Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | 5 Filmes para assistir neste natal|

O famoso natal está às portas! Já percebemos que esta época é bastante apreciada pelos humanos, especialmente as crianças que entusiasmam-se com os presentes. Para uns, tal como a nossa qawwi, o natal é um conceito muito estranho. Para os religiosos, é dia de celebração do nascimento de Jesus Cristo e para outros, é apenas mais um dia. Seja como for, estabelecem-se certas rotinas para esta época, incluindo a ceia de natal, o convívio em família ou maratonas de filmes adequados à ocasião. Neste post, seleccionamos 5 filmes para o acompanharem, seja por ser uma tradição que você adoptou ao longo dos anos, ou simplesmente pelo facto de sentir-se entediado e precisar de entretimento para ajudar a passar as horas.

Vamos conferir?

5. A Christmas Prince (Um príncipe de Natal) – 2017

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Imagem via Netflix

Alguns filmes natalícios da Netflix são um bocado (para não dizer muito) estereotipados, mas este tem um toque suave e romântico, próprio para quem busca inspiração no amor, em histórias mais cor de rosas (quase possíveis, se nos lembrarmos do príncipe Harry e de Meghan Markle). Bom para assistir em família. Se quiser, pode fazer a ligação com a sequela do mesmo, lançada em Novembro deste ano. Confira o trailer:

  1. Love actually (O amor acontece) – 2003

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Imagem via The Independent

Não sabemos o que mais gostamos neste filme: Colin Firth a falar português, o charmoso silêncio de Rodrigo Santoro, ou a versão natalícia de “love is all around you”. O certo é que o elenco de luxo e as histórias das personagens que cruzam-se ao longo da trama vão com certeza derreter-lhe o coração. Clássico imortal definitivamente recomendável.

  1. 13 going on 30 (De repente nos 30) – 2004

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E já que a ideia é entrar na onda nostálgica de voltar a sentir-se criança, nada como esta deliciosa comédia com a Jennifer Garner e o Mark Ruffalo. Os dois estão muito queridos neste clássico que não cansa, e que faz-nos repensar nos valores da amizade e do amor, e sobretudo de como é importante dar valor à cada fase da vida. Amantes de boa música dos anos 80 vão adorar a trilha sonora deste filme. “Because its thriller…”

 

 

  1. Christmas Calendar (Calendário de Natal) – 2018

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O filme foi lançado pela Netflix no mês passado, e não tem grandes movimentações, mas os fãs de Kat Graham (Bonnie – Vampire diaires), vão gostar a vê-la ao lado Quincy Brown. Fazem um bonito par, num cenário onde tudo parece perfeito demais para ser credível. Todavia, a película tem cores apelativas, e um enredo próprio para incentivar a nunca desistirmos dos nossos sonhos. A magia acontece, se dermos uma ajuda ao nosso próprio destino.

 

 

  1. The Holiday (O amor não tira férias) – 2006

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Além de ser uma trama super adequada à época, este filme é óptimo para ajudar a dar uma outra perspectiva para aqueles que estão com o coração partido. Que outra forma de começar o ano, senão com esperanças renovadas no amor?

Desabafo de uma qawwi

#10|Eterna magia de natal: Fica comigo

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Fatinha terminava a decoração da árvore quando a campainha tocou. Eu, ao som de “jingle bell rock”, retirava um bolo quentinho do forno.
Ela entrou na cozinha e sacudindo o resto de pó brilhante das mãos, anunciou com um sorriso malicioso:

– O teu mendigo, ou melhor, o teu lindo e apaixonado “mendi-gato” está aí.

Antes de ir ter com a visita, arremessei um pano de loiça contra Fatinha. Estava farta de dizer-lhe que Will era somente um amigo.
Ele aguardava num canto escuro da sala, onde incidiam as luzes da árvore. O aspecto bastante vítreo dos seus olhos, preocupou-me.

– Will? O que disseram os médicos?

Seguiu-se um longo suspiro.

– Está confirmado. Já não aparece nada nas biopsias nem nos exames. Sumiram! Entendes, Linan? Estou curado!
– Desculpa?
– É como ouviste, curado!

Vibramos de alegria.
Mas não contei a verdade.
Não podia.

