Desabafo de uma qawwi, Resenhas

#26|Quero o divórcio (essa faca de dois gumes)

Fonte imagem: istock

Apareceu à minha porta sem avisar. Trazia um ramalhete de flores. Mas a visão não me agradou. Evocou-me antes, a memória do beijo. E de repente desejei que tanto ele como Fatinha tivessem os seus corações violentamente quebrados. Queria que Will estivesse tão miserável quanto parecia. Que se arrependesse por ter destruído a nossa união. Confesso que odiava-me sentir-me daquele jeito. Mas sentia. Era o que eu era, a minha nova entidade. E essa nova entidade, raivosa como um bicho ferido, fez-me fechar-lhe a porta na cara. Na verdade, só tinha aceite dar-lhe o meu endereço porque queria continuar perto de Érica.

– Não vou embora sem falar contigo, Linan! – os golpes na porta permaneciam altos.

Respirei fundo. Tentei abafar os meus gemidos, a angústia agressiva, os ciúmes insuportáveis. Se por um lado não me lembrava de ter experimentado tais sentimentos enquanto qawwi, na condição de humana parecia que neles naufragava.

– Sê breve – pedi num fio de voz, deixando-o entrar. Ao inalar o aroma das flores, espirrei.

– Meu Deus – admirou-se Will ao notar a reacção – São as tuas favoritas!

Para mim também era novidade. A humana em mim era alérgica a antúrios. Peguei no ramalhete e atirei no balde de lixo, sem um pingo de remorsso. Will apenas seguiu-me silencioso.

– Eu amo-te, Linan.

Operou-se uma confusão instantânea na minha mente. Voltei-me bruscamente.

– Não foi um beijo aquilo que vi entre ti e a Fatinha?

O rosto dele voltou-se para baixo.

– Sim, mas…

– Fizeste amor com ela?

O gargalo de Will inchou enquanto claramente engolia uma resposta azeda.

– Não é como estás a pensar, Linan.

-Ah não? Como podes alegar amar-me e ao mesmo tempo fazer amor com ela? Elucida-me, por favor – empurrei a mão dele. O toque não ia aclarar as ideias. Precisava de algo mais forte que isso.

– Em primeiro lugar, tu não estavas aqui!

Fiquei perplexa. Morrendo de overdose daquela ideia estapafúrdia.

– Ah! Então quando nos ausentamos, ausenta-se também o amor?

Will ficou lívido. Parecia tão incrédulo e surpreso quanto eu.

– Nunca deixei de amar-te. Tu é que me abandonaste! Trouxeste a nossa filha de volta, e de seguida sumiste. Eu vi! Deste as mãos a Vallen, de livre vontade, e evaporaste. Sem um único adeus. Dois anos. E eu sem saber se estavas morta, ou se de repente tinhas saído deste planeta. O teu telemóvel, entretanto, chamava. A secretária electrónica às vezes era de França. Outras, de Cabo Verde. Tailândia. Bora Bora. E a última vez, de Sydney. E tu nunca. Nunca deste um sinal, nunca respondeste às minhas mensagens!

– Porra Will, foi por vocês! Para proteger-te, para proteger a Érica! Eu não podia entrar em contacto pois estava a fingir ter deixado tudo para trás. Era a única forma que tinha para poder voltar para vocês.

– Para mim não foi fingimento. Despedaçaste-me por inteiro, Linan. Fatinha só chegou tão perto, porque também estava arrasada e tentava convencer-me de que ia tudo ficar bem. Ela ajudou-me a cuidar de Érica, mas não era…

– Era a minha melhor amiga. E tu a puseste no meu lugar. Foi isso.

Will calou-se. Sacudiu os ombros.

– Lamento imensamente que estejas a ver assim. Eu não estou com ela. Nunca faria isso. Queria apenas que entendesses que nos últimos meses… a minha cabeça estava em todos os lugares. Não fazes ideia!

– Tu também não! – Naquele instante os nossos corpos estavam muito próximos, mas os corações, distantes como o sol e o mar. Por isso gritavamos para que nos ouvissemos – não fazes ideia do quanto perdi para poder voltar para ti!

