Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

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GIF: TVD

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.

Outras maravilhas humanas

Problemas psicológicos x COVID-19

*Psicóloga Marina Franco

Com a chegada do COVID-19 no Brasil, podemos notar que o comportamento das pessoas mudou. Surgiu não apenas a epidemia do vírus, mas também a do medo. Somos um povo muito caloroso e receptivo, gostamos de estar junto dos amigos, de participar de comemorações ou do famoso churrasco do fim de semana. No entanto, a doença forçou todo mundo a se isolar e sem poder mais mostrar nosso carinho nem estar presentes no dia a dia, como antes.

O isolamento pode ser, sim, um gatilho que propicia o surgimento de alguns problemas psicológicos. Para que sejam evitados esses quadros, devemos tentar minimamente manter a rotina. Devemos também tentar conversar e manter contato, mesmo que através das tecnologias, com amigos e conhecidos.

Não devemos deixar os idosos sozinhos, porque eles estão no grupo de risco e podem estar com um medo e ansiedade muito maior. Eles podem entender essa ausência de contato como uma espécie de abandono. Temos que estar a todo o momento explicando e informando a eles o porquê do nosso distanciamento, que nesse caso é para protegê-los. Tantos os mais jovens como os idosos devem buscar atividades que os mantenham ocupados e que lhes dão prazer. Procure hobbies, assista filmes, leia livros ou assista aulas na internet.

É muito importante que, nesse momento, as pessoas não entrem na epidemia do pânico para não começarem a sentir sintomas que são do COVID-19, como por exemplo, a falta de ar. Existe um pânico como um transtorno mental individual, que afeta o físico. Existe o medo constante da morte como ainda o “pânico cultural”, que é o medo de pensar no que vai ou pode acontecer no futuro.

A falta de ar do pânico surge quando existe o medo de morrer e não se tem controle da situação. Não tem uma causa específica e vem associado a outros sintomas como boca seca, taquicardia, sudorese entre outros. Já a falta de ar do COVID-19 é diferente, pois manifesta sintomas dessa condição junto aos da gripe, congestão nasal, tosse e febre.

Mas o que fazer para não entrar em pânico ou ter crises de ansiedade? Busque somente informações confiáveis sobre o coronavírus e delimite um tempo por dia para ver essas notícias. Caso perceba que está muitas horas em função das notícias, isso pode aumentar a ansiedade e fazer com que fique em estado de alerta, além de mal-estar mental e físico associados.

Precisamos estar atentos às informações corretas, à prevenção e a como podemos fazer para não sermos contaminados. O ideal é que busquemos dados que nos tranquilizem e não que nos deixem mais amedrontados. O importante nesse momento é pensar em tudo que a gente tem controle e no coletivo! O que não temos controle, devemos aceitar e continuar fazendo a nossa parte.

Uma alternativa é atendimento online com psicólogos. Caso você já se consulte com um profissional, pode manter aquele mesmo horário ou o profissional também pode atender pessoas que estejam sofrendo agora em virtudes dessas mudanças na rotina. Os atendimentos são feitos através de canais como Skype, ou até mesmo através de chamadas de vídeo no Whatsapp. Assim como você faz com amigos, você pode fazer uma consulta psicológica online no conforto de sua casa e recebendo um atendimento que, com certeza, vai te fazer muito bem.

(*) Marina Franco é psicóloga formada pela Universidade Federal de Sergipe; Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo CTC VEDA em São Paulo; Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP; realiza atendimento presencial e online. Tem experiência no atendimento com adolescentes e adultos.

Marina Franco - psicóloga -divulgação

Resenhas

#34 | De volta ao começo: partículas de tamarino

Por Will

Faço esforço para levantar o rosto, apenas por um instante, para que o ar possa penetrar, já que tenho os pulmões carregados de chumbo. A claridade da lua, num céu tão veludo como o desta noite, pouco me diz. Trago comigo este chumbo que galga devagar para cima, como areia movediça. Trava-me pelos joelhos e derruba-me por terra.

– Por favor, alguém ajude! Ambulância!

