Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.
Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.
Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.
Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.
Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.
Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.
Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.
Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.
Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.
Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.
Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.
À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.
O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.
Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.
Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.
Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.
Um livro é uma viagem; e um livro de poesia é uma viagem para um destino incerto. Ao ler Vestígios do Silêncio perpassam-nos muitas ideias- às vezes contrárias umas das outras- mas, a profundidade mostra-nos um abismo que, adentrando nele, acabamos perdendo-nos. Parafraseando Nietzsche: “não se olha tanto tempo no abismo sem se tornar, por consequência, num outro abismo.” É nessa aventura abismal que nos sentimos quando lemos os poemas curtos, outros com apenas uma única estrofe de Amosse Mucavele, em Vestígios do Silêncio, publicada pela primeira vez em 2022.
A obra, longe de ser um conjunto de poemas colocados arbitrariamente, assume uma posição de melancolia – não há réstias de esperança em cada palavra impressa a preto no papel branco. Saímos do desespero, passamos por saudades carregadas pelos ecos do silêncio, adentramos na profunda solidão que cai dos céus de forma sólida, quando lhes dá atributos de “granizos”, e chegamos também na vila “dos que amam a morte”. A cada fim de um verso julga o peito que há nessas linhas, um mundo ainda por se (re)descobrir, onde as palavras parecem efémeras.
As 52 páginas do livro dividem-se em quatro partes indistintas. Primeiramente, as composições têm nomes de lugares e infra-estruturas, mas essas têm aspectos de vivo, com alma e espírito. Tais lugares e infra-estruturas ora são abatidos pelo silêncio da saudade ora são combalidos pela “fria solidão”. Esse desviar do lamento do Eu lírico para objectos com sentimentos, memórias e sonhos, não nos impede de reflectir em nós mesmos as dores do “Fragmento de um suicídio”, onde nos remete a questão da “extinção” que será volátil ou mesmo da “ternura da corda que incendeia a ausência”.
As partes todas são acompanhadas por fotografias com um aspecto sombrio, e um sinal claro de “silêncios”. Adentrando nas fotografias, estendemos o significado de silêncio, que é a ausência de barulho (som), para ausência de almas e de vida. A ausência, o vazio, o abandono são imagens que nos ocorrem na cabeça. Essas imagens de ruínas, definham os nossos sentimentos e, apoiando-nos a esses sentimentos, experimentamos o silêncio e o vazio que nos preenchem os espaços que partilhamos com os outros.
A primeira parte é “Variações Sobre o Mapa”. Além do “Fragmento de um Suicídio”, também visitámos a “Fábrica Braço de Prata”, que também se silencia no “corpo do abandono” e chora “’os retalhos da decadência”.
Depois segue-se “Das Ruínas vê-se o Mundo”. Com palavras e versos, faz-se um rememberthetime da Vila do Algarve I, II, III, mas também temos o Cinema Império, que se “desola à beira de um país”. Depois desse capítulo temos a “Elegia da Ruína” e, no fim, temos “Construções Ocultas”, que no lugar de serem erguidas vão-se ocultando no silêncio, ou nas cerimónias fúnebres do tempo, ou até na destruição de um edifício, ou de nós mesmos.
As metáforas usadas são complexas e eruditas, dificultando a compreensão do texto na sua integridade. Então, de que integridade se deve trajar um poema? Para quê se explicar um poema? Ela só é útil quando lhe dá um soco no estômago, e deixa cair a máscara como escreveu Hilda Hilst (in eu sem poesia). E isso nos parece, na verdade, cada verso que lemos, uma boa bofetada na boca do estômago.
A linguagem nos remete sempre a um sonho, um lugar onde o onírico encontra-se com a realidade. Mas, como casamento entre o consciente e o inconsciente de Freud, a realidade perde suas forças, e é engolida pelo sonho. A forma como junta as palavras criando versos loucos e doentes, mostra muito desse seu lado embriagado de ser.
Amosse Mucavele trouxe-nos um escrito com um outro sentido de poesia, aliás, muito mais poético. Diz sem dizer. Nesse pequeno livro tudo é embriagado. A primeira leitura é enganosa, a segunda aterra-nos sem segurança, e é na terceira onde enxergamos, com olhos já doentes, os vestígios de silêncio.
I would like to make a film to tell children it’s good to be alive.
Hayao Miyazaki
Um dos aspectos mais marcantes das infâncias que foram, que são e que virão a ser de qualquer ser humano são, sem dúvidas, os desenhos animados. Aquelas cores, os movimentos desafiadores da física, os sons engraçados, as piadas que nos faziam e ainda fazem-nos contorcer à gargalhadas despertando nostalgia, são das memórias mais agradáveis que qualquer ser humano pode ter. Ainda, fazem-nos dizer que a vida vale a pena. Porém, nem todos os desenhos animados que marcaram a nossa infância tinham um carácter educativo e dignos de serem assistidos na presença dos pais; alguns contêm até piadas compreensíveis a partir de certa idade. Mas, nos últimos anos, as produções de séries animadas têm almejado alcançar um vasto público composto por espectadores de várias faixas etárias que podem desfrutar em família de uma série animada mais envolvente.
