Histórias

Sussurro em Maputo

(parte 1)

Era uma noite de quinta-feira no subúrbio da Mafalala, cidade de Maputo, e caia uma chuva miúda. Dona Flávia e seu filho Chelton, jantavam em silêncio, sob a luz tímida de um candeeiro, quando este fez soar, pela primeira vez, a pergunta sobre os qlubs e se ela conhecia uma tal de Linan. A mãe estranhou. Fitou-o por um instante, como quem tenta decifrar uma frase dita noutra língua, mas ignorou. Continuou a comer. Crianças, afinal, fazem perguntas estranhas — às vezes sem nexo. E deu ordens para que o miúdo continuasse a comer, desviando-se daqueles olhos inquisidores que, subitamente, pareciam ter aumentado de tamanho.

Foi deitar o miúdo ainda com um aperto no peito, um desconforto sem causa aparente. Na manhã seguinte, o episódio já estaria esquecido, não fosse uma eventualidade. A vizinha comentou, um tanto nervosa, que a filha, Malissa, fizera exactamente a mesma pergunta.

— Deve ser amante do Moisés — disse, justificando, assim, a briga que desencadeou com o marido.

Entretanto, o detalhe que gelou o sangue de Flávia veio depois: fora à mesma hora; Com o mesmo tom de voz e com os mesmos olhos enormes.

A partir daí, a estranheza começou a ganhar corpo. Flávia passou a conjecturar, oscilando entre explicações banais e hipóteses antigas, herdadas do medo e da tradição; aquelas histórias em que o mundo visível é apenas uma franja sobre outra realidade mais funda. Mais tarde, soube-se que todas as crianças da zona haviam perguntado pelos qlubs e por uma senhora chamada Linan. Mesmas palavras; Mesmo tom; Mesmo horário. Como se alguém, algures, tivesse apertado um mesmo botão. Enfim, já não era apenas a dona Flávia que se inquietava.

Houve quem levasse os filhos a consultórios clínicos, onde os especialistas levantavam várias hipóteses: histeria coletiva, contágio psíquico, lapsos da mente infantil. Outros recorreram a curandeiros, pastores e rezas improvisadas feitas à noite. Ao cabo de três dias, o caso tomava as televisões nacionais, e toda cidade de Maputo se via diante de perguntas que ninguém sabia responder: afinal, o que são os qlubs? E quem é Linan?

Nas redes sociais surgiram Linanes de todo o lado fazendo lives explicativas, angariando vários seguidores. Algumas afirmavam reconhecer o nome em sonhos antigos. Outras diziam ter ouvido falar dos qlubs em lugares onde nunca estiveram. Houve, também, detenções, não por crime, mas para proteger certas mulheres — de nome Linan— da fúria popular. A cidade das acácias fervilhava, como se tivesse sido tocada por uma vibração misteriosa que, nas noites, atravessava os bairros, tomava as crianças e fazia-as repetir, num coro inquietante, as mesmas perguntas:

— Onde estão os qlubs? E onde está a Linan?

Na outra extremidade do globo, uma secretária do famoso astrofísico desaparecido, Doutor Ludwig Harmistrong relatava, perturbada, sobre um jantar envolvendo o astrofísico e um ser extraterrestre que se apresentara como Vallen. Também ele perguntara pelos qlubs e pela Linan.

O episódio teria sido arquivado como delírio, não fosse um jornalista ter ligado aquele relato aos acontecimentos recentes de Maputo. O padrão era demasiado preciso para ser coincidência. Alguns passaram a falar de um retorno. Outros diziam tratar-se de mais um capítulo do já esquecido caso do ET da Virgínia.

Enquanto isso, as crianças em Maputo continuavam a perguntar. Como se respondessem a um chamamento transcendental. A Dona Flávia notara, porém, que ao cabo de alguns dias, a tonalidade mostrava-se progressivamente mais violenta.

— Onde estão os qlubs? —  gritava o miúdo — E onde está Linan?

— Mas quem és tu? — disse Flávia, exausta — apresente-se e eu digo o que desejas.

— Ora… ora.. —  respondeu a voz, rindo —  eu sou o Vallen. 

Vallen, o Qawwi

Histórias, Reviravoltas do Universo

A Casa Assombrada

De dia, a rua da igreja branca de Lionde parecia comum. O sino tocava preguiçoso, apenas aos domingos, velhas rezavam em silêncio, e crianças corriam pela praça. Mas, ao cair da tarde, um silêncio pesado tomava conta do lugar. Os moradores recolhiam-se antes das sete, obedecendo a uma crença antiga: era a hora em que os mortos deixavam o cemitério atrás da igreja para caminhar até ao amanhecer.

Ao lado da igreja, erguia-se a casa dos enfermeiros, que durante décadas servira também como casa mortuária. Ali os corpos eram preparados e velados antes do enterro. Ninguém mais conseguia morar nela. Diziam que, à noite, o vento soprava apenas para aquelas árvores em volta, e que os assobios vinham das paredes impregnadas de luto.

Foi numa casa vizinha a essa que Amélia, o marido — professor destacado de uma província distante — e o filho, Papaito, decidiram morar. A construção parecia tranquila, mas a sombra da igreja e o peso da casa mortuária ao lado criavam uma presença constante, como se a rua respirasse lembranças que não queriam ser esquecidas.