A nossa amizade florescera muito nos últimos meses e ao saber sobre a terrível doença, tive de usar o Dijon que trouxe sem autorização, para curá-lo. Claro que Will não se lembrava, pois eu o compelira a esquecer-se disso.

– Deve ser um milagre, Linan. O mesmo que te trouxe para mim.
Suavemente ele envolveu-me num abraço. A lentidão do gesto causou-me um familiar calor. Era o mesmo fogo que invadia-me a espinha pelo estômago adentro, toda a vez que ele tocava-me. Entrou pela janela um resto de vento a tentar apaziguar-me, mas o fogo era voraz.
Consegui soltar-me, a tempo de evitar que o meu peito estoirasse. Relutante, ele acabou também por afastar-se. Afinal de contas, era essa a condição para a amizade prevalecer. Evitar aquele tipo de contacto, pois fazia-me sentir tão instável como quem abre portas às escuras.
Concentramo-nos então nos planos de Will: o seu desejo de voltar a tentar adoptar a menina Erica. Ainda que estivesse só.

Pensei que nada fosse estragar o sabor adocicado dos dias de sol que se seguiram. Mas uma voz proclamada numa medonha sequência patológica, fez-se ouvir no meu quarto, denunciando o contrário:

Pobre Linan. Tão longe de nós e tão parecida com eles!

Nunca senti-me tão arrepiada como naquele instante. Os olhos azuis índigo marcavam a mudança: um qawwi inimigo aterrara na terra!
Saltei da cadeira, em posição de defesa:

– Vallen! Porque é que estás aqui?
– Vim fazer aquilo que tu falhaste. Acabar com os qlubs.

Soltou-se de mim uma gargalhada, pese embora a garganta estivesse seca. Vallen olhou-me boquiaberto:

– Porque é que te ris, criatura?
– Meu caro, o riso é uma válvula de escape para os humanos. Escuta, a minha missão é salvar os qlubs, não o contrário!
E o que tens feito até agora? Usar dijons sem autorização para curar humanos que não merecem viver? Fui obrigado a vir pessoalmente e eliminar o tal Will. Mas não te preocupes. Ele morreu sem o desgosto de saber que és uma asquerosa extraterrestre infiltrada no mundo dele. Até porque…

Impelida a teletransportar-me para outro lugar, deixei de o ouvir.

Senti um líquido salgado descer dos olhos quando lancei duras investidas na porta. Will morto? O pensamento, por si só, paralisava-me os músculos. Até que a porta abriu-se:

– Linan?

Foi como mergulhar numa piscina em dia de 50 graus.

– Linan… estás pálida. O que é se passa?

A resposta era demasiado intensa. Fechei os olhos e quis esconder-me.

– Estás a assustar-me miúda, diz alguma coisa.

Falar não era capaz. Então, atirei-me nos seus braços e beijei-o. Era uma espécie de insurreição, de quem recusa-se e entrega-se ao prazer ao mesmo tempo. Um atentado contra todas as muralhas que construíra e que agora ruíam sozinhas ao nosso redor.

Encontrei forças para desatar os lábios e libertar a verdade:

– Eu amo-te – ao senti-lo ofegar perto de mim, não tive mais dúvidas – eu amo-te, eu amo-te… – insisti aflita, enquanto Will carregava-me com a mesma urgência nos seus braços. Tal como um buraco negro, o amor é um campo magnético de onde nenhuma matéria escapa. A solução é abandonar-se por completo a ele.

Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que Will fez foi oferecer-me icetea. Sabia que era a minha bebida preferida.

Súbito, ele levou os joelhos ao chão, abeirando-se ao pé de mim na cama.

– Estava só à espera que caísses em ti para que pudesse fazer isto. Eu amo-te como nunca amei ninguém antes, Linan.

As mãos trémulas seguravam uma minúscula caixa veluda e os seus olhos não eram mais do que duas pedras de gelo derretendo em fogo lento.

– O que é isso?

Ele abriu a caixinha. Continha um pequeno adorno brilhante.

– É o símbolo de tudo o que representas para mim. Fica comigo, para sempre?

Então era para isso que servia uma aliança? Para afiançar a eternidade ao lado do amor? Será que os humanos não percebiam que perante as suas limitações, mesmo com a infinidade do universo, tal propósito era irrealizável?

– Não posso – apressei-me a meter uma camisola no corpo – Isto foi um erro, não posso…
– Uou, uou, calma! Se achas que é apressado eu volto atrás. Mas não digas que somos um erro, por favor!
– Estás longe de compreender, Will!
– Escuta – ele segurou-me com força para que eu o olhasse nos olhos – Eu também decepcionei-me no passado, mas nestes últimos meses tu devolveste-me a capacidade de confiar. Quero-te como nunca quis ninguém Linan, e sei que sentes o mesmo! Porque é que hesitas tanto? Explica-me!

O coração travou-me na garganta. Ele julgava amar uma humana, que na realidade era uma ET. E por causa da incompetência dessa ET, ele corria agora perigo.

Ponderei depressa sobre o que fazer. Dizia a verdade? Arriscando-me a que ele passasse a abominar-me? Ou então compelia-o a apagar-me da sua memória? Não, isso eu não era capaz.

– Oh Will… – sem controlar as lágrimas, e mesmo sabendo as consequências que o meu acto traria, juntei os braços em frente ao corpo, e desapareci do quarto.

Outras maravilhas humanas

Anúncio! – vencedores do sorteio literário – 2018

O nosso homólogo vonordiano (com ajuda do autor Matt Haig em “os humanos”), deu os seguintes conselhos:

  1. Na terra, a nova tecnologia é uma coisa da qual te vais rir dali a 5 anos. Valoriza aquilo de que não te rirás no espaço de 5 anos. Como o amor. Ou a boa poesia. Ou uma canção. Ou uma refeição excepcional. Ou um bom amigo. Ou o céu.
  2. Existe apenas um género na ficção. Tem o nome de “livro”.

Com efeito, ao chegar à este planeta, a qawwi apaixonou-se pelos livros. Afinal de contas, os mesmos ensinam, entretém, fazem-nos companhia, transformam-nos, e sobretudo, fazem-nos sonhar. A pensar nisto tudo, a qawwi e a sua tripulação decidiram sortear 9 livros para os leitores do blog.

Tivemos concorrentes de Moçambique e do Brasil e agradecemos desde já a participação! Gostamos imenso dos nossos leitores e se pudéssemos, presenteávamos a todos os participantes (sabemos que todos queriam ganhar!!). Mas não sendo possível e na ausência de tecnologia do planeta da qawwi, recorremos a plataforma https://www.sorteiogo.com/en/draw/names, para fazer uma escolha aleatória.

No mais, com ou sem sorteios, esperamos que estejam todos a gostar de fazer parte desta jornada pelo planeta terra e pelas suas maravilhas. Sintam-se à vontade para deixar sugestões ou comentários, para que no próximo ano as nossas aventuras sejam ainda melhores!

Passemos então a conhecer os vencedores do sorteio de 2018:

  1. Os livros a escolha de Eron, o inspector de Xinzdimila e o medo De Virgilia, da Editora Selo Jovem e que faziam parte do pacote IV vão para Ana Dulce Ximenes.
  2. O livro Before – antes de Tessa (em breve sai adaptação cinematográfica desta obra) e o livro em busca do mar certo – do pacote III, vão para Suzana Ubisse.
  3. O Inspector de Xindzimila e o canto dos contos, vão para Larissa Santos.
  4. Por fim, vai levar para casa recados da alma e intempéries d’amor numa baía adormecida, Edson K-Brain.

Muitos parabéns aos vencedores do sorteio e para todos, votos de um feliz natal, um próspero ano novo e sobretudo, boas leituras!

Para o ano haverá novas e excitantes aventuras. Aguardem!

Um abraço qawwiano, de toda a tripulação.

Extra, um minuto!

Esperem! Linan acaba de dizer que para além destes vencedores, o blog irá oferecer brindes adicionais, para alguns dos leitores que muito encorajam e inspiram os episódios “desabafos de uma qawwi”. É pelo carinho e apoio de leitores como vocês que a nossa nave continua a navegar a todo o vapor! E agora? Serás tu um desses leitores? Fica atento, pois a qualquer momento pode aparecer a nave de Stefanotis depositando um brinde enviado pela nossa qawwi.

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Desabafo de uma qawwi

#9|Eterna magia de natal: verdades secretas

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Linan, 

Um sorriso simpático, uma boa conversa de esquina, são coisas que abundam no nosso meio. Mas quando se trata de honestidade, a história é outra. A arte da sinceridade tornou-se cara nos dias de hoje.

Nesta carta, é tudo o que tenho para oferecer-te: honestidade.

Não sou um sem-abrigo, como deixei-te pensar que era. Sou apenas um homem impulsivo, que por breves instantes morreu por dentro e apartou-se das ilusões deste mundo. Um homem que só regressou a si, depois de ter-te conhecido.

Não sei exactamente o que impediu-me de dizer-te a verdade antes. Talvez a necessidade de sentir a fé que tinhas em mim enquanto pessoa. Sem bens materiais, sem grande utilidade. Apenas pessoa. Talvez porque precisava de voltar a acreditar na possibilidade da amizade, do amor, gratuitos.

Quando se perde tudo de uma vez como eu perdi, cai-se num vácuo sem fim. Eu tinha planos, tinha uma vida, uma companheira. Mas demorei a perceber que as traças da intolerância há muito haviam corroído aquela união. As diferenças, os insultos, eram só um pretexto. Lá no fundo, o que nos destruiu foi o facto de que eu não era capaz de realizar aquele desejo, dar um filho à minha companheira. E não existe nada pior para um homem do que viver confrontado por esta incapacidade. Todos os dias.

Julguei que a proposta que fiz fosse ser uma solução: adoptar a menina Érica. A papelada para formalizar o sonho estava quase tratada, mas o sonho dissolveu-se no dia em que Susana anunciou estar grávida de outro homem.

Levou tempo para reerguer-me do golpe.

No sábado em que conheci-te, Linan, tinha ido ao parque com os meus amigos fazer um “experimento social”. É o nosso passatempo favorito e temos milhares de seguidores. Disfarcei-me de sem abrigo, colocamos câmeras ocultas, e começamos a provocar as pessoas para filmarmos as suas reacções. Normalmente divertimo-nos bastante com estes experimentos. Mas naquele dia, tornei-me eu vítima da triste comédia. Fora exactamente naquela manhã, que recebera uns exames médicos confirmando a grave doença. A saúde, tão silenciosamente, também me havia abandonado. Ou seja, o buraco não tinha fim.

Os meus amigos foram-se embora, mas eu continuei ali, sentado, permitindo-me experimentar a miséria humana em toda a sua plenitude.

E então chegaste tu, Linan. Parecia que vinhas a navegar pelo sol, de propósito, apenas para recordar-me de como é bom sorrir. Vieste sem preconceitos, cheia de coragem. E avançaste para dentro de mim, sem pedir licença. Pelo tanto que gostaste de mim, Linan, não consigo medir o quanto eu gosto ti. És uma das poucas pessoas que faz-me não querer desistir. Perdoas-me e aceitas-me na tua vida, com todas estas falhas? Espero por ti na Avenida das Portas, logo na esquina. Vem ter comigo, pois quero estar perto de ti, nem que seja só mais uma vez. Se julgares que não o queres fazer, entenderei, sem problema. Mas espero, sinceramente, que aceites o convite.

 Will

Pelos portões do parque, mesmo acima dos baloiços que cortavam o ar fresco, via-se a tal Avenida das Portas. O peito trovejou-me arrítmico quando rasguei a carta em quatro pedaços e tomei a direcção oposta.

Não importava se ele deixava de ser ou não um sem-abrigo. O facto é que aquele humano vestira o coração nos dedos que escreveram as verdades mais secretas sobre o seu ser. Por muito que o quisesse ver, sentia-me ameaçada.

Como podia ser sua amiga, sem contar-lhe a minha própria verdade? Seria eu a qawwi que traria para a vida daquele frágil humano, a maior mentira do século? Ofereceria o oposto do que ele precisava?

Não, isso eu não ia fazer.

Subi o acentuado passeio e estava quase em casa, quando fui obrigada a reter o passo. Debaixo do reflexo de um satélite que clareava o céu nublado, aguardava-me uma figura masculina. Trazia rosas vermelhas sobre o capô de uma viatura.

A figura aproximou-se e tirou o capuz da cabeça.

– Pressenti que ias optar por não vir, Linan. Mas tinha de tentar.

Excepto a voz, tudo nele era estranho. A pele com aroma de iogurte de limão, o cabelo farto, os olhos amendoados. Engraçado… era a primeira vez que percebia alguma beleza, para não dizer bastante, nos traços de um rosto humano.

– Will?

– Sou eu.

Subitamente as palmas das minhas mãos humedeceram. Deu-me uma esquisita reacção no estômago. A princípio julguei que fosse a energia do satélite a interferir no meu corpo, mas depois percebi que não. Era o toque de Will. As suas mãos entrelaçadas às minhas, o ar morno dos seus lábios tão perto de mim, fizeram-me sentir dessincronizada. Os joelhos fraquejaram. Assustada, quis teletransportar-me para outro continente, mas como se tivesse percebido as minhas intenções, Will segurou-me e persistiu com delicadeza:

– Por favor. Não vás.

Desabafo de uma qawwi

#8|Eterna magia de natal: O banco

“Quais as probabilidades, e o que pode dar errado, numa súbita amizade entre uma extraterrestre e um sem abrigo?”

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O banco do parquinho continuava vazio. Não soube o que pensar. Teria Wilson encontrado um lugar melhor? A ser este o caso, devia ter ficado contente. Porém, o sorriso que escapou dos meus lábios era trémulo como as acácias ao vento. Conheci Will numa noite de frustração. É verdade que continuo a ter a capacidade de teletransportar-me, que posso compelir a vontade humana. Mas raramente uso essas habilidades. Tal significa que cada minuto que passa sem que eu cumpra a missão, enfraquece-me e afasta-me da natureza qawwi.

Na noite em que fiz essa constatação, bati com a porta de casa e fui à esplanada perto comprar uma hunter’s dry. Esvaziei-a ali mesmo, encostada ao balcão. Pedi mais duas garrafas, um hambúrguer, e decidi ir ao parque. Foi lá onde encontrei Will, um jovem envelhecido pela amargura. Estava sentado num banco, enrolado num cobertor sujo, e tinha os pés desnudos ressequidos pelo frio. Apesar do seu olhar distante e escondido pelo gorro buído, eu conseguia notar a melancolia com que ele observava os outros. Aspirei as essências que pairavam ao seu redor: abandono, sonhos quebrados e algumas sobras de esperança. Essências inevitavelmente humanas. Essências que eu não estava a conseguir salvar.

Sorvi o conteúdo da garrafa de uma vez.

– Já percebo porque é que os humanos gostam disto – murmurei a meio de um arroto.

Will virou-se para mim espantado. A voz rouca discorreu-lhe trépida:

– Gostam de quê?

– Álcool. É uma boa maneira de afastar os problemas.

Folhas secas voavam pelo parquinho, quando Will comentou:

– Nada nesta vida é definitivo, senhorita. Talvez, e tão somente, a morte e o amor. Olhe para mim. Um dia saio desta situação. Quando a música para, há que se fazer a própria melodia.

Os meus lábios abriram-se, e Will, tão naturalmente acanhado, sorriu. Devem ter se seguido uns tantos disparatares da minha boca, pois pouco depois Will baixava o cobertor para libertar o calor causado pelas gargalhadas.

– Toma – ofereci-lhe uma bebida e reparti o hambúrguer. Will tinha ar faminto. Todavia, manteve-se quieto, como que apavorado pelo gesto.

– A senhorita não se incomoda?

– Porque me incomodaria?

Ele baixou o rosto.

– Estou sujo, cheiro a urina, sou um sem abrigo, senhorita.

– Isso não faz de ti menos humano. Aliás, devo dizer que até agora és dos humanos mais genuínos que conheci.

Para falar a verdade, eu nem sequer entendia aquela situação. No meu planeta era impossível qawwis deixarem outros qawwis à mercê do incerto e do desamparo. Todos têm um lar em Stefanotis. Ser “sem abrigo” lá, significa ter o coração vazio. E esse não parecia o caso de Will. Ao perceber que já haviam passado muitas horas e dúzias de cidras, pus-me em pé.

– Tenho de ir.

A voz de Will galgou inibida pelas minhas costas. Tirou o gorro da cabeça e torceu-o nervosamente entre os dedos, antes de perguntar-me:

– A senhorita passará por aqui um outro dia?

A resposta saiu antes mesmo que eu pudesse processá-la:

– Amanhã eu volto para jantar contigo.

– Senhorita Linan – tornou ele a chamar-me – a senhorita tem um coração de ouro. Se as noites fossem tão bonitas como a de hoje, eu dispensaria as manhãs.

Voltei para segurar a sua mão entre as minhas e reafirmei:

– Mas sem o dia, a noite perde o valor. Eu volto, meu querido Will.

E de facto, passei a visitá-lo com frequência, a mesma hora, no banco do parque. Era fácil ser humana ao lado dele.

Sentei-me no banco vazio e telefonei à Fatinha, a minha housemate.

– Passam 4 dias e ele não está aqui. Desapareceu e acho que já não volta!

Ele quem, Linan?

– O meu amigo, o rapaz do parque.

O sem tecto? Ah porra Linan, tens que ir à um psiquiatra!

– Psiquiatria? Porquê?

Ainda perguntas? Tu realmente não vês o que aconteceu com esse coraçãozinho, pois não?

– Do que é que estás a falar?

Tsk, tskvem para casa que conversaremos!

Desliguei o telemóvel e pousei a mão na madeira do banco. Foi então que acolheu-me uma súbita vontade de chorar. Por acaso as lágrimas mudariam aquele vazio? E porque é que tinha de entristecer-me assim, se Wilson não passava de um humano?

– Linan?

Apercebi-me tarde da repentina presença. Era uma das meninas que trabalhava na esplanada perto do parque.

– Sim?

– Trago uma carta para si.

– Carta?

– Exacto. Do moço que costuma estar aqui consigo. O engenheiro Wilson – esclareceu, antes de dar meia volta, deixando-me com o misterioso envelope na mão. Engenheiro Wilson?

Outras maravilhas humanas

Sorteio literário mais fabuloso de 2018! – Diário de uma Qawwi

ATENÇÃO amigos, leitores e blogueiros:

No diário de uma qawwi já é natal!

Animados com este lindo conceito que não existe no reino de Stefanotis, e em apreço aos amigos que embarcaram na aventura, a qawwi e a sua tripulação gostariam de desejar um feliz natal a todos os seus leitores! Para isso, organizaram este presente simplesmente bombástico!!

Copy of Ready forSummer!

Quer ser uma das 4 pessoas a levar para casa estes maravilhosos livros e ler na época festiva? Então participe no sorteio e habilite-se a ser um dos vencedores!

Para concorrer é só seguir as duas instruções abaixo:

  1. Se ainda não seguiu a página do diário de uma qawwi no facebook, entre na página e faça like;
  2. Se ainda não seguiu, siga o blog diário de uma qawwi (basta colocar o seu email no campo de subscrição).
  3. Para os já inscritos tanto no facebook como no blog, é só partilharem este post ou deixarem um comentário 🙂

E pronto, já está a concorrer.

Termos e condições:

  1. Os livros (listados mais abaixo) serão enviados para 4 leitores, de Moçambique, Portugal e do Brasil.
  2. O sorteio abre hoje (dia 1 de Dezembro) e encerra dia 12 de Dezembro de 2018.
  3. O sorteio será realizado no dia 13 de Dezembro e os vencedores serão conhecidos até o dia 17 de Dezembro!
  4. Os leitores de Moçambique e de Portugal concorrem aos seguintes fabulosos pacotes:

Pacote I.         

  • Recados da Alma, de Bento Baloi (saiba mais sobre o livro aqui)
  • Intempéries d’amor numa baía adormecida, de Malikezi Wa Tiane

1

Pacote II.

  • O Inspector de Xindzimila, de Virgília Ferrão (clique aqui para saber mais sobre o livro)
  • O Canto dos Contos, antologia com curadoria de Daniel Moraes (clique aqui para saber mais sobre o livro)

2

Pacote III.

  • Em busca do mar certo, de Cri Essencia (clique aqui para saber mais sobre o livro)
  • Before – Antes de Tessa, de Ana Todd (clique aqui para saber mais sobre o livro)

3

5. Os leitores do Brasil concorrem ao seguinte fabuloso pacote:

Pacote IV.

  • A escolha de Eron, de Ad Chaves (clique aqui para saber mais sobre o livro)
  • O Medo de Virgília, de Rosa Mattos (clique aqui para saber mais sobre o livro)
  • O Inspector de Xindzimila, de Virgília Ferrão (clique aqui para saber mais sobre o livro)

Pacote 4Feliz Natal!De que está à espera?

Boa sorte!

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!

Votos de toda a tripulação do diário de uma qawwi