Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Bodas de Papel, de Daniel Moraes – Opinião

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Autor: Daniel Moraes

Editora: Rouxinol; 2018

Opinião

Foi uma óptima experiência e um grande prazer para nós entrar em contacto com a escrita de Daniel Moraes, no seu livro de estreia, Bodas de Papel. Ao apresentar-nos Michelle e Michael, logo de início numa situação delicada, o autor coloca-nos no impulso de saltar para a última página, deixando claro que o seu objectivo é arrancar algumas lágrimas do leitor.

A história começa quando Michelle, uma jovem dedicada exclusivamente à faculdade e ao trabalho, acaba desafiada a aceitar o amor de Michael, já que este não mede esforços para derrubar as muralhas que a outra havia edificado à sua volta nos últimos anos.

“A minha vida deu uma reviravolta agora e não sei qual será o meu próximo passo, mas tenho a certeza que não será para longe de você”. São passagens como estas, que revelam a sensibilidade no interior do protagonista Michael, assim como no do próprio autor.

Na sua proposta, Daniel revela uma narrativa bem estruturada, personagens com um bom grau de densidade psicológica, desde as centrais, às secundárias, com especial destaque à adorável Kelly e até a “negligente” médica Claudete. Daniel não é comedido na ambientação e nos detalhes que compõem o cenário da narrativa. É verdade que os detalhes às vezes se tornam um pouco “abundantes”, mas se isso é bom ou mau, depende da apetência de cada leitor em querer familiarizar-se com a vida do personagem.

O drama que dá essência à história é bastante plausível. A dificuldade enfrentada pelo casal é facilmente relatável e faz desabrochar no leitor uma grande empatia. Isto torna o livro fácil de ler. Amantes de uma história romântica, cheia de sensualidade e ousada na sua simplicidade, vão adorar a proposta. O mesmo tipo de ousadia e força encontramos no livro “Fica Comigo” de Noemia Amarillo. Daniel, entretanto, vai um pouco além ao aflorar com segurança conhecimentos médicos, tornando a leitura não só prazerosa, como também educativa. Ao chegarmos ao fim, o autor revela-se pretender ser tão dramático como Nicholas Sparks. Se realmente o faz, é algo que convidamos o leitor a descobrir.

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Desabafo de uma qawwi

#16| A arte de sentir-se heróico

Talvez fosse por causa do efeito de “Love Never Dies”, que não nos apercebemos do estranho movimento. A rua estava deserta e nós, ainda embriagados pelo final do espectáculo. A arte é, e para sempre será, uma das melhores invenções dos humanos.

Assim, quando demos pela presença, já os três homens encontravam-se bem perto. Bloquearam o caminho, e o que estava na dianteira, pôs-se a rondar-nos como um cão que fareja ossos. De seguida puxou um pouco a camisola. A pistola na calças ficou visível.

– Joias e carteiras, rápido!

– Telefones, a porra dos telefones! – acrescentou o outro.

Instintivamente, Will meteu o braço à minha volta e puxou-me para trás.

– Deixem-nos em paz.

Melindrando pela ousadia, o homem sacou a pistola e reforçou a ordem:

– Dinheiro seus surdos, já!

Will afincou e senti que pretendia lutar. Travei-o. Ou ele esquecia-se de que eu era uma qawwi, cheia de poderes que nenhum outro humano tinha, ou ele simplesmente estava dominado por um impulso irracional. E isso era muito perigoso. Os humanos não deviam reagir em circunstâncias daquelas. Era preciso simplesmente obedecere o assaltante para sobreviver. Só que a tênue fronteira entre o terror e prazer, o ter que conviver com o medo como quem abraça um amigo, deu aso a uma revolução. A exacerbada violência nas ruas fez com que noções básicas de defesa pessoal tornassem-se tão necessárias como o acto de respirar. Era por isso que as artes marciais andavam em voga. E dependendo das cidades, as pessoas já começavam a carregar no bolso ferramentas de protecção, como canivetes, sprays de pimenta, teasers de choque, entre outros, desde que a sua posse fosse permitida pelas leis locais.