Na primeira noite, Amélia acordou com um som estranho: um assobio breve, irregular, vindo do quarto dos fundos. Achou que fosse o vento, mas percebeu que as notas se repetiam, quase como uma música esquecida.

Na manhã seguinte, Papaito comentou com naturalidade:
“O homem do quarto assobia muito mal.”

Amélia gelou.
“Que homem, Papaito?”
“O que fica sentado na cadeira, a olhar para as árvores.”

O quarto dos fundos dava justamente para o lado da casa mortuária.

Na noite seguinte, o som voltou, mais nítido. O marido levantou-se para investigar e percebeu que o vento parava de soprar em toda a rua, excepto nas árvores em volta da antiga casa dos enfermeiros, que rangiam como se sussurrassem entre si. Do quarto de Papaito, os assobios ecoavam em resposta.

Com o passar dos dias, aquilo tornou-se rotina. Sempre depois das sete. Sempre do lado da casa mortuária. E os assobios mudavam conforme o humor da família. Em noites tensas, eram agudos e irritados. Em noites de silêncio, tornavam-se melancólicos.

Papaito passou a responder. Às vezes, no meio da madrugada, Amélia encontrava-o sentado à beira da cama, assobiando de volta para a escuridão.

“Ele não gosta quando falamos alto”, disse o menino uma noite.
“Quem não gosta, Papaito?”, perguntou Amélia, tentando controlar a voz.
“O homem das pedras tortas. Ele chama-me quando demoro.”

Amélia soube imediatamente do que se tratava. No cemitério, atrás da igreja, havia um conjunto de túmulos antigos, tortos, que os moradores chamavam assim: as pedras tortas.

Desesperada, decidiu procurar um curandeiro local. Encontrou-o numa casa pequena, cheia de ervas secas penduradas no tecto e velas derretidas em frascos de vidro. Explicou-lhe tudo o que vinha acontecendo. O homem escutou em silêncio, com os olhos semicerrados, e por fim murmurou que os mortos estavam inquietos e que precisavam de ser apaziguados. Pediu-lhe um valor avultado e entregou-lhe um embrulho de pano com sal grosso, carvão, aguardente e um galo preto depenado.

Ordenou que Amélia fosse ao cemitério, à meia-noite, acender as velas diante das pedras tortas, derramar a aguardente sobre as campas e queimar o sal e o carvão como oferenda, invocando não só os mortos da terra, mas também os defuntos da própria família.

No entanto, quando Amélia chegou ao cemitério, o que viu gelou-lhe o sangue: todas as campas antigas pareciam revoltas, com fendas abertas, como se algo tivesse empurrado de dentro para fora. O musgo desprendia-se em placas, as velas que acendera apagavam-se sozinhas e o galo depenado foi arrastado pelo vento até cair sobre uma sepultura aberta. O silêncio era tão pesado que parecia conter um rugido contido. Era como se os mortos estivessem zangados com a tentativa de os apaziguar.

Naquela noite, os assobios não apenas regressaram: tornaram-se mais altos, agressivos, prolongados, como se cada túmulo tivesse começado a assobiar por si. As árvores ao redor da mortuária rangeram como vozes de centenas de velórios simultâneos.

O marido de Amélia resistia à ideia de abandonar a casa, pois a sua posição de professor destacado em Lionde era uma honra e um dever difícil de recusar. Mas, à medida que Papaito parecia cada vez mais enlaçado pelas assombrações e que nem o curandeiro conseguira resolver, restou apenas uma escolha.

Na madrugada seguinte, após mais um assobio que atravessou a casa como uma lâmina, a família juntou os pertences à pressa e partiu.

E até hoje, quem ousa atravessar a rua da igreja branca de Lionde depois das sete garante ouvir o vento bater apenas nas árvores da antiga casa mortuária e, entre rajadas, um assobio irregular, vindo ora do cemitério, ora da casa vizinha, onde ninguém mais ousou morar.

The Cysne

Desabafo de uma qawwi, Histórias

Bingo!

O doutor Harmistrong acordou tarde, despertado pelos raios solares que atravessavam a janela.

— Afinal… — suspirou. — Consegui dormir.

Não acreditava que isso fosse possível quando, às quatro da madrugada, ainda se revirava na cama sem pregar o olho. “Quando a mente está perturbada, o corpo não encontra paz”, dizia a si mesmo, consciente dessa condição desde que habitava um corpo humano.

Notou que o telemóvel não estava por perto, mas não sentiu falta dele. Imaginava que só encontraria mensagens dos alunos a perguntarem se teriam aulas de Física Nuclear — como se estivessem realmente interessados — ou chamadas da secretária, sempre preocupada com o seu paradeiro.

Depois de alguns minutos espreguiçando-se na cama, criou ânimo para um banho frio que o despertasse por completo. Decidiu que, ao menos, fingiria que estava tudo bem. E isso significava ignorar o facto de Vallen estar no planeta Terra, colocando em risco a vida que tanto prezava.

— E quem não estaria? — murmurou diante do espelho.

Professor numa das mais conceituadas universidades do mundo; agente secreto de inteligência da maior potência do planeta; diversos títulos honoríficos; prestes a entrar para a história como um dos maiores cientistas de Física Nuclear.

