Desabafo de uma qawwi, Resenhas

O Jantar

Cátia soltou um grito ao ver um homem sentado no sofá da sua sala, espreguiçando-se com o comando da televisão pousado na mão.

— Calma, Cátia! — pediu Harmistrong, com a voz trêmula.

Vallen sorriu, um sorriso sarcástico.

— Não vai apresentar a sua amiguinha, Bartoq?

O silêncio que se seguiu tornou o ar mais pesado. Por fim, Vallen continuou:

— Ah, desculpe. Agora é Harmistrong, não é?

O Doutor engoliu em seco a provocação. Cátia, entretanto, olhou de um para o outro, completamente perdida.

— O que está a acontecer, doutor? Você conhece este homem? Eu vou chamar a polícia.

— Não faça isso — pediu Vallen, erguendo-se do sofá. — Já fiz o jantar. Primeiro vamos comer. Não dizem por aqui que saco vazio não fica em pé? Venham.

Cátia ficou imóvel por um instante. Ainda tentando encontrar alguma explicação plausível.

— Mas, o que é que está a acontecer?! — inquiriu ao Doutor.

— Calma, querida — disse Vallen afastando as cadeiras. —Vamos explicar tudo. Sente-se.

Sentaram-se à mesa. 

— Cátia, terá de perdoar-me. No reino de Stefanotis nós não cozinhamos.

— Onde é isso? — perguntou ela.

— Noutro planeta. Numa órbita distante daqui.

Cátia gargalhou, pela primeira vez passou pela sua cabeça que tudo não passava de uma brincadeira elaborada pelo Doutor.

— Então você é um extraterrestre?

— Sim. Eu e o Bartoq. Ou melhor… e o Doutor Harmistrong.

O Doutor abaixou ainda mais a cabeça, carregando seu fardo invisível.

— Eu exijo ser julgado pelo Conselho Supremo — disse ele, de súbito. — Só o Conselho pode decidir a pena máxima.

— Mas o que é que está a acontecer? — insistiu Cátia.

— Não estrague o nosso jantar, Bartoq — advertiu Vallen, sem perder o sorriso.

— Você não tem o direito de extirpar um qawwi quando bem entender.

Vallen ignorou o comentário e voltou-se para Cátia com delicadeza:

— Perdoe o Doutor. Coma.

Cátia lançou um olhar inquieto a Harmistrong, como se pedisse autorização. Vallen, por outro lado, fixou um olhar frio, suficientemente ameaçador ao Doutor que, imediatamente,pegou nos talheres.

Durante o jantar, Vallen falou sem parar, contando histórias tão absurdas que, invariavelmente, arrancavam gargalhadas de Cátia. Harmistrong permanecia alheio, como se cada palavra fosse uma tortura.

— Mas afinal, o que você quer, Vallen? — tornou a perguntar Harmistrong. 

— Eu? — disse ele, levantando-se com entusiasmo. — A sobremesa! Vão adorar.

Serviu-lhes mousse, suco de pêra e panquecas. Cátia provou e ficou maravilhada. 

— Está delicioso! E você disse que lá em… Stefa… Sti…?

— Stefanotis — corrigiu.

— Isso! Disse que não cozinhavam.

— Bem… confesso que usei um pouco de magia.

Cátia voltou a rir. Só Harmistrong parecia totalmente alheio ao momento.

Quando terminaram, o Doutor não conseguiu conter-se:

— O que você quer?

— Mas que indelicadeza, doutor! — disse Cátia, chocada com o tom dele perante o Vallen que se mostrou sempre tão amável. 

— Já estou habituado, Cátia — disse Vallen, pousando calmamente os talheres.

Harmistrong inclinou-se para a frente, desesperado:

— Diga de uma vez. Já fizemos o que você queria. O que você quer?

Os olhos de Vallen mudaram de cor, brilhando num tom impossível e, com uma voz aguda e cortante, disse com firmeza: 

— Quero a localização exacta dos qlubs.

No mesmo instante, os olhos de Harmistrong também brilharam. Cátia caiu da cadeira, inanimada.

— Isso era missão de Linan — disse Harmistrong — Não tem nada a ver connosco.

— Onde ela está?! — rugiu Vallen.

