Por Domingos Mucambe

No Centro Cultural Franco Moçambicano caiu a noite, longa e lenta, enquanto minuto a segundo tecia-se o momento em que se daria a inauguração. A maior parte das coisas acontecem de noite, e não seria diferente para os adivinhos. Aliás, acredita-se que as noites servem mesmo para isso. Enquanto entrava a noite adentro, muito mais dentro nós ficávamos cada vez mais ansiosos por uma exposição que levou tempo a mais para dar iniciada. Mas, isso é só um caso a se esquecer, no final do dia, principalmente quando a exposição foi, finalmente, inaugurada. Entre adivinhações e suspiros, algo foi-nos revelado.
Dentro do Centro Cultural há lá mostras que fazem parte da exposição, como o “Trono dos Reis” e outras esculturas. Aqui começa o ponto. Mabunda traz esculturas interessantes as quais, de longe, são apenas ferro e soldadura. Um trabalho que desafia muito os olhos dos visitantes. Mas de perto nota-se que não é apenas ferro como tal, mas engenhos de armas desactivadas como matéria-prima que originou várias formas como o trono dos reis, que representa, acima de tudo, o lugar ou a instituição em que o poder se concentra. De certo modo, há aqui uma contradição com o que Foucault pensa sobre o poder. Certamente com essas esculturas, com essa exposição, o poder não é disperso, mas concentrado num único trono. É esse tipo de mensagem que está por detrás da exposição no geral, e em algumas obras em particular.
E, no interior da exposição sente-se a violência, mesmo que suspensa, a sua iminência, ou algo perto. Olhando de trás para frente a exposição tem uma coerência espectacular. Todas as obras ali expostas dialogam umas com as outras como se fossem os búzios do adivinho que nos revelam os “fabricantes da pobreza”. Como também há esse partido de significados em que há, por ali espalhado, os destroçados pelo poder e os que são os detentores do mesmo poder. É uma via de mão dupla.
A exposição “O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza” traz algumas respostas de perguntas suspensas, ou que nunca foram feitas. Há aqui as armas como os fabricantes de toda a pobreza que assola o mundo. Mas, aqui a pobreza não é só ao nível económico. Vai a fundo: trata-se de pobreza ao nível espiritual, moral e, acima de tudo, sobre a condição humana que é decadente. Em changana, a palavra pobre não tem uma única tradução, tem usiwana e Usweti. A primeira pode ser entendida como pobreza a nível económico, mas o segundo vai também para o desamparo; é muito mais amplo que o primeiro. A pobreza exposta tem detalhes da segunda tradução pelo seu aspecto, e também pelo que a guerra sempre traz; não é só morte ou fome, mas tudo que faz as pessoas serem verdadeiramente pobres e desgraçadas pela vida.
Portanto, nessa exposição há todo esse aparato que sempre nos traz calafrios na pele de dentro. Há helicópteros que nos sobrevoam e tronos, tudo feito com armas desactivadas. Uma coisa espectacular, que também reforça o legado do próprio Mabunda. Essa exposição é uma continuação de um caminho só por ele traçado que, usando a soldadura, traz a violência, as relações de poder e a pobreza, num sentido lato.









