Opiniões, Resenhas

Cinema |Dangerous Lies (Mentiras Perigosas) – Filme|– Opinião

 

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Imagem: Netflix

Título: Dangerous Lies (PT Mentiras Perigosas)

Direcção: Michael Scott

Elenco: Camila Mendes, Jessie T.Usher, Jamie Chung, Cam Gagandet, Sasha Alexander, Elliot Gould

 

Género: drama

Ano: 2020

Premissa

Uma jovem provedora de cuidados de saúde, herda de forma inesperada todos os bens e a casa do seu paciente, todavia, segredos sombrios giram em torno desta nova riqueza, enredando a jovem numa teia de enganos e de perigos.

Opinião

 O título é como ele se apresenta: generalista e até um bocado cómico, para quem leva o cinema a sério. Um filme de qualidade, e de preferência cativante, é sempre bem vindo. Mas Mentiras Perigosas talvez tenha apenas a segunda faceta. Às vezes isso é suficiente, um entretenimento bobo, acompanhado de uma chavenazinha de chá, especialmente nestas alturas em que queremos apenas desanuviar.

O enredo traz a história de um jovem casal, de boa índole, que vive apertos financeiros, pois Adam (Jessie T Usher), está desempregado. Já a protagonista Katie (Camila Mendes), esposa de Adam, trabalha como provedora de cuidados do velho Leonard (Elliot Gould), um homem bondoso, sem família, solitário e com a saúde frágil. O velho Leonard acaba morrendo durante o sono e nessa sequência, Katie, que apenas trabalhava para ele há 4 meses, herda os seus bens. Aos olhos de todos, as circunstâncias são bastante suspeitas e o casal vê-se a contar à polícia um monte de “(desnecessárias) mentiras perigosas”!

Apesar de a trama ser tola (e as personagens rasas), achamos a fotografia satisfatória, assim como a trajectória dos eventos, que permitem o filme prender a atenção do telespectador com sucesso. Não há grandes surpresas, mas o suspense e a tensão conseguem ser mantidos durante grande período do filme. É duro ver protagonistas, supostamente inteligentes, tomarem as decisões mais estúpidas da face planeta. Totalmente intragável, é verdade. E o final, infelizmente, é demasiado óbvio e desleixado, deixando pontas soltas. Estes aspectos, não invalidam, porém, a experiência, que vale a pena pela moral já conhecida, o qual revela-se um bom elemento agregador. A trilha sonora é ajustada à pelicula.

Recomendável para quem estar entretido, sem algo muito complexo, nem tão brilhante.

A nossa classificação: 3 de 5 estrelas

Confira o trailer:

 

 

Resenhas

#34| De volta ao começo: o dia em que a minha terra parou de girar

Devia ter notado, mas não notei. Como quem anda parcialmente vendado, cercado de velas que permitem o vislumbre de pedaços, mas sem claridade o suficiente para ver no todo.

O primeiro sinal de que havia algo muito errado com Will, aconteceu no dia que fui à consulta. No regresso, encontrei-o adormecido no sofá. Tirei a máscara do rosto, tomei um banho, mas ele continuou lá, serenamente adormecido. Havia um papel quase amarfanhado na sua mão. Apertava-o como quem segura um tesouro. Com cuidado, retirei-o para ler:

Linan, quando a dor vier, teremos que arranjar outra forma. Não podemos guiar, há uma razão para…”

– Estavas a escrever-me uma carta, Will? Um poema…?

Reerguendo-se do sofá, inchaço flagrante nos olhos, dobras bem no alto da testa, respondeu com desdém:

– Poema? – e atirou um olhar perdido para o papel – não lembro.

– Não lembras? Parece que tentavas dar-me um recado…

– Droga, Linan, se disse que não me lembro é porque não lembro, devo ter adormecido, nem sei o que é isto!

Perante o meu silêncio, desbobinou a frase que já se havia tornado habitual nos últimos dias:

– Desculpa. Ando muito tenso vida, desculpa.

Os sinais foram acumulando, de forma evidente, mas mesmo assim, a verdade continuou a escapar-me das mãos. No dia do meu aniversário, por exemplo. Enquanto deliciava-me de uma fatia de bolo, Érica surgiu na sala, pálida como se estivesse doente, e puxou-me depressa pelo braço.

– Mãe… o pai está a chamar-te. Ele está muito esquisito…

Céus, que desordem. Havia ferramentas espalhadas por todo o lado da cozinha, pegadas de lama pelo chão. Ao pé da bancada, Will segurando uma grande faca, as mãos e rosto cobertos de fuligem.

– Will? O que é que se passa?

Ele pestanejou.

– Will?

Então, deixou a faca cair. Voltou a cabeça para baixo, admirado com o cenário, com o seu próprio aspecto.

– Will?

Seus olhos brilharam de pavor.

– Oh não… Linan… – tive impressão de ia chorar – preciso estar só.

– Will, vá lá…

Queria que ele se abrisse, mas acabou por fechar-se no quarto, durante um bom par de horas. Apavorado, acreditava que por causa dos repentinos ataques de pânico, dos lapsos de memória, era um perigo para nós. Quantas vezes a noite desceu, e a cabeça deste humano voou solitária para terras amargas, rondando as suas angústias, deixando-me no escuro. Vivia atordoado, em busca de certezas de que a sua mão aguentaria mais uns segundos sã, para tocar o amanhã. Não é possível dividir a vida dessa forma, vivendo com um pé no presente e outro futuro. Viver assim, é quase como ter metade do coração no ritmo, e outra metade parada. Porquê, Will?