No meu planeta, eu fazia parte da segurança real, ou seja, era uma qawwi altamente treinada. Mas mesmo assim, achei boa ideia frequentar a academia de judo, com Will e com Érica. Aliás, o judo ajuda as crianças a aumentarem as suas capacidades físicas e psíquicas, e contribuem com valores importantes, como companheirismo e respeito pelos demais.

Pensar que a minha família não tinha os mesmos poderes que eu e que estava à mercê da sua própria fragilidade, deixava-me fora de controle. E não é bonito ver uma qawwi descontrolada.

– Senhores, deixem-nos ir para casa.

Eles agitaram-se, cheios de pressa.

– Vão morrer porra, passem o dinheiro!

Dei por mim a cerrar os dentes e punhos.

– Senhores, eu não vou repetir-me…

Então, calaram-se. E súbito:

– É uma bruxa! – após o grito, e para o meu espanto, fugiram como quem foge de uma queda de granizo. Menos o que estava armado. Guardou a pistola, e continuou a olhar-me. Mas desta vez, nutria um súbito ardor excitado no rosto.

– Os teus olhos moça…

Foi nesse instante que percebi o que tinha causado a fuga dos outros. Sacudi a cabeça para fazer o efeito desaparecer. É que quando fico alterada, as minhas reacções manifestam-se nos olhos que cobrem-se de um manto azul.

– És um deles, és uma qawwi! – constatou o outro na mesma incontrolável avidez – Estás com Vallen!

O sentimento anterior foi substituído por um medo de proporções alarmantes.

– Como… como o senhor sabe sobre os qawwis?

Não respondeu. Apenas sorriu e imprimiu velocidade quando correu em busca dos outros. Parecia feliz com a descoberta. Demasiado feliz.

Apreensiva, segurei a mão de Will.

– Depressa… temos de ir.

**

Em menos de uma semana, estávamos a fazer as malas. Cedo ou tarde Vallen ia aterrar naquela cidade. Se é que já não o tinha feito. Eu até poderia enfrentá-lo. Mas já não estava sozinha. Tinha de pensar na minha família. Mudar de cidade era a única forma de mantê-los a eles e a minha missão em segurança. Embora o confronto parecesse-me algo cada vez mais inadiável. Por essa mesma razão, optei por revelar um pouco mais do meu mundo a Will, ensinando-o a usar as flechas quentes. As armas dos qawwis. A resposta necessária, para o que há de pior no meu planeta.

Fui até ao jardim ver como ele estava a sair-se e nesse momento, uma flecha acertou um pequeno tabuleiro fixado há alguns metros. Assim que atingiu o alvo, a flecha desprendeu uma tira de fumo.

– Will… bravo!

Ele efectivamente já dominava as flechas quentes.

– Sinto-me heróico Linan, como um personagem dos jogos da fome

– Isto não é fome nem jogo Will! Mas sim… é uma arte saber usá-las! E se vamos casar, é justo que saibas lutar como um qawwi, para proteger a nossa família.

Will baixou o braço, boquiaberto.

– Vamos?

Devolvi um olhar que não logrou ser tranquilo.

– Ou mudaste de ideias?

O rosto dele ganhou um espectro de tons radiosos, como se tivessem acendido em lenta sucessão as luzes decorativas de uma festa. Com um só braço, atraiu-me para perto de si e murmurou ao pé dos meus lábios.

– Fazes de mim o homem mais feliz do mundo, Linan. E podes ter a certeza que – ergueu o arco – ninguém vai meter-se com a nossa família – e deixou outra flecha escapar.

Desabafo de uma qawwi

#10|Eterna magia de natal: Fica comigo

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Fatinha terminava a decoração da árvore quando a campainha tocou. Eu, ao som de “jingle bell rock”, retirava um bolo quentinho do forno.
Ela entrou na cozinha e sacudindo o resto de pó brilhante das mãos, anunciou com um sorriso malicioso:

– O teu mendigo, ou melhor, o teu lindo e apaixonado “mendi-gato” está aí.

Antes de ir ter com a visita, arremessei um pano de loiça contra Fatinha. Estava farta de dizer-lhe que Will era somente um amigo.
Ele aguardava num canto escuro da sala, onde incidiam as luzes da árvore. O aspecto bastante vítreo dos seus olhos, preocupou-me.

– Will? O que disseram os médicos?