A série animada Bluey, criada na Austrália pelo animador, realizador e roteirista Joe Brumm, rapidamente se destacou como uma das produções infantis mais aclamadas da actualidade. Lançada em 2018, transmitida pela ABC Kids, na Austrália, CBeebies (o BBC da pequenada), no Reino Unido e Disney Júnior Porto, em Portugal, a série é centrada na personagem homónima Bluey, uma cachorrinha da raça Blue Heeler, que vive com sua família em Brisbane, na Austrália. A narrativa é simples, minimalista mas cheia de nuances, abordando temas como a importância da imaginação, a dinâmica familiar e o crescimento emocional a cada episódio.
Um dos pontos mais fortes de Bluey é sua habilidade em capturar as complexidades das interacções familiares e sociais. Cada episódio, com uma duração de 7 minutos, aborda situações quotidianas que reflectem a vida real das crianças e suas famílias. Desde brincadeiras no parque até conversas sobre sentimentos, a série apresenta lições valiosas sobre empatia, resolução de conflitos e a importância de brincar. A trama é sempre envolvente, equilibrando humor e aprendizado de maneira leve e acessível aos espectadores.
A série também se destaca por sua representação diversificada. Bluey e sua família são representações fiéis da sociedade global contemporânea, mostrando uma variedade de famílias e culturas. A presença de personagens secundários com diferentes características sociais e étnicas contribui para uma narrativa inclusiva, permitindo que muitas crianças se vejam reflectidas na tela. Essa diversidade não é apenas visual; os roteiros também exploram diferentes dinâmicas familiares, promovendo uma visão mais ampla das experiências infantis.
A animação de Bluey é um outro aspecto considerável. Com um estilo visual vibrante e colorido, a série utiliza uma paleta que capta a essência da infância. Os cenários são detalhados, proporcionando um ambiente rico que estimula a imaginação. A direcção artística, sob alçada da Ludo Studio, combina simplicidade e expressividade, fazendo com que as emoções dos personagens sejam facilmente compreendidas pelo público infantil e adulto. Essa estética visual, aliada a uma trilha sonora encantadora, contribui para a imersão dos espectadores da série.
Um dos maiores triunfos da série animada é sua capacidade de tocar em temas universais que ressoam tanto em crianças quanto em adultos. A série não hesita em abordar emoções complexas como a frustração, a tristeza e a alegria em contextos que os pequenos conseguem entender. Episódios como “Sleepytime”, onde a Bingo- irmã mais nova da Bluey- enfrenta a dificuldade de dormir e, auxiliada pela Mãe, a série traz ao de cima a ansiedade e a necessidade do apoio da família. Essa abordagem permite que pais e filhos assistam juntos, gerando conversas significativas e momentos de conexão.
A recepção de Bluey é um testemunho de seu impacto na cultura contemporânea. A série foi amplamente elogiada por críticos e educadores, recebendo diversos prémios, incluindo cinco AACTA Awards consecutivos de 2019 a 2023 e o International Emmy Kids Award em 2019. Seu sucesso não se limita apenas ao público infantil, pois muitos pais destacam a relevância das mensagens transmitidas, além de sua capacidade de ensinar valores essenciais e educativos enquanto entretêm.Bluey é mais do que uma simples série animada para crianças. É uma obra que combina humor, empatia e aprendizado de maneira excepcional, conseguindo atingir tanto o público jovem quanto os adultos que a acompanham. Sua abordagem sensível e inclusiva aliada à qualidade da animação e aos temas universais que aborda, fazem dela uma referência no género. Bluey não apenas entretém como também educa, tornando-se uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças. É uma série que merece ser vista e discutida não apenas por seu valor como entretenimento, mas também por suas contribuições para a formação de cidadãos mais empáticos e conscientes de si e do seu meio. Estes elementos tornam a sérienuma das maiores obras-primas da animação infantil no século XXI.
“Agora me tornei a Morte, a destruidora de Mundos”
Bagavadeguitá
“Cometi um grande erro na minha vida quando assinei uma carta ao presidente Roosevelt, recomendando que as bombas atómicas fossem feitas.” Albert Einstein
“Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu ao Homem. Por isto, foi acorrentado a uma pedra e torturado para a eternidade.”É com este excerto, de um dos mais conhecidos mitos gregos que começa o maior evento cinematográfico de 2023: “Oppenheimer”, realizado pelo cineasta anglo-americano Christopher Nolan, adaptado do livro American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, de Kai Bird e Martin J. Sherwin.