Harmistrong fechou os olhos, respirou fundo… e respondeu:

 

— Maputo, Moçambique.

Vallen

Desabafo de uma qawwi, Histórias

Bingo!

O doutor Harmistrong acordou tarde, despertado pelos raios solares que atravessavam a janela.

— Afinal… — suspirou. — Consegui dormir.

Não acreditava que isso fosse possível quando, às quatro da madrugada, ainda se revirava na cama sem pregar o olho. “Quando a mente está perturbada, o corpo não encontra paz”, dizia a si mesmo, consciente dessa condição desde que habitava um corpo humano.

Notou que o telemóvel não estava por perto, mas não sentiu falta dele. Imaginava que só encontraria mensagens dos alunos a perguntarem se teriam aulas de Física Nuclear — como se estivessem realmente interessados — ou chamadas da secretária, sempre preocupada com o seu paradeiro.

Depois de alguns minutos espreguiçando-se na cama, criou ânimo para um banho frio que o despertasse por completo. Decidiu que, ao menos, fingiria que estava tudo bem. E isso significava ignorar o facto de Vallen estar no planeta Terra, colocando em risco a vida que tanto prezava.

— E quem não estaria? — murmurou diante do espelho.

Professor numa das mais conceituadas universidades do mundo; agente secreto de inteligência da maior potência do planeta; diversos títulos honoríficos; prestes a entrar para a história como um dos maiores cientistas de Física Nuclear.

— O próprio Harmistrong, seja lá onde a sua consciência vague, deve estar orgulhoso — concluiu, observando no espelho o reflexo que, com o passar dos anos, já lhe parecia realmente seu.

Hoje era mais Harmistrong do que Baltoq, um simples quawwi de quinta categoria em Stefanotis- o seu planeta de origem. Mas, a presença de Vallen lembrava-lhe essa condição ingrata.

— Chega de pensamentos negativos! — disse com firmeza.

Tomou café em silêncio, evitando ligar a televisão. Sabia que estaria repleta de notícias sobre a “explosão misteriosa” numa cela policial de Boston ou de líderes mundiais, trocando acusações com discursos inflamados de conspiração. Não valia a pena.

Quando, finalmente, pegou no telemóvel, assustou-se: vinte chamadas não atendidas.

— Nem alunos, nem secretária… — disse, admirado.

O número era o mesmo em todas: Lauton, outro quawwi.

— Alguma coisa grave deve ter acontecido — pensou.

Não estava enganado. Assim que atendeu, ouviu a voz aflita do amigo:

— É o Crown!

— O que tem ele?

— Foi expurgado.

— Merda! — gritou Harmistrong. Todo o peso dos maus pensamentos regressou de imediato, misturado com maus presságios.

— É pior do que a morte… — murmurou.

Naquela tarde, encontrou-se com Lauton, que trazia um envelope selado.

— Descobri-o em casa do Crown, depois de ele ignorar todas as minhas chamadas. Tem uma carta. Achei suspeito.

— O que diz a carta? — perguntou Harmistrong, impaciente.

— Por um momento, temi que tivesse acontecido o mesmo contigo, já que também não atendias…

— O que diz a carta?! — interrompeu, aos gritos.

Lauton abriu o envelope. Dentro, apenas uma palavra:

— Bingo!

Seguiu-se um silêncio denso, quase insuportável, como se aquela palavra guardasse múltiplos significados.

— O que é que isto quer dizer?

— Nada… — respondeu Harmistrong. — Ele só está a gozar connosco.

— Quer dizer que escreveu para nós?

— Claro. Sabia que encontraríamos a carta.

— Maldito! — brandiu Lauton.

— Ele é caçador. Está só se divertindo antes de… — não terminou a frase, mas Lauton compreendeu.

De regresso a casa, Harmistrong sentia-se resignado. Sabia que Vallen não estava para brincadeiras. Expurgar um quawwi era a pena máxima em Stefanotis — pior que a morte, reservada apenas para crimes capitais. Aqui, Vallen fazia-se juiz e carrasco. E, nem o próprio rei Kosi o poderia impedir.

Foi com esses pensamentos que entrou em casa, foi directo para o quarto e deitou-se com os olhos fixos no teto. Dormir seria impossível. Revirava-se inquieto quando sentiu algo a incomodar-lhe as costas. Virou-se e encontrou um envelope.