Seguiu-se um longo suspiro.

– Está confirmado. Já não aparece nada nas biopsias nem nos exames. Sumiram! Entendes, Linan? Estou curado!
– Desculpa?
– É como ouviste, curado!

Vibramos de alegria.
Mas não contei a verdade.
Não podia.

A nossa amizade florescera muito nos últimos meses e ao saber sobre a terrível doença, tive de usar o Dijon que trouxe sem autorização, para curá-lo. Claro que Will não se lembrava, pois eu o compelira a esquecer-se disso.

– Deve ser um milagre, Linan. O mesmo que te trouxe para mim.
Suavemente ele envolveu-me num abraço. A lentidão do gesto causou-me um familiar calor. Era o mesmo fogo que invadia-me a espinha pelo estômago adentro, toda a vez que ele tocava-me. Entrou pela janela um resto de vento a tentar apaziguar-me, mas o fogo era voraz.
Consegui soltar-me, a tempo de evitar que o meu peito estoirasse. Relutante, ele acabou também por afastar-se. Afinal de contas, era essa a condição para a amizade prevalecer. Evitar aquele tipo de contacto, pois fazia-me sentir tão instável como quem abre portas às escuras.
Concentramo-nos então nos planos de Will: o seu desejo de voltar a tentar adoptar a menina Erica. Ainda que estivesse só.

Pensei que nada fosse estragar o sabor adocicado dos dias de sol que se seguiram. Mas uma voz proclamada numa medonha sequência patológica, fez-se ouvir no meu quarto, denunciando o contrário:

Pobre Linan. Tão longe de nós e tão parecida com eles!

Nunca senti-me tão arrepiada como naquele instante. Os olhos azuis índigo marcavam a mudança: um qawwi inimigo aterrara na terra!
Saltei da cadeira, em posição de defesa:

– Vallen! Porque é que estás aqui?
– Vim fazer aquilo que tu falhaste. Acabar com os qlubs.

Soltou-se de mim uma gargalhada, pese embora a garganta estivesse seca. Vallen olhou-me boquiaberto:

– Porque é que te ris, criatura?
– Meu caro, o riso é uma válvula de escape para os humanos. Escuta, a minha missão é salvar os qlubs, não o contrário!
E o que tens feito até agora? Usar dijons sem autorização para curar humanos que não merecem viver? Fui obrigado a vir pessoalmente e eliminar o tal Will. Mas não te preocupes. Ele morreu sem o desgosto de saber que és uma asquerosa extraterrestre infiltrada no mundo dele. Até porque…

Impelida a teletransportar-me para outro lugar, deixei de o ouvir.

Senti um líquido salgado descer dos olhos quando lancei duras investidas na porta. Will morto? O pensamento, por si só, paralisava-me os músculos. Até que a porta abriu-se:

– Linan?

Foi como mergulhar numa piscina em dia de 50 graus.

– Linan… estás pálida. O que é se passa?

A resposta era demasiado intensa. Fechei os olhos e quis esconder-me.

– Estás a assustar-me miúda, diz alguma coisa.

Falar não era capaz. Então, atirei-me nos seus braços e beijei-o. Era uma espécie de insurreição, de quem recusa-se e entrega-se ao prazer ao mesmo tempo. Um atentado contra todas as muralhas que construíra e que agora ruíam sozinhas ao nosso redor.

Encontrei forças para desatar os lábios e libertar a verdade:

– Eu amo-te – ao senti-lo ofegar perto de mim, não tive mais dúvidas – eu amo-te, eu amo-te… – insisti aflita, enquanto Will carregava-me com a mesma urgência nos seus braços. Tal como um buraco negro, o amor é um campo magnético de onde nenhuma matéria escapa. A solução é abandonar-se por completo a ele.

Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que Will fez foi oferecer-me icetea. Sabia que era a minha bebida preferida.

Súbito, ele levou os joelhos ao chão, abeirando-se ao pé de mim na cama.

– Estava só à espera que caísses em ti para que pudesse fazer isto. Eu amo-te como nunca amei ninguém antes, Linan.

As mãos trémulas seguravam uma minúscula caixa veluda e os seus olhos não eram mais do que duas pedras de gelo derretendo em fogo lento.

– O que é isso?

Ele abriu a caixinha. Continha um pequeno adorno brilhante.

– É o símbolo de tudo o que representas para mim. Fica comigo, para sempre?

Então era para isso que servia uma aliança? Para afiançar a eternidade ao lado do amor? Será que os humanos não percebiam que perante as suas limitações, mesmo com a infinidade do universo, tal propósito era irrealizável?

– Não posso – apressei-me a meter uma camisola no corpo – Isto foi um erro, não posso…
– Uou, uou, calma! Se achas que é apressado eu volto atrás. Mas não digas que somos um erro, por favor!
– Estás longe de compreender, Will!
– Escuta – ele segurou-me com força para que eu o olhasse nos olhos – Eu também decepcionei-me no passado, mas nestes últimos meses tu devolveste-me a capacidade de confiar. Quero-te como nunca quis ninguém Linan, e sei que sentes o mesmo! Porque é que hesitas tanto? Explica-me!

O coração travou-me na garganta. Ele julgava amar uma humana, que na realidade era uma ET. E por causa da incompetência dessa ET, ele corria agora perigo.

Ponderei depressa sobre o que fazer. Dizia a verdade? Arriscando-me a que ele passasse a abominar-me? Ou então compelia-o a apagar-me da sua memória? Não, isso eu não era capaz.

– Oh Will… – sem controlar as lágrimas, e mesmo sabendo as consequências que o meu acto traria, juntei os braços em frente ao corpo, e desapareci do quarto.

Desabafo de uma qawwi

#9|Eterna magia de natal: verdades secretas

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Linan, 

Um sorriso simpático, uma boa conversa de esquina, são coisas que abundam no nosso meio. Mas quando se trata de honestidade, a história é outra. A arte da sinceridade tornou-se cara nos dias de hoje.

Nesta carta, é tudo o que tenho para oferecer-te: honestidade.

Não sou um sem-abrigo, como deixei-te pensar que era. Sou apenas um homem impulsivo, que por breves instantes morreu por dentro e apartou-se das ilusões deste mundo. Um homem que só regressou a si, depois de ter-te conhecido.

Não sei exactamente o que impediu-me de dizer-te a verdade antes. Talvez a necessidade de sentir a fé que tinhas em mim enquanto pessoa. Sem bens materiais, sem grande utilidade. Apenas pessoa. Talvez porque precisava de voltar a acreditar na possibilidade da amizade, do amor, gratuitos.

Quando se perde tudo de uma vez como eu perdi, cai-se num vácuo sem fim. Eu tinha planos, tinha uma vida, uma companheira. Mas demorei a perceber que as traças da intolerância há muito haviam corroído aquela união. As diferenças, os insultos, eram só um pretexto. Lá no fundo, o que nos destruiu foi o facto de que eu não era capaz de realizar aquele desejo, dar um filho à minha companheira. E não existe nada pior para um homem do que viver confrontado por esta incapacidade. Todos os dias.

Julguei que a proposta que fiz fosse ser uma solução: adoptar a menina Érica. A papelada para formalizar o sonho estava quase tratada, mas o sonho dissolveu-se no dia em que Susana anunciou estar grávida de outro homem.

Levou tempo para reerguer-me do golpe.

No sábado em que conheci-te, Linan, tinha ido ao parque com os meus amigos fazer um “experimento social”. É o nosso passatempo favorito e temos milhares de seguidores. Disfarcei-me de sem abrigo, colocamos câmeras ocultas, e começamos a provocar as pessoas para filmarmos as suas reacções. Normalmente divertimo-nos bastante com estes experimentos. Mas naquele dia, tornei-me eu vítima da triste comédia. Fora exactamente naquela manhã, que recebera uns exames médicos confirmando a grave doença. A saúde, tão silenciosamente, também me havia abandonado. Ou seja, o buraco não tinha fim.

Os meus amigos foram-se embora, mas eu continuei ali, sentado, permitindo-me experimentar a miséria humana em toda a sua plenitude.