— O próprio Harmistrong, seja lá onde a sua consciência vague, deve estar orgulhoso — concluiu, observando no espelho o reflexo que, com o passar dos anos, já lhe parecia realmente seu.

Hoje era mais Harmistrong do que Baltoq, um simples quawwi de quinta categoria em Stefanotis- o seu planeta de origem. Mas, a presença de Vallen lembrava-lhe essa condição ingrata.

— Chega de pensamentos negativos! — disse com firmeza.

Tomou café em silêncio, evitando ligar a televisão. Sabia que estaria repleta de notícias sobre a “explosão misteriosa” numa cela policial de Boston ou de líderes mundiais, trocando acusações com discursos inflamados de conspiração. Não valia a pena.

Quando, finalmente, pegou no telemóvel, assustou-se: vinte chamadas não atendidas.

— Nem alunos, nem secretária… — disse, admirado.

O número era o mesmo em todas: Lauton, outro quawwi.

— Alguma coisa grave deve ter acontecido — pensou.

Não estava enganado. Assim que atendeu, ouviu a voz aflita do amigo:

— É o Crown!

— O que tem ele?

— Foi expurgado.

— Merda! — gritou Harmistrong. Todo o peso dos maus pensamentos regressou de imediato, misturado com maus presságios.

— É pior do que a morte… — murmurou.

Naquela tarde, encontrou-se com Lauton, que trazia um envelope selado.

— Descobri-o em casa do Crown, depois de ele ignorar todas as minhas chamadas. Tem uma carta. Achei suspeito.

— O que diz a carta? — perguntou Harmistrong, impaciente.

— Por um momento, temi que tivesse acontecido o mesmo contigo, já que também não atendias…

— O que diz a carta?! — interrompeu, aos gritos.

Lauton abriu o envelope. Dentro, apenas uma palavra:

— Bingo!

Seguiu-se um silêncio denso, quase insuportável, como se aquela palavra guardasse múltiplos significados.

— O que é que isto quer dizer?

— Nada… — respondeu Harmistrong. — Ele só está a gozar connosco.

— Quer dizer que escreveu para nós?

— Claro. Sabia que encontraríamos a carta.

— Maldito! — brandiu Lauton.

— Ele é caçador. Está só se divertindo antes de… — não terminou a frase, mas Lauton compreendeu.

De regresso a casa, Harmistrong sentia-se resignado. Sabia que Vallen não estava para brincadeiras. Expurgar um quawwi era a pena máxima em Stefanotis — pior que a morte, reservada apenas para crimes capitais. Aqui, Vallen fazia-se juiz e carrasco. E, nem o próprio rei Kosi o poderia impedir.

Foi com esses pensamentos que entrou em casa, foi directo para o quarto e deitou-se com os olhos fixos no teto. Dormir seria impossível. Revirava-se inquieto quando sentiu algo a incomodar-lhe as costas. Virou-se e encontrou um envelope.

Dentro, uma pequena carta com uma única palavra:

— Bingo!

Vallen

Histórias

Em Busca de um Amor Perdido

Entre Paixões e Silêncios

Jéssica Gonzalez nasceu no Chile, a mais nova de três irmãs. Desde cedo chamava a atenção pela sua beleza incomum. Era a mais bonita, diziam, com traços delicados e uma presença que fazia virar cabeças. Enquanto as irmãs seguiam os rigores dos estudos e da disciplina imposta pelos pais, Jéssica cresceu mais solta. Talvez por ser a mais nova, talvez porque os pais já estavam cansados de tanto rigor. O certo é que não lhe cobraram o mesmo peso.

Ainda adolescente, descobriu o poder que tinha sobre os olhares. Primeiro nas ruas, depois nas redes sociais. Cada fotografia publicada era uma pequena explosão: sorrisos, poses, viagens. De repente, já não era apenas a jovem bonita do bairro, mas uma figura admirada à distância por todos, principalmente os rapazes. E, Jéssica gostava da ideia de que o mundo inteiro girava à sua volta. Aos dezoito anos, decidiu que não queria rotina. Viajou pelo Chile, depois para mais longe: México, Brasil, Estados Unidos, Egipto, Europa. Em cinco anos, tinha visto quase todo o mundo.

Os pais, assistiam entre encanto e preocupação, perguntavam-se em silêncio até quando conseguiriam sustentar aquela vida. Sempre de malas aviadas de aeroporto em aeroporto. Sabiam que, ao contrário das irmãs, Jéssica não tinha profissão estável, tinha apenas asas. Mas, foi na Califórnia que o acaso se tornou destino.

O encontro

Numa discoteca vibrante, entre música alta e luzes frenéticas, Jéssica chocou contra um rapaz na pista de dança.

“Desculpa!”, riu-se.

Acho que já dançamos melhor juntos do que separados”, respondeu ele, divertido.

Quando levantou os olhos e encontrou o olhar de Jerry, o riso morreu-lhe nos lábios. Por um instante, parecia que o mundo inteiro tinha parado.

Jerry tinha vinte e quatro anos, era empreendedor, herdeiro de um império, mas recusava viver à sombra da fortuna. Trabalhava com energia, como quem queria provar algo a si mesmo. Pouco tempo depois, casaram-se.

