávida?

— Estou.

— O Marcos sabia disso?

— Achas que se ele soubesse iria tirar a própria vida?

— Quantos meses?

— Isso importa?

— Mas é claro que importa. A tua missão não incluía…

— O quê? Deitar-me com o Marcos? É o que queres dizer? Prefiro acreditar que não. Quando aceitaste esta missão, estavas ciente dos riscos a correr.

— Mas nunca me passou pela cabeça que tu engravidarias de um terráqueo.

— Devias ter pensado nisso antes.

Sofia, ou melhor, o alienígena que se transformara em Sofia, continuava sobre o corpo do proprietário do edifício de três andares. Marcos, o proprietário do edifício de três andares que encontrara a morte premindo por si mesmo o gatilho da arma que o matou, tinha um ferimento do tamanho da ponta de um cigarro do lado direito da cabeça, e do lado esquerdo, uma melancia cortada pela metade. Sangrava pelos olhos, pelas narinas e pelos ouvidos. Na mão direita ainda segurava o revólver, o dedo ainda no gatilho. O alienígena que se transformara em Sofia pôs-se de pé e caminhou em direcção ao banco. O outro alienígena, que já não estava transformado no jardineiro José, mas sim que estava no seu estado natural de alienígena, aproximou-se do banco e sentou-se ao lado do alienígena que se transformara em Sofia.

— Irás mesmo ter esse filho?

— Não tem como ser o contrário.

— Não temes o que te pode resultar?

— Não. O que resulta de um grande amor nunca é uma aberração.

— E se o criarmos juntos?

— Seria tão injusto quanto o Marcos foi contigo na roleta-russa.

— O que então queres que eu faça?

— Nada. Pois a verdade é que eu não sou, nunca fui e jamais serei um alienígena.

Sofia, que realmente era Sofia e não um alienígena que se transformara nela mesma, disse ao alienígena com que compartilhava o banco do jardim que sempre soube da presença de extraterrestres em sua casa. Após o acidente que os alienígenas provocaram ao carro em que ela e o marido vinham, enquanto o alienígena que se havia transformado no Guerreiro e o que se havia transformado no jardineiro José escondiam a nave antes de lhe activarem o mecanismo da invisibilidade, ao se aproximar do carro que havia capotado diversas vezes e dentro do qual ela se debatia para abrir o cinto de segurança, com recurso a uma chave de fenda tirada do porta-luvas, Sofia atacou e matou o alienígena que já fazia dela a gémea que nunca imaginara que seria. No lugar do marido, que tinha a metade do corpo atravessado no pára-brisa frontal do carro em que vinham, deixou o alienígena que se havia transformado na gémea que ela não o era, nunca o fora e jamais o viria a ser, a torrar com as chamas da explosão que inevitavelmente se seguiu.

— Dava para um roteiro de cinema.

— Pois é. O real por vezes espanta o imaginado.

— Onde é que imaginas que se tenha metido o Guerreiro?

— Provavelmente esteja a caminho do lugar onde esconderam a vossa nave, para fugir do nosso planeta e contar aos da vossa espécie que extraterrestres também podem falhar com os africanos.

No mesmo instante, três pontos verdes e equidistantes da mira a laser de uma arma formaram o triângulo por onde parte da abóbada craniana do alienígena foi arrancada, e Sofia viu o alienígena cair-lhe morto depois de este ter escolhido encontrar a morte transformado no jardineiro que usava um chapéu de feltro. Pouco depois, Sofia discriminou entre as estrelas do Cruzeiro do Sul um rasto luminoso que percorreu, num piscar de olhos, o firmamento, até se extinguir para lá do hemisfério celestial norte. Talvez fosse um desses cometas periódicos, da mesma forma que um esteroide não podia ser descartado, ou quem sabe um telescópio confirmaria tratar-se de uma estrela cadente.

Publicado na Antologia Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 2) – Junho de 2024

Resenhas

Autores da antologia Espíritos Quânticos Vol. II são notícias

O escritor e ensaísta Lucílio Manjate é um dos quatro seleccionados para participar no primeiro Programa de apoio a Residências Literárias do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), na cidade de Lisboa, em Portugal. Numa lista constituída por 35 candidaturas validadas, o autor foi seleccionado com o projecto intitulado “O alfaiate de Lisboa”. Lucílio Manjate já se encontra em viagem para a residência, mas sendo um dos autores da antologia Espíritos Quânticos Volume II, participará no lançamento de forma virtual, trazendo-nos um belo depoimento em vídeo, no dia 19 de Junho, na Galeria do Porto de Maputo!

Considerado um escritor fora deste planeta, Celso Cossa lançou no dia 12 de Junho, o livro “A Greve das Palavras”. O evento aconteceu durante o Flik – festival do livro infanto-juvenil. Este brilhante escritor é um dos autores de Espíritos Quânticos Volume II, com o conto “O Jardineiro que Usava um Chapéu de Feltro” e brindar-nos-á com a sua presença no dia do lançamento.

Wole Talabi é o primeiro africano a vencer o “Anlab Awards” da Analog Science Fiction & Fact, pelo seu conto “Blowout”, que conta a história de um engenheiro nigeriano que tenta salvar o seu irmão afastado durante um acidente numa exploração geológica em Marte. Wole Talabi é também um dos autores de Espíritos Quânticos Volume II, com o conto “The regression test” (O teste de regressão), traduzido por Hendro Muchiguere, e vai participar virtualmente no lançamento, trazendo-nos um lindo depoimento em vídeo!

Além de escritora, Maya Ângela Macuácua é narradora e produtora de áudio- histórias. Amante do desconhecido, a autora criou recentemente uma mini série designada “Creatio”, contada em áudio-capítulos, que podem ser acompanhados no seu instagram (maya_angelah). Maya é uma das autoras de Espíritos Quânticos Volume II, com o conto “O Mestre do Tempo” e brindar-nos-á com a sua presença no dia do lançamento.

A.L Sulemane (ou Ananeimus) é o pseudónimo de Adina Sulemane, uma autora que nasceu em Moçambique mas que imediatamente se mudou para os Estados Unidos de América, onde cresceu e se formou. Por esta razão, os seus livros e histórias estão maioritariamente escritos e publicados em inglês. A autora de “modern penny dreadfulls” escreve histórias sobre situações absurdas e personagens ridículas. A autora foi recentemente seleccionada para um MBA em Screenwriting na Universidade de Columbia e é ela quem abre Espíritos Quânticos Volume II, com o conto “Nothing to Fear” (Nada a Temer), traduzido pela moçambicana Maria João Hunguana. A autora vai estar connosco presencialmente no dia do lançamento.

O lançamento contará ainda com a presença dos maravilhosos escritores moçambicanos Nick do Rosário, Loide Nhaduco, Gerson Pagarache, e o depoimento em vídeo da escritora angolana Déborah Cardoso Ribas.

A apresentação do livro, no formato de conversa com os autores estará a cargo de Dionísio Bahule, e o evento será orientado por Negro, como mestre de cerimónia.

Abaixo pode conferir a lista completa dos autores da antologia:

  1. Adina Sulemane
  2. Celso Cossa
  3. Carlos dos Santos
  4. Déborah Cardoso Ribas
  5. Dilman Dila
  6. Gerson Pagarache
  7. Goretti Pina
  8. Loide Nhaduco
  9. Lucílio Manjate
  10. Maya Ângela Macuácua
  11. Nick do Rosário
  12. Nick Wood
  13. Tlotlo Tsamaase
  14. Virgília Ferrão
  15. Wole Talabi

Venha ao lançamento e traga amigos : )

Lançamentos!, Opiniões, Resenhas

Literatura | Encontro em Rosebank, de Lex Mucache – Opinião

Autor: Lex Mucache

Editora: Fundza

Idioma: Português

Sinopse

“Quando Audrey e Nomssa ultrapassaram a distância que mantinham nos primeiros encontros, rompendo a barreira turva da indecisão – as suas conversas passaram para lá da simples vida académica. Puseram de lado o jargão escolar. Já falavam das suas próprias vidas aberta e intimamente. A amizade consolidava-se a olhos vistos”

Duas grandes amigas.

Um homem apaixonado.

E uma decisão que muda dois destinos.

Opinião

Encontro em Rosebank é o mais recente trabalho do autor Lex Mucache, publicado pela editora Fundza, cujo lançamento está previsto para o dia 28 de Fevereiro de 2023, na cidade de Maputo. A narrativa tem como foco uma história de amor, mas não só. O empreendedorismo, a amizade e o crescimento pessoal são explorados nesta deliciosa história onde um homem em busca de um sonho, acaba se reinventado e descobrindo as suas verdadeiras ambições pessoais.

Por um lado, temos a história de amizade entre as sul africanas Audrey e Nomssa e por outro, temos a trama do protagonista moçambicano Hermes. Fascinado desde sempre pela famosa académica e bloguista Nomssa G’qola, Hermes decide um dia viajar para a África do Sul, com o objectivo de participar numa palestra ministrada por Nomssa, na esperança de poder conhecer pessoalmente esta mulher que tanto admira à distância. Algum tempo depois, em meio a várias peripécias, Hermes e Nomssa iniciam um romance virtual. No decurso deste processo, Hermes acaba também criando outros novos vínculos que pesam no seu desenvolvimento pessoal. O autor impressiona pela criatividade ao elaborar uma trama tão dinâmica quanto surpreendente no caminho encetado pelos protagonistas.

Sobre o espaço que ambienta a narrativa de “Encontro em Rosebank”, o autor que tem uma forma peculiar de pintar as paisagens com as palavras, nos apresenta um bom retrato da vida académica e de alguns debates que visam explorar a importância da história dos heróis africanos. O autor apresenta também uma imagem viva da cidade de Maputo e de algumas cidades sul africanas, abordando o quotidiano, a rotina das pessoas que viajam entre os dois países vizinhos, incluindo o drama de quem exerce o comércio informal, também conhecido como “mukheru”, caraterizado pela travessia das fronteiras para África do Sul, onde os comerciantes compram bens para revender nos mercados de Maputo. A propósito disto, o núcleo composto por Kiwanga e a família desta, desenvolve um papel relevante na narrativa, evidenciado a importância do empreendedorismo na vida dos moçambicanos. É de forma que podemos dizer que personagens como Kiwanga e Hermes, nesta ficção, trazem-nos uma certa representação do povo moçambicano.

A escrita de Lex Mucache revela-se leve e concisa, com diálogos bem construídos, embora em alguns momentos certas descrições pareçam demoradas. É uma leitura rápida e prazerosa, auxiliada pelo lindo e excelente trabalho de diagramação feito pela editora Fundza.

Em resumo, Encontro em Rosebank é um bom livro para sorrirmos e que vale a pena ser lido, pela mensagem que nos traz sobre o amor, a amizade e o desafio de nos tornarmos e nos fazermos humanos melhores.

❝e o que era a juventude sem esperança?❞

Sobre o autor

Lex Mucache é pseudónimo de Heráclito Alexandre Mucache. Nasceu na cidade de Maputo no ano de 1980. É professor e desenvolve actividades de leitura e escrita criativa nas escolas primárias. Autor do livro de contos «Asas Decepadas» (Kulera, 2020), obra finalista do Prémio 10 de Novembro de 2019. Tem obra dispersa em vários jornais e revistas.

A nossa classificação: 4.8 de 5 estrelas

Resenhas

Convocatória de bolsas – residências artísticas

Caros Leitores e Escritores,

Foi recentemente divulgada uma nova convocatória de bolsas do Programa África MED – MAEC-AECID 2023-2024. Ao abrigo deste programa, existe a possibilidade da realização de residências artísticas com a bolsa de estágios (AFRICA-MED Prácticas). Não será necessário ter um título universitário, mas o requisito é identificar uma instituição espanhola de acolhimento. A Embaixada da Espanha em Maputo pode ajudar com o processo de identificação de instituições no âmbito do seu trabalho artístico.

O período de candidaturas é de 24 Janeiro a 10 Fevereiro de 2023.


Toda as informações disponíveis e respectivos documentos se encontram no site da agência espanhola AECID: 

https://www.aecid.gob.es/es/Paginas/DetalleProcedimiento.aspx?idp=466

A Embaixada convida ainda A participar da Videoconferência Webex – Sessão Informativa sobre as Bolsas PROGRAMA ÁFRICA MED 2023-2024 no dia 26 de Janeiro às 10 horas.

Link: 

https://mauc.webex.com/mauc/j.php?MTID=me4e47089659965a45ab7f8936a46b58d

Em caso de dúvidas, por favor contacte para consultas e mais informações através dos e-mails: becasmae@aecid.es (AECID) ou emb.maputo@maec.es (Embaixada).

Imagem: Residencia Literaria 1863.

Fonte: Nosdiario

Opiniões, Resenhas

Literatura| Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa| Opinião

Autor: Ungulani Ba ka Khosa

Editora: Alcance

Idioma: Português

Sinopse

Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, mambo (rei) de uma região à norte do rio Zambeze acaba de morrer. Durante o “choriro”, todos pretendem saber se o desejo de Nhabezi se irá concretizar: transformar-se em espírito de mpodoro, como acontece com todos os chefes da região.

Opinião:

O romance histórico, por natureza, faz uma reflexão acerca de uma realidade histórica entremeada com elementos ficcionais. As personagens ficcionais se misturam a personagens históricos “ficcionalizados” na estrutura da narrativa. Muitas vezes, tambem, o romance histórico questiona e problematiza a própria história.

Choriro é um exemplo deste tipo de obra. Ao retratar o passado, numa versão imaginada pelo autor, o livro não só contribui para a reconstrução da memória cultural, como também interpreta para o leitor, a experiência humana dessa época. A palavra Choriro significa dor, ou também, o período de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia de enterro.

Segundo Marcelo Panguana, que escreveu uma crítica sobre Choriro, no livro “conversas de fim do mundo”, antes da publicação de Choriro, alguns pormenores do livro, no entender do autor, ainda não o convenciam. “Considerava o título da obra estático, sem a agressividade e a capacidade de sedução pretendidos. O substantivo choriro remetia a um cenário calmo e apático que poderia desmobilizar a curiosidade de eventuais leitores”. Um bom título tem sempre a capacidade não só de atrair o leitor, mas também a de ajudá-lo a descobrir o livro, o que este título, acabou por fazer com mestria.

Com um rico nível de detalhe e extremo rigor na pesquisa, o autor ambientou este romance no Vale do Zambeze, mais precisamente em Tete e na Zambézia, no século XIX. A história centra-se em Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, ou como o mambo (rei) da região. Nhabezi é um invasor português que acaba por adaptar-se e apropriar-se dos costumes e tradições locais, tornando-se curandeiro, tendo várias mulheres e muitos filhos. Nhabezi, ou Gregódio, introduziu também novas práticas na região.

O livro faz incursões sobre figuras históricas, como David Livingston, explorador inglês, Kaniemba ou Matequenha, nomes de guerra de dois senhores de prazo, da época, e até Ignácio de Jesus Xavier, mais conhecido por Kalizamimba, figura cuja história foi abordada recentemente por Isabel Ferrão, no seu romance Kalizamibma.

Sendo um livro com diversas histórias secundárias muito interessantes, algumas ficaram por aprofundar. Queríamos ter conhecido com mais  detalhes a história de Nfuca, de João Alfai, da Dona Josefina e também dos luanes de Quelimane, os prazos da época, com uma estrutura diferente da dos descritos em Tete.

O autor constrói vários personagens no livro, uns mais cinzentos que outros, mas todos certamente com características únicas. Pela quantidade de dados a assimilar, e por reflectir o contexto de um importante período histórico, que certamente traz elementos que moldam o actual contexto, é um livro que deve ser lido sem pressa e com bastante atenção.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.