Trata-se de um filme que, embora necessário para o debate em torno do cenário global actual perante a indústria bélica, empreendida no fabrico de armas nucleares é, fundamentalmente, como o título sugere, uma submersão na psique do seu protagonista Julius Robert Oppenheimer, então físico teórico americano, vivamente interpretado pelo actor irlandês Cillian Murphy. Através dele, seguimos a trajectória de Oppenheimer, partindo de um jovem conturbado e estudante de química em Cambridge a um empenhado físico doutorado em Gottingen, determinado a realizar as suas ambições científicas. Numa narrativa paralela entre passado e presente, somos submetidos a experimentar, na primeira pessoa, a degradação psicológica de um homem convencido de saber o que fazia enquanto dirigia o seu remoto laboratório em Los Alamos, EUA.
A bomba atómica torna-se num coadjuvante ao longo do filme e, em algum momento, para-se de prestar atenção na bomba em si, e foca-se no próprio Oppenheimer. Uma observação curiosa, nos primórdios da civilização humana até a idade média, antes da descoberta da pólvora pelos chineses, que viria a revolucionar o fabrico de fogos de artifício; ou de Alfred Nobel inventar o dinamite, as guerras eram então universalmente combatidas corpo-a-corpo, com recurso ao que formalmente chamam de armas brancas: espadas, flechas, lanças, machados, etc. E, em meio as atrocidades sangrentas cometidas pelo Homem ao próprio Homem, ainda não havia surgido a ciência humana que estudaria os efeitos mentais da guerra. Ou seja, e digo isto de forma quase cómica, os vikings, por exemplo, assim como os romanos, ou uma outra civilização que se achava no direito de se sobrepor a outra, invadiam territórios, matavam homens, estupravam mulheres e tomavam estas e suas crianças como suas escravas ou as matavam. Mas, não se pode provar que o Homem destes tempos, após cometer tais atrocidades, voltava psicologicamente transtornado. Pelo contrário: celebrava! Fazia-se um banquete e tocavam-se instrumentos, vangloriando a proeza dos homens que voltaram sujos de sangue e victoriosos.
Oppenheimer provavelmente nunca esteve em território japonês quando em vida. Mas, após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi tomado por um remorso que, depois de um discurso vazio sobre o sucesso das explosões, ao ser convidado a casa branca para celebrar com o então presidente Franklin Roosevelt, interpretado por Gary Oldman de forma sublime, não hesitou em proferir as palavras que confirmaram o início da sua degradação mental: “Sr. Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos…” ao que o presidente respondeu, friamente: “Tu achas que Hiroshima ou Nagasaki se importam de saber quem fez a bomba? Eu é que deixei cair a bomba, não tu!” Prometeu, na mitologia grega, deu o fogo ao Homem, impulsionando o seu desenvolvimento mas, será que ele, acorrentado a uma pedra com a águia de Zeus a lhe comer o fígado eternamente, estará arrependido? Será que está alegre com o que a humanidade fez com o fogo?
Em uma de suas conversas, Albert Einstein levanta a seguinte pergunta: “O homem inventou a bomba atómica. Mas, me diz que rato no mundo construiria a própria ratoeira?” Bem, com o fogo o Homem também acendeu o cigarro e J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, após dar à humanidade o maior empreendimento do fogo que o mundo já viu, foi morto por uma porção deste fogo na ponta de um cigarro, com um cancro na garganta.
A actuação do elenco de elite deste projecto ambicioso de Nolan prende a quem assiste durante 180 minutos que passam em contáveis piscares de olhos. Para além do personagem homónimo e director do laboratório de Los Alamos, notam-se papéis marcantes da esposa comunista e obcecada Katherine Oppenheimer, interpretada por Emily Blunt, a femme fatale Jean Tatlock, psiquiatra e também comunista interpretada por Florence Pugh, o general e engenheiro do exército Leslie Groves, interpretado por Matt Damon, que dirigiu o Manhattan Project e Lewis Strauss, membro de topo da Comissão de Energia Atómica dos EUA. A direcção cinematográfica do colaborador frequente de Nolan, o holandês-sueco Hoyte van Hoytema, é de despertar um encanto visual e ambicioso, sem mencionar a excitante trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que nos possui a medida que compreendemos a aplicabilidade da física e o seu lado obscuro. Oppenheimer não é apenas um filme: é um evento histórico no cinema dos últimos dez anos, desde a virada para o século XXI e revelante para o debate sobre o cenário político e científico global.
Denilson Monjane
SOBRE O AUTOR
Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.
“Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).
A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.
O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.
Juno em Kansas (1856)
No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.
Anna na Cidade do Cabo (1961)
Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.
Elvira em Maputo (2001)
Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.
Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.
A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?