E então chegaste tu, Linan. Parecia que vinhas a navegar pelo sol, de propósito, apenas para recordar-me de como é bom sorrir. Vieste sem preconceitos, cheia de coragem. E avançaste para dentro de mim, sem pedir licença. Pelo tanto que gostaste de mim, Linan, não consigo medir o quanto eu gosto ti. És uma das poucas pessoas que faz-me não querer desistir. Perdoas-me e aceitas-me na tua vida, com todas estas falhas? Espero por ti na Avenida das Portas, logo na esquina. Vem ter comigo, pois quero estar perto de ti, nem que seja só mais uma vez. Se julgares que não o queres fazer, entenderei, sem problema. Mas espero, sinceramente, que aceites o convite.

 Will

Pelos portões do parque, mesmo acima dos baloiços que cortavam o ar fresco, via-se a tal Avenida das Portas. O peito trovejou-me arrítmico quando rasguei a carta em quatro pedaços e tomei a direcção oposta.

Não importava se ele deixava de ser ou não um sem-abrigo. O facto é que aquele humano vestira o coração nos dedos que escreveram as verdades mais secretas sobre o seu ser. Por muito que o quisesse ver, sentia-me ameaçada.

Como podia ser sua amiga, sem contar-lhe a minha própria verdade? Seria eu a qawwi que traria para a vida daquele frágil humano, a maior mentira do século? Ofereceria o oposto do que ele precisava?

Não, isso eu não ia fazer.

Subi o acentuado passeio e estava quase em casa, quando fui obrigada a reter o passo. Debaixo do reflexo de um satélite que clareava o céu nublado, aguardava-me uma figura masculina. Trazia rosas vermelhas sobre o capô de uma viatura.

A figura aproximou-se e tirou o capuz da cabeça.

– Pressenti que ias optar por não vir, Linan. Mas tinha de tentar.

Excepto a voz, tudo nele era estranho. A pele com aroma de iogurte de limão, o cabelo farto, os olhos amendoados. Engraçado… era a primeira vez que percebia alguma beleza, para não dizer bastante, nos traços de um rosto humano.

– Will?

– Sou eu.

Subitamente as palmas das minhas mãos humedeceram. Deu-me uma esquisita reacção no estômago. A princípio julguei que fosse a energia do satélite a interferir no meu corpo, mas depois percebi que não. Era o toque de Will. As suas mãos entrelaçadas às minhas, o ar morno dos seus lábios tão perto de mim, fizeram-me sentir dessincronizada. Os joelhos fraquejaram. Assustada, quis teletransportar-me para outro continente, mas como se tivesse percebido as minhas intenções, Will segurou-me e persistiu com delicadeza:

– Por favor. Não vás.

Desabafo de uma qawwi

#8|Eterna magia de natal: O banco

“Quais as probabilidades, e o que pode dar errado, numa súbita amizade entre uma extraterrestre e um sem abrigo?”

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O banco do parquinho continuava vazio. Não soube o que pensar. Teria Wilson encontrado um lugar melhor? A ser este o caso, devia ter ficado contente. Porém, o sorriso que escapou dos meus lábios era trémulo como as acácias ao vento. Conheci Will numa noite de frustração. É verdade que continuo a ter a capacidade de teletransportar-me, que posso compelir a vontade humana. Mas raramente uso essas habilidades. Tal significa que cada minuto que passa sem que eu cumpra a missão, enfraquece-me e afasta-me da natureza qawwi.

Na noite em que fiz essa constatação, bati com a porta de casa e fui à esplanada perto comprar uma hunter’s dry. Esvaziei-a ali mesmo, encostada ao balcão. Pedi mais duas garrafas, um hambúrguer, e decidi ir ao parque. Foi lá onde encontrei Will, um jovem envelhecido pela amargura. Estava sentado num banco, enrolado num cobertor sujo, e tinha os pés desnudos ressequidos pelo frio. Apesar do seu olhar distante e escondido pelo gorro buído, eu conseguia notar a melancolia com que ele observava os outros. Aspirei as essências que pairavam ao seu redor: abandono, sonhos quebrados e algumas sobras de esperança. Essências inevitavelmente humanas. Essências que eu não estava a conseguir salvar.

Sorvi o conteúdo da garrafa de uma vez.

– Já percebo porque é que os humanos gostam disto – murmurei a meio de um arroto.

Will virou-se para mim espantado. A voz rouca discorreu-lhe trépida:

– Gostam de quê?