A mulher da minha vida, com um bebé de apenas três meses no ventre, continua estirada.

– Desculpa irmão, ela foi-se – ouço alguém dizer.

O peso agora sobe até os meus olhos e explode em átomos que cristalizam-se em violentas lágrimas. Levanto um pé, não consigo andar.

– Não – deve ser um pesadelo, penso comigo trémulo – ela não pode estar morta…

Procuro outra resposta, em outro lugar, mas a verdade é que não há resposta diferente.

Engulo o choro. Sufoco o grito. Sinto o meu rosto paralisado.

Não tenho a certeza de o ter visto chegar. Também não sei explicar como foi que, de repente, a pequena multidão se dissipou, deixando-me a sós, com ele.

– Lamento, Will – a sua voz carrega a seriedade da noite e sem nem aperceber-me, coloco-me em posição de combate.

– O que você fez?

– O que eu fiz, não, o que eu vou fazer!

A rigidez do meu corpo aumenta, mas ele ergue a mão, como quem demanda ordem.

– Linan ainda é importante para a missão, Will. Se realmente a amas, vais ajudar-me a trazê-la de volta. Preciso dela viva!

Vallen. O único qawwi que conheço, além de Linan. Um qawwi que desprezo, e que entretanto, quero abraçar. Graças a ele perdi Linan uma vez. Foi ele quem a transformou, num acto de mera vingança, em humana. Mas quem de nós dois estará mais perto de realizar o milagre?

A necessidade desafia-me por inteiro, rasga-me o peito em dois e obriga-me a implorar:

– Faz o que for preciso, o que quiseres. Ela tem que voltar a viver.

Vallen sacode o seu casaco, encurta a distância. Algo doirado relampeja na sua mão.

– Estende-me o braço, Will.

Obedeço sem pestanejar.

O qawwi passa um pó pela minha pela, que acende como ouro, por alguns segundos, antes de voltar à normalidade.

– São partículas de lua verde de tamarino – explica sucinto – Isto vai levar-te de volta ao passado, algum momento antes do acidente. Tens de manter Linan viva, é só isso que te peço. Se falhares, regressarás até mim, até este momento.

Movo a minha mão, mas Vallen trava-me com um gesto ameaçador.

– Não terás muito tempo. Agora vai. Pensa em algum momento antes do acidente… esfrega o braço e…

Caio.

Pelo menos é a sensação que tenho. E continuo a cair.

Dou por mim em casa. No jardim. Lembro-me deste dia. Andava exausto, rabugento. Se tivesse sabido que teríamos um acidente, não teria perdido tempo a ser um idiota. Procuro-a por toda a casa, mas ela não está. Ligo-lhe, mas não atende. Recordo-me de que foi à consulta. Depois de tanto pensar, só me ocorre uma coisa: deixar um recado por escrito. Antes que o tempo acabe. Sento-me no sofá, pego numa caneta e começo a escrever.

De novo caio. E continuo a cair.

Lá está o sujeito. A cidade deserta. A minha vida sem cor.

– O que houve?

– Se estás aqui, significa que falhaste. Linan continua morta. Não temos muitas chances, rapaz. Vá… volte!

De novo estou em queda escura.

Agora ouço uma música. O tinido de taças. Estou ao pé da porta, sentindo um paladar de chocolate. Bolo que Érica e eu fizemos, para o aniversário da mãe. O que é isto, na minha mão? Julgo que acabo de recolher o gel desifenctante do carro, depois de saber dos perigos que causa estar exposto ao sol.

A dúvida atravessa o meu peito. E se isto for uma armadilha? Um desengano? E se estiverem a pregar uma partida com o meu cérebro? De qualquer forma, não podia permitir o acidente. Que entrássemos no maldito carro, e…

Vasculho um auxílio na cozinha, marcho rapidamente para a garagem e começo a furar um pneu, até que ouço a voz da minha filha.

– Pai! O que estás a fazer?

Tenho a boca e garganta secas.

