Desabafo de uma qawwi

#20|Soneto de fidelidade – Meu casamento, meu pesadelo

É a minha pequena Érica quem lidera o cortejo. Entusiasmada com a tarefa, ela saltita pela trilha de areia, cercada de candeeiros e velas. As suas mãos vão largando pétalas vermelhas. A ínfima quantidade que os seus dedinhos conseguem tirar do cestinho.

Sigo atrás dela, acompanhada pelo pai de Will. Os meus pés descalços estão cobertos pelo longo cetim do vestido cor da lua. O mar e as estrelas, quietos, tentam disfarçar os risos, mas certamente estão espantados. Afinal, conheço Will há quê…? Três anos do planeta terra? Todavia, vendo-o ali, parado, trémulo, sorridente, pronto para jurar-me amor eterno num altar coberto de flores e de sonhos, fico com a impressão de que é a primeira vez que o vejo. E é uma visão que deixa-me muda. Inunda-me os olhos. Quando Will toma-me pela mão, o meu peito transborda. De infinito contentamento.

Caríssimos irmãos – inicia o tal “padre”. O ritual é bastante estranho. Mas na sua estranheza, sinto as palavras tornarem-se uma ponte de cristal, a reflectir a verdade que arde dentro de mim, quando chega a vez de dizer os votos:

– Will: contigo aprendi o que há de melhor nos seres humanos. Aprendi que amar é ter no outro o nosso lar, a nossa alma. Que o verdadeiro amor não vê diferenças, mesmo num universo vasto como este. Eu prometo, perante todos, que vou amar-te com força maior que a da gravidade. Cada segundo em que viver neste planeta.

Will mantém o seu olhar fixo no meu, deixa escapar um leve suspiro, e revela:

– Linan: até há algum tempo atrás, precisamente há três anos, o que eu queria era desaparecer. Despedir-me e esquecer-me de tudo. Mas acabei encontrando-te à ti, e contigo não há despedidas. Agradeço-te, infinitamente, por existires. Sobre o meu amor por ti, confesso com a ajuda de Vinícius de Moraes:

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

O jantar no restaurante da praia parece estar ao agrado dos 12 convidados. Isso tranquiliza-me. Enquanto dançámos ao som de “Janeiro à Janeiro”, sinto uma mãozinha puxar a cauda do meu vestido.

– Mãe… a tia Fatinha não deixa-me comer o bolo!

Carrego-a ao colo e dou-lhe um leve beijo.

– Daqui a pouco a tia Fatinha deixa, tens de ter paciência, está bem?

Para a minha surpresa, já que é uma criança persistente, Érica acena, desce do colo, e volta a estar com Fatinha, a minha grande amiga, agora também madrinha.

Will encosta a sua testa a minha. Parece esbaforido quando sussurra:

– Se pudesse, casava-me contigo todos os dias, Linan.

Uma falha na corrente eléctrica não permite que responda ao comentário. No minuto a seguir, a escuridão impera. E o meu coração acelera como um raio.

– Érica – é tudo o que consigo murmurar.

– O quê?

– Ele está lá fora. Vallen. Com ela!

A corrente é restabelecida mas eu já lancei-me à porta, sem nem perceber que Will corria na direcção oposta. Lá fora, uma brisa sopra na minha direcção, trazendo a visão que veste a forma do meu pior pesadelo: Vallen. Segurando Érica ao colo. A minha filha está dominada pela influência do poder de um qawwi.

– Linan, Linan… falta de educação não convidar os amigos ao casamento, não achas?

Levanto as mãos e faço emergir várias camadas de energia. Mas preciso encontrar a melhor de atacar, sem ferir Érica. É nesse momento que Will junta-se a mim. Para o meu espanto, vem munido de um arco e de flechas quentes.

Ergue uma das flechas:

– Larga a minha filha!

As sombras de Vallen curvam-se:

– A sério Linan? Tiveste o atrevimento de ensinar um humano a usar as nossas armas?

– Por favor – decido que não quero arriscar a vida de Érica – é a mim que queres, deixa a menina ir.

– Com certeza, Linan – Vallen agarra-se mais à Erica – Podes vir buscá-la quando quiseres. Localizei o qlub da esperança. Saberás muito bem onde encontrar-nos.

E em menos de segundos, tanto ele como a minha filha tinham desaparecido. Vallen acabara de fazer algo que poucos qawwis conseguem: teletransportar-se com um humano.

Os olhos de Will toldam-se de sombras. Ele está lívido. Nunca o vi tão transfigurado. O seu rosto é a moldura acesa do desespero. Da dor, e da fúria. É como se o amor e a vida tivessem secado naqueles poucos segundos.

– Não… eu não posso perder a minha filha!

– A nossa filha, Will. – corrijo com pesar – A nossa filha. Vou trazê-la de volta.

Ele encara-me, rígido.

– Leva-me contigo. Temos de ajudar a nossa filha… leva-me contigo!

Então, uma lágrima cai no meu rosto. Quem me dera ter a capacidade de teletransportar-me para tão longe, levando-o comigo. Mas não posso. Mesmo que pudesse, seria o equivalente a assinar a sua sentença de morte.

– Prometo que a terás de volta, sã e salva. Tão breve, meu amor. Confia em mim.

Fatinha, apercebendo-se do movimento, viera atrás de nós. Ela despe a camisola que traz e coloca-a sobre os meus ombros. Não percebe nada, mas de alguma pressente o terrível destino que me espera. A busca por Érica será longa. E o meu vestido de cetim, não é necessariamente o melhor traje para uma viagem destas.

Despeço-me deles. E dos dias de calor e de amor que tanto ansiamos mas que agora serão substituídas por noites geladas, numa estrada solitária. Olho para as estrelas, em busca de força.

– Linan – Will parece derradeiramente assustado quando segura-me pelo braço – não posso perder ambas. imploro.

Devolvo o olhar. Vejo os aneis nos nossos dedos. E com isso, teletransporto-me.

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Imagem: TVD – do canal CW

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | 8 filmes para quem decidiu pôr o anel

O casamento é uma das decisões mais importantes que um ser humano toma ao longo da sua vida. Afinal, trata-se de escolher com quem vai-se partilhar uma vida inteira e essa escolha pode ser a estrada para um sonho ou para um pesadelo. Não é por acaso que a indústria cinematográfica explora profundamente esta matéria, expondo o lado divertido, dramático ou trágico da coisa. Nota-se, porém, uma certa tendência de os filmes deste género possuirem uma característica previsível, com uma mulher perseguindo o sonho de colocar o vestido branco e um homem relutante em subir ao altar.

Este mês, como já devem ter reparado, é particularmente especial, pois casa-se a nossa qawwi. Com um humano. Inspirados por este inesperado evento, decidimos partilhar com vocês, alguns filmes que, dentro do tema, tentam explorar outros aspectos além do simples “casar”, fora das ideias padrão impostas pela sociedade, servindo assim de inspiração para buscar bases sólidas para o amor. Vamos conferir?

8. Até que a sorte nos separe 3: a falência final – 2015

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A comédia até que a sorte nos separe, é uma trilogia brasileira que conta a história de Tino, um homem que ganhou, e tão facilmente perdeu dinheiro. Nesta terceira parte da saga (a falência final), a filha de Tino fica noiva de um jovem de família de classe alta, mas Tino, cheio de orgulho, decide que irá arcar sozinho com os custos da cerimónia de casamento. Visto que não tem dinheiro para tal, ele aceita uma oferta de emprego na agência do seu compadre. Como era de esperar-se, Tino consegue, mais uma vez, perder dinheiro. Só que desta vez, Tino não leva apenas a agência do compadre à falência. Ele “arruina” também o próprio Brasil. Com este desastre e sem confessar que está falido, Tino continua a empreitada de tentar financiar um casamento de luxo para a filha. Uma comédia mediana, mas com um óptimo roteiro à volta de reflexões políticas e familiares.

Trailer:

7. Rachel Getting Married (o casamento de Rachel) – 2008

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O filme conta a história de Kym (Anne Hathaway) que sai de uma clínica de reabilitação e visita a família por ocasião do casamento da sua irmã Rachel. Os conflitos e o passado de Kym e da família acabam sobressaindo durante os preparativos da cerimónia. O filme aborda o valor do perdão e da superação. Por outro lado, retrata ao pormenor, a organização de uma cerimónia simples e invulgar, e a tradição americana do rehearsal dinner (jantar de ensaio). Entretanto, a angústia e os eventos familiares vividos no filme têm uma intensa carga emotiva que acabam inevitavelmente por arrancar-nos algumas lágrimas.

Trailer:

6. When we first met (Quando nos conhecemos) – 2018

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Inconformado com o noivado e casamento de Avery, aquela que ele acredita ser a mulher dos seus sonhos, Noah recebe uma inesperada chance de viajar no tempo e alterar a noite em que a conheceu, tentando assim mudar o destino.

Apesar de a trama estar mais voltada à temática sobre viagens no tempo, a comédia faz-nos pensar sobre as nuances das nossas escolhas, e sobre o que é que, de facto, leva-nos a acreditar que é “aquela pessoa” com quem queremos partilhar uma vida inteira.

5. Monster in Law – Uma sogra de fugir (2005)

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Mais do que um esposo, ou uma esposa perfeita, há que analisar-se a dinâmica das relações entre mães e filhos, sogros, noras e genros. Que Jennifer Lopes não nos deixe dizer o contrário, nesta comédia que retrata tal dinâmica.

Trailer:

4. My Greek fat wedding – Casamento Grego (2002)

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Toula Portokalos (Nia Vardalos) tem 30 anos, é grega, e ao contrário do sonho do seu pai, que é que ela arranje um bom marido grego, ela quer algo mais na vida. É ao ter aulas de informática numa universidade, que acaba por apaixonar-se por um professor de inglês, que é completamente o oposto do desejo de seu pai, ou seja, um não-grego. My Greek fat wedding não é apenas uma linda comédia romântica que explora uma relação intercultural. Ela ensina de forma bem humorada como aceitar diferenças.

Trailer:

3. Guess Who (A família da noiva) – 2005

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A trama principal é de Theresa e Simon, que enfrentam dificuldades pelo facto de Percy Jones, pai de Theresa, não ficar contente em ter um genro branco. Porém, a trama secundária também promete. Afinal, os pais de Theresa estão a preparar-se para celebrar 25 anos de casados. São os votos que Percy não consegue escrever, é Percy que quer minimizar os gastos com a cerimónia… parece familiar?

2. Mamma Mia – 2010

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Este musical com temas dos Abba (num cenário colorido proporcionado numa ilha da Grécia), segue a jovem Sofia e o seu desejo de ter o (desconhecido) pai, ao seu lado, para levá-la ao altar no dia do casamento. Mais do que os preparativos da festa de casamento, a história aflora a descoberta de segredos de família, resgate de amores e relacionamentos do passado, e sobretudo a realização de sonhos.

Trailer:

  1. The Wedding Party (2016)

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Desde os trajes coloridos, as amigas cúmplices da noiva, as tias que cantam com entusiasmo, os amigos malandros do noivo, os familiares penduras sem convite, o buffet que não é suficiente… tudo nesta película parece bastante verosímil no retrato de um casamento numa sociedade africana. Esta produção nigeriana (Nollywood), exibida pela Netflix, vai animar qualquer pessoa, seja ou não de cultura nigeriana / africana. Óptima aposta para quem sentir o coração leve e conhecer outras culturas.

Trailer:

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Bodas de Papel, de Daniel Moraes – Opinião

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Autor: Daniel Moraes

Editora: Rouxinol; 2018

Opinião

Foi uma óptima experiência e um grande prazer para nós entrar em contacto com a escrita de Daniel Moraes, no seu livro de estreia, Bodas de Papel. Ao apresentar-nos Michelle e Michael, logo de início numa situação delicada, o autor coloca-nos no impulso de saltar para a última página, deixando claro que o seu objectivo é arrancar algumas lágrimas do leitor.

A história começa quando Michelle, uma jovem dedicada exclusivamente à faculdade e ao trabalho, acaba desafiada a aceitar o amor de Michael, já que este não mede esforços para derrubar as muralhas que a outra havia edificado à sua volta nos últimos anos.

“A minha vida deu uma reviravolta agora e não sei qual será o meu próximo passo, mas tenho a certeza que não será para longe de você”. São passagens como estas, que revelam a sensibilidade no interior do protagonista Michael, assim como no do próprio autor.

Na sua proposta, Daniel revela uma narrativa bem estruturada, personagens com um bom grau de densidade psicológica, desde as centrais, às secundárias, com especial destaque à adorável Kelly e até a “negligente” médica Claudete. Daniel não é comedido na ambientação e nos detalhes que compõem o cenário da narrativa. É verdade que os detalhes às vezes se tornam um pouco “abundantes”, mas se isso é bom ou mau, depende da apetência de cada leitor em querer familiarizar-se com a vida do personagem.

O drama que dá essência à história é bastante plausível. A dificuldade enfrentada pelo casal é facilmente relatável e faz desabrochar no leitor uma grande empatia. Isto torna o livro fácil de ler. Amantes de uma história romântica, cheia de sensualidade e ousada na sua simplicidade, vão adorar a proposta. O mesmo tipo de ousadia e força encontramos no livro “Fica Comigo” de Noemia Amarillo. Daniel, entretanto, vai um pouco além ao aflorar com segurança conhecimentos médicos, tornando a leitura não só prazerosa, como também educativa. Ao chegarmos ao fim, o autor revela-se pretender ser tão dramático como Nicholas Sparks. Se realmente o faz, é algo que convidamos o leitor a descobrir.

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Desabafo de uma qawwi

#17| Dúvidas de uma qawwi: qual regime escolher no casamento?

O que é que se espera de uma mulher, uma humana normal, na sociedade terráquea? Que cresça, estude, arranje um trabalho de sucesso, case, e por fim tenha filhos. Esta é a ordem das coisas. Mas eu, pobre de mim, sou uma criatura a parte. Nem mulher, nem humana. Não tenho um emprego convencional e vivo à toa pelo planeta terra em busca de uma missão cada vez mais dúbia. E como um carangeujo, os meus passos foram na retaguarda. “Solteira”, se assim quiserem chamar, ao aceitar ficar com Will, ganhei uma menina que agora é minha filha. E então, depois de ganhar uma filha, aceitei o tal casamento.

As pessoas que desconhecem a minha história acreditam que fiz as coisas de forma errada. Têm pena de mim, consideram-me a “desgraçada que aceitou criar a filha do outro, sem sequer casar”.

Será que elas têm noção do que estão a dizer? Sabem a minha trajectória (como vocês sabem)? Claro que não. O mundo de fora julga-nos, alheio às nossas razões, aos nossos caminhos, e à nossa história. O universo supera comandos sociais. E embora estes tenham a sua razão de ser, não podemos esquecer que o universo concebeu cada um de nós com fórmulas únicas. Não adianta quereremos seguir o mesmo caminho. Caranguejos e cavalos, todos têm a sua corrida. É apenas uma questão de tempo.

Pois bem. Eis-me aqui, num novo caminho. Antes de vir a este planeta, desconhecia por completo a noção de “casamento”. Fiquei com medo. Daí a inicial reluctância em aceitar. Mas Will é persistente. A esta altura ele já devia saber que um papel assinado não vai assegurar, mais do que o meu abraço, que o amarei por toda a minha vida. Facto é, entretanto, que para ele e para os humanos no geral, esta oficialização é importante. E eu respeito isso. Respeito, acima de tudo, o humano que o meu coração escolheu. E estou contente em poder planear com ele todos os detalhes da cerimónia. Este mês vai ser muito agitado! O tal “casamento”, nas suas várias formas pelo mundo, costuma ser um evento assinalado com muita pompa e circunstância. O nosso não será necessariamente assim. Will teve que ceder e contentar-se com uma cerimónia bastante restrita.

Iremos fazer o enlace numa praia (oh mar, a mais bela das coisas da terra!) num lugar que é especial para mim: Moçambique. Depois dos últimos eventos, decidimos buscar refúgio nesta terra, por uns tempos. Na cerimónia, seremos nós dois, a nossa filha Érica, os pais de Will e a minha amiga Fatinha. Talvez mais alguns amigos comuns. Não mais de doze pessoas.

Há, entretanto, alguns aspectos do casamento, em toda a sua natureza e propósito, que são de difícil compreensão para uma qawwi como eu: o registo civil. O que será que isto implica? Embora para mim seja, sinceramente, despropositado, entendo e reconheço que pela condição humana e o meio em que esta espécie vive, seja de vital importância. Andei a estudar a questão e descobri algumas informações que podem ser úteis, não só para mim, mas para quem também estiver a organizar o seu casamento. O regime de bens a adoptar. Vamos analisar juntos?

Convenção antenupcial

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O casal pode optar, ou não, por um documento chamado “convenção antenupcial”. Se os noivos optarem por fazer uma convenção antenupcial, poderão escolher o regime que querem que se aplique na gestão dos bens do casamento. Entre outras matérias, podem também definir neste documento, como como será, por exemplo, a guarda dos filhos em caso de divórcio.

Estranho, não é? Mas para vocês humanos, talvez faça todo o sentido.

Comunhão de bens adquiridos

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Na falta da tal convenção antenupcial, o casamento considera-se celebrado sob o regime de bens adquiridos. O que significa que todos os bens adquiridos pelo casal depois do casamento, são de ambos (excepto bens que recebam como doação ou herança, ou material de trabalho de cada um).

Regime da comunhão geral de bens

Se o casal adoptar este regime, significa que o património comum é constituído por todos os bens presentes e futuros do casal. Ou seja, todas as coisas serão nossas.

Regime da separação de bens

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Se o casal adoptar este regime, cada um deles conservará o domínio de todos os bens futuros e presentes, podendo dispor livremente desses bens. Ou seja, o que é meu, é meu, o que é dele, é dele.

Espero que para vocês humanos a informação seja útil e faça sentido. Quanto a mim, completamente sem ideias. Algum conselho?

Desabafo de uma qawwi

#16| A arte de sentir-se heróico

Talvez fosse por causa do efeito de “Love Never Dies”, que não nos apercebemos do estranho movimento. A rua estava deserta e nós, ainda embriagados pelo final do espectáculo. A arte é, e para sempre será, uma das melhores invenções dos humanos.

Assim, quando demos pela presença, já os três homens encontravam-se bem perto. Bloquearam o caminho, e o que estava na dianteira, pôs-se a rondar-nos como um cão que fareja ossos. De seguida puxou um pouco a camisola. A pistola na calças ficou visível.

– Joias e carteiras, rápido!

– Telefones, a porra dos telefones! – acrescentou o outro.

Instintivamente, Will meteu o braço à minha volta e puxou-me para trás.

– Deixem-nos em paz.

Melindrando pela ousadia, o homem sacou a pistola e reforçou a ordem:

– Dinheiro seus surdos, já!

Will afincou e senti que pretendia lutar. Travei-o. Ou ele esquecia-se de que eu era uma qawwi, cheia de poderes que nenhum outro humano tinha, ou ele simplesmente estava dominado por um impulso irracional. E isso era muito perigoso. Os humanos não deviam reagir em circunstâncias daquelas. Era preciso simplesmente obedecere o assaltante para sobreviver. Só que a tênue fronteira entre o terror e prazer, o ter que conviver com o medo como quem abraça um amigo, deu aso a uma revolução. A exacerbada violência nas ruas fez com que noções básicas de defesa pessoal tornassem-se tão necessárias como o acto de respirar. Era por isso que as artes marciais andavam em voga. E dependendo das cidades, as pessoas já começavam a carregar no bolso ferramentas de protecção, como canivetes, sprays de pimenta, teasers de choque, entre outros, desde que a sua posse fosse permitida pelas leis locais.

No meu planeta, eu fazia parte da segurança real, ou seja, era uma qawwi altamente treinada. Mas mesmo assim, achei boa ideia frequentar a academia de judo, com Will e com Érica. Aliás, o judo ajuda as crianças a aumentarem as suas capacidades físicas e psíquicas, e contribuem com valores importantes, como companheirismo e respeito pelos demais.

Pensar que a minha família não tinha os mesmos poderes que eu e que estava à mercê da sua própria fragilidade, deixava-me fora de controle. E não é bonito ver uma qawwi descontrolada.

– Senhores, deixem-nos ir para casa.

Eles agitaram-se, cheios de pressa.

– Vão morrer porra, passem o dinheiro!

Dei por mim a cerrar os dentes e punhos.

– Senhores, eu não vou repetir-me…

Então, calaram-se. E súbito:

– É uma bruxa! – após o grito, e para o meu espanto, fugiram como quem foge de uma queda de granizo. Menos o que estava armado. Guardou a pistola, e continuou a olhar-me. Mas desta vez, nutria um súbito ardor excitado no rosto.

– Os teus olhos moça…

Foi nesse instante que percebi o que tinha causado a fuga dos outros. Sacudi a cabeça para fazer o efeito desaparecer. É que quando fico alterada, as minhas reacções manifestam-se nos olhos que cobrem-se de um manto azul.

– És um deles, és uma qawwi! – constatou o outro na mesma incontrolável avidez – Estás com Vallen!

O sentimento anterior foi substituído por um medo de proporções alarmantes.

– Como… como o senhor sabe sobre os qawwis?

Não respondeu. Apenas sorriu e imprimiu velocidade quando correu em busca dos outros. Parecia feliz com a descoberta. Demasiado feliz.

Apreensiva, segurei a mão de Will.

– Depressa… temos de ir.

**

Em menos de uma semana, estávamos a fazer as malas. Cedo ou tarde Vallen ia aterrar naquela cidade. Se é que já não o tinha feito. Eu até poderia enfrentá-lo. Mas já não estava sozinha. Tinha de pensar na minha família. Mudar de cidade era a única forma de mantê-los a eles e a minha missão em segurança. Embora o confronto parecesse-me algo cada vez mais inadiável. Por essa mesma razão, optei por revelar um pouco mais do meu mundo a Will, ensinando-o a usar as flechas quentes. As armas dos qawwis. A resposta necessária, para o que há de pior no meu planeta.

Fui até ao jardim ver como ele estava a sair-se e nesse momento, uma flecha acertou um pequeno tabuleiro fixado há alguns metros. Assim que atingiu o alvo, a flecha desprendeu uma tira de fumo.

– Will… bravo!

Ele efectivamente já dominava as flechas quentes.

– Sinto-me heróico Linan, como um personagem dos jogos da fome

– Isto não é fome nem jogo Will! Mas sim… é uma arte saber usá-las! E se vamos casar, é justo que saibas lutar como um qawwi, para proteger a nossa família.

Will baixou o braço, boquiaberto.

– Vamos?

Devolvi um olhar que não logrou ser tranquilo.

– Ou mudaste de ideias?

O rosto dele ganhou um espectro de tons radiosos, como se tivessem acendido em lenta sucessão as luzes decorativas de uma festa. Com um só braço, atraiu-me para perto de si e murmurou ao pé dos meus lábios.

– Fazes de mim o homem mais feliz do mundo, Linan. E podes ter a certeza que – ergueu o arco – ninguém vai meter-se com a nossa família – e deixou outra flecha escapar.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | Bandersnatch – assista, mas com cautela | Opinião

 

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Título: Banrdersnatch

Direcção: David Slade

Elenco Principal: Fionn Whitehead; Will Poulter; Asim Chaundhry; Craig Parkinson; Género: Ficção interativa

Ano: 2018

 

Imagem via Netflix

Sinopse:

No ano de 1984, um jovem problemático começa a questionar a realidade ao seu redor, à medida em que tenta adaptar um livro para vídeo game, e começa a enfrentar questões perturbadoras.

Opinião:

O entusiasmo foi enorme quando a Netflix divulgou o trailer de Bandersnatch em finais de Dezembro de 2018, um filme baseado na série Black Mirror. A película começa com uma breve explicação ao telespectador, de que este terá 10 segundos para tomar decisões ao longo do filme, findo o qual, será feita uma decisão aleatória em seu lugar. Após este estimulante introdutório, seguimos a história de Stefan, um jovem programador que está a tentar adaptar um livro-jogo chamado Bandersnatch, para um vídeo-game. E vamos fazendo escolhas em nome do protagonista.

O percurso do longa é de cerca de 90 minutos, que pode, entretantoo, variar dependendo das decisões que o telespectador toma, com diferentes resultados. Apesar deste enigmático conceito, onde um filme torna-se vídeo-game e vice-versa, sentimos que Bandersntach caí num limbo, sem chegar necessariamente a ser um filme, nem um video game. Uma imprecisão que não retira a inovação da proposta. Aliás, a ideia de misturar os dois elementos e de envolver o telespectador num papel de um ente superior, lidando com temas como destino vs livre arbítrio, é fantástica.

Para quem, contudo, esperava sentir-se, digamos, desafiado (coisa facilmente de acontecer com Black Mirror) pode ficar desapontado, já que esta é uma proposta muito mais suave que o habitual. Por certo, Black Mirror conseguiu distanciar-se do que era previsível.

Recomedamos, entretanto, toda a cauetla nas respostas que você, como telespectador, vai dar durante o filme. Muitas das perguntas que são feitas têm um cunho ético e mesmo que seja para efeitos de mero entretenimento, a Netflix terá acesso as respostas dos telespectadores e ao perfil dos mesmos. Não queremos por descuido, deixar o rastro de um perfil de “psicopata” na base de dados da Netflix, pois não?

Tirando este senão, é uma experiência aceitável, e foi um bom presente da Netflix para os amantes de Black Mirror que encerraram 2018, na grande expectativa do que 2019 trará para esta série.

A nossa pontuação: 3.0 em 5 estrelas.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=XM0xWpBYlNM

Desabafo de uma qawwi

#13| Finanças em tempos de crise: como prosperar – sem tornar-se um vírus perigoso para o sistema

Como é que alguns humanos conseguem prosperar e gerir as suas contas, enquanto outros afundam em dívidas? É nisto que estou a pensar enquanto coloco dois garrafões de água no carrinho, e vou ao encontro de Will e Erica no caixa do supermercado.

Neste planeta tudo tem um preço. Inclusive a água. E os humanos chamaram esta invenção de “laissez-faire”. Um mercado, onde as coisas só funcionam à base de troca. Para quem vem de um planeta onde toda e qualquer criatura tem acesso aos recursos, sem restrições, compreender essa tal “economia” é traumatizante.

Seja como for, por mais absurdo que seja, a verdade é que neste planeta, a sobrevivência depende desse factor: o dinheiro. Para lidar com isto, uma parte dos humanos recebe um “salário”, e o que é um salário? Uma espécie de prémio atribuído pelo sistema, mediante 30 dias de “trabalho” consecutivo prestado à outrem. Outros, entretanto, fazem o rendimento acontecer por conta própria. Há também os que agem de forma muito bizarra, mais ou menos como vírus. Estes são uma ameaça, pois podem corromper o sistema.

Corrupção

Viver neste planeta é isto. É saber lidar com a gestão de uma casa, de uma família, e de um salário para sobreviver. Normalmente eu não utilizo os meus poderes de qawwi para burlar o sistema e arranjar dinheiro. Isso só faria de mim mais um vírus.

Mas então, será que no meio deste caos, existe alguma forma de gerir correctamente as finanças e ter um equilíbrio? Estou inclinada a dizer que sim. Ora vejamos:

  1. Trabalhar no que se gosta

Na minha perspectiva de qawwi (que pode estar errada), quem realmente gosta do que faz, está mais propenso a ter êxito e consequentemente, a gerar melhor uma renda. Certo?

  1. Gastar menos do que ganha

Aqui a lógica parece simples. Utilizar somente os recursos de que se dispõem. Mas a realidade neste planeta não é essa. Muitos humanos têm a tendência de gastar além do que a sua conta permite, contraindo assim dívidas. O primeiro passo para o equilibro é eliminar este hábito.

  1. Controlar e moderar os hábitos

No meu planeta eu não precisava de alimentar-me, mas bastou chegar à terra para transformar-me no monstro do garfo. Quando trata-se de finanças, a comida é a minha ruina. Não sei qual é a sua fraqueza, mas para a mesma, tenho apenas uma palavra: moderação. Não apegue-se demasiado ao dinheiro, mas também não esbanje. Crie um budget mensal e respeite esse bugdet. Tenha autocontrole e adquira, primeiro, aquilo que realmente precisa.

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4. Traçar prioridades e metas

O tempo de estadia dos humanos no planeta terra é bastante curto. Logo, os humanos preocupam-se em aproveitar o máximo deste reduzido tempo (se não o fazem, deviam). As metas e prioridades são particulares à cada um. A minha prioridade, por exemplo, é viajar pelo mundo inteiro, até resgatar os qlubs. Mas para humanos como Will, por exemplo, a meta e o sonho pode ser fazer o tal “doutoramento”, passear num cruzeiro, casar, ter casa própria ou então organizar a tal “reforma”.

Estabeleça as suas prioridades e prazos realistas para atingir os seus objectivos.

5. Fazer uma poupança

A realização de alguns sonhos e metas requer planificação. Pela “poupança”, o humano guarda parte do seu rendimento para ter uma reserva que o permite mais tarde realizar os sonhos a longo prazo (ou aguentar imprevistos). Não importa o tamanho do seu salário/mesada/rendimento. O acto de poupar dinheiro, pouco que seja, ajuda a construir disciplina. É melhor poupar 10 e ao fim de um ano ter 120, do que não poupar nada. Eis alguns exemplos de como poupar:

As crianças e adolescentes (e também os adultos), podem ter um mealheiro para gerir as suas economias, criando deste modo, desde pequenino, o hábito de poupar;

– Crédito rotativo informal (xitique) – dependendo do número de pessoas a participar, é possível a curto e médio prazo ter um retorno garantido, sem estar sujeito à taxas nem comissões.

Depósitos a prazo – está a guardar dinheiro para projectos a longo prazo? Em vez de o deixar parado debaixo do colchão, porque não abrir uma conta a prazo ou uma conta poupança num banco? Assim, o seu dinheiro não só vai estar guardado, como também vai crescer e dar lucros que você pode utilizar.

6. Não se tornar um gatuno nem corromper o sistema:

Quaisquer que sejam as circunstâncias, não caia na tentação de apossar-se de dinheiro que não o pertence nem de o adquirir de forma ilegal. Isso só fara de você um vírus no sistema, que prejudica os demais.

Não imponha limites nos seus sonhos, nem nas formas de obter rendimentos para os realizar. Apenas o faça com responsabilidade e honestidade.

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