(parte 1)

Era uma noite de quinta-feira no subúrbio da Mafalala, cidade de Maputo, e caia uma chuva miúda. Dona Flávia e seu filho Chelton, jantavam em silêncio, sob a luz tímida de um candeeiro, quando este fez soar, pela primeira vez, a pergunta sobre os qlubs e se ela conhecia uma tal de Linan. A mãe estranhou. Fitou-o por um instante, como quem tenta decifrar uma frase dita noutra língua, mas ignorou. Continuou a comer. Crianças, afinal, fazem perguntas estranhas — às vezes sem nexo. E deu ordens para que o miúdo continuasse a comer, desviando-se daqueles olhos inquisidores que, subitamente, pareciam ter aumentado de tamanho.
Foi deitar o miúdo ainda com um aperto no peito, um desconforto sem causa aparente. Na manhã seguinte, o episódio já estaria esquecido, não fosse uma eventualidade. A vizinha comentou, um tanto nervosa, que a filha, Malissa, fizera exactamente a mesma pergunta.
— Deve ser amante do Moisés — disse, justificando, assim, a briga que desencadeou com o marido.
Entretanto, o detalhe que gelou o sangue de Flávia veio depois: fora à mesma hora; Com o mesmo tom de voz e com os mesmos olhos enormes.
A partir daí, a estranheza começou a ganhar corpo. Flávia passou a conjecturar, oscilando entre explicações banais e hipóteses antigas, herdadas do medo e da tradição; aquelas histórias em que o mundo visível é apenas uma franja sobre outra realidade mais funda. Mais tarde, soube-se que todas as crianças da zona haviam perguntado pelos qlubs e por uma senhora chamada Linan. Mesmas palavras; Mesmo tom; Mesmo horário. Como se alguém, algures, tivesse apertado um mesmo botão. Enfim, já não era apenas a dona Flávia que se inquietava.
Houve quem levasse os filhos a consultórios clínicos, onde os especialistas levantavam várias hipóteses: histeria coletiva, contágio psíquico, lapsos da mente infantil. Outros recorreram a curandeiros, pastores e rezas improvisadas feitas à noite. Ao cabo de três dias, o caso tomava as televisões nacionais, e toda cidade de Maputo se via diante de perguntas que ninguém sabia responder: afinal, o que são os qlubs? E quem é Linan?
Nas redes sociais surgiram Linanes de todo o lado fazendo lives explicativas, angariando vários seguidores. Algumas afirmavam reconhecer o nome em sonhos antigos. Outras diziam ter ouvido falar dos qlubs em lugares onde nunca estiveram. Houve, também, detenções, não por crime, mas para proteger certas mulheres — de nome Linan— da fúria popular. A cidade das acácias fervilhava, como se tivesse sido tocada por uma vibração misteriosa que, nas noites, atravessava os bairros, tomava as crianças e fazia-as repetir, num coro inquietante, as mesmas perguntas:
— Onde estão os qlubs? E onde está a Linan?
Na outra extremidade do globo, uma secretária do famoso astrofísico desaparecido, Doutor Ludwig Harmistrong relatava, perturbada, sobre um jantar envolvendo o astrofísico e um ser extraterrestre que se apresentara como Vallen. Também ele perguntara pelos qlubs e pela Linan.
O episódio teria sido arquivado como delírio, não fosse um jornalista ter ligado aquele relato aos acontecimentos recentes de Maputo. O padrão era demasiado preciso para ser coincidência. Alguns passaram a falar de um retorno. Outros diziam tratar-se de mais um capítulo do já esquecido caso do ET da Virgínia.
Enquanto isso, as crianças em Maputo continuavam a perguntar. Como se respondessem a um chamamento transcendental. A Dona Flávia notara, porém, que ao cabo de alguns dias, a tonalidade mostrava-se progressivamente mais violenta.
— Onde estão os qlubs? — gritava o miúdo — E onde está Linan?
— Mas quem és tu? — disse Flávia, exausta — apresente-se e eu digo o que desejas.
— Ora… ora.. — respondeu a voz, rindo — eu sou o Vallen.
Vallen, o Qawwi