A grandeza dos anseios do ser humano levou, ao longo da história, a sua criação de forma mais poderosa, de forma a adquirir força para tudo, saber o indecifrável sobre os enigmas da vida, estar em qualquer lado e, acima de tudo, a benevolência que é raridade entre a humanidade. Languana, de forma magistral, estampa nas nossas caras a obsessão com o ‘além nós’ na obra “Esmola”, aguarela sobre papel com as dimensões 55 x 68 cm, ano 2024. Esta obra faz parte da exposição “Jardins de sonhos”, inaugurada no dia 03 de Julho de 2024, na Fundação Fernando Leite Couto, e que esteve em exibição até 03 de Agosto do corrente ano.
Languana (n. 1972) pintou-nos as vistas com as suas aguarelas mágicas que revelam muito mais do que o formalismo artístico. Uma exposição recheada de cores que reverberam nas almas dos espectadores, e são obrigados a uma jornada entre “Jardins e Sonhos”. Depois de consumidas as obras, despertamos de um profundo sonambulismo e questionamo-nos: onde estávamos?
Pela qualidade das obras, a textura aliada à leveza e translucidez, convém-nos especular que o artista tem Winsor & Newton como marcadores predilectos (o que só pode ser confirmado pelo próprio artista). A paleta de cores inclui skin tones, que personificam certas figuras. Temos, ainda, a ocean blue; o azul é a marca- parece- do artista. Contudo, usado nas medidas certas, sem o esbanjar. O berry red transparent e a neutral grey trazem profundidade adicionada.
A neutral grey está entrelaçada nas tonalidades cinzas e algumas aguareladas pretas, que podem significar desde ser negro até profunda melancolia, desespero e avidez de alguma “esmola”. Temos, ainda, um tom amarelo dourado ou golden yellow, que nos oferece possibilidades de degustação e interpretação distintas rasgando, numa primeira vista, o quadro em dois: talvez o material e a transcendência. Vêem-se dois planos separados por uma linha visível e ténue, porém forte o suficiente para deixar a marca de dualidade dimensional, sem que haja um ponto singular onde há interceptação. Isso é visível num quadro em que nem as mãos do pedinte transpõem o véu laranja, nem o pássaro, nem a face humana e nem os três grãos invadem o mesmo véu amarelo.
A mesma cor também parece uma incessante labareda: aquele laranja dourado arde nos nossos corações, provoca chama dentro das nossas almas. A terra, assim, revela-se incandescente. Ou por outra, a vida na terra está em brasa provocando um sofrimento perpétuo como se fosse o próprio lago do fogo.
O ser humano no mundo material está numa posição de consternação. A ausência de pés retratada na imagem simboliza o desmoronamento dum mundo, a falta de chão e o rastejar nesses espaços divididos com figuras que possuem formas estranhas, ou mesmo demónios. Além de cortados os pés, borra-se a face, oculta-se a identidade.
Ou será o caso de não ser um indivíduo e sim um colectivo, uma povo ou toda humanidade.
A figura humana representada na pintura apresenta mãos estendidas para o céu, pedindo esmolas aos seres sobrenaturais. A aguarelada traça um humano em súplicas, pedidos, talvez prantos, que conseguimos ouvir bem no fundo dos nossos corações, mesmo no silêncio das cores de Languana.
Do ponto de vista metafísico, caem as respostas em migalhas de pássaro. Estas caem do bico, e denotam a efemeridade em procurar alento em seres superiores para acabar com o sofrimento do mundo. Isso espelha a incessante luta em pedir a tranquilidade. Mas, na realidade, enganamos a nós mesmos porque a vida segue as suas correntezas que trazem sofrimento e dor, com pouca felicidade e bem-estar. Esse pouco é bem representado por três migalhas ou grãos de bonança.
A pomba geralmente representa paz e tranquilidade- talvez sejam grãos de paz e tranquilidade. O pássaro parece ser uma extensão da face humana, ou pelo menos conecta-se a ela. A face é a divindade na qual o humano vê-se como “medida de todas as coisas” (Nieztsche, 1886), significando que cria ele deuses à sua imagem e semelhança. Que Deus é esse? A pomba oferece identidade ao mesmo Deus da paz e tranquilidade.
“Esmola” presenteia-nos com essa dura realidade, tratando-se de dois mundos: o de sombras e assombrados, e o de paz e harmonia, revelada pela serenidade da face do divino; uma contradição presente. Entre apertos de chamas da vida, roga-se às entidades superiores por felicidade, mas ela sempre chega em migalhas, grãos que não chegam a saciar as dores do mundo.
O ciclo da vida continua assim: um eterno sofrimento possibilitado pela procura de um bem maior fora do próprio humano, uma felicidade transcendental que nos cai em migalhas- pequenas esmolas, na ilusão de um futuro totalmente tranquilo.