Aos vinte e seis nasceu Leo. Aos vinte e sete, Thomy. Jovens, belos e apaixonados, pareciam viver um conto perfeito.

A Tragédia

Mas, aos vinte e nove anos, a vida mostrou-se cruel.

Era madrugada quando o telefone tocou.

“Senhora González?”, a voz do outro lado hesitou. “Preciso que se mantenha calma… houve um acidente.”

“Diga-me que ele está bem…”, sussurrou, a tremer.

O silêncio prolongou-se antes da frase que lhe rasgou o peito:

“O seu marido não resistiu.”

O telefone caiu-lhe das mãos e ficou no chão. Jéssica permaneceu imóvel, gelada, olhando a porta do quarto dos filhos. Entendeu, naquele instante, que não era apenas Jerry que tinha partido. Levava junto o futuro inteiro.

O Recomeço

Financeiramente, não ficou desamparada. A herança de Jerry garantia-lhe estabilidade. Mas, nada preenchia o vazio. Sem forças para continuar nos Estados Unidos, voltou ao Chile, onde os pais a consolaram no luto. Foi então que apareceu Pablo, psicólogo da família. No início, apenas um apoio sereno para ela e os rapazes. Dez anos mais velho, bondoso, paciente. Aos poucos, a linha entre terapia e afecto foi-se desfazendo.

“Ele é só um amigo”, dizia Jéssica, quando a família estranhava. Mas, a proximidade falava mais alto.

Com o tempo, Pablo mudou-se para a casa dela. Durante quase vinte anos, foi o pai que Leo e Thomy conheceram. Estava lá em cada gesto, cada noite de febre, cada bicicleta ensinada. O sangue nunca importou.

A Vertigem Chamada Iguan

Mas, o espírito inquieto de Jéssica nunca se apagou. Aos quarenta e oito anos, entrou para uma escola de ioga. Foi lá que conheceu Iguan: trinta e três anos, atlético, magnético, com uma intensidade calma que enchia a sala.

“Relaxe os ombros”, disse ele, pousando levemente as mãos nas costas dela.

Um arrepio percorreu-lhe a pele. Não era apenas atracção: era a lembrança de ser vista como mulher, não apenas como mãe ou companheira.

Apresentou-o em casa como “instrutor e amigo”. Mas sabia. A cada encontro, a chama reacendia.

Pablo percebeu. Primeiro, os beijos esquecidos. Depois, a cama vazia. Numa noite de silêncio, ao olhar o corpo imóvel dela ao lado, entendeu sem precisar ouvir nada.

“Quando a intimidade acabou, percebi”, confidenciou a um amigo. “Era hora de sair.” E saiu. Não por falta de amor, mas porque já não havia espaço para ele.

A Escolha e a Ruptura

Na noite em que Iguan entrou com as malas, Jéssica demorou-se diante do espelho. Via no reflexo não apenas a mulher que buscava paixão, mas também a mãe que iria ferir os filhos. Respirou fundo. Não era triunfo, nem pura alegria. Era vertigem. E escolheu saltar. Essa escolha partiu a família.

Leo, com vinte e um anos, não conseguiu aceitar. Para ele, Pablo era o verdadeiro pai- o que ensinara, consolara, nunca falhara. Viu na decisão da mãe uma traição.

“Mãe, o Pablo deu-te tudo. Deu-nos tudo. Como consegues pô-lo de lado assim?”

“Não o pus de lado. As coisas entre nós acabaram. Acontece”, respondeu ela, seca.

As conversas tornaram-se frias, cortantes. Até que numa noite, depois de uma discussão que terminou com uma porta a bater, Leo disse-lhe:

“Escolheste a paixão em vez da família. Não esperes que eu finja que não dói.”

Pouco depois, fez as malas. Não foi para casa de amigos, nem para a namorada. Foi viver com Pablo, uma declaração silenciosa de lealdade. Ao contrário de Thomy, já instalado com a namorada e mantendo distância, Leo fez uma escolha deliberada: transformar a raiva em protecção do homem que sempre chamara pai.

Os pais de Jéssica também rejeitaram Iguan. Para eles, Pablo tinha sido o verdadeiro companheiro da filha e o verdadeiro pai dos netos. Continuaram a visitá-lo aos finais de semana, conduzindo até a cidade mais próxima, dizendo com convicção:

“Até ao fim dos nossos dias, será sempre o nosso genro.”

Hoje

Jéssica permanece com Iguan, fiel à chama que sempre a guiou. Pablo, perto dos sessenta, vive em solidão resignada. Thomy segue a sua vida independente. Leo permanece ao lado de Pablo, carregando não só a lealdade mas também o peso de uma ferida que não se cura.

No fim, esta é a história de uma mulher que nunca deixou de procurar o amor absoluto, e de um homem que ofereceu tudo mas terminou só, deixando o legado mais verdadeiro: o de um pai.

E, entre eles, Leo que não escolheu o sangue mas sim a gratidão, não a conveniência mas a lealdade. Um filho que aprendeu cedo que, por vezes, o amor não sobrevive na paixão, mas na devoção silenciosa e inabalável daqueles que nunca partem.

