Livros, Opiniões

Literatura|”O barrigudo e outros contos” – Hélder Muteia”|- Opinião

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Título: O barrigudo e outros contos

Autor: Hélder Muteia

Editora: Alcance, edição de Maio de 2018

Opinião:

 A primeira vez que entrei em contacto com a escrita de Hélder Muteia foi no livro “Nhambarro, contos e crónicas”. Passam-se muitos anos e não lembro com precisão do seu teor (há não ser, talvez, o tom humorístico de alguns dos textos). Todavia, retive uma boa impressão. Foi por isso que busquei esta nova obra com grande expectativa.

O livro reúne cerca de trinta títulos. Ao contrário do que aconteceu com Nhambarro, esta obra remeteu-me à um sentimento mais melancólico do que qualquer outra coisa, pois o autor retrata de forma quase que exacerbada a dor e o sofrimento, com desfechos trágicos, um após o outro. Tirando esse senão, é uma leitura leve e rápida. A escrita do autor é agradavelmente acessível. Passo inclusive a citar Susana, uma moça simpática que estava no cabeleiro e que pediu-me para espreitar o livro. Leu um dos textos e comovida comentou: “é muito sentimental. Fala do nosso dia-dia”. Se não é função de um texto comunicar de forma emotiva com o leitor, então qual é?

Além de mostrar fragmentos do quotidiano e da realidade do país, alguns dos textos levam-nos a reflectir sobre circunstâncias problemáticas do nosso meio e a postura que adoptamos perante tais circunstâncias. Exemplos disso nos textos “se os homens fossem bons” (que aborda o fenómeno do linchamento), “a menina das pedras” (a história de uma criança que, como tantas outras, tem que trabalhar para poder estudar e sustentar a casa), “midinho” (a história de uma criança de rua), e “o homem feio” (retrato de intolerância / falsos padrões da sociedade).

Como leitora, também pude sentir diferentes nuances ao longo da obra. Os textos reservados para o fim são mais sólidos, com “Cármen” e “Balada para Susana” ricos em detalhes e imagens, a dialogarem connosco de forma bastante mais profunda, em comparação aos outros. De forma geral, apreciei a obra. A capa tem boa textura, arte minimalista que cumpre o seu objecivo. Diagramação satisfatória.

Sobre o autor: Hélder Muteia é membro fundador da AEMO, membro fundador do movimento literário Charrua e ocupou vários cargos no governo de 1994 a 2004. Desempenha actualmente funções de coordenador da FAO (ONU) para a África Central. Tem vários títulos publicados e obras traduzidas em inglês, francês, espanhol, italiano, russo e sueco.

A nossa pontuação: 3,8 em 5 estrelas.

(Por VF – da tripulação)

Livros

Literatura|”A triste história de Barcolino” – Lucílio Manjate|- Opinião

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Edição: 2018; Editora: Cavalo do Mar

Sinopse:

“A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer, é uma novela sobre um pescador que desaparece nas águas do Índico e retorna, inesperadamente, à sua comunidade, assombrando a todos. Ninguém sabe se ele é um morto disfarçado de vivo ou um vivo que se faz de morto.”

Opinião:

A capa e a diagramação do livro (Ed. Cavalo do Mar) estão impecáveis e tornam a leitura prazerosa. A propósito disto, uma pausa para estender uma saudação à Editora Cavalo do Mar pela qualidade no acabamento dos livros que tem estado a produzir. Voltando ao tema, a novela é ambientada na praia da costa do sol e no bairro dos pescadores, transformados num mundo fantástico, onde se reúnem os personagens (os vivos, os mortos e claro, os indecisos). Nesta obra, Lucílio Manjate retrata a morte, a dor e os mitos à volta do mar. Há uma trágica beleza, talvez até cómica, nas reflexões do narrador. Eis algumas passagens:

“Naquela noite levei Barcolino à minha casa. É óbvio que estava com medo. Como se hospeda um morto? Mas aquele não era um morto qualquer, não era um morto desconhecido. Era o tio Barcolino.”

“A paixão é uma ilusão, mas a única que nos concede o direito de sermos autênticos.”

A escrita de Lucílio não só é original, como também inundada de alma. O único senão desta obra, a meu ver, é a sua brevidade. Entendo que esta seja uma característica das novelas, mas neste caso, a história de algumas personagens (todas elas caricatas e complexas) podia ter sido um pouco mais aprofundada. Como leitora gostaria de ter conhecido melhor, por exemplo, o próprio narrador, personagem que deixou-me curiosa. Fiquei também numa espécie de limbo com relação a situação do protagonista Barcolino, mas creio que tudo isso tenha sido propositado pelo autor, que quer fazer-nos reflectir sobre alguma coisa. Em resumo, é um óptimo livro, leve, por isso recomendo-o.

Sobre o autor: Lucílio Manjate tem uma vasta obra em prosa, ensaios e infanto-juvenil, com destaque para “Rabhia” (Edições Esgotadas, 2017 e Prémio Literário Eduardo White), “A Legítima Dor da Dona Sebastião” (Alcance Editores, 2013), “Os Silêncios do Narrador” (AEMO, 2010 e Prémio Literário 10 de Novembro), entre outros títulos.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(por VF – da tripulação)

Livros

Literatura |”Mundo Grave” – Pedro Pereira Lopes – Opinião

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Edição: Março de 2018
Editora: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, S.A

“As férias do inspetor especial, Costley Liyongo, decorriam serenamente na cidade de Inhambane, quando um telefonema do diretor da polícia de investigação criminal lhe deixa claro que, devido a uma emergência, era forçosa a sua comparência no serviço.
Num velho prédio, outrora uma espécie de hotel barroco, uma prostituta tinha sido assassinada. Este será o ponto de partida para uma investigação que se irá adensando à medida que os homicídios se sucedem e ganham contornos fantásticos”.

“Ao ler este livro impôs-se-me a pergunta: como é que um praticante de haikus produz esta narrativa crua, de uma pulsão declarativa, implacável como o gume isento de vergonha do sangue que fez correr?” – António Cabrita – in contracapa de mundo grave.

Com uma trama muito bem interconectada, este livro é indispensável para o leitor amante de um romance policial. O mistério submerso entre as páginas é electrizante e o autor tem uma habilidade ímpar de criar personagens complexos. Vamos rir, ficar perplexos e por fim ter pena de Azevedo Marroquim. Por outro lado, o protagonista da trama, Costley Liyongo, é uma peripécia de investigador, ferido por um passado trágico, e cheio de falhas. Mas assim também são os humanos da vida, umas vezes repletos de luz e outras de escuridão. Os temas sobrenaturais e alguns assassinatos durante a trajectória da história, são tão intensos que em ocasiões lembram as cenas de terror de Stephen King. Poderão assustar um bocado, mas a descrição e a escrita de Lopes são tão elegantes e arrebatadoras, que valem a pena o susto. A leitura é dinâmica e flui depressa. Comecei o livro numa manhã de viagem e só parei quando o terminei, no dia seguinte. O desfecho é um tantinho previsível, mas nada que tire o estupendo mérito da obra.

Vale ressaltar que este livro foi vencedor da 1ª edição do prémio literário Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM)/Eugénio Lisboa.

Sobre o autor: Pedro Pereira Lopes nasceu na Zambézia, em Moçambique, em 1987, é contador de histórias e poeta, fundou a revista digital de literatura Lidilisha e o “Projecto Ler para Ser” e é vencedor de diversos prémios literários.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

(por VF – da tripulação)