SOBRE O AUTOR
Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.
Eu sou uma espécie de comandante deste navio que se chama ‘Sob Placas Tectónicas’ e vou empurrá-los ao alto-mar desta história que cruza dois jovens: Bruno Mondlane e Denise Cossa e de lá vamos viajar em torno das peripécias que se fragmentam por hilariantes 30 capítulos que perfazem 218 páginas e algumas reticências. Sim, um livro robusto, não só pela quantidade de folhas, obviamente.
Estamos perante um romance, isso não vejo porquê esconder, é a coisa mais fácil de perceber logo que estamos diante do livro. Não pelo título obviamente, mas pela extensão do livro e sua mancha gráfica e quem mergulhar nele, claro, absorve o quão intensas são as estórias.
A trama é única e bem definida pela autora: o amor entre Denise e Bruno. Bom, dizer o amor já é complexo e profundo, tendo as febres que perseguem este sentimento, mas posso ir mais longe, porque Lilly Maxwell fala deste amor na sua própria dose, com as suas peripécias, que não são poucas; com os seus dramas, com os seus conflitos e circunstâncias de cortar o fôlego.
Vamos a história, por pouco tempo, claro: o livro apresenta-nos um casal de jovens, na emergência de uma fase adulta, embora coloque a Denise com dois anos a mais que o Bruno, sendo ele com 28 anos. Conheceram-se num bar, na noite de uma sexta-feira e um beijo fugaz no estacionamento marcou o encontro, antes de se reverem no trabalho da Denise, acidentalmente, quando este, empreendedor, ia prestar serviços que acabara de ser adjudicado. E o encontro circunstancial do bar transformou-se num propósito para Bruno, que via Denise se esforçando para fugir das suas garras e, quando acreditou que usasse o seu principal trunfo, o facto de não poder conceber, pudesse abafar as intenções do rapaz, eis que foi traída, pois ele continuava mais interessado que nunca, mostrando-a um perfil incomum e, mais do que isso, um senso amável e respeitoso pelas insuficiências do outro.
Na verdade, este é o motor para a condução desta história, é o enredo que o narrador usa para conduzir a narrativa.
Para além disso, há pequenos galhos de estórias que fazem a história maior, onde se narram peripécias, por exemplo, entre a irmã de Denise, Neide, com Jonas, amigo e sócio de Bruno, um amor de infância que sobrevive a tempestades.
A bebé que Denise encontra largada na rua, e que perde a chance de adopta-lá, também faz outro fragmento da trama, divide opiniões e sentimentos, acelera uma AVC na mãe de Bruno, dá as maiores transformações ao enredo, colocando Bruno a viajar para Beira por sete meses, mas também amputa crises entre as duas famílias.
Como se vê, Lily sugere-nos um livro sobre o amor, mas também sobre a vida urbana e convida-nos a atravessar na nossa própria rotina, marcada por nuances diversas, onde a família joga um papel crucial para nos levantar, bem como para nos arruinar; onde a amizade pode ser fundamental para o nosso crescimento profissional, mas também para um universo de intrigas, onde os ciúmes e a inveja são sentimentos que sempre desfilam a classe. A Lilly não deixa, entretanto, de cutucar alguns fenómenos sociais como a corrupção, ao confrontar uma assistente social que propõe adopções ilegais. E nisto, a autora propõe, também, a discussão da esterilidade, um tabu na nossa sociedade até aos dias que correm e motivo de adultério senão de separações.
Na verdade, a Lilly não nos mostra uma face diferente do que os outros livros e filmes de amor nos sugerem, apenas nos coloca uma visão local, onde é possível discutir os nossos próprios assuntos, as nossas próprias pessoas e os nossos próprios tempos. É um livro deveras actual, que se concentra no agora, ao descrever a cidade de Maputo como ela é, um bónus turístico ao leitor, que reconhece a baixa da cidade, exactamente às imponências da Rua dos Desportistas, às garagens humildes do Alto-Maé e o bairro da Polana. Ou seja, é um livro da cidade, de pessoas da cidade, de problemas da cidade, mas não uma cidade qualquer, uma cidade africana, onde o facto de não poder ter filho não está na moda, onde a mulher que se relaciona com um homem mais novo é vista como cobra, onde um empreendedor ainda não tem trabalho decente se não poder uma grande obra.
Este livro não deixa de exaltar e promover a mulher, colocando a Denise e a Neide, embora com uma renhida rivalidade em quase toda a narrativa, em posições empoderadas, sendo elas donas de si e dos seus percursos, sem qualquer dependência masculina.