Por Roberto Júnior (The Cysne)

Desabafo de uma qawwi, Histórias

O despertar de Vallen

Fonte: Pinterest

Era manhã cedo quando Vallen despertou na prisão com uma forte dor de cabeça. Eram os efeitos da bebida — aquilo que os humanos chamam de ressaca. Apesar disso, percebia que os seus poderes estavam revigorados. Pela primeira vez, desde que pousara na Terra era, de facto, um qawwi supremo. Poderia simplesmente teletransportar-se e libertar-se das grades. Mas, não era apenas liberdade que queria: precisava enviar uma mensagem ao mundo, principalmente aos outros qawwis espalhados pelo planeta, em especial a Linan. Era necessário que soubessem que Vallen estava por perto — e que tivessem medo. O medo facilitaria a concretização da sua missão.

Os demais detentos ainda dormiam profundamente quando Vallen desatou a gritar:

— Alguém aí?! — bradou, sacudindo as grades. — Quero ir embora! Isto fede!

A resposta foi uma onda de gargalhadas, tanto dos prisioneiros quanto dos agentes de guarda naquela manhã.

— Achavas que isto fosse um hotel de cinco estrelas? — zombou um dos agentes, aproximando-se das grades.

Vallen fitou-o com intensidade.

— Quero ir embora! — repetiu, firme.

Outros guardas aproximaram-se, murmurando entre si que ele não passava de mais um arrogante, um filhinho de papai mimado.

— Ah, sim, eu sei bem como lidar com esse tipo — disse um deles, abrindo a cela com um sorriso de desdém, empunhando um chamboco. — Vou educar este rapaz!

Vallen sorriu, e um brilho estranho surgiu em seus olhos.

— Gosto disto…

Poucos minutos depois, seu rosto já estampava as televisões nacionais e internacionais. Era classificado como altamente perigoso. A população foi aconselhada a não enfrentá-lo e a comunicar imediatamente as autoridades.

Enquanto isso, especialistas militares e cientistas examinavam os escombros do que, até há instantes, fora uma prisão. Restava apenas um cenário marcado por uma explosão sinistra. Todos os especialistas concordavam: tratava-se de uma força ou ciência ainda desconhecida.

No dia seguinte, o Doutor Harmistrong, da Universidade de Harvard, chegou ao local. Viajara por cerca de vinte horas, desde que vira a notícia que dominava as manchetes internacionais como um “ataque terrorista atípico”. Nenhum grupo, porém, havia reivindicado o feito.

O doutor precisou de apenas um minuto para confirmar aquilo que já suspeitava.

— É o Vallen… — murmurou, sem disfarçar o pavor.

— O quê?! — exclamou um dos presentes.

— É o Vallen, porra! — gritou, e seus olhos brilharam de forma inquietante, assustando a todos ao redor.

Era também um qawwi.

Vallen,

30.08.2025

Histórias, Reviravoltas do Universo

A Casa Onde Já Não Mando

Amin já foi um homem feliz. Contabilista, metódico, respeitado. Casou-se como mandava a tradição muçulmana, com uma mulher da mesma fé, também contabilista, com quem partilhava valores, contas e amanhãs. Ambos trabalhavam, tinham estabilidade, eram organizados. Um casal que prometia.

Com o tempo, compraram a primeira casa. Ampla, com espaço suficiente para os filhos que já idealizavam. Os pais e sogros estavam orgulhosos. Eram o espelho do sucesso dentro da comunidade. Casaram oficialmente, com muitas bênçãos.

O primeiro filho foi uma menina. Esperta, curiosa, com queda natural para os números como o pai e a mãe. Era motivo de orgulho. Uma criança brilhante. Tudo parecia caminhar como planeado.

Depois nasceu Izam. A continuação do apelido. A alegria foi ainda maior. Agora sim, tinham um casal. Uma menina e um menino. A casa enchia-se de vida, fotografias, de devaneios para o futuro.

Izam, ao início, era um bebé calmo, observador. Porém, com o tempo começaram a notar que algo estava fora do normal. Não olhava nos olhos. Reagia pouco ao nome. Repetia movimentos. Chorava sem explicação.

Aos três anos veio o diagnóstico: uma síndrome rara do espectro do autismo.

A notícia abalou o chão do casal. Procuraram os melhores médicos, terapeutas, apoios. Tinham recursos e esperança. Mas os progressos não apareciam. Pelo contrário, Izam parecia afastar-se mais a cada dia.

Alguém tinha de ficar em casa. A esposa ganhava melhor. Amin era mais calmo com o filho e tinha mais paciência. Ficou com ela a responsabilidade. Deixou a contabilidade e passou a cuidar de Izam a tempo inteiro. Trocou a rotina profissional pelo lar, pela medicação, pelas terapias.

Ao início, acreditava que seria por pouco tempo. Mas os minutos e os dias foram passando, e a nova rotina tornou-se prisão.

As tarefas acumulavam-se. A mulher passou a vê-lo não como o homem de antes, mas como o responsável por manter tudo em ordem. Esperava-se que, além de cuidar de Izam, a casa estivesse sempre impecável: comida feita, roupa lavada, limpeza feita, horários cumpridos. E, mesmo que tudo estivesse feito, havia sempre algo por criticar.

