Resenhas

“O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza”, que Revela Usando Armas Desactivadas

Por Domingos Mucambe

No Centro Cultural Franco Moçambicano caiu a noite, longa e lenta, enquanto minuto a segundo tecia-se o momento em que se daria a inauguração. A maior parte das coisas acontecem de noite, e não seria diferente para os adivinhos. Aliás, acredita-se que as noites servem mesmo para isso. Enquanto entrava a noite adentro, muito mais dentro nós ficávamos cada vez mais ansiosos por uma exposição que levou tempo a mais para dar iniciada. Mas, isso é só um caso a se esquecer, no final do dia, principalmente quando a exposição foi, finalmente, inaugurada. Entre adivinhações e suspiros, algo foi-nos revelado.

Dentro do Centro Cultural há lá mostras que fazem parte da exposição, como o “Trono dos Reis” e outras esculturas. Aqui começa o ponto. Mabunda traz esculturas interessantes as quais, de longe, são apenas ferro e soldadura. Um trabalho que desafia muito os olhos dos visitantes. Mas de perto nota-se que não é apenas ferro como tal, mas engenhos de armas desactivadas como matéria-prima que originou várias formas como o trono dos reis, que representa, acima de tudo, o lugar ou a instituição em que o poder se concentra. De certo modo, há aqui uma contradição com o que Foucault pensa sobre o poder. Certamente com essas esculturas, com essa exposição, o poder não é disperso, mas concentrado num único trono. É esse tipo de mensagem que está por detrás da exposição no geral, e em algumas obras em particular.

E, no interior da exposição sente-se a violência, mesmo que suspensa, a sua iminência, ou algo perto. Olhando de trás para frente a exposição tem uma coerência espectacular. Todas as obras ali expostas dialogam umas com as outras como se fossem os búzios do adivinho que nos revelam os “fabricantes da pobreza”. Como também há esse partido de significados em que há, por ali espalhado, os destroçados pelo poder e os que são os detentores do mesmo poder. É uma via de mão dupla.

A exposição “O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza” traz algumas respostas de perguntas suspensas, ou que nunca foram feitas. Há aqui as armas como os fabricantes de toda a pobreza que assola o mundo. Mas, aqui a pobreza não é só ao nível económico. Vai a fundo: trata-se de pobreza ao nível espiritual, moral e, acima de tudo, sobre a condição humana que é decadente. Em changana, a palavra pobre não tem uma única tradução, tem usiwana e Usweti. A primeira pode ser entendida como pobreza a nível económico, mas o segundo vai também para o desamparo; é muito mais amplo que o primeiro. A pobreza exposta tem detalhes da segunda tradução pelo seu aspecto, e também pelo que a guerra sempre traz; não é só morte ou fome, mas tudo que faz as pessoas serem verdadeiramente pobres e desgraçadas pela vida.

Portanto, nessa exposição há todo esse aparato que sempre nos traz calafrios na pele de dentro. Há helicópteros que nos sobrevoam e tronos, tudo feito com armas desactivadas. Uma coisa espectacular, que também reforça o legado do próprio Mabunda. Essa exposição é uma continuação de um caminho só por ele traçado que, usando a soldadura, traz a violência, as relações de poder e a pobreza, num sentido lato.

Desabafo de uma qawwi, Histórias

O despertar de Vallen

Fonte: Pinterest

Era manhã cedo quando Vallen despertou na prisão com uma forte dor de cabeça. Eram os efeitos da bebida — aquilo que os humanos chamam de ressaca. Apesar disso, percebia que os seus poderes estavam revigorados. Pela primeira vez, desde que pousara na Terra era, de facto, um qawwi supremo. Poderia simplesmente teletransportar-se e libertar-se das grades. Mas, não era apenas liberdade que queria: precisava enviar uma mensagem ao mundo, principalmente aos outros qawwis espalhados pelo planeta, em especial a Linan. Era necessário que soubessem que Vallen estava por perto — e que tivessem medo. O medo facilitaria a concretização da sua missão.

Os demais detentos ainda dormiam profundamente quando Vallen desatou a gritar:

— Alguém aí?! — bradou, sacudindo as grades. — Quero ir embora! Isto fede!

A resposta foi uma onda de gargalhadas, tanto dos prisioneiros quanto dos agentes de guarda naquela manhã.

— Achavas que isto fosse um hotel de cinco estrelas? — zombou um dos agentes, aproximando-se das grades.

Vallen fitou-o com intensidade.

— Quero ir embora! — repetiu, firme.

Outros guardas aproximaram-se, murmurando entre si que ele não passava de mais um arrogante, um filhinho de papai mimado.

— Ah, sim, eu sei bem como lidar com esse tipo — disse um deles, abrindo a cela com um sorriso de desdém, empunhando um chamboco. — Vou educar este rapaz!

Vallen sorriu, e um brilho estranho surgiu em seus olhos.

— Gosto disto…

Poucos minutos depois, seu rosto já estampava as televisões nacionais e internacionais. Era classificado como altamente perigoso. A população foi aconselhada a não enfrentá-lo e a comunicar imediatamente as autoridades.

Enquanto isso, especialistas militares e cientistas examinavam os escombros do que, até há instantes, fora uma prisão. Restava apenas um cenário marcado por uma explosão sinistra. Todos os especialistas concordavam: tratava-se de uma força ou ciência ainda desconhecida.

No dia seguinte, o Doutor Harmistrong, da Universidade de Harvard, chegou ao local. Viajara por cerca de vinte horas, desde que vira a notícia que dominava as manchetes internacionais como um “ataque terrorista atípico”. Nenhum grupo, porém, havia reivindicado o feito.

O doutor precisou de apenas um minuto para confirmar aquilo que já suspeitava.

— É o Vallen… — murmurou, sem disfarçar o pavor.

— O quê?! — exclamou um dos presentes.

— É o Vallen, porra! — gritou, e seus olhos brilharam de forma inquietante, assustando a todos ao redor.

Era também um qawwi.

Vallen,

30.08.2025

Histórias, Reviravoltas do Universo

A Casa Onde Já Não Mando

Amin já foi um homem feliz. Contabilista, metódico, respeitado. Casou-se como mandava a tradição muçulmana, com uma mulher da mesma fé, também contabilista, com quem partilhava valores, contas e amanhãs. Ambos trabalhavam, tinham estabilidade, eram organizados. Um casal que prometia.

Com o tempo, compraram a primeira casa. Ampla, com espaço suficiente para os filhos que já idealizavam. Os pais e sogros estavam orgulhosos. Eram o espelho do sucesso dentro da comunidade. Casaram oficialmente, com muitas bênçãos.

O primeiro filho foi uma menina. Esperta, curiosa, com queda natural para os números como o pai e a mãe. Era motivo de orgulho. Uma criança brilhante. Tudo parecia caminhar como planeado.

Depois nasceu Izam. A continuação do apelido. A alegria foi ainda maior. Agora sim, tinham um casal. Uma menina e um menino. A casa enchia-se de vida, fotografias, de devaneios para o futuro.

Izam, ao início, era um bebé calmo, observador. Porém, com o tempo começaram a notar que algo estava fora do normal. Não olhava nos olhos. Reagia pouco ao nome. Repetia movimentos. Chorava sem explicação.

Aos três anos veio o diagnóstico: uma síndrome rara do espectro do autismo.

A notícia abalou o chão do casal. Procuraram os melhores médicos, terapeutas, apoios. Tinham recursos e esperança. Mas os progressos não apareciam. Pelo contrário, Izam parecia afastar-se mais a cada dia.

Alguém tinha de ficar em casa. A esposa ganhava melhor. Amin era mais calmo com o filho e tinha mais paciência. Ficou com ela a responsabilidade. Deixou a contabilidade e passou a cuidar de Izam a tempo inteiro. Trocou a rotina profissional pelo lar, pela medicação, pelas terapias.

Ao início, acreditava que seria por pouco tempo. Mas os minutos e os dias foram passando, e a nova rotina tornou-se prisão.

As tarefas acumulavam-se. A mulher passou a vê-lo não como o homem de antes, mas como o responsável por manter tudo em ordem. Esperava-se que, além de cuidar de Izam, a casa estivesse sempre impecável: comida feita, roupa lavada, limpeza feita, horários cumpridos. E, mesmo que tudo estivesse feito, havia sempre algo por criticar.

As conversas desapareceram. Os gestos carinhosos sumiram e deram lugar a discussões sem fim. Passaram a dormir em quartos separados. Amin já não era marido, nem contabilista. Era apenas o homem que ficou.

Izam cresceu. Hoje, com 18 anos, continua dependente. Tem crises e fugas constantes. Amin sai à procura dele, já sem pânico, como quem cumpre mais um dever, mais uma rotina. O traz para casa. Sempre em silêncio.

Num desses dias sem cor, a mulher aparece no quarto dele, senta-se. Não falam muito; talvez seja cansaço. Talvez memória do que já foram. Dormem juntos. Nessa noite, ela engravida do terceiro filho.

Amin nem se ilude. Mais uma criança, mais noites sem dormir. Mais fraldas, mais tarefas. E, mais uma vez, tudo cai sobre ele. Leva o mais novo ao infantário, cuida de Izam, cozinha, limpa, corre atrás do filho mais velho quando desaparece. No infantário, já todos conhecem a sua história, que ele não esconde de ninguém. Basta olhar-lhe para a cara, não é preciso perguntar.

Amin já pensou em sair, em recomeçar, em vender a casa. Mas, isso não é opção. Hoje, com 50 anos, três filhos, um com dependência total, não há para aonde ir. E, sem rendimento fixo, a liberdade é só uma palavra; está preso. Não por escolha, mas por falta dela.

Amin vive numa casa que ajudou a pagar, mas onde já não manda. Já foi contabilista. Já foi marido. Agora é o homem que cuida, o que embala calado.

Todos no colégio dizem: “É um bom pai.”

Mas ninguém diz: “É um homem feliz.”

É o homem que ficou. O que segurou tudo quando tudo caiu. O que desapareceu para que os outros pudessem continuar.

Por Roberto Junior (The Cysne)

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | O Preto, de Ivo Mabjaia | Opinião

Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.

Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.

Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.

Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.

Por Domingos Mucambe

Histórias

Ice North: O Amor em Extinção no País Mais Jovem do Mundo

Em Ice North, a revolução não traz megafones nem bandeiras.

Chega como o frio: devagar, cortante e, por isso mesmo, imparável.

Não é uma revolução. É uma substituição.

Silêncio no lugar do afecto.

Ausência no lugar do desejo.

Cálculo no lugar da paixão.

Tudo acontece assim:

primeiro vem a independência financeira.

Depois, o corpo.

Por fim, a alma.

As mulheres de Ice North conquistam tudo.

Ocupam posições de liderança. Criam rotinas de luxo. Mantêm corpos esculpidos.

Sustentam a auto-estima entre estética e disciplina.

A beleza não é vaidade.

É competência.

Rostos bem cuidados. Formas firmes.

Um estilo lapidado com precisão cirúrgica.

A estética é tanto um activo como um escudo.

O país prospera.

A taxa de desemprego mantém-se em apenas 2%.

Tudo funciona suavemente.

Eficientemente. Belamente.

E os homens?

Não desaparecem — apenas deixam de ser indispensáveis.

E, quando algo deixa de ser essencial… começa a desaparecer.

Hoje, em Ice North, há um homem para cada vinte mulheres.

E, nem todos estão disponíveis ou interessados.

Alguns tornam-se celebridades acidentais.

Outros, troféus emocionais.

Muitos simplesmente… retiram-se.

Não fisicamente, mas simbolicamente.

Um homem é um luxo emocional.

Ter um companheiro significa estatuto.

Ter uma relação significa vitória.

Lauren, Shelley, Madeleine

Lauren, 42 anos, executiva de tecnologia, lidera uma empresa global.

Ao jantar, serve duas taças de vinho. Uma fica intocada, como um brinde ao que não veio.

“És incrível. Mas não tenho energia para encaixar a tua vida na minha.”

Ele diz.

Ela ouve o golpe como quem ouve gelo a partir — não pelo som, mas pelo silêncio depois.

Shelley, 28 anos, consultora financeira, ajusta o perfume, a voz, os temas — tudo calibrado para criar ponte.

Cada encontro é uma negociação emocional.

Sai com a sensação de ter fechado um contracto. E, como sempre, o este não inclui amor.

Madeleine, 46 anos, ex-advogada, recusa o jogo.

Vive com duas amigas.

Adopta uma criança.

Constrói um lar com afecto, mas sem moeda de troca.

“Não é que não queiramos homens.

Simplesmente deixámos de acreditar que eles nos completem.”

Para a cidade, são rostos que passam na multidão.

Entre si, são um refúgio.

A economia do afecto

A escassez cria um mercado.

Consultoras de imagem emocional.

Estilistas do desejo.

Estrategas da sedução.

“A atracção é ciência.”

Manter um homem por seis meses dá manchete.

Alguns trabalham como acompanhantes de luxo.

Outros desaparecem.

Poucos ainda procuram amor.

A maioria gere a própria raridade com habilidade.

“Agora somos nós que escolhemos”, dizem.

E escolhem.

Ou recusam.

As que permanecem imóveis

Nem todas competem com charme ou estatuto.

Algumas voltam-se para dentro.

Meditam ao amanhecer.

Equilibram emoções não para impressionar, mas para permanecer inteiras.

Leem. Escrevem.

Cultivam presença mais do que aparência.

Num mundo treinado para gritar, tornam-se mestres do silêncio.

Entre os poucos homens que ainda procuram ligação,

a inteligência e a serenidade são magnéticas.

Não é o rosto mais afiado que atrai, mas o olhar mais calmo.

Não é a resposta perfeita, mas a pergunta feita com profundidade.

“Ela não tentou conquistar-me”, diz um homem.

Os 10%

Noventa por cento dos homens declaram estar satisfeitos com a sua vida emocional.

E os outros dez?

Dividem-se entre cansaço, desinteresse, timidez… ou simplesmente abandonam o jogo.

Samuel, 40 anos, gestor de  propaganda de produtos médicos e de beleza.

“Elas querem intensidade.

Eu só quero paz.

E, às vezes, paz significa estar sozinho.”

Um Lugar Chamado Depois

O amor ainda existe em Ice North.

Mas chega tarde, devagar como um comboio que já não tem pressa.

Às vezes aparece num gesto distraído.

Noutras, numa frase que não foi pensada.

Quase nunca onde foi prometido.

Agora, amar exige um tipo de entrega que poucos lembram como se faz.

Não é resistência: é deixar cair o cálculo, a estratégia, a pose.

Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de homens.

Talvez tenha sido a ausência daquilo que, antes de sermos marcas e métricas,

nos fazia humanos.

E se o maior acto de todos for amar… sem planear?

Em Ice North, poucos tentam.

Mas os que tentam,

mesmo que por um instante,

fazem o frio recuar.

Por Roberto Júnior

Versão inglesa publica no Medium em:

Ice North: Love in Extinction. “Ice North: the country where love and… | by The Cysne | Jul, 2025 | Medium

Histórias, Outras maravilhas humanas

As Terras Esquecidas Onde Também Nascem Sonhos

Por Roberto Júnior

“A grandeza não tem código postal.
E os sonhos não pedem licença para nascer.”

A aldeia de Lionde não é um lugar turístico.
Não porque esteja escondida nos mapas, mas porque não há ali nada de turístico para se ver.
Fica longe de tudo, longe do hospital, longe da capital, longe das promessas.

O que há em Lionde?
Há pó.
Há silêncio.
Há machambas secas e postes que não acendem à noite.
Raras vezes chove… e quando chove, a chuva estraga tudo.
Às vezes transforma-se em cheias, e as pessoas têm de abandonar as suas casas, muitas das vezes, perdem tudo.
Outras vezes, a chuva falta. E a seca extrema destrói tudo o que o povo semeou — arroz, tomate, esperança. Mas há água potável. A melhor água natural que já bebi na vida.
Vem limpa, fresca, viva, nasce do próprio coração da terra.

Às vezes, bastava o barulho das motorizadas e dos carros com matrícula sul-africana para fazer os meninos delirar. Eram como relâmpagos metálicos a cruzar as estradas esburacadas de Lionde. O rugido dos motores ecoava como promessa de um mundo maior. As crianças corriam para ver — olhos brilhantes, pés descalços, corações a sonhar alto.

Mas há também o que ninguém vê:
Gente forte. Crianças com olhos grandes. Jovens com sede de futuro.

Em Lionde, muitos meninos deixam a escola cedo.
Não por falta de vontade — mas por falta de pão.

Trocam o caderno pela enxada, trocam a mochila pela escola da vida — trocam a escola pelo esforço físico no campo, pela luta diária sob o sol — onde vão cortar cana, colher milho, pescar ou trabalhar em nome da sobrevivência.

Outros partem para a África do Sul, ainda adolescentes, com a roupa do corpo e a esperança no bolso.
Vão de forma clandestina.
Sem passaporte. Sem garantias de regresso.
Atravessam fronteiras por caminhos de mato, arriscando a vida por um pouco de futuro.
Trabalham nas minas, nas obras, nas lojas.
Mandam dinheiro quando podem.
Voltam quando dá.
Sonham quando sobra.

E quem fica… espera. E às vezes desespera.

A escola primária de Lionde ainda existe.
É simples, de paredes cansadas e chão gasto.

Quando chove, a água invade tudo.
A escola fica rodeada por poças e lama.
As crianças arregaçam as calças.
Entram com a água pelos joelhos — mas entram.

Faltar não é opção.
Não desistem.
A vontade de aprender é maior do que a enchente.

Apesar da fome, das roupas rasgadas, dos professores que chamaram algumas crianças de burrinhos, alguns meninos e meninas de Lionde foram até ao fim.

Um tornou-se engenheiro em Maputo.
Uma menina que andava descalça hoje é médica em Xai-Xai.
Outro foi estudar fora e voltou com ideia, não com vergonha da sua terra, mas com orgulho de ter vindo de onde poucos acreditam sair.
E um dos Diretores-Geral da Saúde foi formado ali mesmo, na Escola Primária de Lionde.

Alguns destes mesmos jovens, hoje adultos, voltaram para reabilitar a escola primária de Lionde. Com esforço, ajuda e memória, conseguiram dar nova cara às salas onde um dia aprendemos a escrever o nosso nome sentados no chão, porque as carteiras só chegaram nos anos 90. Ali, entre o pó e o silêncio, nasceram letras tortas e sonhos direitos.

O posto de saúde continua a funcionar uma vez por semana apenas.
O hospital mais próximo fica a 10 quilómetros, no distrito, e muitos não têm como chegar até lá.
As ambulâncias praticamente não existem.
E os chapas não esperam por quem não tem com que pagar.

Mas nem isso demove o povo de Lionde de continuar a acreditar.

Reflexão Final

Lionde não tem hospital.
Lionde não tem estradas sem buracos.
Lionde não tem refeitório na escola, nem biblioteca, nem rede de apoio real.

Mas Lionde tem talento.
Tem alma.
Tem futuro, se o deixarem florescer.

Este texto é um aviso.
É um retrato.
É um grito educado.

Ao governo.
À sociedade.
A todos os que se esqueceram de que os grandes homens e mulheres, também nascem em aldeias pequenas.

Não importa onde nasceste.
Não importa se em casa havia só salada no prato ou só silêncio à mesa.
O que importa é saber onde queres chegar, e nunca parar de caminhar.

Lionde é apenas um exemplo entre tantas aldeias esquecidas de Moçambique.
E também nelas, todos os dias, nascem crianças com coragem e futuro.

Que este texto sirva de abre-olhos para a sociedade. E de luz para as crianças que hoje vivem no interior, sem esperança.
Saibam: a esperança é a última a morrer.
E ela existe.
O sítio onde nasceste não define quem tu és.

Porque Lionde também é Moçambique.
E nos seus campos esquecidos, nascem sementes de esperança todos os dias.

Cada estrangeiro que pisa as terras de Lionde traz consigo uma pequena esperança. Cada investidor que ali aparece — o que é raro — nós vemos como um sinónimo de esperança. Ou talvez sejamos nós a querer ser vistos assim: como sementes de um futuro possível.

Hoje, algumas dessas crianças já têm acesso à internet, muitas vezes através de um telemóvel partilhado, velho ou emprestado.
Se um dia cruzarem este texto com os olhos curiosos da juventude,
que nele encontrem mais do que palavras, que encontrem esperança.

Obrigado por leres com carinho,
Roberto Júnior

Desabafo de uma qawwi, Histórias

Caídos do Céu

Back view of a young man drinking beer while while sitting at the bar counter

Fonte imagem: Envato

Era uma noite agitada de sexta-feira, e ele se encontrava diante do bartender da boate “Caídos do Céu”, isto depois de imobilizar o segurança que, além do ticket, exigia que deixasse o seu arco e flechas — sua arma mais poderosa. O nome “Caídos do Céu” atraiu-o àquele lugar, na esperança de encontrar pistas sobre sua missão. Mas ali só encontrou luzes coloridas piscando, som alto, homens e mulheres seminuas dançando com uma alegria que, para um mundo prestes a acabar, não se justificava.

Ocorreu-lhe perguntar ao bartender sobre os tais “Caídos do Céu”. Mas conteve-se, pois estava farto de fazer perguntas que aos outros pareciam ridículas.

O bartender serviu-lhe um copo e, ante o olhar de espanto do cliente, avisou:

Isto derruba até um alienígena!

A ele, soou como um desafio. E ele não era de fugir a desafios. Aliás, foi mesmo graças aos desafios que se tornara uma lenda viva entre os seus e braço direito do Rei Kosi.

Espreitou o líquido, mas seus sensores de perigo não detectaram absolutamente nada.

Se derruba um alienígena, certamente não um qawwi como eu.

— O quê? — perguntou o bartender, curioso.

Em seus olhos pairou alguma hesitação. Certamente, não era uma boa ideia revelar sua identidade por aí. Isso poderia interferir negativamente na missão.

Dá cá isto! — disse, arrancando bruscamente a garrafa das mãos do bartender.

Bebeu de um só trago. Não tinha sabor de nada e não lhe lembrava absolutamente nada que já tivesse tomado.

Desafio patético — pensou, pousando a garrafa na mesa.

Heeeeeeeeeeeeee!!!! — rejubilaram-se os demais que presenciaram a cena.

Os gritos inflaram seu ego, gostava de ser o centro das atenções.

Mais uma garrafa! — Disse. E os aplausos foram efusivos.

Esta é por minha conta, meu rei! — gritou alguém.

Em vários meses de recuperação e adaptação, desde sua aterrissagem inglória num dos desertos do planeta, era a primeira vez que alguém se dirigia a ele com alguma dignidade.

Contorceu os lábios, ensaiando um sorriso. Certamente o Rei Kosi não ia gostar nada daquilo. Mas Kosi estava distante, em outro planeta.

Aqui — gritou, tomando a garrafa das mãos do bartender — Vallen é rei!!!!

E, assim, estava feita a apresentação.

E houve uma ovação enquanto ele consumia toda a bebida. Todos haviam deixado seus lugares para se acercarem do Vallen.

Por aqueles instantes, havia se esquecido completamente da missão e da obsessão em encontrar Linan.

Vallen! Vallen! Vallen!… — gritava a multidão, eufórica.

E quanto mais garrafas ele consumia, mais total era a festa.

Despertou na madrugada seguinte, no chão de uma cela fedorenta. Estava com fortes dores de cabeça. E, pior, não conseguia se lembrar do resto da noite passada, nem de como fora parar em uma cela.

Pois então — disse para si mesmo, — derruba até um qawwi!

Vallen, o qawwi

Histórias, Reviravoltas do Universo

O Silêncio do Senhor Fausto

Nota do autor

Esta história é baseada em factos reais.

O nome Fausto não é fictício. O homem existiu, viveu — e partiu em silêncio. A dor que aqui descrevo não foi inventada. Foi sentida, testemunhada, e carrega o peso de muitas outras histórias semelhantes que nunca chegaram a ser contadas.

Escrever sobre ele foi um acto de memória, de respeito, e de desejo profundo de transformar dor em consciência. Esta narrativa não pretende julgar; apenas escutar o que não foi dito a tempo.

Aconteceu no início dos anos 90 — uma época em que pedir ajuda emocional ainda era tabu, sobretudo entre os homens. Quando o silêncio era sinónimo de força, e o sofrimento, uma questão privada — para esconder ou suportar sozinho.

Para o senhor Fausto e para todos os que, como ele, travaram as suas últimas batalhas dentro do peito, sem espaço para pedir ajuda.

Que nunca nos falte empatia.
Que nunca nos falte coragem para ouvir o silêncio dos outros.

A História

Há lugares que parecem viver num ritmo mais lento, como se o tempo ali se curvasse à simplicidade da vida. Lionde era um desses lugares. Uma vila pequena, de ruas de terra batida, cinco mil almas e vizinhos que se tratavam pelo nome — ou pelo olhar.

Foi ali que o senhor Fausto chegou com a sua família e uma carrinha da empresa municipal de águas. Alto, magro, com uma postura impecável e um rosto sereno, instalou-se numa das casas reservadas aos directores que vinham e iam, como o vento.

A sua presença impunha respeito. Falava pouco, observava muito. Era difícil adivinhar o que se passava por trás daqueles olhos quietos. Mas o que ninguém via — ou talvez preferisse não ver — era que o senhor Fausto travava uma guerra silenciosa com o álcool.

Naquele tempo, não havia linhas de apoio coladas no frigorífico. Não havia campanhas sobre saúde mental ou conversas abertas sobre depressão. Não em lugares como Lionde. Não no início dos anos 90. Bebia-se, resistia-se, e seguia-se em frente. Qualquer outra coisa era vista como fraqueza.

Não era um homem violento. Não gritava, não partia copos. Apenas se perdia, noite após noite, no fundo de um copo. E, com o tempo, foi-se apagando aos olhos da mulher que, um dia, o amou com esperança.

As discussões começaram baixas como sussurros tristes no escuro; depois, cresceram em volume e em raiva, até tornarem-se públicas — um espectáculo amargo que se repetia no quintal, à vista de todos.

Ele chegava cambaleante, ela esperava em fúria. E nós, vizinhos, aprendemos a assistir. Uns em silêncio, outros com risos de canto de boca. As crianças, inocentes e cruas, achavam graça. Mas Fausto… apenas baixava a cabeça.

Nos dias mais intensos, as grades do portão enchiam-se de pequenos rostos curiosos, enquanto outros se sentavam nos muros da casa para ver de perto a tragédia que se repetia como um ritual. Quando os gritos começavam, largávamos tudo — e corríamos para assistir ao triste espetáculo, como quem vai ver um filme já sabendo o final.

Diz-se que a dignidade não faz barulho quando parte. Talvez por isso ninguém notou o momento exacto em que ele desistiu.

Na véspera do fim, a esposa lançou-lhe palavras como pedras:

“Hoje vais levar com o chinelo, com a faca… e com uma garrafa na cabeça!”

Disse-o entre o escárnio e o cansaço, sem saber que, naquele dia, a sua raiva teria um preço alto demais.

Na manhã seguinte, o senhor Fausto saiu como sempre. Rosto sério, passos lentos. Cumpriu o expediente, passou no bar, bebeu o de sempre. Mas, no caminho de volta, desviou. Parou a carrinha à beira do rio.

E, sem alarde, mergulhou no silêncio.

Quando a noite caiu e ele não voltou, o riso deu lugar à inquietação. E, na madrugada seguinte, a vila acordou com um choro que rasgava o céu:

“Onde estás, Fausto?! Onde está o meu Fausto?!”

Era a mulher, agora em pranto. Gritava o nome de quem, por tanto tempo, calou-se. E talvez só ali tenha entendido o peso do silêncio que tantas vezes ignorou.

Reflexão Final

Nem todas as dores gritam.
Algumas vivem caladas, escondidas atrás de um sorriso breve, de um “está tudo bem” dito com os olhos no chão.

O senhor Fausto não foi fraco — foi humano. E, como tantos outros naqueles tempos, apenas não encontrou espaço para ser ouvido antes de se afogar na própria solidão.

Por Roberto Júnior

Resenhas

Cinema | Sinners | Opinião

Quando um Vampiro pede Licença Não o Deixe Entrar: Uma Alegoria ao Género Blaxploitation e a Apropriação Cultural em Sinners, de Ryan Coogler

por Denilson Monjane

                                                                                                                                 Tirem-nos tudo,

                                                                                                               mas deixem-nos a música!

                                                                                  Noémia de Sousa in “Súplica”, Sangue Negro

“I remember you was conflicted

Misusing your influence

Sometimes I did the same

Abusing my power, full of resentment

Resentment that turned into a deep depression

Found myself screaming in the hotel room

I didn’t wanna self-destruct

The evils of Lucy was all around me

So I went running for answers

Until I came home

But that didn’t stop survivor’s guilt

Going back and forth trying to convince myself the stripes I earned…”

Kendrick Lamar in To Pimp A Butterfly

A cultura vem de longe. E, entre as suas tradições, costumes e artes, uma das suas principais componentes é o folclore que, através dele, contos, lendas e canções populares foram transmitidos através da tradição oral de geração em geração; não só como um meio de passar lições de moral ou valores e princípios com que viver, mas também para conservar e reivindicar a identidade. Num mundo forçosamente industrializado pelo capitalismo, em particular a indústria do entretenimento, há uma reivindicação por parte dos fazedores de arte, em especial a música, no envolvente a apropriação cultural. Nos EUA, há um termo: culture vultures, ou seja, abutres da cultura, referindo-se a àqueles que tomam a cultura dos outros para si, a capitalizam e centralizam os lucros, ampliando a sua credibilidade e supremacia sobre os demais naquela área.

Ryan Coogler, cineasta americano, através de “Sinners”, sua mais recente realização, faz essa alegoria à apropriação cultural na indústria musical usando a maior figura folclórica para expor o narcisismo dos que abocanham a cultura dos outros e agem como se fizessem parte dela: o vampiro, que vive entre os humanos como se também fosse. O abutre, o corvo, a hiena, são algumas das figuras que em fábulas representam o egoísmo, narcisismo e vontade de ter mais.

Coogler mescla blaxploitation, horror musical de uma forma que transcende o padrão do filme genérico. Em “Sinners”, somos convidados- à medida que nos encantamos e espantamos com os cortes, sequências e trilha sonora- a reflectir sobre o poder da cultura e a sua capacidade de mover massas. E, fica claro que a cultura, sobretudo a das massas, que é movida pela constante circulação de informação, pode atrair o bem mas, como o filme revela, também pode atrair o mal. A música, como nos mostra “Sinners”, não é apenas uma manifestação artística para mero entretenimento, mas também uma força energética que atrai o oculto. Em várias culturas do mundo a música é uma ferramenta espiritual que, se mal-usada, pode, supostamente, atrair espíritos malignos.

O blues, um estilo musical surgido no sul dos EUA em meados de 1860, século XIX, marca o início da formação cultural afro-americana, o qual se viu banido e censurado pela burguesia comunista, devido as composições tendenciosas que transmitiam a reivindicação pela liberdade que se colocava abaixo de toda a causa opressora que via o blues como uma forma de manifestar o seu grito de socorro. Em “Sinners”, o blues não foge à tradição. Preacherboy, personagem interpretado por Miles Cate, usa o blues como um refúgio da vida dura do homem negro e, na maior inocência, inconsciente das entidades que o seu talento atraía do oculto.

A composição da trilha sonora mais uma vez revela a infinitude do talento do compositor sueco Ludwig Göransson. A actuação dupla de Michael B. Jordan como os gémeos Smokestack eleva o talento e habilidade de representação do actor Miles Caton como Sammie/Preacherboy, um inocente filho de padre que ama o blues, a mal casada Pearline (Jayme Lawson), a desamada Mary (Hailee Steinfeld) e a misteriosa Annie (Wumni Mosaku), e um toque de nostalgia cómica dos actores veteranos Delroy Lindo como Delta Slim e Omar Benson Miller como Cornbread.

“Sinners”, para o mais superficial dos cinéfilos, pode ser apenas mais um filme blaxploitation, com uma pitada de música negra, irlandesa e vampiros como a cereja no topo. Mas, para quem vem acompanhando o cenário do entretenimento internacional, percebe logo que é uma indirecta apontada sem escrúpulo aos abutres da cultura negra que andam dispersos, se apropriando da única coisa que resta a um povo oprimido: a música.

Histórias, Opiniões, Outras maravilhas humanas, Reviravoltas do Universo

A Vitrine da Vida

Por Roberto Júnior

Moro numa pequena localidade em Londres, chamada Woodstreet. É daquelas ruas discretas, quase tímidas, que se escondem no ritmo apressado da cidade. Mas, como todas as esquinas antigas de Londres, guarda as suas próprias histórias — aquelas que não vêm nos guias turísticos.

Numa dessas esquinas havia uma funerária muito antiga, com com o nome Ashworth & Co. gravado em letras sóbrias sobre a fachada escura. Fundada em 1888, resistiu a guerras, crises económicas, mudanças culturais. Sobreviveu a tudo, menos a um gesto de desespero.

A montra era singela, com espaço apenas para um único caixão. O mesmo caixão, todos os dias. E o dono — um senhor já idoso — também o mesmo, sempre lá, pontualmente às sete da manhã, sentado atrás do vidro, como se fizesse parte da montra. Presença constante, quase fantasmagórica, mas estranhamente reconfortante.

Até que um dia a loja fechou.

Soube-se depois que um homem, em aflição, precisou dos serviços da funerária, mas não tinha meios para pagar. Perdera alguém querido. E, ao não encontrar acolhimento, nem alternativa, cedeu à dor. Numa madrugada, destruiu a montra da loja. Desde então, o caixão desapareceu, a cadeira ficou vazia, e Ashworth & Co., um negócio com mais de 135 anos, nunca mais reabriu..

Valeu a pena?
Valeu a pena perder um legado centenário por causa de um impasse humano?
E, qual é o papel do Estado nestas situações? Como é possível alguém não ter acesso digno a um enterro? Onde está a rede de apoio? Onde termina a responsabilidade individual e começa a responsabilidade colectiva?

É curioso — e profundamente simbólico — que uma loja que vendia caixões tenha ido à falência por causa de um único morto desconhecido.
Um só morto bastou para sepultar toda a história daquele lugar. Trágico. Poético. Real.

E se o dono tivesse estendido a mão? E se aquele homem tivesse família? Apoio? Comunidade? Tantas possibilidades que talvez evitassem o fim.

 Foi então, pois, que me surgiram perguntas, as quais agora partilho:

Qual é o verdadeiro sentido da vida?
Qual é o sentido da família?
Qual é o valor da entreajuda entre seres humanos?
Por que não criamos um mundo melhor?

Vivemos cercados de distrações e silêncios. Mas, talvez tudo o que alguém precise seja de uma pergunta sincera: “Estás bem? Precisas de alguma coisa?”

Talvez essa seja a chave.
Talvez esta história — pequena, escondida numa esquina de Londres — valha mais do que parece.
Talvez lembre-nos que, no fim de contas, o que estamos mesmo aqui a fazer… é cuidar uns dos outros.

Sobre Roberto Júnior:

Roberto Júnior nasceu no Chokwé , em Moçambique, e cresceu numa pequena aldeia chamada Lionde. Foi numa das suas idas a Maputo, ainda em criança, que viu pela primeira vez edifícios altos, imponentes, tendo ficado fascinado. Aos 16 anos, mudou-se para Maputo e, pouco tempo depois, foi viver para Lisboa com o seu tio Bonifácio — um médico de grande coração e visão. Foi ele quem impulsionou a sua mudança para Londres, onde reside atualmente. Roberto estudou hotelaria e trabalhou mais de vinte anos em hotéis.

Com o tempo, e com a chegada da família, a necessidade de estabilidade levou-o a perseguir um segundo sonho de infância: trabalhar num banco.

Hoje, trabalha num banco há sete anos onde exerce a função de Workplace Experience Lead, liderando equipas.

Tem 43 anos e é pai de dois filhos que são o centro da sua vida.

Nos seus tempos livres, gosta de escrever, quando pode, e de cozinhar aos fins de semana. Escreve sobre as suas vivências, sobre o que vê, sobre o que sente e o sobre que aprende.