Diríamos, sem qualquer dúvida, que estamos perante um discurso feminista – pois, no final, ele se impõe às tempestades machistas. É um narrador que conhece a mulher, e a sua descrição minuciosa não nos engana. É um narrador que se coloca na terceira pessoa, omnisciente, por isso nos oferece uma visão ampla dos eventos e sentimentos, percepções e opiniões. Usa uma linguagem informal, mesmo a nos convidar para um palco do cotidiano, das nuances diárias, tal como sugere esta narrativa. É um narrador que vale pelo seu poder descritivo, de locais, situações, sentimentos e atitudes, mas, mesmo assim, abre espaço para que o leitor identifique momentos através dos diálogos, bem cruzados, assumo, e, por isso, intensos.
É uma escrita continuamente convidativa, penetrante e enigmática, com uma voz certeira sobre assuntos femininos. Não é uma escrita difícil de digerir, tem as palavras soltas e com os seus significados destapados, mas rica em adjectivações. É um romance que nos deixa descobrir, mas não nos oferece tudo. E quando finalmente nos revela os factos, surgem novos paradigmas.
Este jeito de Lilly Maxwell contar-nos a história é singular, pois ela finge nos saciar, para, depois, nos apunhalar com verdades jamais imaginárias. Quem diria que os escritórios onde Bruno iria propor um projecto trabalharia a Denise? Quem diria que quem iria tirar a Denise da esquadra seria o seu pai? E quase todo o livro é revestido desse “quem diria”. É uma história que gira sob placas tectónicas, como o título nos sugere, ou seja, grandes blocos rochosos semirrígidos que compõem a crosta terrestre. A Terra divide-se em quatorze principais placas tectónicas, as quais se movimentam sobre o manto de forma lenta e contínua, podendo aproximar-se ou se afastar umas das outras. Lilly abusa desta metáfora de forma formidável, ao colocar o rebuliço entre os protagonistas como sendo uma placa tectónica. Aliás, A movimentação das placas resulta na formação de montanhas, fossas oceânicas, actividades vulcânicas e terramotos. E não é mais do que isso que esta obra nos mostra. É deveras interessante, porque não, que uma funcionária bancária busque um conhecimento da geologia para arrumar a sua trama e bem conseguido, porque, afinal, as placas tectónicas implicam tensão e potencial para causar grandes mudanças, a mesma tensão em que Bruno e Denise sempre sofreram e as mudanças que dela advêm.
“Quando Audrey e Nomssa ultrapassaram a distância que mantinham nos primeiros encontros, rompendo a barreira turva da indecisão – as suas conversas passaram para lá da simples vida académica. Puseram de lado o jargão escolar. Já falavam das suas próprias vidas aberta e intimamente. A amizade consolidava-se a olhos vistos”
Duas grandes amigas.
Um homem apaixonado.
E uma decisão que muda dois destinos.
Opinião
Encontro em Rosebank é o mais recente trabalho do autor Lex Mucache, publicado pela editora Fundza, cujo lançamento está previsto para o dia 28 de Fevereiro de 2023, na cidade de Maputo. A narrativa tem como foco uma história de amor, mas não só. O empreendedorismo, a amizade e o crescimento pessoal são explorados nesta deliciosa história onde um homem em busca de um sonho, acaba se reinventado e descobrindo as suas verdadeiras ambições pessoais.
Por um lado, temos a história de amizade entre as sul africanas Audrey e Nomssa e por outro, temos a trama do protagonista moçambicano Hermes. Fascinado desde sempre pela famosa académica e bloguista Nomssa G’qola, Hermes decide um dia viajar para a África do Sul, com o objectivo de participar numa palestra ministrada por Nomssa, na esperança de poder conhecer pessoalmente esta mulher que tanto admira à distância. Algum tempo depois, em meio a várias peripécias, Hermes e Nomssa iniciam um romance virtual. No decurso deste processo, Hermes acaba também criando outros novos vínculos que pesam no seu desenvolvimento pessoal. O autor impressiona pela criatividade ao elaborar uma trama tão dinâmica quanto surpreendente no caminho encetado pelos protagonistas.
Sobre o espaço que ambienta a narrativa de “Encontro em Rosebank”, o autor que tem uma forma peculiar de pintar as paisagens com as palavras, nos apresenta um bom retrato da vida académica e de alguns debates que visam explorar a importância da história dos heróis africanos. O autor apresenta também uma imagem viva da cidade de Maputo e de algumas cidades sul africanas, abordando o quotidiano, a rotina das pessoas que viajam entre os dois países vizinhos, incluindo o drama de quem exerce o comércio informal, também conhecido como “mukheru”, caraterizado pela travessia das fronteiras para África do Sul, onde os comerciantes compram bens para revender nos mercados de Maputo. A propósito disto, o núcleo composto por Kiwanga e a família desta, desenvolve um papel relevante na narrativa, evidenciado a importância do empreendedorismo na vida dos moçambicanos. É de forma que podemos dizer que personagens como Kiwanga e Hermes, nesta ficção, trazem-nos uma certa representação do povo moçambicano.