As conversas desapareceram. Os gestos carinhosos sumiram e deram lugar a discussões sem fim. Passaram a dormir em quartos separados. Amin já não era marido, nem contabilista. Era apenas o homem que ficou.

Izam cresceu. Hoje, com 18 anos, continua dependente. Tem crises e fugas constantes. Amin sai à procura dele, já sem pânico, como quem cumpre mais um dever, mais uma rotina. O traz para casa. Sempre em silêncio.

Num desses dias sem cor, a mulher aparece no quarto dele, senta-se. Não falam muito; talvez seja cansaço. Talvez memória do que já foram. Dormem juntos. Nessa noite, ela engravida do terceiro filho.

Amin nem se ilude. Mais uma criança, mais noites sem dormir. Mais fraldas, mais tarefas. E, mais uma vez, tudo cai sobre ele. Leva o mais novo ao infantário, cuida de Izam, cozinha, limpa, corre atrás do filho mais velho quando desaparece. No infantário, já todos conhecem a sua história, que ele não esconde de ninguém. Basta olhar-lhe para a cara, não é preciso perguntar.

Amin já pensou em sair, em recomeçar, em vender a casa. Mas, isso não é opção. Hoje, com 50 anos, três filhos, um com dependência total, não há para aonde ir. E, sem rendimento fixo, a liberdade é só uma palavra; está preso. Não por escolha, mas por falta dela.

Amin vive numa casa que ajudou a pagar, mas onde já não manda. Já foi contabilista. Já foi marido. Agora é o homem que cuida, o que embala calado.

Todos no colégio dizem: “É um bom pai.”

Mas ninguém diz: “É um homem feliz.”

É o homem que ficou. O que segurou tudo quando tudo caiu. O que desapareceu para que os outros pudessem continuar.

Por Roberto Junior (The Cysne)

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | O Preto, de Ivo Mabjaia | Opinião

Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.

Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.

Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.

Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.

Por Domingos Mucambe

Histórias

Ice North: O Amor em Extinção no País Mais Jovem do Mundo

Em Ice North, a revolução não traz megafones nem bandeiras.

Chega como o frio: devagar, cortante e, por isso mesmo, imparável.

Não é uma revolução. É uma substituição.

Silêncio no lugar do afecto.

Ausência no lugar do desejo.

Cálculo no lugar da paixão.

Tudo acontece assim:

primeiro vem a independência financeira.

Depois, o corpo.

Por fim, a alma.

As mulheres de Ice North conquistam tudo.

Ocupam posições de liderança. Criam rotinas de luxo. Mantêm corpos esculpidos.

Sustentam a auto-estima entre estética e disciplina.

A beleza não é vaidade.

É competência.

Rostos bem cuidados. Formas firmes.

Um estilo lapidado com precisão cirúrgica.

A estética é tanto um activo como um escudo.

O país prospera.

A taxa de desemprego mantém-se em apenas 2%.

Tudo funciona suavemente.

Eficientemente. Belamente.

E os homens?

Não desaparecem — apenas deixam de ser indispensáveis.

E, quando algo deixa de ser essencial… começa a desaparecer.

Hoje, em Ice North, há um homem para cada vinte mulheres.

E, nem todos estão disponíveis ou interessados.

Alguns tornam-se celebridades acidentais.

Outros, troféus emocionais.

Muitos simplesmente… retiram-se.

Não fisicamente, mas simbolicamente.

Um homem é um luxo emocional.

Ter um companheiro significa estatuto.

Ter uma relação significa vitória.

Lauren, Shelley, Madeleine

Lauren, 42 anos, executiva de tecnologia, lidera uma empresa global.

Ao jantar, serve duas taças de vinho. Uma fica intocada, como um brinde ao que não veio.

“És incrível. Mas não tenho energia para encaixar a tua vida na minha.”

Ele diz.

Ela ouve o golpe como quem ouve gelo a partir — não pelo som, mas pelo silêncio depois.

Shelley, 28 anos, consultora financeira, ajusta o perfume, a voz, os temas — tudo calibrado para criar ponte.

Cada encontro é uma negociação emocional.

Sai com a sensação de ter fechado um contracto. E, como sempre, o este não inclui amor.

Madeleine, 46 anos, ex-advogada, recusa o jogo.

Vive com duas amigas.

Adopta uma criança.

Constrói um lar com afecto, mas sem moeda de troca.

“Não é que não queiramos homens.

Simplesmente deixámos de acreditar que eles nos completem.”

Para a cidade, são rostos que passam na multidão.

Entre si, são um refúgio.

A economia do afecto

A escassez cria um mercado.

Consultoras de imagem emocional.

Estilistas do desejo.

Estrategas da sedução.

“A atracção é ciência.”

Manter um homem por seis meses dá manchete.

Alguns trabalham como acompanhantes de luxo.

Outros desaparecem.

Poucos ainda procuram amor.

A maioria gere a própria raridade com habilidade.

“Agora somos nós que escolhemos”, dizem.

E escolhem.

Ou recusam.

As que permanecem imóveis

Nem todas competem com charme ou estatuto.

Algumas voltam-se para dentro.

Meditam ao amanhecer.

Equilibram emoções não para impressionar, mas para permanecer inteiras.

Leem. Escrevem.

Cultivam presença mais do que aparência.

Num mundo treinado para gritar, tornam-se mestres do silêncio.

Entre os poucos homens que ainda procuram ligação,

a inteligência e a serenidade são magnéticas.

Não é o rosto mais afiado que atrai, mas o olhar mais calmo.

Não é a resposta perfeita, mas a pergunta feita com profundidade.

“Ela não tentou conquistar-me”, diz um homem.

Os 10%

Noventa por cento dos homens declaram estar satisfeitos com a sua vida emocional.

E os outros dez?

Dividem-se entre cansaço, desinteresse, timidez… ou simplesmente abandonam o jogo.

Samuel, 40 anos, gestor de  propaganda de produtos médicos e de beleza.

“Elas querem intensidade.

Eu só quero paz.

E, às vezes, paz significa estar sozinho.”

Um Lugar Chamado Depois

O amor ainda existe em Ice North.

Mas chega tarde, devagar como um comboio que já não tem pressa.

Às vezes aparece num gesto distraído.

Noutras, numa frase que não foi pensada.

Quase nunca onde foi prometido.

Agora, amar exige um tipo de entrega que poucos lembram como se faz.

Não é resistência: é deixar cair o cálculo, a estratégia, a pose.

Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de homens.

Talvez tenha sido a ausência daquilo que, antes de sermos marcas e métricas,

nos fazia humanos.

E se o maior acto de todos for amar… sem planear?

Em Ice North, poucos tentam.

Mas os que tentam,

mesmo que por um instante,

fazem o frio recuar.

Por Roberto Júnior

Versão inglesa publica no Medium em:

Ice North: Love in Extinction. “Ice North: the country where love and… | by The Cysne | Jul, 2025 | Medium

Histórias, Outras maravilhas humanas

As Terras Esquecidas Onde Também Nascem Sonhos

Por Roberto Júnior

“A grandeza não tem código postal.
E os sonhos não pedem licença para nascer.”

A aldeia de Lionde não é um lugar turístico.
Não porque esteja escondida nos mapas, mas porque não há ali nada de turístico para se ver.
Fica longe de tudo, longe do hospital, longe da capital, longe das promessas.

O que há em Lionde?
Há pó.
Há silêncio.
Há machambas secas e postes que não acendem à noite.
Raras vezes chove… e quando chove, a chuva estraga tudo.
Às vezes transforma-se em cheias, e as pessoas têm de abandonar as suas casas, muitas das vezes, perdem tudo.
Outras vezes, a chuva falta. E a seca extrema destrói tudo o que o povo semeou — arroz, tomate, esperança. Mas há água potável. A melhor água natural que já bebi na vida.
Vem limpa, fresca, viva, nasce do próprio coração da terra.

Às vezes, bastava o barulho das motorizadas e dos carros com matrícula sul-africana para fazer os meninos delirar. Eram como relâmpagos metálicos a cruzar as estradas esburacadas de Lionde. O rugido dos motores ecoava como promessa de um mundo maior. As crianças corriam para ver — olhos brilhantes, pés descalços, corações a sonhar alto.

Mas há também o que ninguém vê:
Gente forte. Crianças com olhos grandes. Jovens com sede de futuro.

Em Lionde, muitos meninos deixam a escola cedo.
Não por falta de vontade — mas por falta de pão.

Trocam o caderno pela enxada, trocam a mochila pela escola da vida — trocam a escola pelo esforço físico no campo, pela luta diária sob o sol — onde vão cortar cana, colher milho, pescar ou trabalhar em nome da sobrevivência.

Outros partem para a África do Sul, ainda adolescentes, com a roupa do corpo e a esperança no bolso.
Vão de forma clandestina.
Sem passaporte. Sem garantias de regresso.
Atravessam fronteiras por caminhos de mato, arriscando a vida por um pouco de futuro.
Trabalham nas minas, nas obras, nas lojas.
Mandam dinheiro quando podem.
Voltam quando dá.
Sonham quando sobra.

E quem fica… espera. E às vezes desespera.

A escola primária de Lionde ainda existe.
É simples, de paredes cansadas e chão gasto.

Quando chove, a água invade tudo.
A escola fica rodeada por poças e lama.
As crianças arregaçam as calças.
Entram com a água pelos joelhos — mas entram.

Faltar não é opção.
Não desistem.
A vontade de aprender é maior do que a enchente.

Apesar da fome, das roupas rasgadas, dos professores que chamaram algumas crianças de burrinhos, alguns meninos e meninas de Lionde foram até ao fim.

Um tornou-se engenheiro em Maputo.
Uma menina que andava descalça hoje é médica em Xai-Xai.
Outro foi estudar fora e voltou com ideia, não com vergonha da sua terra, mas com orgulho de ter vindo de onde poucos acreditam sair.
E um dos Diretores-Geral da Saúde foi formado ali mesmo, na Escola Primária de Lionde.

Alguns destes mesmos jovens, hoje adultos, voltaram para reabilitar a escola primária de Lionde. Com esforço, ajuda e memória, conseguiram dar nova cara às salas onde um dia aprendemos a escrever o nosso nome sentados no chão, porque as carteiras só chegaram nos anos 90. Ali, entre o pó e o silêncio, nasceram letras tortas e sonhos direitos.