– Chama a mãe, filha, chama a mãe… – urjo seguindo-a pela cozinha. Preciso contar à Linan, ela saberá o que fazer.

E de novo me abraça a escuridão.

– Não, não pode ser! – balbucio ao dar de caras com os olhos frívolos de Vallen

– Escuta bem, rapaz: talvez haja apenas uma chance. Uma! Use melhor o tempo. Desta vez vou dar-te a flor de dijon, para que tenhas mais tempo e preserves a memória até ao fim. Vai haver modificações no teu corpo, mas é por uma boa causa. É importante que te recordes.

– Vou recordar-me, Vallen.

– Vá, salva a Linan.

Levanto-me da cama, com o coração descompassado. A conversa com Vallen baila na minha cabeça, tenho o peito molhado, os dentes apertados.

Como um raio de luz, as mãos suaves dela percorrem-me para acalmar-me.

– Tiveste um pesadelo?

Quero dizer-lhe. Mas travo-me. Temo que o meu pensamento, por si só, possa levar-me de volta a Vallen. Tudo o que quero é ficar com ela. E não sei como impedir o futuro.

– Abraça-me, Linan – tento buscar conforto no seu corpo, sem pretensão de afastar-me. Agarro-me com tanta força, que venço. Permaneço ao lado dela. Sinto as partículas do tempo abandonarem-me, esgotando-se, autorizando-me a continuar. E permaneço.

Opiniões, Resenhas

Cinema |Dangerous Lies (Mentiras Perigosas) – Filme|– Opinião

 

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Imagem: Netflix

Título: Dangerous Lies (PT Mentiras Perigosas)

Direcção: Michael Scott

Elenco: Camila Mendes, Jessie T.Usher, Jamie Chung, Cam Gagandet, Sasha Alexander, Elliot Gould

 

Género: drama

Ano: 2020

Premissa

Uma jovem provedora de cuidados de saúde, herda de forma inesperada todos os bens e a casa do seu paciente, todavia, segredos sombrios giram em torno desta nova riqueza, enredando a jovem numa teia de enganos e de perigos.

Opinião

 O título é como ele se apresenta: generalista e até um bocado cómico, para quem leva o cinema a sério. Um filme de qualidade, e de preferência cativante, é sempre bem vindo. Mas Mentiras Perigosas talvez tenha apenas a segunda faceta. Às vezes isso é suficiente, um entretenimento bobo, acompanhado de uma chavenazinha de chá, especialmente nestas alturas em que queremos apenas desanuviar.

O enredo traz a história de um jovem casal, de boa índole, que vive apertos financeiros, pois Adam (Jessie T Usher), está desempregado. Já a protagonista Katie (Camila Mendes), esposa de Adam, trabalha como provedora de cuidados do velho Leonard (Elliot Gould), um homem bondoso, sem família, solitário e com a saúde frágil. O velho Leonard acaba morrendo durante o sono e nessa sequência, Katie, que apenas trabalhava para ele há 4 meses, herda os seus bens. Aos olhos de todos, as circunstâncias são bastante suspeitas e o casal vê-se a contar à polícia um monte de “(desnecessárias) mentiras perigosas”!

Apesar de a trama ser tola (e as personagens rasas), achamos a fotografia satisfatória, assim como a trajectória dos eventos, que permitem o filme prender a atenção do telespectador com sucesso. Não há grandes surpresas, mas o suspense e a tensão conseguem ser mantidos durante grande período do filme. É duro ver protagonistas, supostamente inteligentes, tomarem as decisões mais estúpidas da face planeta. Totalmente intragável, é verdade. E o final, infelizmente, é demasiado óbvio e desleixado, deixando pontas soltas. Estes aspectos, não invalidam, porém, a experiência, que vale a pena pela moral já conhecida, o qual revela-se um bom elemento agregador. A trilha sonora é ajustada à pelicula.

Recomendável para quem estar entretido, sem algo muito complexo, nem tão brilhante.

A nossa classificação: 3 de 5 estrelas

Confira o trailer:

 

 

Resenhas

#34| De volta ao começo: o dia em que a minha terra parou de girar

Devia ter notado, mas não notei. Como quem anda parcialmente vendado, cercado de velas que permitem o vislumbre de pedaços, mas sem claridade o suficiente para ver no todo.

O primeiro sinal de que havia algo muito errado com Will, aconteceu no dia que fui à consulta. No regresso, encontrei-o adormecido no sofá. Tirei a máscara do rosto, tomei um banho, mas ele continuou lá, serenamente adormecido. Havia um papel quase amarfanhado na sua mão. Apertava-o como quem segura um tesouro. Com cuidado, retirei-o para ler:

Linan, quando a dor vier, teremos que arranjar outra forma. Não podemos guiar, há uma razão para…”

– Estavas a escrever-me uma carta, Will? Um poema…?

Reerguendo-se do sofá, inchaço flagrante nos olhos, dobras bem no alto da testa, respondeu com desdém:

– Poema? – e atirou um olhar perdido para o papel – não lembro.

– Não lembras? Parece que tentavas dar-me um recado…

– Droga, Linan, se disse que não me lembro é porque não lembro, devo ter adormecido, nem sei o que é isto!

Perante o meu silêncio, desbobinou a frase que já se havia tornado habitual nos últimos dias:

– Desculpa. Ando muito tenso vida, desculpa.

Os sinais foram acumulando, de forma evidente, mas mesmo assim, a verdade continuou a escapar-me das mãos. No dia do meu aniversário, por exemplo. Enquanto deliciava-me de uma fatia de bolo, Érica surgiu na sala, pálida como se estivesse doente, e puxou-me depressa pelo braço.

– Mãe… o pai está a chamar-te. Ele está muito esquisito…

Céus, que desordem. Havia ferramentas espalhadas por todo o lado da cozinha, pegadas de lama pelo chão. Ao pé da bancada, Will segurando uma grande faca, as mãos e rosto cobertos de fuligem.

– Will? O que é que se passa?

Ele pestanejou.

– Will?

Então, deixou a faca cair. Voltou a cabeça para baixo, admirado com o cenário, com o seu próprio aspecto.

– Will?

Seus olhos brilharam de pavor.

– Oh não… Linan… – tive impressão de ia chorar – preciso estar só.

– Will, vá lá…

Queria que ele se abrisse, mas acabou por fechar-se no quarto, durante um bom par de horas. Apavorado, acreditava que por causa dos repentinos ataques de pânico, dos lapsos de memória, era um perigo para nós. Quantas vezes a noite desceu, e a cabeça deste humano voou solitária para terras amargas, rondando as suas angústias, deixando-me no escuro. Vivia atordoado, em busca de certezas de que a sua mão aguentaria mais uns segundos sã, para tocar o amanhã. Não é possível dividir a vida dessa forma, vivendo com um pé no presente e outro futuro. Viver assim, é quase como ter metade do coração no ritmo, e outra metade parada. Porquê, Will?

Todavia, foi só no dia seguinte, que entendi os porquês. Após a ignição que se desencadeou dentro do meu ventre. Como não percebi antes, o que estava por vir?

– Respira, meu amor, respira – pedia-me ele, carregando-me ao colo. – Ajuda a mãe minha filha, ajeita a cabeça dela…

– Mãe…

Apelei com um gesto vago de cabeça e ela logo compreendeu.

– Ok, eu sei, vou ficar em casa, mas a orar por ti, eu amo-te… mãe!

– Estou bem, meu amor, estou bem…

Segurei-lhe a mão por um instante, antes de Will fechar a porta e acelerar o carro.

Por mais que ele tivesse se esforçado para levar-me ao hospital e manter-me salva, não foi possível manobrar nas rodas da viatura a tinta indelével que ditaria o infalível destino. O céu incendiou-se e desabou por cima de mim, como a cortina do palco que desce no último acto de um actor. Um camião sem freio decidiu atravessar e esmagar o lado esquerdo da viatura, exactamente onde eu estava, marcando assim, o minuto em que a terra debaixo dos meus pés, parou de girar.

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Imagem: Pinterest

Outras maravilhas humanas, Resenhas

|Maravilhas humana| Txopela de Stewart Sukuma

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Imagem: SapoNoticias

No imaginário infantil, no trópico de Capricórnio, txopelar nunca foi, tão só, uma aventureira e arriscada viagem de alguns segundos ou minutos. Muito pelo contrário, é a realização de sonhos que exorcizam vontades recalcadas. Noutros tempos, as crianças se penduravam nos taipais dos Land Rover, dos Bedfords e Ifas, até nas bicicletas se boleiam aproveitando a distração do pedalante, para provarem ao mundo a sua agilidade e destreza.

A modernidade transformou os veículos, mas nunca o sentido da aventura. Hoje, txopelamos em chapas de outras latitudes. Carroçarias empilhadas e a determinação de uma vontade que perdeu a ingenuidade. As emoções e os prazeres, não se algemaram no tempo e, testemunham a sua longevidade. A verdade foi sempre a filha do tempo e a sabedoria a filha da experiência. Txopelar combina o espelho da alma para dar sentido as vivências e experiências de Stewart Sukuma.

A janela da alma habita no intelecto e, lá se encontram os sentidos. Todos ou alguns. Mas, só o cérebro percebe o que é transmitido pelos sentidos. As imagens, ainda assim, viajam no sentido inverso. Muito antes de qualquer transmissão, revelam a plenitude da natureza e a graciosidade de uma mulher miscigenada. Estas as imagens que combinam à memória, à sensualidade e a luta de um povo, de várias gerações, o clamor pela vida e pela luz, a força de todos estes tempos e outros que ainda estão para chegar.

Assim, como uma canção harmoniosamente bem tocada proporciona um prazer efêmero, uma imagem expressiva, abre as portas para um mundo de sonhos. A ideia pareceu simples. O tempo amadureceu e o txopela se reconfigurou. Ganhou sua identidade e transportou milhões de seguidores. Txopela deu boleia a lusofonia e entrou pelas nossas casas desregradamente. Ninguém desgostou. Pelas telas se transformou numa colmeia de abelhas que se deliciaram de um mel que soube a pouco. Agora regressa à conta-gotas.

Ainda juvenis aprendemos que as imagens são irmãs dos sons agradáveis. Esta aula deve ter interessado sobremaneira ao Stewart Sukuma. Ainda tacteava o seu mundo, o seu espaço. A adolescência empurrou para o sentido da audição. Privilegiou o que mais mexe com os corpos e menos com a mente.

Sukuma foi o promotor do txopela. Internacionalizou uma das expressões mais acarinhadas do país. Txopelando a tecnologia e a beleza genuína da paisagem e suas histórias, articulou como ninguém, o que de melhor este país teria para oferecer.

A música e as imagens, em movimentos ou fixas, são feitas para dar vida e harmonia ao tempo. O bom músico tem dois propósitos. Fazer da vida dos que escutam um tempo mais agradável e, pintar no nosso imaginário o txopela das emoções. O verdadeiro sentido da harmonia reside nesta combinação e seleção do que de melhor o nosso país pode oferecer.

Txopela palmilhou o país de lés-a-lês. Porém, perdeu-se de amores na Ilha dos poetas. Aqui neste espaço-tempo território onde as pétalas tem sabor a maresia, os espíritos desgrudam-se de árvores centenárias, escritores vendem suas almas e, os temperos, enfeitiçam visitantes desavisados. Muhipiti, também, vive txopelada nas ondas de uma onda que aquece o Índico.

Somos todos insulares e nos refugiamos no continente, procurando uma clave de sol que ficou tatuada na memória das paredes das imagens espalhadas pelos nossos corações. Vivemos txopelados pela modernidade de cores e luzes, de um vento que soprara para todo o sempre. Estas imagens são uma cumplicidade de sentimentos, de panorama da qualidade do mais moderno écrans televisivo, misturando em única imagem, o passado, presente e o futuro de forma exuberante.( X)

Jorge Ferrão

Desabafo de uma qawwi

#33 | De volta ao começo: vamos abrandar

Woman meditating

Imagem: Zeenedout

Vamos humano, desacelere o passo. Não é imperativo manter-se em pé, quando as pernas querem fraquejar. De outra forma, por quê haveria tanto medo? Há muitas horas no dia, para organizar a aula online das crianças, tratar as tarefas domésticas, partilhar a foto do pão caseiro no Instagram, e executar aqueles vinte burpees de modo a manter o físico.