– Álcool. É uma boa maneira de afastar os problemas.

Folhas secas voavam pelo parquinho, quando Will comentou:

– Nada nesta vida é definitivo, senhorita. Talvez, e tão somente, a morte e o amor. Olhe para mim. Um dia saio desta situação. Quando a música para, há que se fazer a própria melodia.

Os meus lábios abriram-se, e Will, tão naturalmente acanhado, sorriu. Devem ter se seguido uns tantos disparatares da minha boca, pois pouco depois Will baixava o cobertor para libertar o calor causado pelas gargalhadas.

– Toma – ofereci-lhe uma bebida e reparti o hambúrguer. Will tinha ar faminto. Todavia, manteve-se quieto, como que apavorado pelo gesto.

– A senhorita não se incomoda?

– Porque me incomodaria?

Ele baixou o rosto.

– Estou sujo, cheiro a urina, sou um sem abrigo, senhorita.

– Isso não faz de ti menos humano. Aliás, devo dizer que até agora és dos humanos mais genuínos que conheci.

Para falar a verdade, eu nem sequer entendia aquela situação. No meu planeta era impossível qawwis deixarem outros qawwis à mercê do incerto e do desamparo. Todos têm um lar em Stefanotis. Ser “sem abrigo” lá, significa ter o coração vazio. E esse não parecia o caso de Will. Ao perceber que já haviam passado muitas horas e dúzias de cidras, pus-me em pé.

– Tenho de ir.

A voz de Will galgou inibida pelas minhas costas. Tirou o gorro da cabeça e torceu-o nervosamente entre os dedos, antes de perguntar-me:

– A senhorita passará por aqui um outro dia?

A resposta saiu antes mesmo que eu pudesse processá-la:

– Amanhã eu volto para jantar contigo.

– Senhorita Linan – tornou ele a chamar-me – a senhorita tem um coração de ouro. Se as noites fossem tão bonitas como a de hoje, eu dispensaria as manhãs.

Voltei para segurar a sua mão entre as minhas e reafirmei:

– Mas sem o dia, a noite perde o valor. Eu volto, meu querido Will.

E de facto, passei a visitá-lo com frequência, a mesma hora, no banco do parque. Era fácil ser humana ao lado dele.

Sentei-me no banco vazio e telefonei à Fatinha, a minha housemate.

– Passam 4 dias e ele não está aqui. Desapareceu e acho que já não volta!

Ele quem, Linan?

– O meu amigo, o rapaz do parque.

O sem tecto? Ah porra Linan, tens que ir à um psiquiatra!

– Psiquiatria? Porquê?

Ainda perguntas? Tu realmente não vês o que aconteceu com esse coraçãozinho, pois não?

– Do que é que estás a falar?

Tsk, tskvem para casa que conversaremos!

Desliguei o telemóvel e pousei a mão na madeira do banco. Foi então que acolheu-me uma súbita vontade de chorar. Por acaso as lágrimas mudariam aquele vazio? E porque é que tinha de entristecer-me assim, se Wilson não passava de um humano?

– Linan?

Apercebi-me tarde da repentina presença. Era uma das meninas que trabalhava na esplanada perto do parque.

– Sim?

– Trago uma carta para si.

– Carta?

– Exacto. Do moço que costuma estar aqui consigo. O engenheiro Wilson – esclareceu, antes de dar meia volta, deixando-me com o misterioso envelope na mão. Engenheiro Wilson?

Livros, Resenhas

Literatura – | Recados da Alma de “Bento Baloi” | – Opinião

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Título: Recados da Alma

Autor: Bento Baloi

Editora: Fundação Fernando Leite Couto (Moçambique); Ideia Fixa (Portugal)

Compre aqui: Wook

Sinopse:

Um jovem jornalista recebe papéis de um velho comerciante durante a cobertura à operação de salvamento de vítimas das cheias do vale do rio Save. Durante a leitura, o jornalista descobre nos papéis já amarelecidos autênticos retratos de várias vidas: o ambiente agitado de Lourenço Marques; o calor suburbano ao redor; a electrizante dinâmica dos bailes nocturnos (dos juke boxes aos gira-discos de 45 rotações).