A escrita de Lex Mucache revela-se leve e concisa, com diálogos bem construídos, embora em alguns momentos certas descrições pareçam demoradas. É uma leitura rápida e prazerosa, auxiliada pelo lindo e excelente trabalho de diagramação feito pela editora Fundza.
Em resumo, Encontro em Rosebank é um bom livro para sorrirmos e que vale a pena ser lido, pela mensagem que nos traz sobre o amor, a amizade e o desafio de nos tornarmos e nos fazermos humanos melhores.
❝e o que era a juventude sem esperança?❞
Sobre o autor
Lex Mucache é pseudónimo de Heráclito Alexandre Mucache. Nasceu na cidade de Maputo no ano de 1980. É professor e desenvolve actividades de leitura e escrita criativa nas escolas primárias. Autor do livro de contos «Asas Decepadas» (Kulera, 2020), obra finalista do Prémio 10 de Novembro de 2019. Tem obra dispersa em vários jornais e revistas.
Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, mambo (rei) de uma região à norte do rio Zambeze acaba de morrer. Durante o “choriro”, todos pretendem saber se o desejo de Nhabezi se irá concretizar: transformar-se em espírito de mpodoro, como acontece com todos os chefes da região.
Opinião:
O romance histórico, por natureza, faz uma reflexão acerca de uma realidade histórica entremeada com elementos ficcionais. As personagens ficcionais se misturam a personagens históricos “ficcionalizados” na estrutura da narrativa. Muitas vezes, tambem, o romance histórico questiona e problematiza a própria história.
Choriro é um exemplo deste tipo de obra. Ao retratar o passado, numa versão imaginada pelo autor, o livro não só contribui para a reconstrução da memória cultural, como também interpreta para o leitor, a experiência humana dessa época. A palavra Choriro significa dor, ou também, o período de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia de enterro.
Segundo Marcelo Panguana, que escreveu uma crítica sobre Choriro, no livro “conversas de fim do mundo”, antes da publicação de Choriro, alguns pormenores do livro, no entender do autor, ainda não o convenciam. “Considerava o título da obra estático, sem a agressividade e a capacidade de sedução pretendidos. O substantivo choriro remetia a um cenário calmo e apático que poderia desmobilizar a curiosidade de eventuais leitores”. Um bom título tem sempre a capacidade não só de atrair o leitor, mas também a de ajudá-lo a descobrir o livro, o que este título, acabou por fazer com mestria.
Com um rico nível de detalhe e extremo rigor na pesquisa, o autor ambientou este romance no Vale do Zambeze, mais precisamente em Tete e na Zambézia, no século XIX. A história centra-se em Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, ou como o mambo (rei) da região. Nhabezi é um invasor português que acaba por adaptar-se e apropriar-se dos costumes e tradições locais, tornando-se curandeiro, tendo várias mulheres e muitos filhos. Nhabezi, ou Gregódio, introduziu também novas práticas na região.
O livro faz incursões sobre figuras históricas, como David Livingston, explorador inglês, Kaniemba ou Matequenha, nomes de guerra de dois senhores de prazo, da época, e até Ignácio de Jesus Xavier, mais conhecido por Kalizamimba, figura cuja história foi abordada recentemente por Isabel Ferrão, no seu romance Kalizamibma.
Sendo um livro com diversas histórias secundárias muito interessantes, algumas ficaram por aprofundar. Queríamos ter conhecido com mais detalhes a história de Nfuca, de João Alfai, da Dona Josefina e também dos luanes de Quelimane, os prazos da época, com uma estrutura diferente da dos descritos em Tete.
O autor constrói vários personagens no livro, uns mais cinzentos que outros, mas todos certamente com características únicas. Pela quantidade de dados a assimilar, e por reflectir o contexto de um importante período histórico, que certamente traz elementos que moldam o actual contexto, é um livro que deve ser lido sem pressa e com bastante atenção.
O livro, Espíritos Quânticos – Uma jornada por entre histórias de África em Ficção Especulativa, é organizado pela romancista moçambicana Virgília Ferrão. Esse projeto editorial cumpre, com proeza e diversidade, alguns dos objetivos do blog Diário de Uma Qawwi: promover histórias de ficção especulativa em língua portuguesa, por autores africanos, e incentivar a publicação de novos e novas autores e autoras.
Virgília Ferrão é natural de Maputo, Moçambique. É graduada em Direito, pelo Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM). Atualmente, trabalha para a TotalEnergies EP Mozambique Area 1, como consultora jurídica. É administradora do blog Diário de uma Qawwi. Em 2005, publicou a sua primeira obra literária O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane, através da Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Mondlane. A sua segunda obra, O Inspector de Xindzimila, foi publicada em 2016, pela editora brasileira Selo Jovem. Recebeu o “Prêmio Literário 10 de Novembro”, em 2019, concedido pelo Conselho Municipal de Maputo, tendo sido a primeira mulher a vencer este prêmio. Em breve, lançará o romance Os Nossos Feitiços, pelo Selo Katuka Edições, do Brasil.