Todavia, foi só no dia seguinte, que entendi os porquês. Após a ignição que se desencadeou dentro do meu ventre. Como não percebi antes, o que estava por vir?

– Respira, meu amor, respira – pedia-me ele, carregando-me ao colo. – Ajuda a mãe minha filha, ajeita a cabeça dela…

– Mãe…

Apelei com um gesto vago de cabeça e ela logo compreendeu.

– Ok, eu sei, vou ficar em casa, mas a orar por ti, eu amo-te… mãe!

– Estou bem, meu amor, estou bem…

Segurei-lhe a mão por um instante, antes de Will fechar a porta e acelerar o carro.

Por mais que ele tivesse se esforçado para levar-me ao hospital e manter-me salva, não foi possível manobrar nas rodas da viatura a tinta indelével que ditaria o infalível destino. O céu incendiou-se e desabou por cima de mim, como a cortina do palco que desce no último acto de um actor. Um camião sem freio decidiu atravessar e esmagar o lado esquerdo da viatura, exactamente onde eu estava, marcando assim, o minuto em que a terra debaixo dos meus pés, parou de girar.

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Imagem: Pinterest

Outras maravilhas humanas, Resenhas

|Maravilhas humana| Txopela de Stewart Sukuma

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Imagem: SapoNoticias

No imaginário infantil, no trópico de Capricórnio, txopelar nunca foi, tão só, uma aventureira e arriscada viagem de alguns segundos ou minutos. Muito pelo contrário, é a realização de sonhos que exorcizam vontades recalcadas. Noutros tempos, as crianças se penduravam nos taipais dos Land Rover, dos Bedfords e Ifas, até nas bicicletas se boleiam aproveitando a distração do pedalante, para provarem ao mundo a sua agilidade e destreza.

A modernidade transformou os veículos, mas nunca o sentido da aventura. Hoje, txopelamos em chapas de outras latitudes. Carroçarias empilhadas e a determinação de uma vontade que perdeu a ingenuidade. As emoções e os prazeres, não se algemaram no tempo e, testemunham a sua longevidade. A verdade foi sempre a filha do tempo e a sabedoria a filha da experiência. Txopelar combina o espelho da alma para dar sentido as vivências e experiências de Stewart Sukuma.

A janela da alma habita no intelecto e, lá se encontram os sentidos. Todos ou alguns. Mas, só o cérebro percebe o que é transmitido pelos sentidos. As imagens, ainda assim, viajam no sentido inverso. Muito antes de qualquer transmissão, revelam a plenitude da natureza e a graciosidade de uma mulher miscigenada. Estas as imagens que combinam à memória, à sensualidade e a luta de um povo, de várias gerações, o clamor pela vida e pela luz, a força de todos estes tempos e outros que ainda estão para chegar.

Assim, como uma canção harmoniosamente bem tocada proporciona um prazer efêmero, uma imagem expressiva, abre as portas para um mundo de sonhos. A ideia pareceu simples. O tempo amadureceu e o txopela se reconfigurou. Ganhou sua identidade e transportou milhões de seguidores. Txopela deu boleia a lusofonia e entrou pelas nossas casas desregradamente. Ninguém desgostou. Pelas telas se transformou numa colmeia de abelhas que se deliciaram de um mel que soube a pouco. Agora regressa à conta-gotas.

Ainda juvenis aprendemos que as imagens são irmãs dos sons agradáveis. Esta aula deve ter interessado sobremaneira ao Stewart Sukuma. Ainda tacteava o seu mundo, o seu espaço. A adolescência empurrou para o sentido da audição. Privilegiou o que mais mexe com os corpos e menos com a mente.

Sukuma foi o promotor do txopela. Internacionalizou uma das expressões mais acarinhadas do país. Txopelando a tecnologia e a beleza genuína da paisagem e suas histórias, articulou como ninguém, o que de melhor este país teria para oferecer.

A música e as imagens, em movimentos ou fixas, são feitas para dar vida e harmonia ao tempo. O bom músico tem dois propósitos. Fazer da vida dos que escutam um tempo mais agradável e, pintar no nosso imaginário o txopela das emoções. O verdadeiro sentido da harmonia reside nesta combinação e seleção do que de melhor o nosso país pode oferecer.

Txopela palmilhou o país de lés-a-lês. Porém, perdeu-se de amores na Ilha dos poetas. Aqui neste espaço-tempo território onde as pétalas tem sabor a maresia, os espíritos desgrudam-se de árvores centenárias, escritores vendem suas almas e, os temperos, enfeitiçam visitantes desavisados. Muhipiti, também, vive txopelada nas ondas de uma onda que aquece o Índico.

Somos todos insulares e nos refugiamos no continente, procurando uma clave de sol que ficou tatuada na memória das paredes das imagens espalhadas pelos nossos corações. Vivemos txopelados pela modernidade de cores e luzes, de um vento que soprara para todo o sempre. Estas imagens são uma cumplicidade de sentimentos, de panorama da qualidade do mais moderno écrans televisivo, misturando em única imagem, o passado, presente e o futuro de forma exuberante.( X)

Jorge Ferrão

Desabafo de uma qawwi

#33 | De volta ao começo: vamos abrandar

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Imagem: Zeenedout

Vamos humano, desacelere o passo. Não é imperativo manter-se em pé, quando as pernas querem fraquejar. De outra forma, por quê haveria tanto medo? Há muitas horas no dia, para organizar a aula online das crianças, tratar as tarefas domésticas, partilhar a foto do pão caseiro no Instagram, e executar aqueles vinte burpees de modo a manter o físico.

Sim… há muito por fazer. E o muito será feito. Mas às vezes é importante não fazer nada. Sente-se aqui comigo, diante das estrelas. Podemos ser os dois, perfeitamente incapazes, diante destas águas? Não, não há nada de errado nisso. Em deixar-se apenas flutuar. Respirar, sem tencionar nada além. Meditar, sem pretensões de atingir o nirvana. Há que deixar-se ser atropelado por esta frente de emoções, sem protestar. Apenas sobrevindo, tão simplesmente, sobrevivendo.

Afinal de contas, nenhum humano quer morrer, não é verdade? Mas de nada vale lavar tantas vezes as mãos, se não lavar e tirar os vírus da alma (e acreditem, haverá um dia em que as almas vão durar). Que se evaporem todos os egoísmos e exclusões, e se conjuguem todos os verbos e sinónimos do bem-querer.

– Mãe…! Oh, mãe…! Depois da morte, para onde vamos? Fazemos mesmo a transição para a tua casa, reino Stefanotis?

Pronto. Eis um pensamento que não me apetece ruminar esta noite. Will, todo sorumbático, lança-nos um olhar curioso e ajeita a régua sobre a planta, observando-me lidar com os questionamentos da filha.

– Não vais morrer, meu anjo, não tens de pensar nisso.

Érica franze os lábios. A frustração prevalece no seu terno olhar.

– Então até quando ficaremos fechados aqui dentro? Tenho saudades da escola, dos meus amigos.

Pobre Érica. Humanos não são humanos, sem outros humanos.

Não acreditem muito nas promessas de que o vosso planeta vai mudar. Já vos conheço tempo o suficiente para saber isso. Todavia, algumas coisas serão diferentes. O conceito de fronteiras resistirá, embora vocês passem a perceber que na verdade, elas não existem. Assistirei a minha filha ir ao cinema com os amigos, pelas plataformas da internet. E quando tudo isto passar, os seres humanos terão descoberto outras formas de amar. Mais do que hoje são capazes. E para que perpetue na consciência esta dura marca, será instituído um feriado, um dia por ano, para as pessoas ficarem em casa, reconectadas com o Universo.

– Não é só por ti que tens que ficar em casa, meu amor. É pelos teus amigos também, de quem tanto gostas. E olha que nem todos os seres humanos têm essa possibilidade. Há pessoas que tem que ir à rua, para cuidar das outras. Há quem tem que ir à rua, para poder sobreviver. Temos que ser responsáveis, pensar nessas pessoas, pensar em ajudarmo-nos e cuidarmo-nos, sempre. Vai lá ao WhatsApp, liga aos teus amigos, diz-lhes que tens saudades. Eles vão gostar de saber.

Os olhos dela cintilam, enquanto mete os auriculares aos ouvidos e agarra-se ao telemóvel.

– Ok, mamã.

Ah, minha pequena humana. Que nunca te esqueças, nunca desaprendas, a tocar as cordas destes grandes instrumentos musicais. A solidariedade e a amizade, universais em qualquer trilha da vida.

Will finalmente pousa as plantas e a régua, arrastando-se de seguida para o quarto. Está derrotado. Este ser humano não sabe abrandar. São muito afiadas as garras da angústia que cravaram a sua pele. As propinas da Érica, os deadlines da empresa, a dispensa vazia, os cuidados para não contaminar ninguém depois que volta da rua, a minha gravidez de risco, a falta de ciência sobre o assunto, o medo de perder a família. Will mergulhou, enfim, em profundo estado de ansiedade. O que eu devia ter percebido, porém, é que o seu ar abatido devia-se à outra coisa. O elemento que o atormentava era bem mais elevado do que a simples ansiedade. Era algo assustadoramente extraordinário, frio como a solidão, apavorante, para dizer a verdade.

Lançamentos!, Livros, Opiniões

Literatura| Contos e crónicas para ler em casa Vol. II – Antologia | – Opinião

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Autores: Armindo Mathe, Baptista Américo, Énia Lipanga, Ganhanguane Masseve, Herminia Francisco, Izidro Dimande, Jaime Munguambe, Jessemusse Cacinda, Mauro Brito, Miguel Luís, Miller Matine, Nelson Lineu, Pretilério Matsinhe, Sadya Bulha, Sandra Tamele, Sara Jona, Tassiana Tomé e Teresa Taímo

Coordenação: Eduardo Quive & Mélio Tinga

Edição: Abril de 2020

Revista Literaturas

Baixe e leia o livro Aqui

Opinião

Esta antologia, que conta com a curadoria de Eduardo Quive & Mélio Tinga, é um projecto da Revista Literatas, idealizado para estimular aquela que é uma das principais aliadas nesta época de isolamento social: a leitura. O projecto decorre da publicação de um primeiro volume, bem recebido belos leitores, que em pouco tempo ultrapassou a faixa dos 1.000 downloads (encontre o primeiro volume Aqui).

Nós do diário de uma qawwi, tivemos a oportunidade de conferir os 18 contos e crónicas, de autores moçambicanos, neste segundo volume, todos eles singulares e provocativos, agregando no seu conjunto uma diversidade de temas e sentimentos. Passamos a explorar brevemente alguns deles, sem seguir necessariamente uma ordem cronológica:

Madala” (de Armindo Mate) é um texto leve, familiar, que irá relembrar as nossas vivências.

Ao longo da antologia encontramos ainda temas como a violência doméstica e relacionamentos abusivos, em “tu não vais sair de casa com essa roupa, minha mulher não pode vestir assim” (de Énia Lipanga); idas e vindas, perdas, e complexidades das relações afectivas em “o silêncio cintilante”, “a cábula” e “o que somos nós então”, de Hermínia Francisco, Isidro Dimande e Miller A. Matine, respectivamente.

Também encontramos reflexões sociais em contextos mais actuais, como por exemplo a crónica “um corpo crivado de balas” (de Jessemuce Cacinda) e “a revolução não será viralizada: assuntos domésticos e afectivos” (de Tassiana Tomé).

A sátira espelhada no rosto da nossa sociedade faz-se presente em alguns textos desta antologia como “o anão sobressalente” (uma brilhante proposta de Mauro brito), “há muitas lágrimas nos olhos de Sua Excelência” (de Miguel Luis) e o “bicho bicha” (de Nelson Lineu). Estes textos irão certamente trazer algum calor aos leitores, após as gargalhadas.

E que tal uma história de época, em “estilhaços, memórias de um combatente” (de Pretilério Matsinhe), uma descontraída reflexão sobre as consequências da nova tecnologia no quotidiano, em “Minuto 76” (de Sadya Bulha), ou ainda, uma incursão pela tradição oral, onde muitos irão identificar as suas próprias raízes, em “histórias com sabor a misericórdia: dar atenção aos antepassados” (de Sara Jona)?

A antologia traz ainda “fenestrada” (de Sandra Tamele), um conto de estilo bastante elegante na sua concepção, repleto de referências do mundo artístico; e “o meu “Surge et. ambula” em Chibuto” (de Teresa Taimo), um texto honesto, leve, que reflecte a realidade das redes sociais e que irá identificar muitos de nós. Este conto tornou-se um dos nossos favoritos, ao lado de outros acima mencionados.

A capa do livro e a diagramação são satisfatórias, embora visualmente a arte gráfica do primeiro volume pareça atrair mais a atenção do leitor. Nota-se pequenas gralhas na revisão de um ou outro texto, mas nada que atrapalhe a leitura prazerosa oferecida neste belíssimo projecto.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas

Resenhas

Cinema |A Fall from Grace – Assistir ou saltar? | Opinião

Imagem via Netflix

Título: A Fall from Grace (PT: O limite da traição)

Direcção: Tyler Perry

Elenco Principal: Crystal Fox, Phylicia Rashad, Bresha Webb, Cicely Tyson, Tyler Pery

Género: Drama

Ano: 2020

Sinopse:

“Grace fica desiludida após descobrir um caso extraconjugal do marido. Posteriormente, ela reencontra a felicidade num novo amor. Mas, segredos vêm à tona e o seu lado vulnerável torna-se violento”.

Opinião:

Tyler Perry continua a apostar em dramas do quotidiano que apesar de parecerem comuns, não deixam de espelhar algumas realidades do mundo torto em que vivemos, nas quais vale a pena pensar de vez em quando.

Quem viu “Acrimony”, produção anterior de Perry, vai facilmente identificar tais traços logo no início da película que conta a história de Grace, uma mulher que encontra-se detida, aguardando julgamento pelo (alegado) homicídio do esposo. O desenvolvimento da trama é lento, e quem nos dera entender a razão de alguns efeitos visuais serem tão arcaicos. Mas questões técnicas à parte, a construção dos protagonistas também deixa a desejar. Mais rasos não poderiam ser. É difícil criar empatia com Jasmine (Bresha Webb), pois ao contrário das tramas em que nos habituamos a ver os advogados socorrerem-se da inteligência para salvarem(-se de) casos aparentemente impossíveis, é impossivel engolir o nível de incompetência que Jasmine nos atira goela abaixo.

Por outro lado, o plot envolvendo o conto do vigário no qual caí a protagonista Grace é mais provável do se imagina (assustador na verdade), apresentado de forma suficientemente convincente para nos prender ao ecrã e fazer reflectir. Desta forma, apesar das suas falhas, A Fall from Grace acaba por sair-se bem nas reviravoltas, e consegue apelar a audiência pelo tema familiar e pertinente.

Recomendável para quem busca um filme de suspense, sem grandes complexidades.

A nossa pontuação: 3,0 em 5 estrelas.

Confira o trailer:

Imagens via Netflix.

(por VF – da tripulação)

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Maravilhas humanas | A Vingança do Mítico Pangolim

Por Jorge Ferrão

Os nexos que se estabelecem entre os animais selvagens, em vias de extinção, e os esforços para sensibilizar sobre a importância de sua conservação, têm conduzido os organismos internacionais e as principais agências responsáveis pela gestão da fauna, a estabelecerem datas especiais para celebrar os pequenos sucessos na preservação destes animais. Todavia, parece cada vez mais evidente a existência de uma preocupação em relacionar o consumo de diferentes espécies de animais, nomeadamente, cobras, morcegos, ratos, escorpiões, lagartos e pangolins, com as várias epidemias e pandemias, que criam um desassossego às economias e às sociedades, um pouco por todo mundo.

O pangolim (Manis Temminckii) tem, também, agora um dia especial, 15 de Fevereiro. Deste modo, Moçambique e o mundo celebram os poucos pangolins, ainda vivos, e os milhares que foram sacrificados e que deixaram de dar o seu contributo aos diferentes ecossistemas e às economias agrícolas familiares.

Desde o começo desta semana, especialistas, estudantes, amantes da fauna, curiosos e, até, leigos, tem a oportunidade de visitar um dos mais míticos e cobiçados animais da nossa fauna, por vezes tão descuidada e perseguida, outras vezes, tão relegada ao abandono e ao seu próprio destino. Estamos em festa e celebramos o pangolim.

Pangolim, a espécie mais ameaçada do mundo

Em 1999, a legislação moçambicana estabeleceu o pangolim (Manis Temminckii) como uma das espécies protegidas, e cujo consumo e venda foi vedado. Entretanto, esta proibição apenas foi decretada pelo CITES (Convenção sobre o Comercio Internacional das espécies em perigo de Extinção) em 2017. O pangolim tem sido uma das espécies que, à semelhança dos elefantes e dos rinocerontes, tem sido, invariavelmente, traficado e já colocado como uma espécie em vias de extinção no país. O pangolim caminha, assim, para um precipício iminente e sem retorno.

O comércio ilegal do pangolim aumentou consideravelmente desde 2008 em África e, um pouco por todos os relatórios mundiais de preservação da fauna, os dados confirmam o tráfico de, pelo menos, um milhão (1.000.000) de pangolins para China e Vietnam, os países que mais consomem e influenciam o contrabando dessa espécie na ultima década, porém, este numero foi já ultrapassado apenas num único ano, isto é, em 2019 com cerca de mais de 1.200.000. Aliás, as mesmas redes de contrabando que operam no tráfico de marfim, cornos de rinoceronte e madeira, são as que, aproveitando-se de esquemas de suborno e corrupção, traficam pangolim vivo, congelado ou as suas escamas as toneladas.

Estas redes melhoraram, inclusivamente, o seu modus operandi, através do uso de redes sociais como o Facebook, para anunciar a venda de seus produtos e estabelecer cadeias de preço.

O tráfico se justifica e intensifica pelo facto de as escamas serem utilizadas para o “tratamento” e prevenção de várias doenças e patologias, nomeadamente, a disfunção sexual, as doenças cardíacas, câncer e até as deficiências de lactação da mulher. Os médicos mesmo na China rejeitam estas propriedades mas as farmácias continuam a vender aos seus clientes. Não obstante, as crenças continuam mais fortes do que as evidências científicas e o número de usuários não pára de crescer.

Se, por um lado, temos estas pouco provadas e testadas evidências de propriedades medicinais, que geram alta demanda, por outro lado, continua preocupante o consumo da carne do pangolim, muito apreciada na restauração, nos principais restaurantes de luxo na Ásia. Em determinados restaurantes, o prato de pangolim, pode chegar a um custo aproximado de 500 dólares norte americanos ou equivalente. Aliás, nestes locais, o animal é vendido ainda vivo, e é degolado na presença do cliente para que este possa também comer ou beber o sangue.

Entre a superstição e a verdade

Ao longo de milhares de anos, foram identificadas oito (8) espécies de pangolim nos continentes asiático e africano. O pangolim é um mamífero escamoso da ordem Pholidota, por sinal a única espécie existente, também, designada Manidae, que possui três géneros.

Na Ásia, o pangolim está quase extinto e em alguns países desapareceu ainda no século passado. Em África, ainda, são encontradas quatro (4) espécies de Manis, nomeadamente, Phataginus, Smutsia, Tricuspis e Temminckii, espalhadas um pouco por todo o continente. A espécie Temminckii, eventualmente a mais representativa, pode ser encontrada na África Austral, Oriental e até na região do Corno de África, para além do Norte de África. As restantes encontram-se na África Central e Ocidental.

Estes mamíferos chegam a pesar entre 1,5 quilos até os 20, 25 quilos ou mesmo 35 quilos. Porém, em média, eles possuem entre 3,5 a 10 quilos, e podem ser encontrados em todo Moçambique, próximo das termiteiras e ou em locais cuja presença de formigas seja abundante.

O pangolim consome cerca de 190 mil formigas, por dia, o equivalente a 70 milhões de formigas, por ano. Lento, e que vive enrolado no interior destas termiteiras, o pangolim é considerado, pelos agricultores, como o mais eficaz controlador de pragas e térmitas que devastam os campos agrícolas do sector familiar.

Com a língua que é mais comprida que o próprio corpo, o pangolim tem um vasto conjunto de benefícios para o ecossistema e reduz, igualmente, os habitantes dos morros de muchém, que são devastadores para os agregados familiares, que sofrem com os efeitos das térmitas até no espaço habitacional, apodrecendo, de forma precoce, os aros das portas, das janelas e até as estruturas das casas.

O pangolim é mítico e gera sentimentos obscurantistas e da mais pura ignorância. No nosso país, ele tem diferentes nomes. No norte do país, o Pangolim é designado Ekha, na região de Tete o nome é Xiphalualo, no centro, Manica e Sofala é conhecido por Xikwari e, no sul, por Halakavuma. O seu surgimento suscita controvérsias e diferentes interpretações. Acima de tudo, ele é o mensageiro e tanto pode anunciar a desgraça, como a bonança. No Norte de Moçambique, a chegada do pangolim representa uma época de chuvas regulares, excelentes colheitas e um ano de muita prosperidade. No Centro, Idem. Porém, no sul, a chegada do pangolim anuncia desgraças, períodos de cheias, secas e várias pandemias. São os curandeiros, regra geral, aqueles que são chamados para interpretar a mensagem e comunicar os conteúdos ao resto da população.

Se, por um lado, o pangolim sofre do obscurantismo e de ignorância, por outro, é vítima de arrogância e de ganância desenfreada. As pessoas tem medo de se aproximar e de segurar as suas escamas, e são educadas a nunca olhar de frente para este animal. Aliás, continua célebre a preocupação de que tocando no animal, os casais terão três filhos.

Mas tem sido a ganância o maior mal de que o mamífero sofre. 2019 foi o pior ano no tráfico do pangolim, em Moçambique e no mundo. Em Hong Kong foram descobertas 8 toneladas de escamas e mais de 1000 pontas de marfim, enquanto na Malásia foram descobertos 3 mil toneladas de pangolim congelado e mais de 400 quilos de escamas. Em Singapura, mais de 24 toneladas de escamas foram descobertas, de forma sucessiva. Todo este volume se destinava à China e ao Vietnam.

As rotas envolviam diferentes intermediários e diferentes países. Em média, 159 rotas diferentes foram usadas pelos traficantes entre 2010 e 2015, com médias anuais de 24 toneladas, ou seja, 1,5 milhão de pangolins abatidos.

A Vingança do pangolim

A vingança do Pangolim poderia ser o nome de um filme de ficção, com um roteiro previamente estruturado e com películas gravadas em diferentes sites e continentes. Porém, não é ficção e nem pura e ingénua imaginação. É uma tragédia anunciada. Estudos mais recentes, ainda em fase de pesquisa, conclusivos ou não, indicam que o consumo do pangolim pode estar associado ao mortífero vírus do corona, que desgraça a China e retira o sono e o sossego de todo mundo.

Caso se confirme que o pangolim é o verdadeiro hospedeiro do coronavírus, uma nova atitude e postura terá que surgir em relação ao pangolim. Importa referir que estes e outros animais selvagens são portadores de diferentes vírus e que novas estirpes podem desenvolver, escapando-se das defesas do organismo humano e apanhando de surpresa o pacato cidadão. Ultrapassa a fasquia dos 1000, o número de vítimas e, já se superou o número de vítimas do vírus das aves (SASR) que teve o seu epicentro na Ásia e que, por sorte, não gerou efeitos mais devastadores no continente africano.

Enquanto isso, celebremos o pangolim e todo o misticismo que ele representa nas nossas vidas e nos nossos espíritos.

Outras maravilhas humanas

Crónicas de uma viagem anunciada

Por Jorge Ferrão

MSC Orchestra 

Vamos iniciar o percurso. Cruzar os oceanos que Vasco da Gama e Luis de Camões só passaram próximo. Não poderíamos imaginar a grandeza do Orchestra. Para dificultar, o nosso camarote fica na viola. Nono andar. Estibordo. Tem todo o tipo de gente. Camisetes e chinelos. Corpos desnudados e indiscretos. Cadeirantes e apressados. Imensidão de sonhos. Desejos e vontades. Presépios e árvores natalinas. O Índico recebe-nos de braços abertos, sem sol. Por enquanto, também, sem marés. Até agora só ondulamos os espíritos. Depois, serão as almas. A esta altura, e condicionados no décimo terceiro andar de um prédio flutuante, parece um mar nunca antes navegado. Este é o lugar onde terminam todos os medos. Não sabemos se contemplamos as pessoas ou as águas. Já sem os passaportes, somos transformados em números. Quem disse que os negreiros eram só para os exilados? Fica a promessa. Seriam 12 dias de águas e ventos. Suspiros e doces desordens. O primeiro de 12 aventuras numa viagem anunciada.

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Depressão tropical Calvinia, na rota do Orquestra (4 dias de oceano Índico)

Esta manhã o Orchestra atravessou o trópico de Capricórnio. Para celebrar, Neptuno foi designado o padroeiro e promotor da festividade. Cercado de bandeiras e crianças, Neptuno sugere que todos se sentem à volta da piscina, para que possam desfrutar dos banhos de champagne, tomate, leite e outros.

Mas, pelo coração destes 2869 cruzeirantes, as preocupações são outras. A depressão tropical Calvinia ganhou força e está em direcção às Ilhas Reunião e às Maurícias. Todos os radares e atenções se centram na Calvinia. O instinto do capitão diz que o ideal será atrasar a chegada por um dia. Viajamos a 70 nós, mais ou menos, 32 km/h. Assim, só teremos de prover auxílio a quem necessita.

Mais logo, será o final de um longo 2019. Renovam-se as esperanças, como sempre, para um 2020 de bonança, prosperidade e felicidade. Queremos a magia do novo ano transformando as nossas vidas mas não fazemos nada para sermos essa mudança. Celebraremos a ladainha de um ano melhor, mas continuaremos iguais, inflexíveis, pouco tolerantes. Champagne ajudará a afogar as mágoas e o Cruzeiro seguirá em frente, algures no meio do oceano dos sonhos.

Esta manhã as sirenes tocaram. Aconteceu o insólito. Um jovem de 19 anos equipou-se de colecte salva-vidas e atirou-se ao mar. Passava das 04:00 da manhã. Todos acordaram e, por pouco não nos cruzamos pelos corredores, tal como viemos ao mundo. Uma massiva operação de resgate fora encetada. Jovem menino são e salvo…. mas ninguém ganhou para o susto. Recuperou junto de seus familiares. Teria que abandonar o navio e regressar via aérea. As multas já estavam definidas. Ia pagar pelos demônios que se apossaram dele e pelos anjos que o salvaram.

Possession- Le Port et Saint Dennis

Os portugueses foram os primeiros europeus que visitaram esta ilha. Não admira. Era inabitada desde 1513, e apelidaram-na Santa Apolónia. Aqui localiza-se a mais alta montanha de todo o oceano Índico. 3069 metros de pura altitude. Mount Piton Des Neiges. Basta levantar a mão para saudar Deus e Jesus Cristo. Vulcânicas, com dois vulcões ainda activos, Aumenta de cada vez que as larvas fazem-se à superfície. Ao longo da história foi pertencendo a diferentes protectorados, entre Holanda, França e Inglaterra, mas, em definitivo, actualmente, pertence à França e tem a bandeira da França e da União Europeia. Um pouco maior que as Maurícias, as famosas ilhas gêmeas têm 980 milhas quadradas com mais de 40 km de praia. Estas montanhas são pura sedução. Agora, voltamos ao mar puro sem mais ameaças de ciclones e com uma saudade creola de morna e coladeira.

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Onshore

Finalmente, terra firme. Como diz o poeta. “… ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida, palavras sem vida. Palavras imensas, que esperam por nós e, outras, frágeis, que deixaram de esperar. Há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição! Há palavras diamantes, palavras nunca escritas, palavras impossíveis de escrever!

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Outras maravilhas humanas, Resenhas

Maravilhas Humanas| Artistas inspiradores: Calema, a importância da originalidade

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Imagem fonte: RTP

Ondas. Elas podem ser calmas, melódicas, propícias a embalar. Ou furiosas, absorventes, rápidas a arrasar. Os Calema são uma mistura de ambas as facetas. Talvez por essa razão a dupla de irmãos tenha escolhido este nome, que tão bem os representa. Calema significa isso mesmo “Ondas”. O mais velho chama-se Fradique. É 5 anos mais velho que o outro, António. Nasceram em São Tomé e Príncipe, descendem de cabo-verdianos, portugueses e angolares. Nutriam desde novos uma forte paixão pela música e lançaram o primeiro álbum em 2010. Actualmente são uma das grandes referências e um dos maiores fenómenos musicais em Portugal.

Enquanto António tende a liderar os vocais, ocupando-se do microfone que não deixa antever uma certa sombra de timidez, Fradique interage com o público, lançando toneladas do seu carisma. Ambos têm vozes vibrantes, são humildes, e juntos deixam-nos abismados pelo infinito talento. Mas mais do que talento, na resenha de hoje, um tanto pessoal, gostaria de relembrar o que aprendemos com os Calema. Uma premissa fundamental para o nosso dia a dia: quem define o que somos, somos nós.

Nos concertos a abarrotar por milhares de fãs, Fradique e António fazem a questão de frisar: “a probabilidade de falharmos era de 99%. Mas foi ao 1% de chance que nos agarráramos”.

É verdade. Antes de triunfarem e transformarem o seu conto de fadas em realidade, eles tiveram muitos percalços e alguns nãos. Duros nãos. Em 2013, por exemplo, altura em que ainda não eram tão conhecidos como hoje, subiram ao palco do programa The Voice na França, com os olhos brilhantes de esperança. Cantaram um tema do brasileiro Gustavo Lima. Aliás, a influência da música brasileira no trabalho dos Calema é notável, especialmente em alguns temas dos primeiros dois álbuns (Ni Mondja Anguené e Bomu Kêlê). Há quem diga que foi por terem escolhido a música errada. Seja como for, a verdade é que o jurado do The Voice não apertou o botão. Nenhum deles virou a bendita cadeira. E isso deve ter sido difícil para a dupla. Era como se naquela noite lhes dissessem que não eram bons o suficiente. Sem falar das adversidades que são naturalmente expectáveis para quem escolhe este tipo de percurso.

Mas os irmãos não baixaram a cabeça. E ainda bem que o jurado do The Voice não apertou o botão! As forças do Universo tinham outros planos para os dois rapazes. Eles estavam destinados a fazer algo que mais ninguém no mundo havia feito.

Em 2015, lançavam o segundo álbum Bomu Kêlê. Em português significa Vamos Acreditar. Foi então que começaram a ganhar mais notoriedade. E foi por acaso, nessa altura, que os ouvi pela primeira vez, na rádio. Julguei que fossem bem mais crescidos, por tanta carga emocional e experiência que imprimiam nas suas cancões. Comprei o álbum e de pronto tornei-me fã. Amole Mu tonrou-se tema de inspiração. Sentia um contentamento melancólico ao escutar Coro Coço, dançava (e farto-me de dançar) ao som de Mama Ê, divertia-me com Qual será, e ai de mim não poder assobiar com o Vou viajar. Decidi escrever à dupla, nas redes sociais, contando que tinham uma grande fã em Moçambique. Pela resposta, pareceram positivamente surpresos. Disseram que adoravam o povo moçambicano, agradeceram por acreditar neles e pediram que continuasse a divulgar o seu trabalho junto aos meus amigos, para que mais depressa pudessem vir a Moçambique. Teria o feito na altura (o que agora faço), mas a verdade é que não foi preciso. Depressa os Calema já dominavam as rádios, as colunas das discos e das farras por todo o país. Ficamos a saber que tinham vencido o STP Music Awards de 2015 (gala de música da República de São Tomé e Príncipe) em quatro das cinco categorias.

Bomu Kele album

E que deleite foi poder vê-los em 2017, a actuar na discoteca do Main.

O tempo passou e os Calema continuaram a trabalhar. Veio o álbum A nossa Vez (A.N.V) com temas ligeiramente diferentes dos anteriores, e que depressa tornaram-se espantosamente populares como o Vai, Ciúme, e o próprio A Nossa Vez. O álbum foi certificado com o disco de ouro. E adivinhem o que é que hoje em dia se canta nos palcos dos “the voice” da vida? As músicas dos Calema!

A nossa vez calema

Em Dezembro de 2019, a dupla anunciou o lançamento do seu mais recente trabalho: Yellow. Um dos temas (intitulado “abraços”) já está disponível no youtube (será que se inspiraram na campanha australiana dos abraços?). Mal posso esperar para conhecer este novo trabalho e claro, fazer uma resenha sobre o mesmo. Todavia, é mesmo Bomu Kêlê que ficou no coração e sobre o qual gostaria de repisar. Afinal de contas, sempre que penso em desistir dos meu próprios sonhos, tento lembrar-me destes meninos, que transformaram os nãos que ouviram em alavanca para o seu sonho. O que muito brilhou e os tornou especiais? Julgo que algo um tanto pessoal, frágil, que uns têm, e outros não: a originalidade. Em Bomu Kêlê, os dois irmãos tiveram participação em tudo, desde a composição de todas as músicas, até a produção. “Sinceramente achamos que os são-tomenses e não só, vão adorar. Porque fizemos os possíveis de cantar para o mundo sem no entanto, perdermos a nossa identidade, ou seja a nossa cultura. Nós acreditamos que a música são-tomense bem produzida tanto na vertente letra como também na melodia pode ter sucesso em todo o mundo” (FNAC) disseram eles na altura. Amém à isso.

É fácil vermos artistas, em todas as vertentes, perderem a sua originalidade. Nas demandas do mercado, entram numa louca e desvairada corrida, seja nos palcos, nos meandros literários, na TV ou ou passerelles, para adaptarem-se a um conteúdo mais comercial, mais “trending”, ou mais de acordo com os “standards” de quem os gere. E lá se vai a tal originalidade, sem a qual, o artista passa a ser apenas mais um número popular.

Quando vi o cantor brasileiro Zezé Di Camargo (certamente mais entendido que eu na matéria) partilhando o mesmo palco com os Calema e a pedir-lhes que cantassem o tema coro coço, por ser uma das coisas mais lindas que ele já ouvira até hoje, soube que era infalível. Há alguma magia nesta originalidade a que me refiro e que deve ser preservada.

Que os Calema (e todos artistas no geral) continuem a conquistar o mundo, sem nunca perderem o toque de magia que os impulsiona. E que voltem, muito em breve, aos palcos de Moçambique.

Por Virgília Ferrão

(Da tripulação da Qawwi)

Lançamentos!, Resenhas

Lançamentos e Novidades # Sonolência e alguns rabiscos, de Énia Lipanga

Olá amigos, feliz ano novo, boas energias para 2020!

Aliás, por falar em 2020, ele já entrou para arrasar e estamos aqui hoje para partilhar algumas das estrondosas novidades!

Foi lançado no dia 4 de Janeiro o livro de estreia da activista e escritora Énia Lipanga. Com cerca de 10 poemas, o mesmo não é apenas um livro. É uma verdadeira obra de arte. Editado pela Editora Kuvaninga, a capa é feita em papelão e cada exemplar apresenta uma arte diferente. Ou seja, foi feito um livro único, para cada leitor. Voluntários e amigos da autora participaram na construção desta obra. O mais surpreendente, entretanto, é que este é o primeiro livro em Moçambique produzido em texto e em braille. Afinal, Énia é pelo amor e a inclusão.

Refira-se também que a tiragem inicial esgotou no dia do lançamento

Confira um dos poemas:

Revolta

Dorme meu mundo

Uma repetida agitação

Nada se cala

Pois há gritos enterrados em mim

Soneco nos becos do meu subconsciente

Mas tenho uma revolta presente

Que me desperta

Sacode minha lentidão

Em mim, sonolência nenhuma reside