Dentro, uma pequena carta com uma única palavra:

— Bingo!

Vallen

Desabafo de uma qawwi, Histórias

O despertar de Vallen

Fonte: Pinterest

Era manhã cedo quando Vallen despertou na prisão com uma forte dor de cabeça. Eram os efeitos da bebida — aquilo que os humanos chamam de ressaca. Apesar disso, percebia que os seus poderes estavam revigorados. Pela primeira vez, desde que pousara na Terra era, de facto, um qawwi supremo. Poderia simplesmente teletransportar-se e libertar-se das grades. Mas, não era apenas liberdade que queria: precisava enviar uma mensagem ao mundo, principalmente aos outros qawwis espalhados pelo planeta, em especial a Linan. Era necessário que soubessem que Vallen estava por perto — e que tivessem medo. O medo facilitaria a concretização da sua missão.

Os demais detentos ainda dormiam profundamente quando Vallen desatou a gritar:

— Alguém aí?! — bradou, sacudindo as grades. — Quero ir embora! Isto fede!

A resposta foi uma onda de gargalhadas, tanto dos prisioneiros quanto dos agentes de guarda naquela manhã.

— Achavas que isto fosse um hotel de cinco estrelas? — zombou um dos agentes, aproximando-se das grades.

Vallen fitou-o com intensidade.

— Quero ir embora! — repetiu, firme.

Outros guardas aproximaram-se, murmurando entre si que ele não passava de mais um arrogante, um filhinho de papai mimado.

— Ah, sim, eu sei bem como lidar com esse tipo — disse um deles, abrindo a cela com um sorriso de desdém, empunhando um chamboco. — Vou educar este rapaz!

Vallen sorriu, e um brilho estranho surgiu em seus olhos.

— Gosto disto…

Poucos minutos depois, seu rosto já estampava as televisões nacionais e internacionais. Era classificado como altamente perigoso. A população foi aconselhada a não enfrentá-lo e a comunicar imediatamente as autoridades.

Enquanto isso, especialistas militares e cientistas examinavam os escombros do que, até há instantes, fora uma prisão. Restava apenas um cenário marcado por uma explosão sinistra. Todos os especialistas concordavam: tratava-se de uma força ou ciência ainda desconhecida.

No dia seguinte, o Doutor Harmistrong, da Universidade de Harvard, chegou ao local. Viajara por cerca de vinte horas, desde que vira a notícia que dominava as manchetes internacionais como um “ataque terrorista atípico”. Nenhum grupo, porém, havia reivindicado o feito.

O doutor precisou de apenas um minuto para confirmar aquilo que já suspeitava.

— É o Vallen… — murmurou, sem disfarçar o pavor.

— O quê?! — exclamou um dos presentes.

— É o Vallen, porra! — gritou, e seus olhos brilharam de forma inquietante, assustando a todos ao redor.

Era também um qawwi.

Vallen,

30.08.2025

Desabafo de uma qawwi, Histórias

Caídos do Céu

Back view of a young man drinking beer while while sitting at the bar counter

Fonte imagem: Envato

Era uma noite agitada de sexta-feira, e ele se encontrava diante do bartender da boate “Caídos do Céu”, isto depois de imobilizar o segurança que, além do ticket, exigia que deixasse o seu arco e flechas — sua arma mais poderosa. O nome “Caídos do Céu” atraiu-o àquele lugar, na esperança de encontrar pistas sobre sua missão. Mas ali só encontrou luzes coloridas piscando, som alto, homens e mulheres seminuas dançando com uma alegria que, para um mundo prestes a acabar, não se justificava.

Ocorreu-lhe perguntar ao bartender sobre os tais “Caídos do Céu”. Mas conteve-se, pois estava farto de fazer perguntas que aos outros pareciam ridículas.

O bartender serviu-lhe um copo e, ante o olhar de espanto do cliente, avisou:

Isto derruba até um alienígena!

A ele, soou como um desafio. E ele não era de fugir a desafios. Aliás, foi mesmo graças aos desafios que se tornara uma lenda viva entre os seus e braço direito do Rei Kosi.

Espreitou o líquido, mas seus sensores de perigo não detectaram absolutamente nada.

Se derruba um alienígena, certamente não um qawwi como eu.

— O quê? — perguntou o bartender, curioso.

Em seus olhos pairou alguma hesitação. Certamente, não era uma boa ideia revelar sua identidade por aí. Isso poderia interferir negativamente na missão.

Dá cá isto! — disse, arrancando bruscamente a garrafa das mãos do bartender.

Bebeu de um só trago. Não tinha sabor de nada e não lhe lembrava absolutamente nada que já tivesse tomado.

Desafio patético — pensou, pousando a garrafa na mesa.

Heeeeeeeeeeeeee!!!! — rejubilaram-se os demais que presenciaram a cena.

Os gritos inflaram seu ego, gostava de ser o centro das atenções.

Mais uma garrafa! — Disse. E os aplausos foram efusivos.

Esta é por minha conta, meu rei! — gritou alguém.

Em vários meses de recuperação e adaptação, desde sua aterrissagem inglória num dos desertos do planeta, era a primeira vez que alguém se dirigia a ele com alguma dignidade.

Contorceu os lábios, ensaiando um sorriso. Certamente o Rei Kosi não ia gostar nada daquilo. Mas Kosi estava distante, em outro planeta.

Aqui — gritou, tomando a garrafa das mãos do bartender — Vallen é rei!!!!

E, assim, estava feita a apresentação.

E houve uma ovação enquanto ele consumia toda a bebida. Todos haviam deixado seus lugares para se acercarem do Vallen.

Por aqueles instantes, havia se esquecido completamente da missão e da obsessão em encontrar Linan.

Vallen! Vallen! Vallen!… — gritava a multidão, eufórica.

E quanto mais garrafas ele consumia, mais total era a festa.

Despertou na madrugada seguinte, no chão de uma cela fedorenta. Estava com fortes dores de cabeça. E, pior, não conseguia se lembrar do resto da noite passada, nem de como fora parar em uma cela.

Pois então — disse para si mesmo, — derruba até um qawwi!

Vallen, o qawwi

Desabafo de uma qawwi

Reza Por Moçambique, Will

Fonte de Imagem: Freepik

Há uma corrente fria rasando no átrio do prédio. Pensei que pudesse sair para apanhar um pouco de ar. Mas depois do segundo disparo, estava eu a correr. Nem vi o elevador aberto. Quando te convidam a correr pela vida, nada fica ao teu alcance, nem mesmo o que devia ser óbvio.

Chego ao 9º andar e da varanda olho para a cidade, do alto que me permite um vislumbre panorâmico. De um lado a estátua de Samora Machel, que se mantém muda. Envolta a tanto gás que se levanta, estão paralisados os seus músculos de ferro. De outro lado, uma fila de multidão. A polícia dispara contra a multidão. Contra cidadãos, contra sonhantes ambulantes. Para mostrar a outros cidadãos, que tão depressa os seus sonhos serão pesadelos. Mas não são todos cidadãos? Não somos todos? E todos somos sonhantes. E não importam os lados, ou as divisões, ninguem está imune.

Entra, Linan pede-me Will, de pé na porta. Ele é um tipo tranquilo, mas vejo um rastro de preocupação traçando o seu rosto.

Will, e os protestos?

Não é seguro.

Não é seguro. Nada é seguro, concluo.

Aqui em cima, neste 9º andar, o gás não chega até nós; dispersa-se como os pássaros perdidos no vento. E, no entanto, as pessoas lá em baixo o encaram de frente, com as crianças que faltam à escola porque não há escolas para ir. As mães marcham porque não têm comida para alimentar os filhos. E, entretanto, quanto mais marcham, mais as prateleiras ficam vazias. As cidades suspensas no tempo, a economia ruindo no pendulo, o vento indecidido. E nos esquecemos que magoar o próximo, é magoar a si próprio. Pedras arremessadas tornam-se pedras em ricochete.

Will sempre se posicionou contra a violência, acreditando em palavras e não em punhos cerrados. Ele também não era do tipo que se aprofundava na política. Para ele, a política e a religião carregam o risco de dividir as pessoas, mostrando as fragilidades das nossas relações, como as rachas que aparecem na loiça. As nossas conversas às vezes complicavam-se, pois eu, como alienígena que sou, ainda luto para entender a lógica humana por detrás de algumas coisas. Este vácuo, por exemplo. A acappella das panelas nas varandas, que gritam porque há silêncio. Tudo isto ultrapassa qualquer orientação política ou crenças pessoais que eu possa ter.

Isto não faz sentido!

Senta-te Linan. E respira pede-me Will, com a voz calma de sempre. Às vezes é tudo o que podemos fazer. Respirar. Orar.

Porquê? Por que é que não estamos a ouvirmo-nos? Por que é que não estamos a dialogar?

Talvez porque reconhecer a dor significa assumir a responsabilidade por ela – responde-me Will com os olhos distantes. Não te revoltes, Linan, nem tomes lados. É preciso apurar a verdade. E agir de acordo com ela.

Eu não tomo nenhum lado, Will. Eu sou pela união. Sou por Moçambique. Afinal, somos todos humanos. Somos todos um só país, certo?

Ele não me responde. Faço uma pausa, antes de murmurar:

Como é suposto eu agir?

Oh Linan. Will segura-me a mão. Melhor é continuares a missão que te trouxe a este planeta. Ser paz, ser luz, ser justiça. É isto que devemos todos fazer. Amar uns aos outros.

O coro de panelas persiste nas janelas. Já não se assiste Moçambique em Concerto na TV. Alguém, por favor, resgate os CD’s de Miriam Mabeka. Imagine um mundo onde reina a união, onde ninguém fica com fome ou é esquecido. Onde não há mortes. Estou a imaginar como John Lennon fez. Mas, por enquanto, é apenas um sonho. Na realidade, o edifício desmorona sobre mim e, com ele, os próprios alicerces da minha alma.

Então, de repente, acordo. Estou encharcada de suor, com o coração disparado. Foi apenas um pesadelo. Sento-me na cama, desorientada, olhando em volta. A minha casa está intacta, a rua tranquila sob o romper do sol. Mas Will… a cama vazia responde-me. Will não está aqui. Há muito que ele deixou este mundo. O seu espírito escolheu dar a vida por amor. Um sacrifício que nunca esquecerei. Sinto a sua falta. Mas tal como o seu amor falou mais alto, também fala alto o meu amor por este país. Fala mais alto a minha fé, que se enraíza teimosa como fechadura encravada.

E nestes momentos de dúvida, só uma coisa me mantém com os pés no chão: saber que, mesmo na escuridão, a luz da esperança cintila. Saber que Deus prevalece sobre todo o Universo, e que a Sua Vontade se cumprirá. É preciso ter calma. Se Will estivesse aqui agora, ele simplesmente me diria: “Espera, Linan. Mesmo quando a noite parece interminável, o amanhecer sempre chega. Não te esqueças de orar.”

Volto-me para o céu, e com as mãos juntas sussurro: “Will, onde quer que estejas, ora por nós. Ora por Moçambique. Ora para que encontremos coragem para amar, para sonhar, para abraçarmo-nos. Levantarmo-nos e todos juntos curarmos este país.”

Linan, a Qawwi

Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Desabafo de uma qawwi

#37 | De volta ao começo (última parte)

– Teste, um, dois – repito.

Primo o botão, a pontinha de luz vermelha do gravador cede.

– Tão rudimentar… achas que vai funcionar, Linan?

– Confio que sim, deste-lhe um jeito, tem de funcionar.

Volto a clicar o botão e ouço a minha voz repercutir pelo aparelho. Avanço com a gravação, deixando registada a mensagem:

Olá. O meu nome é Linan. Se este aparelho e o meu diário foram parar às suas mãos, significa que de alguma forma, perdi-me do meu caminho. Por favor, ajude-me a reencontrar-me. Tudo o que você vai ler é real. Foi o meu dia a dia, durante a passagem por esta terra. Poderia ter sido uma visita breve, não fosse a mutação, os vícios do corpo e da alma de humana, alongarem a jornada.

Deixe-me esclarecer: sou do reino de Stefanotis, que orbita numa dimensão distante desta. Tenho a pele trigueira, cabelo negro como o carvão vivo, que favorece os meus olhos azuis florescentes. Pareço bastante com você, ou seja, tenho o aspecto de um humano. Se estivermos no mesmo mundo, e caso esbarre comigo, ajude-me. Quem sabe você veja as coisas com mais clareza do que eu fui capaz. E caso me encontre, acorde-me, faça-me recordar. Disso depende, muito provavelmente, a esperança de toda a humanidade. Obrigada.

Vallen olha para mim, e num gesto inesperado, dá-me a mão. Afinal, só temo-nos um ao outro. E os inimigos também se abraçam.

– Será que vai ser doloroso?

– Espero que não.

Esfregamos as particulas de tamarino nos nossos pulsos. Pensamos no começo. Soltamo-nos da terra.

Mas a terra, no seu vazio, torna-se mais negra que o luto do meu peito. Isto não é o meu planeta. Mas também não é a terra.

– Acorda Linan!

Estou acordada. Mas não sei o que vejo ao redor, estas telas, estas velozes estrelas.

– Passaste da conta – continua a mesma voz, assustadoramente familiar.

Estico-me. E deparo-me comigo mesma. Sou ambas.

– Sim, eu sou tu. Deixa-me reorientar-te para que te reencontres Linan… tens de regressar.

– Um minuto – a minha mão trava-se no acelerado teclado flutuante  – avancei? Avancei quanto tempo?

– Pelo menos um ano, Linan.

A minha mente guina com a mesma força de um meteorito, à medida que o resultado matemático desliza da minha boca, arrancando-me da suspensão. Aterro em frente à uma das telas.

– Um ano? Significa… oh! 30 anos do planeta terra?

– Precisamente.

– A esta altura, estarei atrasada?

– A esta altura já quase nada sobra.

Engulo em seco.

– Posso?

– O quê?

– Ver o que resta?

Ela observa furtivamente as telas.

– Compreendes, Linan, que tens de reorientar-te dentro desta janela, se não corres perigo de vida?

– Compreendo, mas preciso saber.

Deixo os meus dedos manejarem freneticamente o ecrã de uma das telas. Os meus olhos inundam-se de lágrimas, da força impetuosa que brota do meu peito ao ver a terra. A satisfação é tanta que o sorriso transfigura-se num desproporcional esgar.

– Eles venceram!

Os humanos. Estão felizes. Não há nuvens escuras pelos ares. Os mares são azuis como o céu. Eles se abraçam, sem discriminação. Todos eles. Descobriram que o amor não é só uma palavra, ou um sentimento. Descobriram que há uma razão para ele existir. Finalmente, os qlubs estão equilibrados! A minha outra eu aproxima-se, com as mãos escondias por detrás das costas, sugerindo que algo está a escapar-me.

-Lembras-te quando Vallen disse, Linan? Que existem duas variáveis? Pois, ele estava certo. Esta variável foi salva por antecipação. 30 anos atrás. Na dor, expostos diante das suas próprias fracturas, os seres humanos transformaram-se para melhor.

– Então porque é que disseste que não sobrou nada?

A tristeza que emana dela, estranhamente, é minha.

– Olha com atenção.

Ela desliza o dedo na tela, para que eu veja o que até então me estava a passar. Não são precisos mais de cinco minutos para que uma onda de terror atinja-me em cheio.

– O que é isto?

– Planeta Terra.

– Mas… parecem frívolos ikras?

– Esta é a dimensão de que Vallen falava.

– Como assim?

– Numa outra versão de si próprios, os humanos não aprenderam nada. Trinta anos atrás, perderam a oportunidade. Seus conceitos bélicos, egocêntricos e separatistas foram exacerbados. E isto abriu as portas para o que Kosi queria, o pior cenário… que é…

– Não digas mais – murmuro. É como se acabasse de receber uma bofetada.

De que lado a minha família ficou? Do lado dos humanos que havia aprendido, ou do lado dos que tão somente havia piorado?

– Reorienta-me, por favor, de volta ao começo!

– Estás preparada? Para começar do zero? Toda esta conversa, tudo o que viveste…

– Estou pronta.

– Ok. Então… até um dia.

Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

tumblr_n5wuweomi71qbm990o3_r1_500

GIF: TVD

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.

Desabafo de uma qawwi

#33 | De volta ao começo: vamos abrandar

Woman meditating

Imagem: Zeenedout

Vamos humano, desacelere o passo. Não é imperativo manter-se em pé, quando as pernas querem fraquejar. De outra forma, por quê haveria tanto medo? Há muitas horas no dia, para organizar a aula online das crianças, tratar as tarefas domésticas, partilhar a foto do pão caseiro no Instagram, e executar aqueles vinte burpees de modo a manter o físico.

Sim… há muito por fazer. E o muito será feito. Mas às vezes é importante não fazer nada. Sente-se aqui comigo, diante das estrelas. Podemos ser os dois, perfeitamente incapazes, diante destas águas? Não, não há nada de errado nisso. Em deixar-se apenas flutuar. Respirar, sem tencionar nada além. Meditar, sem pretensões de atingir o nirvana. Há que deixar-se ser atropelado por esta frente de emoções, sem protestar. Apenas sobrevivendo, tão simplesmente, sobrevivendo.

Afinal de contas, nenhum humano quer morrer, não é verdade? Mas de nada vale lavar tantas vezes as mãos, se não lavar e tirar os vírus da alma (e acreditem, haverá um dia em que as almas vão durar). Que se evaporem todos os egoísmos e exclusões, e se conjuguem todos os verbos e sinónimos do bem-querer.

– Mãe…! Oh, mãe…! Depois da morte, para onde vamos? Fazemos mesmo a transição para a tua casa, reino Stefanotis?

Pronto. Eis um pensamento que não me apetece ruminar esta noite. Will, todo sorumbático, lança-nos um olhar curioso e ajeita a régua sobre a planta, observando-me lidar com os questionamentos da filha.

– Não vais morrer, meu anjo, não tens de pensar nisso.

Érica franze os lábios. A frustração prevalece no seu terno olhar.

– Então até quando ficaremos fechados aqui dentro? Tenho saudades da escola, dos meus amigos.

Pobre Érica. Humanos não são humanos, sem outros humanos.

Não acreditem muito nas promessas de que o vosso planeta vai mudar. Já vos conheço tempo o suficiente para saber isso. Todavia, algumas coisas serão diferentes. O conceito de fronteiras resistirá, embora vocês passem a perceber que na verdade, elas não existem. Assistirei a minha filha ir ao cinema com os amigos, pelas plataformas da internet. E quando tudo isto passar, os seres humanos terão descoberto outras formas de amar. Mais do que hoje são capazes. E para que perpetue na consciência esta dura marca, será instituído um feriado, um dia por ano, para as pessoas ficarem em casa, reconectadas com o Universo.

– Não é só por ti que tens que ficar em casa, meu amor. É pelos teus amigos também, de quem tanto gostas. E olha que nem todos os seres humanos têm essa possibilidade. Há pessoas que tem que ir à rua, para cuidar das outras. Há quem tem que ir à rua, para poder sobreviver. Temos que ser responsáveis, pensar nessas pessoas, pensar em ajudarmo-nos e cuidarmo-nos, sempre. Vai lá ao WhatsApp, liga aos teus amigos, diz-lhes que tens saudades. Eles vão gostar de saber.

Os olhos dela cintilam, enquanto mete os auriculares aos ouvidos e agarra-se ao telemóvel.

– Ok, mamã.

Ah, minha pequena humana. Que nunca te esqueças, nunca desaprendas, a tocar as cordas destes grandes instrumentos musicais. A solidariedade e a amizade, universais em qualquer trilha da vida.

Will finalmente pousa as plantas e a régua, arrastando-se de seguida para o quarto. Está derrotado. Este ser humano não sabe abrandar. São muito afiadas as garras da angústia que cravaram a sua pele. As propinas da Érica, os deadlines da empresa, a dispensa vazia, os cuidados para não contaminar ninguém depois que volta da rua, a minha gravidez de risco, a falta de ciência sobre o assunto, o medo de perder a família. Will mergulhou, enfim, em profundo estado de ansiedade. O que eu devia ter percebido, porém, é que o seu ar abatido devia-se à outra coisa. O elemento que o atormentava era bem mais elevado do que a simples ansiedade. Era algo assustadoramente extraordinário, frio como a solidão. Apavorante, para dizer a verdade.