Sim… há muito por fazer. E o muito será feito. Mas às vezes é importante não fazer nada. Sente-se aqui comigo, diante das estrelas. Podemos ser os dois, perfeitamente incapazes, diante destas águas? Não, não há nada de errado nisso. Em deixar-se apenas flutuar. Respirar, sem tencionar nada além. Meditar, sem pretensões de atingir o nirvana. Há que deixar-se ser atropelado por esta frente de emoções, sem protestar. Apenas sobrevivendo, tão simplesmente, sobrevivendo.

Afinal de contas, nenhum humano quer morrer, não é verdade? Mas de nada vale lavar tantas vezes as mãos, se não lavar e tirar os vírus da alma (e acreditem, haverá um dia em que as almas vão durar). Que se evaporem todos os egoísmos e exclusões, e se conjuguem todos os verbos e sinónimos do bem-querer.

– Mãe…! Oh, mãe…! Depois da morte, para onde vamos? Fazemos mesmo a transição para a tua casa, reino Stefanotis?

Pronto. Eis um pensamento que não me apetece ruminar esta noite. Will, todo sorumbático, lança-nos um olhar curioso e ajeita a régua sobre a planta, observando-me lidar com os questionamentos da filha.

– Não vais morrer, meu anjo, não tens de pensar nisso.

Érica franze os lábios. A frustração prevalece no seu terno olhar.

– Então até quando ficaremos fechados aqui dentro? Tenho saudades da escola, dos meus amigos.

Pobre Érica. Humanos não são humanos, sem outros humanos.

Não acreditem muito nas promessas de que o vosso planeta vai mudar. Já vos conheço tempo o suficiente para saber isso. Todavia, algumas coisas serão diferentes. O conceito de fronteiras resistirá, embora vocês passem a perceber que na verdade, elas não existem. Assistirei a minha filha ir ao cinema com os amigos, pelas plataformas da internet. E quando tudo isto passar, os seres humanos terão descoberto outras formas de amar. Mais do que hoje são capazes. E para que perpetue na consciência esta dura marca, será instituído um feriado, um dia por ano, para as pessoas ficarem em casa, reconectadas com o Universo.

– Não é só por ti que tens que ficar em casa, meu amor. É pelos teus amigos também, de quem tanto gostas. E olha que nem todos os seres humanos têm essa possibilidade. Há pessoas que tem que ir à rua, para cuidar das outras. Há quem tem que ir à rua, para poder sobreviver. Temos que ser responsáveis, pensar nessas pessoas, pensar em ajudarmo-nos e cuidarmo-nos, sempre. Vai lá ao WhatsApp, liga aos teus amigos, diz-lhes que tens saudades. Eles vão gostar de saber.

Os olhos dela cintilam, enquanto mete os auriculares aos ouvidos e agarra-se ao telemóvel.

– Ok, mamã.

Ah, minha pequena humana. Que nunca te esqueças, nunca desaprendas, a tocar as cordas destes grandes instrumentos musicais. A solidariedade e a amizade, universais em qualquer trilha da vida.

Will finalmente pousa as plantas e a régua, arrastando-se de seguida para o quarto. Está derrotado. Este ser humano não sabe abrandar. São muito afiadas as garras da angústia que cravaram a sua pele. As propinas da Érica, os deadlines da empresa, a dispensa vazia, os cuidados para não contaminar ninguém depois que volta da rua, a minha gravidez de risco, a falta de ciência sobre o assunto, o medo de perder a família. Will mergulhou, enfim, em profundo estado de ansiedade. O que eu devia ter percebido, porém, é que o seu ar abatido devia-se à outra coisa. O elemento que o atormentava era bem mais elevado do que a simples ansiedade. Era algo assustadoramente extraordinário, frio como a solidão. Apavorante, para dizer a verdade.

Lançamentos!, Livros, Opiniões

Literatura| Contos e crónicas para ler em casa Vol. II – Antologia | – Opinião

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Autores: Armindo Mathe, Baptista Américo, Énia Lipanga, Ganhanguane Masseve, Herminia Francisco, Izidro Dimande, Jaime Munguambe, Jessemusse Cacinda, Mauro Brito, Miguel Luís, Miller Matine, Nelson Lineu, Pretilério Matsinhe, Sadya Bulha, Sandra Tamele, Sara Jona, Tassiana Tomé e Teresa Taímo

Coordenação: Eduardo Quive & Mélio Tinga

Edição: Abril de 2020

Revista Literaturas

Baixe e leia o livro Aqui

Opinião

Esta antologia, que conta com a curadoria de Eduardo Quive & Mélio Tinga, é um projecto da Revista Literatas, idealizado para estimular aquela que é uma das principais aliadas nesta época de isolamento social: a leitura. O projecto decorre da publicação de um primeiro volume, bem recebido belos leitores, que em pouco tempo ultrapassou a faixa dos 1.000 downloads (encontre o primeiro volume Aqui).

Nós do diário de uma qawwi, tivemos a oportunidade de conferir os 18 contos e crónicas, de autores moçambicanos, neste segundo volume, todos eles singulares e provocativos, agregando no seu conjunto uma diversidade de temas e sentimentos. Passamos a explorar brevemente alguns deles, sem seguir necessariamente uma ordem cronológica:

Madala” (de Armindo Mate) é um texto leve, familiar, que irá relembrar as nossas vivências.

Ao longo da antologia encontramos ainda temas como a violência doméstica e relacionamentos abusivos, em “tu não vais sair de casa com essa roupa, minha mulher não pode vestir assim” (de Énia Lipanga); idas e vindas, perdas, e complexidades das relações afectivas em “o silêncio cintilante”, “a cábula” e “o que somos nós então”, de Hermínia Francisco, Isidro Dimande e Miller A. Matine, respectivamente.

Também encontramos reflexões sociais em contextos mais actuais, como por exemplo a crónica “um corpo crivado de balas” (de Jessemuce Cacinda) e “a revolução não será viralizada: assuntos domésticos e afectivos” (de Tassiana Tomé).

A sátira espelhada no rosto da nossa sociedade faz-se presente em alguns textos desta antologia como “o anão sobressalente” (uma brilhante proposta de Mauro brito), “há muitas lágrimas nos olhos de Sua Excelência” (de Miguel Luis) e o “bicho bicha” (de Nelson Lineu). Estes textos irão certamente trazer algum calor aos leitores, após as gargalhadas.

E que tal uma história de época, em “estilhaços, memórias de um combatente” (de Pretilério Matsinhe), uma descontraída reflexão sobre as consequências da nova tecnologia no quotidiano, em “Minuto 76” (de Sadya Bulha), ou ainda, uma incursão pela tradição oral, onde muitos irão identificar as suas próprias raízes, em “histórias com sabor a misericórdia: dar atenção aos antepassados” (de Sara Jona)?

A antologia traz ainda “fenestrada” (de Sandra Tamele), um conto de estilo bastante elegante na sua concepção, repleto de referências do mundo artístico; e “o meu “Surge et. ambula” em Chibuto” (de Teresa Taimo), um texto honesto, leve, que reflecte a realidade das redes sociais e que irá identificar muitos de nós. Este conto tornou-se um dos nossos favoritos, ao lado de outros acima mencionados.

A capa do livro e a diagramação são satisfatórias, embora visualmente a arte gráfica do primeiro volume pareça atrair mais a atenção do leitor. Nota-se pequenas gralhas na revisão de um ou outro texto, mas nada que atrapalhe a leitura prazerosa oferecida neste belíssimo projecto.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas