Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| Pedro Páramo | Opinião

Por Zaiby Manasse

Fonte imagem: heavenofhorror

Título: Pedro Páramo

Direcção: Rodrigo Prieto

Género: drama; realismo mágico

Ano: 2024

Plataforma: Netflix

Opinião

Tenho tentando explorar mais o mercado cinematográfico fora dos Estados Unidos que de uns tempos para cá nos brinda com a mesmisse como se não existissem mais ideias. Foi nessa senda que me deparei com esta produção mexicana dirigida por Rodrigo Prieto, adaptando de forma directa o livro homônimo escrito por Juan Rulfo e lançado originalmente em 1955 com o mesmo título do filme, Pedro Páramo.

A trama se passa na cidade de Comala, no estado de Colima. A época não é explicitada precisamente, mas há indicações de ser contemporânea à Revolução Mexicana e à Guerra Cristera (informação tirada no Google). A história é narrada em uma mistura de primeira e terceira pessoas, com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o que faz o filme ficar um pouco confuso, mas a medida que avança vai explicando alguns acontecimentos já vistos. O filme vai e volta, dentro do passado vai ao futuro desse passado e também, muitas vezes, volta para o passado desse passado para explicar algum personagem ou um determinado acto do filme do tempo em questão. O carácter de Pedro Páramo, figura central do filme, é deslindado pouco a pouco por meio desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. É estranho que essa contradição vai prendendo (a mim prendeu, como se estivesse a ser sugado por uma espiral). O filme começa com Juan Preciado, que após a morte da mãe, volta à cidade de Comala para procurar o pai, Pedro Páramo. Logo que chega, fica a saber que este já havia morrido há anos. Em Comala entra em contacto com diversos moradores, todos, de alguma forma, ligados ao falecido pai. Aos poucos, pequenas contradições e absurdos vão-se sucedeendo: ouvem-se fantasmas, borram-se os limites entre o real e o sobrenatural, sono e vigília, passado e presente, até que se entende que todos, inclusive os diversos narradores, que se alternam, estão mortos. Apesar de não estarem conscientes do seu próprio estado, os habitantes do lugar percebem que os demais estão mortos.

Ao ver o filme pensei no livro de Gabriel Garcia Marques, 100 anos de solidão que dás cinco vezes que li, não terminei devido a complexidade do mesmo que é para mim, causada pela densidade do livro. Penso eu, que se tivesse lido o livro Pedro Páramo teria tido a mesma dificuldade. Se um filme tende a diluir as coisas e este estava denso, não quero imaginar o livro. Sempre achei que o livro de Gabriel Garcia Marques daria um óptimo filme ou série. Recomendo o filme para aqueles que não têm preguiça de pensar e que gostam do género Realismo Mágico.

Zaiby Manasse

Opiniões, Resenhas

A Exploração Rítmica de Khruangbin: Sobre A La Sala

Por Denilson Monjane

“All great music is in one way or another psychedelic.”

Genesis P-Orridge

O trio texano Khruangbin, formado por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald “DJ” Johnson (bateria), tem-se destacado ao longo da última década por sua sonoridade única, que mescla influências de funk psicodélico, soul, música tailandesa, maliana, jazz e ritmos do Oriente Médio. A banda tem, de forma gradual, consolidado um estilo que mistura e reinventa fronteiras musicais, mantendo sempre um fluxo de experimentação. Com o lançamento de A La Sala (2024), Khruangbin se afasta, em parte, de seus lançamentos anteriores e adentra um novo território sonoro, que transita entre o groove e a introspecção, com uma estética que remete a fusão de uma ambiência visual nostálgica e de espaços abertos.

Em comparação com os trabalhos anteriores como “The Universe Smiles Upon You” (2015), “Con Todo El Mundo” (2018), “Mordechai”(2022) e “Ali”(2022), que se baseavam fortemente em influências psicodélicas e elementos de músicas do mundo, “A La Sala” apresenta uma sonoridade mais consistente e contemplativa. As composições no novo álbum tendem a ser mais introspectivas e sutis, sem perder o groove inconfundível que se tornou marca registada da banda. A transição para um som mais atmosférico e refinado não é uma ruptura, mas uma evolução natural do trabalho do grupo.

Uma das características mais evidentes neste álbum é a atmosfera espacial e etérea que predomina em várias faixas. A combinação da guitarra suave de Speer, com a linha de baixo pulsante de Laura Lee e a batida hipnótica de Donald Johnson cria paisagens sonoras que mais evocam uma sensação de deslocamento no espaço do que uma construção de uma narrativa linear. A música parece funcionar como uma espécie de espaço entre o real e o imaginário, com momentos de leveza e transcendência.

O álbum abre com a “Fifteen Fifty-Three”, que inicia com uma estrutura de groove suave e se dissolve em camadas sonoras vibrantes do baixo, bateria e guitarra, criando um clima que é, ao mesmo tempo, cativante e melancólico. A textura sonora da banda é mais refinada aqui, com o baixo pulsando de forma quase hipnótica, enquanto a guitarra de Speer desliza por linhas melódicas que lembram tanto o soul dos anos 70 quanto os sons experimentais da música global.

Em “May Ninth”, a fusão entre o psicodélico e o electrónico se torna ainda mais pronunciada, com a introdução de batidas minimalistas e um toque de jazz, enquanto a voz de Laura Lee, mesmo que presente de forma contida, adiciona uma certa sensualidade ao ambiente sonoro. Já em “Ada Jean”, o uso de percussões mais orgânicas e um trabalho de guitarra mais focado na repetição cria um loop quase hipnótico, que leva o ouvinte a um estado de imersão. A escolha de deixar a guitarra mais esparsa nas composições também permite que a instrumentação se sobressaia, o que dá uma sensação de espaço e liberdade.

“Farolim de Felgueiras”é outra peça-chave no álbum. Com uma pegada mais directa, a faixa é um jogo entre o groove e o minimalismo, algo que Khruangbin já havia explorado, mas aqui de forma mais subliminar. A faixa traz uma melodia etérea que poderia facilmente ser um tributo aos sons melancólicos latinos mas, ao mesmo tempo, é suficientemente original para não cair na simples repetição de estilos. A banda consegue equilibrar referências com inovação, criando algo familiar e ao mesmo tempo novo. “Pon Pón” mostra que o Khruangbin também é capaz de explorar sons mais bailados sem perder a característica de criar atmosferas envolventes. A faixa parece um interlúdio, sendo menos sobre o ritmo a ouvir e mais sobre a sensação que deixa no ouvinte a vontade de dançar. E depois volta-se ao ritmo relaxado e pausado com “Todavía Viva”, com a voz suave de Laura Lee melodicamente acompanhando as cordas da guitarra de Speer.

Uma das grandes virtudes do álbum “A La Sala” é justamente a sua habilidade de criar complexidade dentro da simplicidade. A banda continua a demonstrar um domínio impressionante do uso do espaço e da dinâmica musical. O modo como as texturas sonoras se intercalam ao longo do álbum oferece ao ouvinte uma experiência sensorial mais do que intelectual. Não é um álbum que exige grandes análises ou interpretações complexas, mas sim uma experiência que pode ser sentida e vivida. Em muitas faixas, há a sensação de que a música é mais um estado de espírito do que uma expressão convencional de composição.

Essa abordagem é evidente em faixas como “Luego y Nubes”, que utiliza uma percussão repetitiva e uma linha de baixo discreta para criar uma sensação de movimento lento e constante. A melodia da guitarra é sempre sutil, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo essencial, contribuindo para a construção da atmosfera substancial do álbum. O minimalismo apresenta-se como uma escolha estética onde menos é mais, e a repetição torna-se uma ferramenta poderosa para criar um estado meditativo.

“A La Sala” não é apenas um passo à frente na carreira do Khruangbin; é uma reflexão sobre como a banda pode continuar a expandir suas influências enquanto mantém sua identidade intacta. Em vez de se basear em fusões óbvias e fórmulas repetitivas, o trio dedica-se a explorar novas formas de criar e compartilhar sua música. É um trabalho que ressoa com as qualidades imersivas que sempre foram a marca da banda, mas com uma ênfase maior no amadurecimento e na experimentação sonora. O álbum, por fim, confirma o lugar de Khruangbin no cenário musical contemporâneo, enquanto oferece aos fãs um convite para se perderem em suas paisagens sonoras.

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O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Opinião

Autor anónimo

Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.

Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.

Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.

Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.

Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.

Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.

Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.

Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que  tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.

Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.

Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.

Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.

À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.

O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.

Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.

Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.

Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.

Resenhas

Pátria Minha: uma telenovela brasileira que poderia ter sido inspirada na realidade moçambicana | Opinião

Há alguns dias, publicamos uma citação de Graciliano Ramos que diz: “a primeira coisa que uma obra de arte nos diz é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.”

Se é verdade que a arte se inspira na vida e muitas vezes nos mobiliza para a acção, é igualmente verdade que muitos de nós encontramos consolo, expressão e liberdade na arte. Como uma pessoa profundamente movida pela sétima arte desde a tenra idade, as telenovelas brasileiras sempre foram uma fonte significativa de entretenimento e reflexão para mim.

Nesta breve resenha, gostaria de revisitar Pátria Minha, telenovela brasileira que foi ao ar pela primeira vez em 1995 na TV Globo há quase três décadas. Apesar do tempo, os temas desta novela parecem ressoar de forma marcante, não só no contexto brasileiro da época em que ela foi feita, mas também, e surpreendentemente (senão algo alarmante) no contexto contemporâneo de Moçambique. Ora vejamos:

A Narrativa de “Pátria Minha”

De entre as inúmeras tramas interligadas, destaco duas narrativas centrais que me parecem particularmente relevantes: primeiro, a história de Pedro (interpretado por José Mayer), um imigrante brasileiro que vive em Nova York há anos e decide voltar ao Brasil. Sua esposa, Ester (Patrícia Pillar), ex-professora de português, resiste à ideia de regressar. Ela articula a sua reluctância com palavras que são dolorosamente familiares até o dia de hoje e passo a citar:

Eu não quero voltar. Me dá medo. A gente vai voltar para um país em que o professor não consegue dar aulas porque está com meses do salário atrasado, um salário de fome. Onde nem sequer tem giz”.

Eventualmente, Pedro convence a esposa, e eles voltam para o Brasil – apenas para descobrirem que a família está a residir numa favela. Isso os introduz às duras realidades que se observa no país, como a desigualdade, tema central da novela.

Paralelamente a está trama, está a história de Alice, uma jovem estudante rotulada de rebelde, que ousa confrontar Raul Pelegrini, um inescrupuloso empresário corrupto e poderoso. Alice lidera uma resistência contra Raul, depois que ele ordena o despejo da família de Pedro e de outros moradores de um terreno. O confronto intensifica-se, culminando num violento protesto onde tanto Ester, esposa de Pedro, como Gustavo, filho de Raul, saem gravemente feridos.

Eis um trecho desta passagem:

Vídeos: Pátria Minha | Pátria Minha | memoriaglobo

A tragédia atinge o ápice quando Ester é levada para um hospital público, onde espera durante horas para ser atendida, para no fim descobrirem que a instituição não tem o equipamento necessário para realizar os exames precisos. Sem cuidados atempados, Ester acaba por morrer. Gustavo, por outro lado, é imediatamente levado para uma clínica privada bem equipada, onde é tratado, mas também sucumbe aos ferimentos.

Esta justaposição gritante dos sistemas de saúde públicos e privados, sublinha a desigualdade sistémica que permanece demasiado familiar em muitas sociedades, particularmente a que se vê nos dias de hoje em Moçambique. O nosso país, tal como o Brasil fictício retratado em Pátria Minha, debate-se com disparidades sociais e económicas, que por vezes parecem intransponíveis. Os desafios enfrentados por Pedro, Ester e Alice podem ser facilmente revistos nas lutas dos moçambicanos – com professores cujos salários estão atrasados, alunos sem escolas, juízes em greve, famílias deslocadas e cidadãos a navegar num sistema de saúde sobrecarregado. A corrupção encarnada por Raul Pelegrini também parece estranhamente familiar. E tal como Alice, muitos moçambicanos estão a levantar-se para contestar estas realidades, com contornos alarmantes e grandes custos pessoais para todos os lados.

A meu ver, Pátria Minha, não é, entretanto, apenas uma história de desespero e de lutas. Na sua essência, é um lembrete de que, como cidadãos, somos todos administradores da nossa pátria. Enfatiza que, mesmo em meio às adversidades, permanece um dever duradouro nosso, de cuidar e elevar a nossa nação, buscando sempre o bem para ela.

Se na ficção é possível um final feliz, um arco de redenção e o triunfo da paz, como acontece em Pátria Minha, na realidade que sonhamos e queremos para nós, a mesma coisa deve acontecer. Histórias como estas nos instigam a imaginar um caminho bom, um final feliz, um Moçambique, por exemplo, onde o diálogo se realiza e a paz é restaurada. Um desfecho que nos leve aonde a saúde, a educação e a justiça sejam acessíveis para todos. Devemos todos nós olhar para além das nossas divisões e diferenças, e trabalhar juntos para um futuro comum.

A música Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, um dos temas principais da novela, traz uma grande reflexão sobre racismo, desigualdade e resiliência. Vale a pena conferir.

A nossa classificação: 4,5 entre 5 estrelas

Por Virgília Ferrão

Desabafo de uma qawwi

Reza Por Moçambique, Will

Fonte de Imagem: Freepik

Há uma corrente fria rasando no átrio do prédio. Pensei que pudesse sair para apanhar um pouco de ar. Mas depois do segundo disparo, estava eu a correr. Nem vi o elevador aberto. Quando te convidam a correr pela vida, nada fica ao teu alcance, nem mesmo o que devia ser óbvio.

Chego ao 9º andar e da varanda olho para a cidade, do alto que me permite um vislumbre panorâmico. De um lado a estátua de Samora Machel, que se mantém muda. Envolta a tanto gás que se levanta, estão paralisados os seus músculos de ferro. De outro lado, uma fila de multidão. A polícia dispara contra a multidão. Contra cidadãos, contra sonhantes ambulantes. Para mostrar a outros cidadãos, que tão depressa os seus sonhos serão pesadelos. Mas não são todos cidadãos? Não somos todos? E todos somos sonhantes. E não importam os lados, ou as divisões, ninguem está imune.

Entra, Linan pede-me Will, de pé na porta. Ele é um tipo tranquilo, mas vejo um rastro de preocupação traçando o seu rosto.

Will, e os protestos?

Não é seguro.

Não é seguro. Nada é seguro, concluo.

Aqui em cima, neste 9º andar, o gás não chega até nós; dispersa-se como os pássaros perdidos no vento. E, no entanto, as pessoas lá em baixo o encaram de frente, com as crianças que faltam à escola porque não há escolas para ir. As mães marcham porque não têm comida para alimentar os filhos. E, entretanto, quanto mais marcham, mais as prateleiras ficam vazias. As cidades suspensas no tempo, a economia ruindo no pendulo, o vento indecidido. E nos esquecemos que magoar o próximo, é magoar a si próprio. Pedras arremessadas tornam-se pedras em ricochete.

Will sempre se posicionou contra a violência, acreditando em palavras e não em punhos cerrados. Ele também não era do tipo que se aprofundava na política. Para ele, a política e a religião carregam o risco de dividir as pessoas, mostrando as fragilidades das nossas relações, como as rachas que aparecem na loiça. As nossas conversas às vezes complicavam-se, pois eu, como alienígena que sou, ainda luto para entender a lógica humana por detrás de algumas coisas. Este vácuo, por exemplo. A acappella das panelas nas varandas, que gritam porque há silêncio. Tudo isto ultrapassa qualquer orientação política ou crenças pessoais que eu possa ter.

Isto não faz sentido!

Senta-te Linan. E respira pede-me Will, com a voz calma de sempre. Às vezes é tudo o que podemos fazer. Respirar. Orar.

Porquê? Por que é que não estamos a ouvirmo-nos? Por que é que não estamos a dialogar?

Talvez porque reconhecer a dor significa assumir a responsabilidade por ela – responde-me Will com os olhos distantes. Não te revoltes, Linan, nem tomes lados. É preciso apurar a verdade. E agir de acordo com ela.

Eu não tomo nenhum lado, Will. Eu sou pela união. Sou por Moçambique. Afinal, somos todos humanos. Somos todos um só país, certo?

Ele não me responde. Faço uma pausa, antes de murmurar:

Como é suposto eu agir?

Oh Linan. Will segura-me a mão. Melhor é continuares a missão que te trouxe a este planeta. Ser paz, ser luz, ser justiça. É isto que devemos todos fazer. Amar uns aos outros.

O coro de panelas persiste nas janelas. Já não se assiste Moçambique em Concerto na TV. Alguém, por favor, resgate os CD’s de Miriam Mabeka. Imagine um mundo onde reina a união, onde ninguém fica com fome ou é esquecido. Onde não há mortes. Estou a imaginar como John Lennon fez. Mas, por enquanto, é apenas um sonho. Na realidade, o edifício desmorona sobre mim e, com ele, os próprios alicerces da minha alma.

Então, de repente, acordo. Estou encharcada de suor, com o coração disparado. Foi apenas um pesadelo. Sento-me na cama, desorientada, olhando em volta. A minha casa está intacta, a rua tranquila sob o romper do sol. Mas Will… a cama vazia responde-me. Will não está aqui. Há muito que ele deixou este mundo. O seu espírito escolheu dar a vida por amor. Um sacrifício que nunca esquecerei. Sinto a sua falta. Mas tal como o seu amor falou mais alto, também fala alto o meu amor por este país. Fala mais alto a minha fé, que se enraíza teimosa como fechadura encravada.

E nestes momentos de dúvida, só uma coisa me mantém com os pés no chão: saber que, mesmo na escuridão, a luz da esperança cintila. Saber que Deus prevalece sobre todo o Universo, e que a Sua Vontade se cumprirá. É preciso ter calma. Se Will estivesse aqui agora, ele simplesmente me diria: “Espera, Linan. Mesmo quando a noite parece interminável, o amanhecer sempre chega. Não te esqueças de orar.”

Volto-me para o céu, e com as mãos juntas sussurro: “Will, onde quer que estejas, ora por nós. Ora por Moçambique. Ora para que encontremos coragem para amar, para sonhar, para abraçarmo-nos. Levantarmo-nos e todos juntos curarmos este país.”

Linan, a Qawwi

Livros, Opiniões, Resenhas

Vestígios do Silêncio, de Amosse Mucavele

Por Domingos Mucambe

Um livro é uma viagem; e um livro de poesia é uma viagem para um destino incerto. Ao ler Vestígios do Silêncio perpassam-nos muitas ideias- às vezes contrárias umas das outras- mas, a profundidade mostra-nos um abismo que, adentrando nele, acabamos perdendo-nos. Parafraseando Nietzsche: “não se olha tanto tempo no abismo sem se tornar, por consequência, num outro abismo.” É nessa aventura abismal que nos sentimos quando lemos os poemas curtos, outros com apenas uma única estrofe de Amosse Mucavele, em Vestígios do Silêncio, publicada pela primeira vez em 2022.

A obra, longe de ser um conjunto de poemas colocados arbitrariamente, assume uma posição de melancolia – não há réstias de esperança em cada palavra impressa a preto no papel branco. Saímos do desespero, passamos por saudades carregadas pelos ecos do silêncio, adentramos na profunda solidão que cai dos céus de forma sólida, quando lhes dá atributos de “granizos”, e chegamos também na vila “dos que amam a morte”. A cada fim de um verso julga o peito que há nessas linhas, um mundo ainda por se (re)descobrir, onde as palavras parecem efémeras.

As 52 páginas do livro dividem-se em quatro partes indistintas. Primeiramente, as composições têm nomes de lugares e infra-estruturas, mas essas têm aspectos de vivo, com alma e espírito. Tais lugares e infra-estruturas ora são abatidos pelo silêncio da saudade ora são combalidos pela “fria solidão”. Esse desviar do lamento do Eu lírico para objectos com sentimentos, memórias e sonhos, não nos impede de reflectir em nós mesmos as dores do “Fragmento de um suicídio”, onde nos remete a questão da “extinção” que será volátil ou mesmo da “ternura da corda que incendeia a ausência”.

As partes todas são acompanhadas por fotografias com um aspecto sombrio, e um sinal claro de “silêncios”. Adentrando nas fotografias, estendemos o significado de silêncio, que é a ausência de barulho (som), para ausência de almas e de vida. A ausência, o vazio, o abandono são imagens que nos ocorrem na cabeça. Essas imagens de ruínas, definham os nossos sentimentos e, apoiando-nos a esses sentimentos, experimentamos o silêncio e o vazio que nos preenchem os espaços que partilhamos com os outros.

 A primeira parte é “Variações Sobre o Mapa”. Além do “Fragmento de um Suicídio”, também visitámos a “Fábrica Braço de Prata”, que também se silencia no “corpo do abandono” e chora “’os retalhos da decadência”.

Depois segue-se “Das Ruínas vê-se o Mundo”. Com palavras e versos, faz-se um remember the time da Vila do Algarve I, II, III, mas também temos o Cinema Império, que se “desola à beira de um país”. Depois desse capítulo temos a “Elegia da Ruína” e, no fim, temos “Construções Ocultas”, que no lugar de serem erguidas vão-se ocultando no silêncio, ou nas cerimónias fúnebres do tempo, ou até na destruição de um edifício, ou de nós mesmos.

As metáforas usadas são complexas e eruditas, dificultando a compreensão do texto na sua integridade. Então, de que integridade se deve trajar um poema? Para quê se explicar um poema? Ela só é útil quando lhe dá um soco no estômago, e deixa cair a máscara como escreveu Hilda Hilst (in eu sem poesia). E isso nos parece, na verdade, cada verso que lemos, uma boa bofetada na boca do estômago.

A linguagem nos remete sempre a um sonho, um lugar onde o onírico encontra-se com a realidade. Mas, como casamento entre o consciente e o inconsciente de Freud, a realidade perde suas forças, e é engolida pelo sonho. A forma como junta as palavras criando versos loucos e doentes, mostra muito desse seu lado embriagado de ser.

Amosse Mucavele trouxe-nos um escrito com um outro sentido de poesia, aliás, muito mais poético. Diz sem dizer. Nesse pequeno livro tudo é embriagado. A primeira leitura é enganosa, a segunda aterra-nos sem segurança, e é na terceira onde enxergamos, com olhos já doentes, os vestígios de silêncio.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Conheça os Heelers ou A Televisão Animada como Meio de Educação Familiar – O exemplo de Bluey

I would like to make a film to tell children it’s good to be alive.

                                                                                                                              Hayao Miyazaki

Um dos aspectos mais marcantes das infâncias que foram, que são e que virão a ser de qualquer ser humano são, sem dúvidas, os desenhos animados. Aquelas cores, os movimentos desafiadores da física, os sons engraçados, as piadas que nos faziam e ainda fazem-nos contorcer à gargalhadas despertando nostalgia, são das memórias mais agradáveis que qualquer ser humano pode ter. Ainda, fazem-nos dizer que a vida vale a pena. Porém, nem todos os desenhos animados que marcaram a nossa infância tinham um carácter educativo e dignos de serem assistidos na presença dos pais; alguns contêm até piadas compreensíveis a partir de certa idade. Mas, nos últimos anos, as produções de séries animadas têm almejado alcançar um vasto público composto por espectadores de várias faixas etárias que podem desfrutar em família de uma série animada mais envolvente.

A série animada Bluey, criada na Austrália pelo animador, realizador e roteirista Joe Brumm, rapidamente se destacou como uma das produções infantis mais aclamadas da actualidade. Lançada em 2018, transmitida pela ABC Kids, na Austrália,  CBeebies (o BBC da pequenada), no Reino Unido e Disney Júnior Porto, em Portugal, a série é centrada na personagem homónima Bluey, uma cachorrinha da raça Blue Heeler, que vive com sua família em Brisbane, na Austrália. A narrativa é simples, minimalista mas cheia de nuances, abordando temas como a importância da imaginação, a dinâmica familiar e o crescimento emocional a cada episódio.

Um dos pontos mais fortes de Bluey é sua habilidade em capturar as complexidades das interacções familiares e sociais. Cada episódio, com uma duração de 7 minutos, aborda situações quotidianas que reflectem a vida real das crianças e suas famílias. Desde brincadeiras no parque até conversas sobre sentimentos, a série apresenta lições valiosas sobre empatia, resolução de conflitos e a importância de brincar. A trama é sempre envolvente, equilibrando humor e aprendizado de maneira leve e acessível aos espectadores.

A série também se destaca por sua representação diversificada. Bluey e sua família são representações fiéis da sociedade global contemporânea, mostrando uma variedade de famílias e culturas. A presença de personagens secundários com diferentes características sociais e étnicas contribui para uma narrativa inclusiva, permitindo que muitas crianças se vejam reflectidas na tela. Essa diversidade não é apenas visual; os roteiros também exploram diferentes dinâmicas familiares, promovendo uma visão mais ampla das experiências infantis.

A animação de Bluey é um outro aspecto considerável. Com um estilo visual vibrante e colorido, a série utiliza uma paleta que capta a essência da infância. Os cenários são detalhados, proporcionando um ambiente rico que estimula a imaginação. A direcção artística, sob alçada da Ludo Studio, combina simplicidade e expressividade, fazendo com que as emoções dos personagens sejam facilmente compreendidas pelo público infantil e adulto. Essa estética visual, aliada a uma trilha sonora encantadora, contribui para a imersão dos espectadores da série.

Um dos maiores triunfos da série animada é sua capacidade de tocar em temas universais que ressoam tanto em crianças quanto em adultos. A série não hesita em abordar emoções complexas como a frustração, a tristeza e a alegria em contextos que os pequenos conseguem entender. Episódios como “Sleepytime”, onde a Bingo- irmã mais nova da Bluey- enfrenta a dificuldade de dormir e, auxiliada pela Mãe, a série traz ao de cima a ansiedade e a necessidade do apoio da família. Essa abordagem permite que pais e filhos assistam juntos, gerando conversas significativas e momentos de conexão.

A recepção de Bluey é um testemunho de seu impacto na cultura contemporânea. A série foi amplamente elogiada por críticos e educadores, recebendo diversos prémios, incluindo cinco AACTA Awards consecutivos de 2019 a 2023 e o International Emmy Kids Award em 2019. Seu sucesso não se limita apenas ao público infantil, pois muitos pais destacam a relevância das mensagens transmitidas, além de sua capacidade de ensinar valores essenciais e educativos enquanto entretêm.Bluey é mais do que uma simples série animada para crianças. É uma obra que combina humor, empatia e aprendizado de maneira excepcional, conseguindo atingir tanto o público jovem quanto os adultos que a acompanham. Sua abordagem sensível e inclusiva aliada à qualidade da animação e aos temas universais que aborda, fazem dela uma referência no género. Bluey não apenas entretém como também educa, tornando-se uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças. É uma série que merece ser vista e discutida não apenas por seu valor como entretenimento, mas também por suas contribuições para a formação de cidadãos mais empáticos e conscientes de si e do seu meio. Estes elementos tornam a sérienuma das maiores obras-primas da animação infantil no século XXI.

Por Denilson Monjane

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Apologia de um remorso, em “Oppenheimer”, de Christopher Nolan

 

“Agora me tornei a Morte, a destruidora de Mundos”

Bagavadeguitá

“Cometi um grande erro na minha vida quando assinei uma carta ao presidente Roosevelt, recomendando que as bombas atómicas fossem feitas.” Albert Einstein

“Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu ao Homem. Por isto, foi acorrentado a uma pedra e torturado para a eternidade.”É com este excerto, de um dos mais conhecidos mitos gregos que começa o maior evento cinematográfico de 2023: “Oppenheimer”, realizado pelo cineasta anglo-americano Christopher Nolan, adaptado do livro American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, de Kai Bird e Martin J. Sherwin.

Trata-se de um filme que, embora necessário para o debate em torno do cenário global actual perante a indústria bélica, empreendida no fabrico de armas nucleares é, fundamentalmente, como o título sugere, uma submersão na psique do seu protagonista Julius Robert Oppenheimer, então físico teórico americano, vivamente interpretado pelo actor irlandês Cillian Murphy. Através dele, seguimos a trajectória de Oppenheimer, partindo de um jovem conturbado e estudante de química em Cambridge a um empenhado físico doutorado em Gottingen, determinado a realizar as suas ambições científicas. Numa narrativa paralela entre passado e presente, somos submetidos a experimentar, na primeira pessoa, a degradação psicológica de um homem convencido de saber o que fazia enquanto dirigia o seu remoto laboratório em Los Alamos, EUA.

A bomba atómica torna-se num coadjuvante ao longo do filme e, em algum momento, para-se de prestar atenção na bomba em si, e foca-se no próprio Oppenheimer. Uma observação curiosa, nos primórdios da civilização humana até a idade média, antes da descoberta da pólvora pelos chineses, que viria a revolucionar o fabrico de fogos de artifício; ou de Alfred Nobel inventar o dinamite, as guerras eram então universalmente combatidas corpo-a-corpo, com recurso ao que formalmente chamam de armas brancas: espadas, flechas, lanças, machados, etc. E, em meio as atrocidades sangrentas cometidas pelo Homem ao próprio Homem, ainda não havia surgido a ciência humana que estudaria os efeitos mentais da guerra. Ou seja, e digo isto de forma quase cómica, os vikings, por exemplo, assim como os romanos, ou uma outra civilização que se achava no direito de se sobrepor a outra, invadiam territórios, matavam homens, estupravam mulheres e tomavam estas e suas crianças como suas escravas ou as matavam. Mas, não se pode provar que o Homem destes tempos, após cometer tais atrocidades, voltava psicologicamente transtornado. Pelo contrário: celebrava! Fazia-se um banquete e tocavam-se instrumentos, vangloriando a proeza dos homens que voltaram sujos de sangue e victoriosos.

Oppenheimer provavelmente nunca esteve em território japonês quando em vida. Mas, após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi tomado por um remorso que, depois de um discurso vazio sobre o sucesso das explosões, ao ser convidado a casa branca para celebrar com o então presidente Franklin Roosevelt, interpretado por Gary Oldman de forma sublime, não hesitou em proferir as palavras que confirmaram o início da sua degradação mental: “Sr. Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos…” ao que o presidente respondeu, friamente: “Tu achas que Hiroshima ou Nagasaki se importam de saber quem fez a bomba? Eu é que deixei cair a bomba, não tu!” Prometeu, na mitologia grega, deu o fogo ao Homem, impulsionando o seu desenvolvimento mas, será que ele, acorrentado a uma pedra com a águia de Zeus a lhe comer o fígado eternamente, estará arrependido? Será que está alegre com o que a humanidade fez com o fogo?

Em uma de suas conversas, Albert Einstein levanta a seguinte pergunta: “O homem inventou a bomba atómica. Mas, me diz que rato no mundo construiria a própria ratoeira?” Bem, com o fogo o Homem também acendeu o cigarro e J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, após dar à humanidade o maior empreendimento do fogo que o mundo já viu, foi morto por uma porção deste fogo na ponta de um cigarro, com um cancro na garganta.

A actuação do elenco de elite deste projecto ambicioso de Nolan prende a quem assiste durante 180 minutos que passam em contáveis piscares de olhos. Para além do personagem homónimo e director do laboratório de Los Alamos, notam-se papéis marcantes da esposa comunista e obcecada Katherine Oppenheimer, interpretada por Emily Blunt, a femme fatale Jean Tatlock, psiquiatra e também comunista interpretada por Florence Pugh, o general e engenheiro do exército Leslie Groves, interpretado por Matt Damon, que dirigiu o Manhattan Project e Lewis Strauss, membro de topo da Comissão de Energia Atómica dos EUA. A direcção cinematográfica do colaborador frequente de Nolan, o holandês-sueco Hoyte van Hoytema, é de despertar um encanto visual e ambicioso, sem mencionar a excitante trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que nos possui a medida que compreendemos a aplicabilidade da física e o seu lado obscuro. Oppenheimer não é apenas um filme: é um evento histórico no cinema dos últimos dez anos, desde a virada para o século XXI e revelante para o debate sobre o cenário político e científico global.

Denilson Monjane

SOBRE O AUTOR

Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Recensão Crítica à Exposição A Pente Fino, de Filipe Branquinho

Fonte da imagem: Diário económico

Filipe M. de Carvalho Branquinho é formado em Arquitectura pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (Moçambique), e pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná (Brasil). Actualmente, trabalha como fotógrafo em Maputo. Após estudar Arquitectura, desenvolveu dupla função: fotógrafo e artista visual.

Recentemente, Branquinho disponibilizou retratos e esculturas da sua última obra no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 20 de Agosto. Este trabalho surge em oposição ao anterior In Gold We Trust (trocadilho de “In God We Trust”, lema nacional dos Estados Unidos, adoptado em 1956), publicado por Branquinho, em 2019, com a intenção de revelar e denunciar que o dólar propaga costumes de uma sociedade “alheia” aos valores afectivos. Na exposição A Pente Fino[1], Branquinho traz elementos de representação e valorização da cultura moçambicana, bem como elementos que recordam um passado remoto (algumas imagens remetem para situações ocorridas no tempo colonial) em que os senhores colonos, todos engravatados, surgem acompanhados de prostitutas negras, com as suas carapinhas e penteados afros. Ainda neste âmbito, o autor traz uma imagem da bandeira de Moçambique esvoaçando estendida, para simbolizar o progresso, além de trazer a imagem de um homem, exibindo as mãos com correntes quebradas, sugerindo liberdade do homem negro para retornar aos seus valores e à sua identidade. Entre vários outros elementos de valorização cultural, Branquinho traz imagens de homens e mulheres fazendo danças típicas de África e também imagens de muitos penteados afros, feitos por mulheres negras. Os penteados agradam à vista, valorizam e exaltam a mulher negra; entretanto, não são penteados que as mulheres negras (moçambicanas) fazem para as realidades do seu quotidiano, não são penteados que as mulheres negras fazem para se apresentarem nos seus locais de trabalho ou outros lugares que estas frequentam, à excepção de “XIKWENETA” (designação do Ronga), que é o único penteado que Branquinho traz e que faz parte do dia-a-dia das mulheres negras. Os outros penteados são feitos de vez em quando, para festas de gala, desfiles de moda e perfis de fotógrafos e modelos, e já não representam o que o dólar não pode comprar, mas, pelo contrário, “o que se compra com o dólar”. Para ilustrar “o que o dólar não pode comprar”, Branquinho podia ter trazido para a exposição penteados do tipo “peter tosh”, “mirabas” simples viradas para atrás, as “xindlandlalatanas” e ainda as “dreads”, pois estes são penteados que realmente fazem parte do dia-a-dia das mulheres, assim como dos homens negros, sobretudo as “dreads” para estes últimos.

Por: Yuny Ndava

SOBRE A AUTORA

Yuny Wilson Ndava, 21 anos, é estudante do curso de Licenciatura em Ensino de Português, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Participou no 33.º curso de Literatura de Língua Portuguesa, subordinado ao tema “Ler Camões, Hoje”, oferecido pelo Centro Cultural Português-Camões. Interessa-se por Literatura, Linguística e Didáctica do Português. Fora da academia, actua como modelo fotográfica e é entusiasta musical.


[1] Disponível em https://www.ccfmoz.com/events/exposicao-a-pente-fino-de-filipe branquinho/.com. Acesso: 1/10/2024.

Livros, Opiniões, Resenhas

Três Maneiras de Exclusão nos Três “Diamantes Pretos no Meio de Cristais”

Por Domingos Inácio Mucambe

Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).

A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.

O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.

Juno em Kansas (1856)

No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.

Anna na Cidade do Cabo (1961)

Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.

Elvira em Maputo (2001)

Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.

Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.

A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?