Os 32 textos, que compõem Espíritos Quânticos, foram selecionados, neste ano, através de um edital de chamada pública, bem como de um convite dirigido a alguns autores. Participam dessa antologia: Adelino Luís, Agnaldo Bata, Álvaro Taruma, Andreia da Silva, Bento Baloi, Came, Dalêncio Benjamin, Daniel da Costa, Jeconias Mocumbe, João Baptista Caetano Gomes, Jorge Ferrão, José Luís Mendonça, Lex Mucache, Léo Cote, Luís Eusébio, Marcelo Panguana, Marvin Muhoro, Mateus Licusse, Mélio Tinga, Mia Couto, Nick Wood, Oghenechovwe Donald Ekpeki, Ortega Teixeira, Ossulo Wripa, Shadreck Chikoti, Sonia Jona, Suleiman Cassamo, Teresa Taímo, Vera Duarte, Virgília Ferrão e Zukiswa Wanner. Esses e essas contistas forjam invenções de histórias de Áfricas pelo viés da ficção especulativa.
Múltiplas vozes narram, dentre outras temáticas, sobre o sobrenatural, a feitiçaria, legados e patrimônio culturais africanos, o invisível, a ocidentalização de práticas culturais, consideradas tradicionais africanas, o mundo encantado, o mistério, a possessão, o curandeirismo, a premonição, os espíritos de ancestrais, mitos e ritos africanos, como é inerente às narrativas denominadas pelo ocidente como especulativas. Assim, os contos transitam entre a ficção científica, as ficções utópicas e distópicas, até o afrofuturismo.
O inusitado e o quase inexplicável desfilam como chaves discursivas e elementos fundantes e argumentativos das narrativas. A fantasia e a imaginação, neste interim, entrecruzam-se, por vezes, com o estranhamento aparente e as vivências do “desconhecido” dos (das) narradores (as), quiçá, dos (das) autores (as) de Espíritos Quânticos, pondo em relevância uma possível diluição das fronteiras entre o ficcional e o real. Em seus contos, o natural e o sobrenatural, os mundos visível e invisível aparecem, pois, sem dicotomias e entrecruzados.
A ficção especulativa, comumente, evidencia olhares criativos e indagativos sobre passados históricos, eventos do tempo presente e ou “viagens” e narrativas futuristas, tensionando mundos, nem sempre visíveis, mas todos sempre inventados, e “experiências” que se distanciam, normalmente, das convenções sociais e de diversas “ditas realidades”. Nas narrativas da coletânea Espíritos Quânticos, entretanto, diferentemente da via ocidental, os tempos se interseccionam e os mundos visíveis e invisíveis coexistem, como é inerente à existência humana na África. Os contos, desse modo, se apresentam como possibilidades de se nutrir e, ao mesmo tempo, (re)criar, (re)significar, ficcionalmente, o vivido e o desejado e (re)desenhar perspectivas envoltas às várias temporalidades e espacialidades africanas. Não tão somente o passado ou o futuro compõem e interessam às narrativas; ao contrário, o presente, passado e futuro se amalgamam e decorrem, com circularidade, em imaginários, mitologias, cosmogonias, territórios e práticas culturais africanas, diminuindo (ou até desconsiderando), por exemplo, as vertentes do horror e do fantástico, normalmente, imputados pelo ocidente às literaturas fantástica e científica.
A leitura de Espíritos Quânticos, neste tocante, permite transitar entre histórias que aconteceram (ou não) na África e, mais ainda, poderiam acontecer, esmiuçando os limites entre o possível e o impossível, ou seja, realidades distópicas podem ser experimentadas e ou narradas. Outrossim, os textos da coletânea apresentam narrativas instigantes sobre as vicissitudes que permeiam a existência, mas também sobre fenômenos, eventos e dinamicidades culturais que povoam e surpreendem o cotidiano em territórios africanos.
Espíritos Quânticos é uma relevante travessia ficcional para desvendar mundos, figuras, tempos, lugares e histórias da África. Indico a sua leitura porque, provavelmente, propiciará o conhecimento de eventos históricos e do presente e traços culturais africanos. Além disso, ler as suas narrativas, certamente, oportunizará reflexões sobre singularidades de seus signos linguísticos, culturais e sagrados e, indubitavelmente, favorecerá o importante exercício de (re) intepretação de seus sentidos e significados.
Salvador-BA, Brasil, 24 de novembro de 2021.
Ana Rita Santiago
Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia