Desabafo de uma qawwi

Reza Por Moçambique, Will

Fonte de Imagem: Freepik

Há uma corrente fria rasando no átrio do prédio. Pensei que pudesse sair para apanhar um pouco de ar. Mas depois do segundo disparo, estava eu a correr. Nem vi o elevador aberto. Quando te convidam a correr pela vida, nada fica ao teu alcance, nem mesmo o que devia ser óbvio.

Chego ao 9º andar e da varanda olho para a cidade, do alto que me permite um vislumbre panorâmico. De um lado a estátua de Samora Machel, que se mantém muda. Envolta a tanto gás que se levanta, estão paralisados os seus músculos de ferro. De outro lado, uma fila de multidão. A polícia dispara contra a multidão. Contra cidadãos, contra sonhantes ambulantes. Para mostrar a outros cidadãos, que tão depressa os seus sonhos serão pesadelos. Mas não são todos cidadãos? Não somos todos? E todos somos sonhantes. E não importam os lados, ou as divisões, ninguem está imune.

Entra, Linan pede-me Will, de pé na porta. Ele é um tipo tranquilo, mas vejo um rastro de preocupação traçando o seu rosto.

Will, e os protestos?

Não é seguro.

Não é seguro. Nada é seguro, concluo.

Aqui em cima, neste 9º andar, o gás não chega até nós; dispersa-se como os pássaros perdidos no vento. E, no entanto, as pessoas lá em baixo o encaram de frente, com as crianças que faltam à escola porque não há escolas para ir. As mães marcham porque não têm comida para alimentar os filhos. E, entretanto, quanto mais marcham, mais as prateleiras ficam vazias. As cidades suspensas no tempo, a economia ruindo no pendulo, o vento indecidido. E nos esquecemos que magoar o próximo, é magoar a si próprio. Pedras arremessadas tornam-se pedras em ricochete.

Will sempre se posicionou contra a violência, acreditando em palavras e não em punhos cerrados. Ele também não era do tipo que se aprofundava na política. Para ele, a política e a religião carregam o risco de dividir as pessoas, mostrando as fragilidades das nossas relações, como as rachas que aparecem na loiça. As nossas conversas às vezes complicavam-se, pois eu, como alienígena que sou, ainda luto para entender a lógica humana por detrás de algumas coisas. Este vácuo, por exemplo. A acappella das panelas nas varandas, que gritam porque há silêncio. Tudo isto ultrapassa qualquer orientação política ou crenças pessoais que eu possa ter.

Isto não faz sentido!

Senta-te Linan. E respira pede-me Will, com a voz calma de sempre. Às vezes é tudo o que podemos fazer. Respirar. Orar.

Porquê? Por que é que não estamos a ouvirmo-nos? Por que é que não estamos a dialogar?

Talvez porque reconhecer a dor significa assumir a responsabilidade por ela – responde-me Will com os olhos distantes. Não te revoltes, Linan, nem tomes lados. É preciso apurar a verdade. E agir de acordo com ela.

Eu não tomo nenhum lado, Will. Eu sou pela união. Sou por Moçambique. Afinal, somos todos humanos. Somos todos um só país, certo?

Ele não me responde. Faço uma pausa, antes de murmurar:

Como é suposto eu agir?

Oh Linan. Will segura-me a mão. Melhor é continuares a missão que te trouxe a este planeta. Ser paz, ser luz, ser justiça. É isto que devemos todos fazer. Amar uns aos outros.

O coro de panelas persiste nas janelas. Já não se assiste Moçambique em Concerto na TV. Alguém, por favor, resgate os CD’s de Miriam Mabeka. Imagine um mundo onde reina a união, onde ninguém fica com fome ou é esquecido. Onde não há mortes. Estou a imaginar como John Lennon fez. Mas, por enquanto, é apenas um sonho. Na realidade, o edifício desmorona sobre mim e, com ele, os próprios alicerces da minha alma.

Então, de repente, acordo. Estou encharcada de suor, com o coração disparado. Foi apenas um pesadelo. Sento-me na cama, desorientada, olhando em volta. A minha casa está intacta, a rua tranquila sob o romper do sol. Mas Will… a cama vazia responde-me. Will não está aqui. Há muito que ele deixou este mundo. O seu espírito escolheu dar a vida por amor. Um sacrifício que nunca esquecerei. Sinto a sua falta. Mas tal como o seu amor falou mais alto, também fala alto o meu amor por este país. Fala mais alto a minha fé, que se enraíza teimosa como fechadura encravada.

E nestes momentos de dúvida, só uma coisa me mantém com os pés no chão: saber que, mesmo na escuridão, a luz da esperança cintila. Saber que Deus prevalece sobre todo o Universo, e que a Sua Vontade se cumprirá. É preciso ter calma. Se Will estivesse aqui agora, ele simplesmente me diria: “Espera, Linan. Mesmo quando a noite parece interminável, o amanhecer sempre chega. Não te esqueças de orar.”

Volto-me para o céu, e com as mãos juntas sussurro: “Will, onde quer que estejas, ora por nós. Ora por Moçambique. Ora para que encontremos coragem para amar, para sonhar, para abraçarmo-nos. Levantarmo-nos e todos juntos curarmos este país.”

Linan, a Qawwi

Livros, Opiniões

Algumas notas ‘tectónicas’ sobre o livro de Lilly Maxwell

Por Elcídio Bila

Eu sou uma espécie de comandante deste navio que se chama ‘Sob Placas Tectónicas’ e vou empurrá-los ao alto-mar desta história que cruza dois jovens: Bruno Mondlane e Denise Cossa e de lá vamos viajar em torno das peripécias que se fragmentam por hilariantes 30 capítulos que perfazem 218 páginas e algumas reticências. Sim, um livro robusto, não só pela quantidade de folhas, obviamente.

Estamos perante um romance, isso não vejo porquê esconder, é a coisa mais fácil de perceber logo que estamos diante do livro. Não pelo título obviamente, mas pela extensão do livro e sua mancha gráfica e quem mergulhar nele, claro, absorve o quão intensas são as estórias.

A trama é única e bem definida pela autora: o amor entre Denise e Bruno. Bom, dizer o amor já é complexo e profundo, tendo as febres que perseguem este sentimento, mas posso ir mais longe, porque Lilly Maxwell fala deste amor na sua própria dose, com as suas peripécias, que não são poucas; com os seus dramas, com os seus conflitos e circunstâncias de cortar o fôlego.

Vamos a história, por pouco tempo, claro: o livro apresenta-nos um casal de jovens, na emergência de uma fase adulta, embora coloque a Denise com dois anos a mais que o Bruno, sendo ele com 28 anos. Conheceram-se num bar, na noite de uma sexta-feira e um beijo fugaz no estacionamento marcou o encontro, antes de se reverem no trabalho da Denise, acidentalmente, quando este, empreendedor, ia prestar serviços que acabara de ser adjudicado. E o encontro circunstancial do bar transformou-se num propósito para Bruno, que via Denise se esforçando para fugir das suas garras e, quando acreditou que usasse o seu principal trunfo, o facto de não poder conceber, pudesse abafar as intenções do rapaz, eis que foi traída, pois ele continuava mais interessado que nunca, mostrando-a um perfil incomum e, mais do que isso, um senso amável e respeitoso pelas insuficiências do outro.

Na verdade, este é o motor para a condução desta história, é o enredo que o narrador usa para conduzir a narrativa.

Para além disso, há pequenos galhos de estórias que fazem a história maior, onde se narram peripécias, por exemplo, entre a irmã de Denise, Neide, com Jonas, amigo e sócio de Bruno, um amor de infância que sobrevive a tempestades.

A bebé que Denise encontra largada na rua, e que perde a chance de adopta-lá, também faz outro fragmento da trama, divide opiniões e sentimentos, acelera uma AVC na mãe de Bruno, dá as maiores transformações ao enredo, colocando Bruno a viajar para Beira por sete meses, mas também amputa crises entre as duas famílias.

Como se vê, Lily sugere-nos um livro sobre o amor, mas também sobre a vida urbana e convida-nos a atravessar na nossa própria rotina, marcada por nuances diversas, onde a família joga um papel crucial para nos levantar, bem como para nos arruinar; onde a amizade pode ser fundamental para o nosso crescimento profissional, mas também para um universo de intrigas, onde os ciúmes e a inveja são sentimentos que sempre desfilam a classe. A Lilly não deixa, entretanto, de cutucar alguns fenómenos sociais como a corrupção, ao confrontar uma assistente social que propõe adopções ilegais. E nisto, a autora propõe, também, a discussão da esterilidade, um tabu na nossa sociedade até aos dias que correm e motivo de adultério senão de separações.

Na verdade, a Lilly não nos mostra uma face diferente do que os outros livros e filmes de amor nos sugerem, apenas nos coloca uma visão local, onde é possível discutir os nossos próprios assuntos, as nossas próprias pessoas e os nossos próprios tempos. É um livro deveras actual, que se concentra no agora, ao descrever a cidade de Maputo como ela é, um bónus turístico ao leitor, que reconhece a baixa da cidade, exactamente às imponências da Rua dos Desportistas, às garagens humildes do Alto-Maé e o bairro da Polana. Ou seja, é um livro da cidade, de pessoas da cidade, de problemas da cidade, mas não uma cidade qualquer, uma cidade africana, onde o facto de não poder ter filho não está na moda, onde a mulher que se relaciona com um homem mais novo é vista como cobra, onde um empreendedor ainda não tem trabalho decente se não poder uma grande obra.

Este livro não deixa de exaltar e promover a mulher, colocando a Denise e a Neide, embora com uma renhida rivalidade em quase toda a narrativa, em posições empoderadas, sendo elas donas de si e dos seus percursos, sem qualquer dependência masculina.

Diríamos, sem qualquer dúvida, que estamos perante um discurso feminista – pois, no final, ele se impõe às tempestades machistas. É um narrador que conhece a mulher, e a sua descrição minuciosa não nos engana. É um narrador que se coloca na terceira pessoa, omnisciente, por isso nos oferece uma visão ampla dos eventos e sentimentos, percepções e opiniões. Usa uma linguagem informal, mesmo a nos convidar para um palco do cotidiano, das nuances diárias, tal como sugere esta narrativa. É um narrador que vale pelo seu poder descritivo, de locais, situações, sentimentos e atitudes, mas, mesmo assim, abre espaço para que o leitor identifique momentos através dos diálogos, bem cruzados, assumo, e, por isso, intensos.

É uma escrita continuamente convidativa, penetrante e enigmática, com uma voz certeira sobre assuntos femininos. Não é uma escrita difícil de digerir, tem as palavras soltas e com os seus significados destapados, mas rica em adjectivações. É um romance que nos deixa descobrir, mas não nos oferece tudo. E quando finalmente nos revela os factos, surgem novos paradigmas.

Este jeito de Lilly Maxwell contar-nos a história é singular, pois ela finge nos saciar, para, depois, nos apunhalar com verdades jamais imaginárias. Quem diria que os escritórios onde Bruno iria propor um projecto trabalharia a Denise? Quem diria que quem iria tirar a Denise da esquadra seria o seu pai? E quase todo o livro é revestido desse “quem diria”. É uma história que gira sob placas tectónicas, como o título nos sugere, ou seja, grandes blocos rochosos semirrígidos que compõem a crosta terrestre. A Terra divide-se em quatorze principais placas tectónicas, as quais se movimentam sobre o manto de forma lenta e contínua, podendo aproximar-se ou se afastar umas das outras. Lilly abusa desta metáfora de forma formidável, ao colocar o rebuliço entre os protagonistas como sendo uma placa tectónica. Aliás, A movimentação das placas resulta na formação de montanhas, fossas oceânicas, actividades vulcânicas e terramotos. E não é mais do que isso que esta obra nos mostra. É deveras interessante, porque não, que uma funcionária bancária busque um conhecimento da geologia para arrumar a sua trama e bem conseguido, porque, afinal, as placas tectónicas implicam tensão e potencial para causar grandes mudanças, a mesma tensão em que Bruno e Denise sempre sofreram e as mudanças que dela advêm.

28.05.2024

Cantinho da Qawwi, Histórias

The Minute Before the Big Bang

By Virgia Ferrao

Part I

“Before everything, there was nothing.”

The butterfly was still perched on Nuru’s hand, flapping its wings at the same speed as the cloud from a laser. He tried to focus, ignoring the snorts of the dinosaur sleeping in the garden.

“And the nothing, would become all.” 

Nuru closed his eyes.  No.  That made no sense.  Still, the message continued to slowly ripple through him. Like a raindrop in the river. He observed the surroundings. Stefanotis’ valley was still dotted with sparkling lakes, generous waterfalls descending the sunny slopes, flocks in the sky forming a vast v.

“Are you ready to dive in?”

Faced with the urgency, he allowed the butterfly to disappear, and merged with the earth. Crossed cables, water tables, until reached the castle. He then sprouted from the ground, in his original form. Sweating all over, as the molecules of the earth were all twitchy, burning as lava. Nuru pushed open the heavy doors of the noble hall of the sea, with an invisible tug.

The music ceased to play and everyone bowed before the king.

“Please, proceed”.  He did not intend to interrupt the party. Although he feared that they were running out of time. For now, he was just going to get his brother Kosi.

“You have to come with me, Kosi”, Nuru had put an arm around his brother shoulder “Right now.  Haven’t I seen Oderek around here …? Oderek!”

Oderek, an administrator famous for his bad mood and for the pragmatic way in which he resolved matters related to the Council, heard the call, and walked quickly towards the king.

“Your Highness?”

“Gather some members of the Council and issue an alert of level 1.”

“Level 1?”, Kosi repeated doubtfully, but Nuru continued to pass his instructions.

“A phenomenon is about to happen, on the other side of the white curtain. All are expected to hibernate, immediately, for the rest of the day.  Oderek, please circulate this news, urgently.”

“Understood, your highness.”

Oderek towed himself with agility typical of his twenty-year-old physique, although the weight of his age was evident in the hard expression of his eyes.

Kosi followed his brother, the cloak of his origami dangling in the air.

“Hibernate? What kind of phenomenon are we talking about here? It seems as Stefanotis itself is going to resound!”

“Have no questions about that, my brother”, Nuru accelerated his steps, “Everything is about to resound! And we both have a sensitive task ahead. Let’s go to the lab!”

Outside, they stopped for a while and observed the sky as the weather changed. Warm, reddish clouds covered the triangular and lilac moon, lighting up the gold of Stefanotis’ arches and pyramids. Giraffes and elephants began to flee to the woods.  A fleet of six horses, carrying members of the Unit Council, passed in a uniform trot.  The statue erected in the middle of the capital, with the image of King Kosi and King Nuru, holding the autumn arrows, shone brightly. It was an astounding work of art, that symbolized an important milestone in Stefanotis’ history: the victory against NKunkumba Sea.

A strong qawwiwas mounted on the last horse, holding, and blowing a trombone. The sound spread everywhere.  At the same time, telepathic messages were broadcasted: “Alert of Level 1!  All qawwis must hibernate immediately. Predictions of rare phenomenon, over the white curtain.”

King Kosi crossed his arms:

“How do you want to go to the lab? through the caramel, or we just go?”

Several guards approached, waiting for instructions, but King Nuru dismissed them.

“We just go, Kosi! The two of us. There is no time to waste”.

Kosi’s wrinkled brow fell apart and his tone became warm.

“You never let me down, brother, so I will trust you on this. Let’s do it!”

The two disappeared across the land, as raw energy, transporting themselves through Stefanotis’ viscera. The laboratory resembled a helipad, and was built in the clouds, a few feet away, on the castle’s radar.

Two sparks crossed the air, giving way to Kosi and Nuru. In the middle of the atrium, a flickering bubble emerged, becoming the figure of a tall, dark qawwi, in uniform with an armor. He waited for the two to approach.

“Renowned master Godido”, greeted Kosi, happy “It is so good to see you, my brother!”

The other nodded slightly.

“The honor is all mine, Your Highness”, he then looked worried “I received the alert, Your Highness. A phenomenon over the white curtain? Is that right?”

“A phenomenon that will change our history, forever!”

Godido took a step back and made a blanket arise in the air. He stirred it towards the laboratory and some pink particles carried the encryptions to the entry. The gate, with a blue glass embedded in the wall, and two leaves of a few tons each, opened automatically in all its height, revealing its vast interior.

Nuru and Kosi moved forward, although Kosi was already uneasy and confused.

“I still haven’t realized what is this spectacular event that leads us in such a hurry!”

Nuru, however, had disappeared through one of the laboratory compartments.

The place was not just a park for the ship. It kept objects of extreme importance for the kingdom, and protected the only gateway to the NKunkumba Sea, a region inhabited by ikras, creatures sleeping in shadows.  And that should remain isolated.

The metal and glass ceiling covering the gigantic helipad, contained several rows of reflectors arranged in circles. Same focused on the silver pavement and on the closed black glove-shaped nave, parked in the center.

Kosi became more apprehensive when he saw his brother returning from department B, carrying some pods.

“Essences? What do you need them for, Nuru?”

“I think we will have a new project, Kosi”

“Oh…”, realizing that his brother was just smiling, Kosi added impatiently “Enough already, don’t leave me with my “ohs”! Expand the details on this subject, my brother!”

With a very slight mechanical noise, the ship’s door slid upward. The voice of the electronic security system gave permission to enter, and the two moved forward, crossing the vast corridor to the cockpit.

“Let’s go to the space”.

“Sounds good to me” replied Kosi, curiously “but… where is that?”

Nuru raised his finger, pointed it upwards.

“There.  Outside Stefanotis”

Kosi burst in laughs.

“Outside Stefanotis!  Are you losing it, brother?  Although separate, the NKunkumba Sea is within our dome! What “outside” that would be?”

“You’re wrong”, snapped Nuru, sitting in the pilot’s seat, staring excitedly at his brother, “I mean, you will soon be wrong. Can’t you feel how hot we are? The outside of the curtain is infinitely hot. Everything boils.”

“Outside of the curtain, hot?”, flabbergasted, Kosi almost missed his seat. Was Nuru referring to the same curtain he knew? The barrier that surrounded Stefanotis? That was impossible. The same had been created during the battle against the NKunkumba Sea. It was the only way found to separate Stefanotis from the other region, thus avoiding contact or invasion. It was a barrier made of wasps, particles of great elasticity when used in concentrate. The two brothers had managed to make the curtain impermeable.

But outside the curtain… well. It was a non-existence. An absolute nothingness. Not even a vacuum. How could Nuru now claim that its exterior was “infinitely hot”?

Nuru began to operate the ship’s commands, smiling. Kosi was about to have much more to question, very soon.

“It may not make any sense now, but… wait and see. It will be great.

“I think…”

Kosi went silent. He already felt it. For heaven’s sake, now he could feel it! They were about to expand.

Would it hurt?

Nuru looked at him. He did the countdown. Although time felt frozen.

Sixteen hours, two minutes, zero seconds.

Sixteen hours, two minutes, zero seconds.

Sixteen hours, two minutes, zero seconds.

Sixteen hours, two minutes, one second. Swoosh.

Part II

Sitting at the window of the ship’s small compartment, Kosi observed the great novelty. Space.  The ship was sliding along the invisible edge of the elastic barrier. The white curtain protecting Stefanotis had broken into infinite portions. And everything expanded. Very quietly. For there could be no sound in the void. After the explosion, what did not exist before, continued to expand for fractions of a second. In a sudden impulse, Nuru and Kosi stopped the inflation.

Kosi was as amazed as he was frightened by the rain of matter and radiation. What a great way to test their strength! He knew he was very powerful, but combining forces with Nuru, they were just unshakable.

Sometime later, they discovered a giant atomic cloud, which collapsed and gave rise to a new system outside Stefanotis domain. Nuru was obsessed with the idea that there, in that domain, would be a suitable structure for his new project. He had asked his brother for help in creating a temporary portal.

It was on the 7th day of observations that Nuru confirmed his suspicions. At the sound of the harp of the sun, their favorite tune, he turned to his brother and held out a small mirror to him. Kosi observed reluctantly.  Reluctance turned to curiosity, as the mirror reflected a cluster of luminous globes.

“Well, well, if I don’t have to bite my tongue”.

Nuru crossed his arms.

“I told you. Now hurry up with that portal, Kosi!”

“Agreed”, in an upright position, Kosi floated to his work area inside the ship, followed by Nuru.

Inside a shelf, a white sphere hovered and spun. Nuru slid it into his hands. The object reflected various colors, like a flashing light bulb. Leaning on the shelf, Nuru projected a replica of the new sun, next to the sphere. The brilliant numerical combination twirling around the sun, went down Nuru’s chest like a cool dew. He couldn’t help but laugh. Not just because he was fascinated by mathematics. But because that was what the message said. Maths would be the key to the future.

“Hey, what are calculating?”

“I am looking for the right frequency”.

“And what’s so funny about that?”

“It is very funny indeed, Kosi. Because we are going to be known as the singularity.

“Singularity”?

“Well, never mind. Now listen, we need everything ready in two days at the latest.”

“The idea is still to make a parallel launch?

“That’s correct, Kosi. And of course, to use some of our essences, for the qlubs”

Kosi snatched the sphere out of Nuru’s hands.

“Let me guess”, he closed his eyes, “all our species, I see… all our structures… good, settled. Wait. Is one of the essences the abundance?”

Nuru nodded. Kosi closed his eyes again.

“And happiness?”

Nuru nodded again, knowing in advance that Kosi would get all the essences right. And so, he did. The new qlubs would contain dreams, happiness, abundance, peace, trust, hope, and finally, love. The most exquisite essence of all.

“Why love, my brother? Why not hope?”

“Think, Kosi. What else would be more absorbing? Other than gravity?”

Kosi shrugged his shoulders. He popped up in his hand a tiny white capsule that looked like a pill. Soon after, two tubes appeared. One was transparent, as if empty, the other contained a brown substance.

“I have a few suggestions.”

Last Part

The harp of the sun continued to resound in space, now filled with galaxies.

“I hope you have a comfortable trip”, Nuru murmured, patting the chief crewman on the back. They were suspended, floating between the lab-ship and the travel pod. One almost parallel to the other. Nuru liked the vehicle very much. It was more resilient than he had expected.

The chief crewman floated close to the king, in amazement.

“It is an honor, Your Highness, to be one of the firsts, part of your new project”.

“I have to agree, it is a special event”

The captain and the other two, were in new uniforms, helmets, and carried a fair amount of oxygen. Even though the qawwis were somehow like Nuru and Kosi, they did not deal in the same matter with space conditions.

Nuru levitated to stand facing the ship.

“Kosi, my brother…!”, it was the second time he had called him.

Maybe space was getting monotonous and Kosi was bored. But would he miss the launch? None of it had any meaning without his brother.

He floated back to the capsule. Helped the crew members aboard. Once they were settled, Nuru positioned himself at the lead crewman’s window. He fastened a button on his suit and held out a golden scroll to him.

“The device on your suit is a second alternative for communication. And here is the list of everything you will need to know and check in the new home. I’ll seal the capsule for security reasons, but I figure the process won’t take long. As soon as the launch is over, it will open. Kosi and I have to get back to Stefanotis, we have been away for a long time, but we want to hear from you soon”.

The crewman nodded. Nuru continued:

 “The new curtain has a grille. It will remain open. You already know the coordinates, but if for some unlikely reason you find it closed, or you can’t locate it at all, rely on these instructions”.

“Very good, Your Highness, all noted”, the crewman tucked the parchment in his uniform pocket.

“I will seal the capsule. Good luck!”

“See you soon, Your Highness”.

Opening his hands towards the capsule, Nuru began to use his strength to seal the vehicle. A few seconds later, he lowered his arms, relieved. They were safe. Now, the final touch. The vital part of the project. He floated to the entrance of the ship, to fetch the sphere. Then walked back to the capsule to attach it to the rear of the vehicle. He was about to leave the ship, when had to stop.

What was wrong with the sphere?

Taking a few seconds to analyze the problem, he realized it was the project. All of it.

It was altered.

He stepped back, his pulse racing. Kosi had introduced new components, without his consent. The changes… looked appalling. The qlubs, once grouped in one field, as in Stefanotis, now seemed to be separated. Kosi had included the so-called eighth qlub, bare, and so many other elements which…

“Kosi!”, the scream made the ship shudder.

“You called, brother?” Kosi had reappeared quickly.

Nuru turned and saw Kosi, just as unsmiling as him.

“Have you lost your mind?”

Kosi continued to glare at him, his expression unchanged.

“Of course. In the moment I believed you had any regard for our bond and our collaboration. This isn’t your project, it’s ours. But you seem to have forgotten”.

Two days earlier, while they were discussing the sphere, Kosi had suggested the inclusion of a very strong pulsating element in the essences: the white capsule.

“With this, my brother”, Kosi explained at the time “figs will no longer be just for fun. This, in the new home, will make the qawwis need to feed”.

“What do you mean? Are you suggesting that when we go down there, we won’t be able to shut it? A kind of… hunger?”

“That’s right. Hunger. Wouldn’t that be stimulating? I also suggest we create an eighth, undefined qlub. Let the vessel fill itself.

Nuru cautiously had picked the brown tube. He felt the essence and its iotas. It was one of the strongest. He was familiar with it, although he had mixed feelings about it.

“What do you think of my suggestions, brother?”

“I’m afraid we might create an imbalance”, responded Nuru “Empties are dangerous, you never know what they will seek to fill themselves.

“But Nuru, don’t you trust the…”

“I prefer to keep it simple, Kosi, true to Stefanotis.”

Kosi could have argued, but at the time he had preferred to keep quiet. It was useless.

Nuru now comprehended that he had been so focused on designing the project, that he forgot to tell his brother the entirety of the message.

“Kosi, I will explain it to you, this is bigger than us, but first I have to reposition everything”.

Lights and liquids bubbled from the sphere, tubes whirled around it, faster and faster, like propellers of a fan, while Nuru fumbled and tried to set it down on the metal bracket. The sphere disappeared from his hands. And in the same second it fell into Kosi’s.

“Stop it”, Nuru’s veins were all bulging “this is not the time!”

Kosi held the sphere persistently.

“You want to work? Well, then work. But not on the sphere. On our relationship. Respect and trust my decisions! This is just an experiment, what’s the big deal? And you know what? It is by mere chance that you are the king of Stefanotis. Not because you are better than me! We were both made to rule. We both have the power and the duty to lead all this!”

Kosi had noticed that his brother’s ego was on fire. Maybe it was because he always got some of the most interesting things and experiments to be done around there. Always him. Now, that project too. Kosi was sure that if he had been in the same circumstances, in the same position, he would have been chosen by the fortuitous. But he had seemed out of touch with such phenomena. Chance.

“Kosi”, Nuru’s voice came out half muffled, “Kosi, my brother, without you, neither Stefanotis nor I are anything. You know that. Now, give me back the sphere, please, we’re out of time.”

“Prove it.”

“Kosi, don’t you dare!”, he tried to move forward to stop the other from attaching the sphere to the capsule, but could not. It was as if his feet, hands, and body were bound by handcuffs. He felt unable to use his strength. With a cynical grin, Kosi displayed his open palm, oriented toward his brother. Hurt, Nuru realized that his brother had just thrown a little grayish ball at him, which had unfolded into dark chains that leaped at him like catfish and disappeared within his body.

Nuru tried to hide his dismay.

“How long do you think you will hold me here?”

He was taking very small steps, like a baby learning to walk.

“Time enough to proceed with the launch, my brother”.

“Kosi, no. Please!”

After docking the sphere, he smiled jovially and showed his thumb to the crewmen inside the capsule. Then pressed the red button. An extensive beam of light erupted, and made a long traverse, covering the capsule, into the distant star system.

Nuru took another step. A flickering jump. Extremely fast, but wobbly. His arm had stretched out towards the capsule. It was at this instant that the crew members realized that something was not right. They tried unsuccessfully to get out. Kosi already had his finger on the second button. He pressed it, causing the capsule to shoot out.

Still not understanding what had happened, Nuru tried to stabilize. He found himself dizzy, on the edge of the lever. And stumbled at the threshold of the portal.

The portal was still open. Kosi saw his brother suspended, struggling against the force of the lightning, his arm raised. He knew he would not be able to climb. He was not able to use his powers.

“Kosi, brother, give me your hand!”, he tried in vain to float upward, his hands slipping from the invisible support.

“No.  You brought this to yourself” there was no complacency in his voice. Just a simple remark “Good-bye, brother”.

Before the portal even closed, Nuru fell and was sucked up like dust by a vacuum cleaner, until he was out of sight. The harp of the sun stopped playing.

The portal, a few minutes later, closed, restoring the dark void.

Kosi took a deep breath, straightened his origami, and closed the ship’s door.

After he flew away and entered through the white curtain, he parked.

Now that he had come that far, he had to go all the way. No one, except the two of them and the crew, knew that the new white curtain had an opening. He exited the ship and floated to the invisible grille. Raising his hands, he sealed the grating, leaving his brother in the unforeseen depths of space.

Originally published in “Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 1)”, 2022

Cantinho da Qawwi, Histórias

The Portal of Chinhamapere

By Lex Mucache

Black, defy thought and use

the thought to challenge the world…

Midó das Dores

Ancient stone portal with a staircase illuminated by a mysterious light.

At the end of the 21st century, a group of young people began a sequence of clandestine meetings on Mount Chinhamapere in Manica. They climbed the path at dawn, with the stars overhead as their only witnesses. They often followed in single file, singing ancestral songs, wielding torches that looked like reverberating comets. Every morning they would rise from the top of the mountain and descend the gorge quietly. The beaming faces seemed to reborn into a new existence. After that, they would sneak to their homes. And this was repeated almost every day.

One day, when they went to the mountain, they were surprised by a police contingent. The entire area surrounding Chinhamapere was fenced off. Had anyone died? Gondo, the leader of the group, approached and enquired the head of the contingent.

We are here by instructions of the administrator”, the agent in charge said. And you, what business do you have here?”

Gondo did not deign to answer. He turned his back and, along with his group, descended the gorge, leaving behind, at the top of the hill, a dozen suspicious agents.

The administrator was surprised by the unexpected visit when the sun rose in the district of Manica. It was his daughter, Narita, accompanied by a good-looking young man.

Welcome!”, he said, still unable to disguise his surprise.

They moved into the spacious office. The administrator was gesturing vibrantly, happy to see his daughter, so he wanted to know:

To what do I owe the honour of this pleasant visit, dear? And who is he?”

He’s Gondo.” Narita replied.

The father raised his eyebrow. That name rang on the walls of his consciousness like an unwanted palpitation. He sat down slowly. The cheerful semblance that had just nourished his countenance disappeared. The administrator was aware that Gondo was the leader of the gang that was plotting in Chinhamapere, threatening the tranquillity of the entire District. He was startled to see his daughter in such company. Without holding back, he asked her:

And you, daughter, what are you doing with him?”

Gondo is my mentor”, Narita replied bluntly.

A nervous smile invaded his pursed lips: with which then, his little girl was also part of that gang. This thought made him rise abruptly from his comfortable seat and make his way to Gondo.

A good opportunity to have you arrested.”

The administrator could not hide the gesture of disapproval, the disgust he felt for that uncomfortable presence, so he ordered:

Get out of here now, before I have you arrested.”

But you don’t even know what I’ve come for.”, Gondo said calmly.

The dialogue continued, without reaching a consensus. Gondo demanded the constitutional right to assembly, and the administrator countered by saying that the time at which such meetings took place was suspicious, and that if they really wanted to do so, they would have to do it in broad daylight, always observing the respect due to that sacred space.

It will be as you say”, Gondo agreed.

By the way, what do you guys do there? Do you pray?”, the administrator wanted to know.

That too.”, Gondo replied, without hesitation. But most of the time, we eat and chat.”

Chatting in the mountains, like lepers…”, the administrator joked. Since, Chinhamapere, comes from the term Mapere, which means leprosy in Cimanyka, for that mountain, in times gone by, served as a refuge for lepers.

Because it comes in threes, and nothing can stop an obstinate will, the next day the young people gathered on Mount Chinhamapere at noon. But they were followed by the same police contingent as the other time. That’s when the unusual event took place, which would bring the entire administration to a nervous breakdown. It so happened that, once they reached the top of the mountain, the group of young men disappeared without a trace.

Then, in the administrator’s office, the atmosphere was one of tension and distrust. The officers couldn’t believe what their own eyes had experienced. It was inexplicable. Incredulous, the administrator looked deep into the eyes of the head of the operation – asking for confirmation.

It’s true, Your Excellency”, the head of operations said. We couldn’t figure it out, the fact is that we were following the elements and we were right behind them, but as soon as they reached the top of Chi, there was a flash that blinded us, and soon after, they disappeared.”

You mean they were swallowed by the rock, is that what you’re saying?”, the administrator commented sarcastically.

We have no explanation for what happened, they just vanished”, the officer concluded.

“They were abducted?”, the administrator insisted.

I’d say they’ve broken the concept of space and time, that’s all I can say.”

A travel through time! That is the last straw.”

The administrator asked for the telephone, his hands trembled, because his daughter was also on that expedition, not least because attempts to persuade her to move away from that group had fallen on deaf ears. He called the capital.

Immediately, help arrived from Maputo: archaeologists, physicists, historians, philosophers, mathematicians and a number of journalists; accompanied by a Zimbabwean and South African entourage with strange machinery. Quickly, they placed a tent in Chinhamapere and the place went from a simple secluded plateau to a center of scientific research.

They made excavations, used various measuring instruments and capturing sound, light, movement, heat; They searched molecule by molecule, but found no trace of human presence or passage through those days. At the top of Chinhamapere, researchers stared in amazement at the cave paintings: made of vermilion and orange, there was the art of hunters and gatherers; displaying scenes of hunting and combat, and other signs of praise and admiration for nature and life. The researchers were outraged: had the primitives imprinted on the images a kind of spell or a secret or a hyper-advanced technology?

They listed all kinds of theories, from the most realistic: a door, a window, a canal, a secret tunnel, any hole that would allow circulation in that room; to the most fantastic: electromagnetic fields, illusionism, black magic… but, of all the hypotheses raised, the one that had the most adherents was that of the existence of an invisible time portal.

So, they assumed that there was little to do but wait for the return of the hikers, who were the only ones capable of clearing up the contraption behind the whole paradox.

*   *   *

Meanwhile, Gondo, Narita, and the other thirty-one members stood before a large crowd of people of different tribes, ethnicities, and races. They were in a valley that was crossed by a multi-coloured river. A sun released delicate rays that gently flooded the space. Suddenly, familiar faces began to appear.

Wonderful!”, Gondo exclaimed, enraptured.

The fascination of those present was remarkable, as those who appeared were none other than the most resonant faces of African blackness: Eduardo Mondlane, Samora Machel, Kwame Nkrumah, Tomas Sankara, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Agostinho Neto, among others. Meanwhile, one of the elders took the lead in a kind of pulpit and softly began to speak.

Children of the earth, I greet you, our mission is far from over. Today, more than ever, you are called to resume our struggle: to completely liberate the African continent. Freedom!”

The voice echoed on the vast plain and among the innumerable stars in the vault of that sky. Then the thousands of guests responded in chorus: freedom, freedom, freedom. Everyone shouted, sang and danced in tremendous joy.

After that feast, and receiving the proper guidance, the groups that were formed were taken by a kind of epiphany, from which a body of knowledge was incorporated into them. In the end, everyone went to their respective portals, it was time to return, they couldn’t even tell how many hours, or days, or weeks or months they had spent in that mysterious place.

*   *   *

In Manica, more precisely in Chinhamapere, rays of light set the room on fire with an intense glow, momentarily sparking those present. Thus, they were unable to see the re-emergence of the group of young people who, after literally being spat out by the mountain, walked serenely beyond the Chinhamapere plateau.

Originally published in “Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 1)”, 2022

Reviravoltas do Universo

QAWWI – FANZINE DE FICÇÃO ESPECULATIVA – EDIÇÃO 1

Olá Tripulantes,

No ano passado anunciamos a abertura de submissões ao Diário de Uma Qawwi, com o intuito de partilhar com os leitores novas histórias. Esta a é primeira edição da Qawwi, uma fanzine eletrónica onde partilharemos histórias do fantástico e da ficção especulativa.

Nsta edição, apresentamos contos inéditos dos autores Adelino Albano Luís, Ana Charles e Bruno Areno. Eles nos trazem a fábula por detrás do surgimento de arco-íris, a história do Universo e a história de um homem que trocou o seu coração humano por um coração de papel.

Votos de boas leituras.

Um abraço interplanetário,

Virgília Ferrão

Diário de Uma Qawwi

Arcolino Pires

Quando as primeiras gotas timbilaram o chão da nossa aldeia, houve grande alvoroço.

― Está a “chover chuva” ― gritava-se.

As mamanas da aldeia, vestidas apenas de capulanas, saíram das palhotas carregadas de bilhas e seus corpos eram lindamente decalcados pela molha. Em suas bocas saíam as mais antigas e bonitas canções da nossa terra, numa alegria que pertence apenas às mulheres.

As crianças, sem roupa, corriam de um lado para o outro

― Chuva… Chuva… Chuva… ― Gritavam.

Os homens saudavam-se com calorosos abraços. Era o fim de uma espera que se fazia longa. Era o fim daquelas rezas silenciosas com olhares de súplica aos céus. Era o fim dos suspiros de triste esperança, de que

― Há-de vir… Está a procurar o caminho.

Porém, ao cabo de uma semana inteira de chuva que se fazia cada vez mais intensa, com suas trovoadas e relâmpagos que acendiam até o íntimo de cada um, os semblantes assumiram outras fisionomias.

― A água esqueceu-se de parar.

Sofremos tanto com a seca e, agora, é para sofrermos com a chuva?

Começaram a surgir relatos de palhotas, tão bem maticadas, destruídas pelas águas; Currais arrasados: os bois, tão donos de tamanhos, eram arrastados pela fúria das águas; E o pior

― O rio está vindo!

O rio, com a gula das águas, ambicionava outros tamanhos. Invadindo o interior das machambas, casas e o interior das pessoas, como se vasculhasse alguma coisa que lhe pertencia.

Todos nós saímos das nossas casas e fomo-nos abrigar na única casa da aldeia feita com blocos queimados. Dentro dela, no tempero do desespero, começaram a rolar teorias, afinal, em África as desgraças nunca vêm com os seus próprios pés. Havia, certamente, alguma ofensa contra os espíritos.

― Enterraram algum bebé sem cerimónia.

― As traições estão demais ― e acrescentou, ― muito sexo sem nexo.

― Alguém casou sem lobolo.

E muitas outras teorias foram aventadas. Nada poderia ser provado ou, até lá, já teríamos sido varridos pelas águas.

― Eu tenho a solução.

Quem? O louco? Quando até aos loucos é concedida palavra, é porque a situação é mesmo de desespero.

Todos olharam para ele como se portasse uma mensagem divina. Os olhos eram de renovada esperança, como se o facto de ter sido louco a vida inteira fosse para nos salvar daquelas águas e daquele rio que se aproximava. Não é verdade que todos os Messias do mundo sempre foram vistos como loucos? Por que com o Arcolino Pires seria diferente?

― Temos de varrer as águas. ― Disse, justificando assim a vassoura de palha que tinha nas mãos, até então ignorada por todos.

― Acho que lááááá nos comandos se descomandou. Precisamos varrer as águas e deixar alguém de guarda para isto não voltar a acontecer.

Falava com tal convicção que parecia uma solução óbvia. Mas só para ele. Para nós era claro: estávamos diante da nossa morte e ninguém nos poderia salvar.

Os olhares, desde as crianças aos velhos, transmitiam o mesmo medo, preocupação e desilusão. Afinal, toda morte é sempre prematura.

― Eu vou, verão o meu sinal nos céus. ― Era, uma vez mais, o Arcolino Pires.

Alguém, sem sucesso, tentou agarrá-lo para que não saísse da palhota onde nos havíamos acumulado. Era a casa mais bem construída da aldeia e seria a última a desabar.

Lá fora as chuvas continuaram intensas, com seus raios e trovoadas. Mais uma vez soou a frase:

― Sofremos tanto com a seca e, agora, vamos morrer com as águas.

Os velhos entreolhavam-se, tristonhos. Nem mesmo a lembrança dos tempos de estômagos e celeiros fartos, os podia consolar. Nesses tempos em que se bebia para celebrar a vida e se somava mulheres e mais mulheres, pois, naquela zona, isto era sinónimo de riqueza. Depois veio o tempo de seca severa. E as cerimónias sucederam-se: primeiro na pequena igreja de caniço deixada pelos missionários e, depois, nas sombras das árvores sagradas. Insatisfeitos com a demora da resposta, levamos os batuques, rezas e canções cerimoniais para o mais próximo possível dos ouvidos dos nossos antepassados: o cemitério tradicional. E lá a aguardente era quase um suborno: despejávamos umas gotas em cima das campas e dizíamos:

― Mandem chuva que nós damos mais nipa.

Tudo isto eram formas de namorá-los para ver se aceitavam enviar algumas gotas de chuva.

― Já nem precisam ser gordas… bastam que sejam gotinhas, meros pingos.

Desses que só servem para mostrar que ainda não se esqueceram de nós. Os céus, porém, respondiam com mais calor e, com ele, a fome e a miséria.

A seca foi tão severa que as pessoas desenterravam as sementes nas machambas, já murchas, para pôr nas panelas. Outros morreram por colocar na panela raízes incomestíveis, dessas que só são visíveis aos olhos da fome. É como diz o ditado: O que mata não engorda… ou será o contrário? Bom, eu…

― A água está ireeeee!…― Gritou alguém, para o silêncio dos que já se tinham adiantado para os choros.

Admirados, saímos da casa e tudo a volta tinha virado uma planície, pasto das águas. Mas é como diz Isaú Meneses, cantor largamente admirado naquela aldeia:

― Enquanto haver vida, há esperança[1].

Mas o que nos chamou mais a atenção foi o que estava pendurado nos céus, como se alguém, com uma grande vassoura, tivesse varrido as nuvens em formato de um arco com diversas cores. Era o sinal. Não havia dúvida:

― Foi obra de Arcolino Pires… Ele salvou-nos …disse que mandaria um sinal…

Gratos, saímos pelas aldeias vizinhas espalhando o feito do Arcolino Pires, o nosso salvador. E a informação voou.

Da boca do povo, porém, e com o tempo, Arcolino Pires começou a ser chamado de Arco-íris. Para nós não importa, desde que, após as chuvas, olhem para o sinal nos céus e saibam que tem alguém de guarda, cuidando de nós, impedindo que as águas nos devorem.


[1] Isaú Meneses, esperança. Álbum esperança. 1999.

Por Adelino Albano Luís

Adelino Albano Luís nasceu em 1998 em Chimoio. Licenciado em Filosofia pela UEM. É autor da obra ″Cronicontos da Cabeça do Velho″ (2022), prémio literário Calane da Silva ⁄ Alcance Editores (4ª edição- 2021). Conquistou o primeiro lugar do concurso de Crónicas da 1ª edição da Feira de Livros da Beira (2021); Conquistou o primeiro lugar do concurso literário Dia mundial da Língua Portuguesa: estórias pandémicas e foi finalista do prémio fundação Fernando Leite Couto (2022), com a obra Estórias trazidas pela Ventania. Participou em algumas antologias, com destaque para ″Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa-Diário de uma Qawwi (2022) com o conto ″O Caçador de Elefantes″

O Mundo Distante em Nós

Quando a criação estava pronta, o SENHOR do Universo disse para a SUA companheira e seus descendentes imediatos: Façamos, agora, no planeta Terra, um Ser à nossa imagem e semelhança!

Como assim, o Homem não foi o primeiro a Ser criado por Deus? Já existiam outros planetas antes de Terra? Há quanto tempo?

Há mais de 40 milhões de anos o Arcanjo Miguel foi enviado à Lamúria para preparar o planeta Terra para um novo Ser que o habitaria, o Homem. Antes disso, Lamúria era somente habitada por seres hominídeos que nunca saíam das cavernas.

E onde andam esses hominídeos?

Ainda vivem nas cavernas. Mas, antes, deixe-me continuar a história.

O SENHOR do Universo vendo, através da SUA imaginação, que a VIDA para além dele seria fantástica, projectou, a partir da SUA mente, uma companheira para o seu lado oposto, de forma a complementá-lo. Tendo gostado dessa projecção, amou-a profundamente com o seu Espírito Puro e Invisível. Vendo que a VIDA dos dois era maravilhosa, o SENHOR enviou a SUA Centelha Divina para a SUA companheira, que concebeu o SEU UNIGÊNITO. ESTE possuía as mesmas caracteristicas dos seus progenitores.

Vendo ELES que o que criavam e projectavam através da sua mente era bom, decidiram projectar outros seres com espírito puro, que pudessem fazer companhia ao UNIGÊNITO, na nona dimensão.

Esses seres são aqueles que nós conhecemos como Anjos. Arcanjo Uriel, Gabriel, Miguel e Rafael são os mais conhecidos.

Mas existe, também, o Lúcifer, que dizem ser o Anjo mau!

Sim, é verdade, mas isso é assunto para outro dia. Hoje eu quero-me debruçar sobre o papel destes 4 anjos que mencionei,especificamente sobre o papel do Arcanjo Miguel.

Este anjo, além de ter um papel de liderança na protecção dos Portais Divinos, tem, também, o papel de liderança na criação e protecção dos novos mundos.

É por isso que a ele foi designada a tarefa de preparar o Planeta Terra para a recepção de um novo Ser: o Homem.

O Homem foi projectado nos céus e trazido para a Terra assim que o Arcanjo Miguel criou todas as condições para que o novo Ser nela habitasse.

Os pretinhos são os nossos ancestrais, eles foram os primeiros a viver em África. São os pais dos lemurianos. Os lemurianos eram homens belos, altos, atléticos e donos de uma inteligência sublime. Eles dominavam a tecnologia 5D e tinham a capacidade de se transmutar para diferentes formas físicas e de se deslocarem entre 2 dimensões diferentes ao mesmo tempo. Dominavam a matemática, a física quântica e a genética.

Depois de muitos milhões de anos transformando o planeta Terra naquilo que hoje é, eles começaram a ficar, por um lado, aborrecidos com a mesmice em que viviam e, por outro, arrogantes. Assim, começaram a desafiar as Leis Universais fazendo experimentos com outros seres humanos e não humanos através da manipulação genética.

Vendo que isso era desastroso para o projecto desenhado para o Homem, o SENHOR decidiu afundar a Lemúria depois de escolher uma família que, apesar de todos os poderes, nunca tinha agido contra as Leis Universais.

̶  Noé é a família?

̶  Ai como és esperto, sim! 

̶  Noé foi o escolhido, por isso, graças à sua boa índole, hoje existimos.

̶  Tenho a impressão de que nós e os lemurianos somos parentes.

̶  Por quê?  ̶  Quis saber, entre risos.

̶ Veja, como eles, somos inteligentes, ambiciosos, egocêntricos e gostamos de manipular geneticamente.

̶  Pois! É verdade e preocupante!

Depois da Lemúria veio a Atlantis. Depois da Atlantis veio a Amafrica, em que os índios, celtas, egípcios, maias, aborígenes viveram (e ainda vivem índios, egípcios e aborígenes).

̶  E os aborígenes são mesmo gente?

̶  Que pergunta! Claro que o são. Por que fazes essa pergunta?

̶ Porque num grande relatório que os ingleses fizeram para a rainha deles, eles afirmaram categoricamente que a Austrália era uma terra linda que parecia um paraíso. Com plantas lindas, animais exóticos e com uma paisagem como um conto de fadas, mas sem nenhum ser humano!

̶ Olha, é óbvio que esse relato não contou toda a verdade, pois os aborígenes são pessoas que ainda existem um pouco por toda a Austrália. Basta lá ires que os verás. É verdade que constituem cerca de 1.8% do total da população australiana, mas existem.

̶  E a Telos, será que existiu mesmo?

̶  Áh, a Telos…a telos não existiu, EXISTE.

̶  Existe? Como assim, como podes afirmar com tanta certeza? Se existe, onde ela está?

̶ Sim, a Telos existe, existe em todo lado, no mundo subterrâneo, debaixo de cada montanha com formato de animal, planta ou Homem.

̶  A sério? Então quer dizer que debaixo do Monte Mtuquê em Cuamba, da Cabeça do Velho em Chimoio, Ayers Rock na Austrália ou Montanhas Azuis em Montana está a Telos?

̶  Bingo!

̶  Uau! Então me explica, o que é a Telos?

̶  Lembra que te falei dos hominídeos?

̶  Sim.

̶  Pois, eles habitam a Telos, junto de seres angelicais, numa sociedade tão avançadaque a nossa mente humana, tal como a conhecemos, não consegue alcançar. Veja que nós ainda vivemos e concebemos o mundo na 3ª dimensão, mas a Telos já está na 5ª dimensão. Mesmo estando aqui no planeta Terra, os povos que lá habitam tem um sentido de cooperação e colaboração tão grande que nada falta a ninguém. Todos têm o que precisam, todos são felizes e vivem uma vida alegre, de riqueza e de prosperidade. Tudo baseado no AMOR incondicional e regidos por uma Lei e Ordem que agrada a todos.

̶  Deve ser o Paraíso.

̶  É sim, o Paraíso.

̶  Me conta mais avô, como fazemos para viver nesse paraíso?

̶  Ah menino isso é para ser contado na próxima roda à volta da fogueira… e só trazeres uma garrafa do melhor vinho tinto que há.

̶  Então esse é o acordo? Uma garrafa do melhor vinho tinto por uma história?

̶  É sim.

 ̶  Combinado!

̶  Combinado.

Por Ana Charles

Ana Francisco Charles, conhecida por Anita # Mai Nkulo nos meandros da família, adopta o cognome de Mai Patti, nome dado pela sua mãe desde pequena pela sua forma despreocupada de andar. Nasceu na Vila de Manica no ano de 1966. O seu gosto pelas letras vem desde a tenra idade de 4 anos quando no lugar de brincar com bonecas preferia ler livros como a colecção de aventuras de Anita e mais tarde romances de Corin Telado. Depois disso o seu gosto pela leitura só cresceu e estando no ensino secundário teve a oportunidade de escrever e publicar alguns poemas no Diário da Beira. Profissionalmente, é mais conhecida por Ana Charles, Médica Generalista com especialidade em Saúde Publica pela Universidade Eduardo Mondlane. Com Mestrado em Saúde Publica na área de Promoção para a Saúde pela Universidade de Queensland na Austrália. Adora viajar e fazer passeios longos na natureza. Fazer viagens internacionais principalmente para países onde o clima é seco e frio e interagir com povos e culturas diferentes é algo que a encanta muito. Aprecia paisagens montanhosas e a vida no campo. A ajuda ao próximo é algo que pratica com regularidade através de pequenos gestos como doações regulares a instituições de caridade como centro de apoio à velhice, igrejas ou centros de refugiados. Mãe de 5 filhos, Ana tem uma filha biológica e 4 enteados, avó de 3 meninas e 1 menino.

Coração de papelão

Nascera num país não apropriado. Não passava de um Zé ninguém. Sem estatuto social. Adalberto era uma grande aberração aos olhos de quem o via. Ninguém se dava ao trabalho de cumprimentá-lo. Seu problema: ser cauteloso demais. Talvez, demasiado amoroso, atencioso e paciente num mundo que era urgente. Na verdade, Adalberto era o único homem que nutria temor na cidade-sem-medo. Estudava o inimigo e conhecia as suas fraquezas.  E isso ia contra a lei daquela cidade. As pessoas da cidade-sem-medo não eram cautelosas.

Quando se recrutavam jovens para os campos de batalha, Adalberto era sempre ignorado.

— Precisamos de homens não inteligentes, mas sem medo, e tu, jovem, és a personificação do medo — Diziam em gargalhadas, todas a vez que o jovem homem se candidatava.

Numa dessas manhãs de recrutamento, Adalberto insistiu tanto que venceu. “Milagre”, pensou ele, deixando escapar um sorriso vitorioso. A sua velha mãe, que jamais sentira medo na vida, ficou felicíssima. Aqueles olhos que outrora se viram melancólicos, ganharam vida.

— Finalmente o meu filho perdera o medo, tornar-se-á comum, assim como nós — Dizia ela alegre enquanto os militares tiravam o jovem aos empurrões de dentro da sua casa. A mãe derramou nenhuma lágrima, afinal, não possuía medo algum, muito menos previa os possíveis riscos que o filho correria no campo de batalha. Estava Felicíssima, pois não mais seria a maior aberração entre as amigas. A velha saiu de casa gritando aos ventos: O meu filho finalmente perdeu o medo!

Depois de uma semana, um general bate à porta da velha, e ela fica pasma:

— O que significa isso?— pergunta endireitando os óculos, prestes a tombarem sobre o chão húmido.

— Sinto muito, Senhora— responde o general aborrecido. — Esse filho que a Senhora tem é um pau torto e torto morrerá. O temor sobre o seu Ser é tanto que passava horas a tentar estudar o inimigo— Fixou os olhos nos da velha e acresceu — Ele diz que é necessário estudar o inimigo para conhecer as suas fraquezas. Ele ainda disse que devemos ter medo, medo de perder a nossa nação, a nossa cultura, o nosso povo. Fique com ele.

O general empurra-o de volta para os braços da progenitora.

A velha ficou ali, perplexa, imóvel. Aqueles sentimentos ataram-lhe o corpo. Virou-se para o filho:

— Essa cabeça que não regula, não te vai ajudar. Ninguém te quer por perto. Mas também quem te iria querer? És muito cauteloso, fazes as coisas, pois fazes, mas só depois de muito ponderares. Tenha coragem, filho, faça-o de olhos fechados, Adalberto! — Dizia a velha— Aja por instinto, assim como os grandes animais ferozes.

Passado alguns dias, Adalberto sai a rua. Com os olhos presos no chão, escuta murmúrios e insultos ao vento. Afinal, jamais alguém tinha sido expulso do campo de batalha por medo. Muitos morriam. Nem metade deles voltava à casa. Exausto de semear os olhos sobre a terra, Adalberto ergueu o rosto. Mas, de imediato, encolheu-se, embaraçado. Não era medo dos falatórios do povo, mas sim do seu próprio coração. Encantara-se com a mulher diante de si. Estava apaixonado, ela acabara de roubar-lhe o coração.

Pensara em falar-lhe dos seus sentimentos naquele mesmo instante, mas preferiu aguardar e entender melhor o sentimento que o cativara.

Depois de semanas, vai ao encontro da mulher, exprime o seu interesse, mas ela desafia-o, dizendo que só o aceitará depois que perder o medo.

Cabisbaixo, Adalberto faz-se a rua, e quando decide erguer os olhos para contemplar a cidade que dele tem nojo, nota uma oficina. No interior, por detrás do balcão, está um idoso, de óculos com grandes lentes e mal de tossir.

— O que o senhor trouxe para que eu concerte?— questionou o velho, acendendo um cigarro.

— O meu coração.

— Ah!— exclamou o velho— Teria que o deixar comigo por alguns dias.

— Mas eu não posso viver sem um coração— respondeu Adalberto.

O velho direccionou-se para um armário alto e de lá tirou um coração de papel. Entregou-o a Adalberto, dizendo:

— Use-o enquanto conserto o seu.

— Funciona perfeitamente? É igual aos demais?

— É um coração de papel.

Da oficina, Adalberto saiu com um coração de papel novinho em folha. E já não era o mesmo. Dali em diante, passou a ser igual aos outros. Já não tinha interesse na mulher que vira na rua. Interessava-se por todas que via passar. Fora-se a cautela. Passara a ser violento. Metia-se em brigas nas ruas, roubava e ninguém o criticava. Afinal, era igual a todos.

Um dia passou em frente da oficina. Decidiu entrar.

— Deixei um coração aqui, há anos.

— Prontos, não se preocupe, lembro-me perfeitamente de si. — O homem retirou do armário um coração coberto por um pano branco.

— Consertou?

— Não. — Respondeu o velho ajeitando os óculos.

Adalberto sentou-se na poltrona da oficina e suspirou profundamente.

— O desconserto deve ser maior.

— Nunca vi em toda minha vida, um coração tão perfeito, tão completo feito este. Ele não requer um reparo — Explicou o velho estendendo-lhe o coração. Adalberto recusou-o.

— Para o senhor talvez seja perfeito, mas para mim e para a minha gente esse coração só traz decepções, desigualdades e prejuízos. Para o povo, o coração de papel, esse sim é perfeito.

Levanta-se da poltrona e diz:

— Gostou do coração? Fique com ele, eu ficarei com o de papel.

— Mas não existe, Senhor, coração tão perfeito quanto o seu!— Insistiu o idoso desesperado. Adalberto aproximou-se do velho, agarrou-lhe as mãos trémulas e disse:

— Já lhe disse: para este país, para esta gente, esse coração não está bom. Gostou? Fique com ele. O coração de papel, sim, é perfeito.

Por Bruno Marquês Areno

Bruno Marquês Areno, nascido em Nampula, é autor de “Fotografias Feitas à Letras” e co-autor de livros como “O Estrangeiro”; “Olhares Negros”; “Poesia Brasileira”; “Água”; “Poemas do Eu”; “Alma de Mar”, entre outros.

Resenhas

Textos da Antologia “Espíritos Quânticos” traduzidos para Eslovaco

Caros Leitores Terráqueos,

No dia 22 de Setembro de 2022, foi publicada a terceira edição da revista Verzia.

A revista Verzia publica na Eslováquia traduções de literatura contemporânea de todo o mundo e esta sua terceira edição é centrada na literatura fantástica/ficção especulativa escrita em português. A compilação das histórias esteve a cargo de Lucia Halová, Silvia Slaničková e Lenka Cinková.

Segundo Lucia Halová, que assina a nota editorial desta edição, encontrar ficção especulativa escrita em português foi uma aventura. As grandes livrarias online de Portugal e do Brasil oferecem principalmente livros deste género traduzidos e não obras produzidas localmente, razão pela qual foi extremamente difícil encontrá-los. Entretanto, na busca de obras portuguesas, Lenka Cinková foi ao terreno e pesquisou directamente nas livrarias em Lisboa, onde frequentemente perguntava se havia alguma obra local deste género. Descobriu assim, que não só estavam obras a ser publicadas, como várias conferências sobre ficção especulativa estavam a ser organizadas naquele país. A Verzia efectuou mais tarde, contacto com a editora portuguesa Divergência, especializada neste tipo de ficção.

A pesquisa da Verzia levou ainda a descoberta do movimento Afrofuturismo, um movimento abordado nesta edição por Waldson Sousa, escritor brasileiro e um dos principais expoentes da literatura afrofuturista no Brasil.

Por fim, a busca sobre a ficção especulativa nos países africanos de língua portuguesa, conduziu a Verzia ao Diário de Uma Qawwi e à chamada de publicação para a antologia Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa.

Para o Diário de Uma Qawwi, foi uma honra receber o contacto da Verzia. Durante o processo, o Diário de Uma Qawwi partilhou com a revista o conjunto de textos da antologia, dos quais, três foram seleccionados para a tradução e integração na edição da revista.

Desta forma, no seu todo, a terceira edição da Verzia engloba contos traduzidos de português para eslovaco, de autores de Portugal, Brasil e de Moçambique, incluindo, entre outros, os autores Julia Durand, Waldson Sousa, Nikelen Witter, Mia Couto, Suleiman Cassamo e Virgília Ferrão. Cada conto tem uma ilustração desenhada para a história e estas belíssimas ilustrações foram feitas pela talentosíssima artista eslovaca Kamila Kuricová.

Ilustração de Kamila Kuricová

Conto: “O dia em que Fabião foi engolido por uma caixa automática”, do escritor Suleiman Cassamo, traduzido por Jana Benková Marcelliová.

Os textos de cada país são acompanhados por artigos introdutórios sobre a ficção especulativa nesse país, sendo que o ensaio sobre a ficção especulativa produzida nos países africanos de língua portuguesa, foi escrito por José dos Remédios e traduzido por Zuzana Greksáková.

Por fim, a edição conta com uma secção de recomendações de tradutores tradicionais, onde o leitor pode saber não apenas sobre novos livros, como também sobre o processo da tradução destes textos.

Confira e compre a edição AQUI.

Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Cantinho da Qawwi

Um conto de (a tale by) Mélio Tinga

“Era um miserável, um pobre apaixonado atrapalhado. Basmeu de Castro Luis nunca antes se vira controlado por um amor tão ardente. A moça pisava o chão com serenidade, a luz do sol transformava-a em flor agigantada no meio de tantas outras. Basmeu apaixonara-se ao vê-la passar repetidas vezes. Certa feita, viu-a passar de um vestido que lhe roçava os joelhos, viam-se as coxas lisas e claras com o ecoar leve do vento de final de tarde.”

“He was a miserable, poor fumbling lover. Basmeu de Castro Luis had never found himself dominated by such passionate love. The girl stepped coolly on the ground, the sunlight changing her into a giant flower among so many others. Basmeu had fallen in love with her when he saw her passing by, again and again. On one occasion, he saw her walk by in a dress that brushed her knees, her smooth, clear thighs visible with the light echo of the late afternoon wind.”

Passagem de “O Pobre e os seus amores”, conto de Mélio Tinga. Leia este e outros contos em “O Voo dos Fantasmas”,

                                                                Livro Publicado pela Ethale Publishing, 2018

Desabafo de uma qawwi

#37 | De volta ao começo (última parte)

– Teste, um, dois – repito.

Primo o botão, a pontinha de luz vermelha do gravador cede.

– Tão rudimentar… achas que vai funcionar, Linan?

– Confio que sim, deste-lhe um jeito, tem de funcionar.

Volto a clicar o botão e ouço a minha voz repercutir pelo aparelho. Avanço com a gravação, deixando registada a mensagem:

Olá. O meu nome é Linan. Se este aparelho e o meu diário foram parar às suas mãos, significa que de alguma forma, perdi-me do meu caminho. Por favor, ajude-me a reencontrar-me. Tudo o que você vai ler é real. Foi o meu dia a dia, durante a passagem por esta terra. Poderia ter sido uma visita breve, não fosse a mutação, os vícios do corpo e da alma de humana, alongarem a jornada.

Deixe-me esclarecer: sou do reino de Stefanotis, que orbita numa dimensão distante desta. Tenho a pele trigueira, cabelo negro como o carvão vivo, que favorece os meus olhos azuis florescentes. Pareço bastante com você, ou seja, tenho o aspecto de um humano. Se estivermos no mesmo mundo, e caso esbarre comigo, ajude-me. Quem sabe você veja as coisas com mais clareza do que eu fui capaz. E caso me encontre, acorde-me, faça-me recordar. Disso depende, muito provavelmente, a esperança de toda a humanidade. Obrigada.

Vallen olha para mim, e num gesto inesperado, dá-me a mão. Afinal, só temo-nos um ao outro. E os inimigos também se abraçam.

– Será que vai ser doloroso?

– Espero que não.

Esfregamos as particulas de tamarino nos nossos pulsos. Pensamos no começo. Soltamo-nos da terra.

Mas a terra, no seu vazio, torna-se mais negra que o luto do meu peito. Isto não é o meu planeta. Mas também não é a terra.

– Acorda Linan!

Estou acordada. Mas não sei o que vejo ao redor, estas telas, estas velozes estrelas.

– Passaste da conta – continua a mesma voz, assustadoramente familiar.

Estico-me. E deparo-me comigo mesma. Sou ambas.

– Sim, eu sou tu. Deixa-me reorientar-te para que te reencontres Linan… tens de regressar.

– Um minuto – a minha mão trava-se no acelerado teclado flutuante  – avancei? Avancei quanto tempo?

– Pelo menos um ano, Linan.

A minha mente guina com a mesma força de um meteorito, à medida que o resultado matemático desliza da minha boca, arrancando-me da suspensão. Aterro em frente à uma das telas.

– Um ano? Significa… oh! 30 anos do planeta terra?

– Precisamente.

– A esta altura, estarei atrasada?

– A esta altura já quase nada sobra.

Engulo em seco.

– Posso?

– O quê?

– Ver o que resta?

Ela observa furtivamente as telas.

– Compreendes, Linan, que tens de reorientar-te dentro desta janela, se não corres perigo de vida?

– Compreendo, mas preciso saber.

Deixo os meus dedos manejarem freneticamente o ecrã de uma das telas. Os meus olhos inundam-se de lágrimas, da força impetuosa que brota do meu peito ao ver a terra. A satisfação é tanta que o sorriso transfigura-se num desproporcional esgar.

– Eles venceram!

Os humanos. Estão felizes. Não há nuvens escuras pelos ares. Os mares são azuis como o céu. Eles se abraçam, sem discriminação. Todos eles. Descobriram que o amor não é só uma palavra, ou um sentimento. Descobriram que há uma razão para ele existir. Finalmente, os qlubs estão equilibrados! A minha outra eu aproxima-se, com as mãos escondias por detrás das costas, sugerindo que algo está a escapar-me.

-Lembras-te quando Vallen disse, Linan? Que existem duas variáveis? Pois, ele estava certo. Esta variável foi salva por antecipação. 30 anos atrás. Na dor, expostos diante das suas próprias fracturas, os seres humanos transformaram-se para melhor.

– Então porque é que disseste que não sobrou nada?

A tristeza que emana dela, estranhamente, é minha.

– Olha com atenção.

Ela desliza o dedo na tela, para que eu veja o que até então me estava a passar. Não são precisos mais de cinco minutos para que uma onda de terror atinja-me em cheio.

– O que é isto?

– Planeta Terra.

– Mas… parecem frívolos ikras?

– Esta é a dimensão de que Vallen falava.

– Como assim?

– Numa outra versão de si próprios, os humanos não aprenderam nada. Trinta anos atrás, perderam a oportunidade. Seus conceitos bélicos, egocêntricos e separatistas foram exacerbados. E isto abriu as portas para o que Kosi queria, o pior cenário… que é…

– Não digas mais – murmuro. É como se acabasse de receber uma bofetada.

De que lado a minha família ficou? Do lado dos humanos que havia aprendido, ou do lado dos que tão somente havia piorado?

– Reorienta-me, por favor, de volta ao começo!

– Estás preparada? Para começar do zero? Toda esta conversa, tudo o que viveste…

– Estou pronta.

– Ok. Então… até um dia.

Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

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