O posto de saúde continua a funcionar uma vez por semana apenas.
O hospital mais próximo fica a 10 quilómetros, no distrito, e muitos não têm como chegar até lá.
As ambulâncias praticamente não existem.
E os chapas não esperam por quem não tem com que pagar.

Mas nem isso demove o povo de Lionde de continuar a acreditar.

Reflexão Final

Lionde não tem hospital.
Lionde não tem estradas sem buracos.
Lionde não tem refeitório na escola, nem biblioteca, nem rede de apoio real.

Mas Lionde tem talento.
Tem alma.
Tem futuro, se o deixarem florescer.

Este texto é um aviso.
É um retrato.
É um grito educado.

Ao governo.
À sociedade.
A todos os que se esqueceram de que os grandes homens e mulheres, também nascem em aldeias pequenas.

Não importa onde nasceste.
Não importa se em casa havia só salada no prato ou só silêncio à mesa.
O que importa é saber onde queres chegar, e nunca parar de caminhar.

Lionde é apenas um exemplo entre tantas aldeias esquecidas de Moçambique.
E também nelas, todos os dias, nascem crianças com coragem e futuro.

Que este texto sirva de abre-olhos para a sociedade. E de luz para as crianças que hoje vivem no interior, sem esperança.
Saibam: a esperança é a última a morrer.
E ela existe.
O sítio onde nasceste não define quem tu és.

Porque Lionde também é Moçambique.
E nos seus campos esquecidos, nascem sementes de esperança todos os dias.

Cada estrangeiro que pisa as terras de Lionde traz consigo uma pequena esperança. Cada investidor que ali aparece — o que é raro — nós vemos como um sinónimo de esperança. Ou talvez sejamos nós a querer ser vistos assim: como sementes de um futuro possível.

Hoje, algumas dessas crianças já têm acesso à internet, muitas vezes através de um telemóvel partilhado, velho ou emprestado.
Se um dia cruzarem este texto com os olhos curiosos da juventude,
que nele encontrem mais do que palavras, que encontrem esperança.

Obrigado por leres com carinho,
Roberto Júnior

Desabafo de uma qawwi, Histórias

Caídos do Céu

Back view of a young man drinking beer while while sitting at the bar counter

Fonte imagem: Envato

Era uma noite agitada de sexta-feira, e ele se encontrava diante do bartender da boate “Caídos do Céu”, isto depois de imobilizar o segurança que, além do ticket, exigia que deixasse o seu arco e flechas — sua arma mais poderosa. O nome “Caídos do Céu” atraiu-o àquele lugar, na esperança de encontrar pistas sobre sua missão. Mas ali só encontrou luzes coloridas piscando, som alto, homens e mulheres seminuas dançando com uma alegria que, para um mundo prestes a acabar, não se justificava.

Ocorreu-lhe perguntar ao bartender sobre os tais “Caídos do Céu”. Mas conteve-se, pois estava farto de fazer perguntas que aos outros pareciam ridículas.

O bartender serviu-lhe um copo e, ante o olhar de espanto do cliente, avisou:

Isto derruba até um alienígena!

A ele, soou como um desafio. E ele não era de fugir a desafios. Aliás, foi mesmo graças aos desafios que se tornara uma lenda viva entre os seus e braço direito do Rei Kosi.

Espreitou o líquido, mas seus sensores de perigo não detectaram absolutamente nada.

Se derruba um alienígena, certamente não um qawwi como eu.

— O quê? — perguntou o bartender, curioso.

Em seus olhos pairou alguma hesitação. Certamente, não era uma boa ideia revelar sua identidade por aí. Isso poderia interferir negativamente na missão.

Dá cá isto! — disse, arrancando bruscamente a garrafa das mãos do bartender.

Bebeu de um só trago. Não tinha sabor de nada e não lhe lembrava absolutamente nada que já tivesse tomado.

Desafio patético — pensou, pousando a garrafa na mesa.

Heeeeeeeeeeeeee!!!! — rejubilaram-se os demais que presenciaram a cena.

Os gritos inflaram seu ego, gostava de ser o centro das atenções.

Mais uma garrafa! — Disse. E os aplausos foram efusivos.

Esta é por minha conta, meu rei! — gritou alguém.

Em vários meses de recuperação e adaptação, desde sua aterrissagem inglória num dos desertos do planeta, era a primeira vez que alguém se dirigia a ele com alguma dignidade.

Contorceu os lábios, ensaiando um sorriso. Certamente o Rei Kosi não ia gostar nada daquilo. Mas Kosi estava distante, em outro planeta.

Aqui — gritou, tomando a garrafa das mãos do bartender — Vallen é rei!!!!

E, assim, estava feita a apresentação.

E houve uma ovação enquanto ele consumia toda a bebida. Todos haviam deixado seus lugares para se acercarem do Vallen.

Por aqueles instantes, havia se esquecido completamente da missão e da obsessão em encontrar Linan.

Vallen! Vallen! Vallen!… — gritava a multidão, eufórica.

E quanto mais garrafas ele consumia, mais total era a festa.

Despertou na madrugada seguinte, no chão de uma cela fedorenta. Estava com fortes dores de cabeça. E, pior, não conseguia se lembrar do resto da noite passada, nem de como fora parar em uma cela.

Pois então — disse para si mesmo, — derruba até um qawwi!

Vallen, o qawwi