Os terríveis «mabandido» estão à solta semeando pânico: «você é mufana de quem?» – perguntam. Há troca de mensagens subversivas. Fala-se à boca pequena dos rapazes de Mondlane e Machel. Do futuro. Mafalda e Eugénio revelam o seu amor num golpe inesperado, que acaba transformando as suas vidas no frenesim do 7 de Setembro e 21 de Outubro. Almas estilhaçam-se e espalham-se pela metrópole. Há revelações surpreendentes. A deusa «Afrodite» conspirará a favor? Ou será que o vaticínio da velha «nyamussoro» de Homoíne sobre o espírito dos brancos concretizar-se-á? A luta continua! É a palavra de ordem que atravessa o tempo.

Opinião:

Disse o escritor Luiz Ruffato numa ocasião, que começar uma leitura é como iniciar uma jornada por uma caverna escura. Ao fim da jornada, regressando à luz, somos uma pessoa diferente da que entrou na caverna. É isso que acontece-nos ao passear por “Recados da Alma”: uma experiência transformadora.

Com uma escrita leve e primorosa, o autor ambientou este romance de época / histórico, em Moçambique e em Portugal, e como pano de fundo usou a história de amor entre Mafalda e Eugénio. A tentativa de enlace  desenrola-se a meio de preconceitos sociais, na difícil época de transição do colonialismo à independência em Moçambique. Mas Recados da Alma não é, nem de longe, apenas uma história de amor. São recados de vozes de vários fragmentos num vasto horizonte temporal, que marcam a realidade do povo moçambicano e do povo português. São histórias do quotidiano, tão verdadeiras e tão intrinsecamente ligadas a nós, que fascinam e vão fascinar leitores de todas as gerações. Não poderia haver forma mais agradável de compreender o passado e o presente destes dois países: com um nível de detalhe aprofundado e rigor na pesquisa, o autor relata factos reais em forma de episódios emotivos, ligeiros, às vezes cómicos e outras vezes dramáticos, tão arrebatadores que fazem-nos devorar as páginas de um só fôlego. Todos os personagens são memoráveis. Aliás, é através de personagens equilibradas e amorosas como Eugénio e Simões, ou então de outras verdadeiramente tridimensionais como Zé Mundoni, Lopes, Original e a própria Mafalda, que o narrador mostra-nos que os desafios para uma melhor condição humana, passam pela tolerância, amor, pontes, alianças e amizade. Entre pessoas, entre países.

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A diagramação e a paginação da obra estão impecáveis. Graças a um excelente trabalho a este nível, é bastante fácil detectar a mudança de vozes/ pontos de vista, dos diferentes narradores. Num primeiro olhar, a capa não parece falar tão claramente sobre o género apresentado, mas ao longo da leitura, as razões para a escolha tornam-se bastante óbvias.

Então já sabem, recomendamos vivamente a leitura desta obra, que consideramos um grande triunfo da literatura moçambicana. Abra o seu coração e embarque numa inesquecível viagem, com os mabandido, os dragões da morte, os regressados, os amantes Eugénio e Mafalda, e os seus deuses africanos e europeus. Se por ventura este livro for adaptado ao cinema (tem toda a pinta para isso), será certamente a vivas cores. E como realça o misterioso narrador Castro, o amor permanecerá, “numa simbiose de almas em que a história escrever-se-á a preto e branco”.

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 Sobre o autor: Bento Baloi nasceu em 1968 no Vieira, um bairro de lata dos subúrbios da cidade de Maputo. É jornalista há 30 anos. Fez iniciação literária escrevendo contos e poemas publicados em páginas de especialidade de revistas e jornais moçambicanos. Dedicou parte significativa da sua carreira ao teatro escrevendo, dirigindo e interpretando papéis em peças, tanto de palco como de rádio. São da sua autoria as peças de teatro «Lágrimas»; «Grito Humano»; «Adão e Eva, Ámen»; «Alarme»; «Katina P, o Flagelo», entre outras. Escreveu os bailados «O Filho do Povo» e «Raízes e Percursos», encenados pela diva da coreografia moçambicana, Pérola Jaime. «Recados da Alma» é o seu romance de estreia e foi publicado pela primeira vez, em Moçambique pela Fundação Fernando Leite Couto, em Novembro de 2016.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

(por VF – da tripulação)