– Desculpa – os olhos de Will escureceram – Ao contrário de ti, sou humano. O meu corpo está sujeito a essa condição, e às vezes comete atrocidades. Mas o meu coração é e sempre foi teu.

Desejei ardentemente que nem eu, nem ele, fossemos humanos. Que soubéssemos ser unidos de corpo, alma e coração. A dissociação havia nos estilhaçado. E no reflexo dos escombros, brilhavam as nossas falhas. O coração, sem o corpo, é uma cegueira. E o corpo sem coração, é uma mutilação. Não havia metáfora possível para suavizar a realidade.

– Por favor – Will engolia as lágrimas – por favor – repetia consecutivamente – perdoa-me e deixa-me explicar.

– Escuta Will, não condeno-te por teres colocado a minha melhor amiga no meu lugar, ou por teres sido um idiota ao duvidar que eu iria cumprir a minha promessa. Tão pouco por teres esquecido que eu amava-te infinitamente. E sim, aceito as tuas desculpas.

Ele tremia quando perguntou muito baixo:

– Aceitas, mas não vais voltar para mim, é isso?

Reflecti durante alguns segundos. Ele estava correcto.

– Exacto, não vou voltar. Voltar para ti agora significaria desrespeitar os meus sentimentos. Ir contra mim mesma. Estou cansada disso e sinceramente, preciso ser mais benevolente comigo mesma.

– Algo em ti, mudou, meu amor.

– É o que acontece, Will. O universo muda constantemente.

Não tinha vontade de confessar que agora era humana. Que sacrificara os meus poderes, a minha essência, por ele. Uma força amarga e poderosa dentro de mim impedia-me disso.

– E pretendes abandonar-nos de novo? Vais teletransportar-te e sumir pelo mundo? E a nossa filha?

Suspirei. Até há pouco não me imaginava a fazer aquilo sem ele. A ser humana. Mas agora compreendia. Era uma jornada exclusivamente minha. Enfrentar os medos, a solidão, é o que faz de nós, nós. Precisava de um tempo sozinha, para entender-me comigo própria.

– Ouve-me com atenção, Will. jamais abandonarei a Érica, não tens de preocupar com isso. Mas o que quero agora é estar só.

– Percebo – Ele tentou aproximar-me, mas ao ver-me retesar, retrocedeu – ainda tenho fé no nosso casamento. Vou dar-te espaço, até que estejas pronta para perdoar-me.

– Acerca disso – rodei o anel no dedo – eu quero aquela coisa.

Ele franziu as sombras.

– Não sei se compreendo.

– Quero aquela coisa Will – retirei o anel, ao mesmo tempo que tentava desesperadamente recordar-me do termo certo – o divórcio. Eu quero o divórcio.

Cinema (Filmes / Séries)

Cinema |Top 7 filmes para ajudar a curar um coração partido|

Desde os mais experientes até os novatos, no amor todos nós já experimentamos em algum momento, partir o coração. Às vezes somos abandonados, e em outras ocasiões, abandonamos. Ambas situações não são nada divertidas. Uns recorrem à uma cervejinha e aos amigos, tentando dissimular a solidão que acomete nessa hora. Na ala feminina, o abraço das amigas, um bom vinho e a almofada, ou uma festa de pijama para as mais novas, normalmente serve. O bom é que todos superamos. Uns mais rápido que outros. O importante é não esquecer que sarar um coração partido é um processo, e quanto mais ajuda interior e exterior tivermos, melhor.

Se o seu coração neste momento deu uma de curtir um buraco negro, ou se você simplesmente quer sorrir e relaxar um pouco, continue a ler. O diário de uma qawwi seleccionou nesta resenha 7 maravilhosos filmes que vão ajudar a olhar para este drama da vida com outra perpesctiva. Sayonara às mazelas amorosas, agarre a tal cervejinha (ou não) e divirta-se com uma das nossas sugestões.

  1. 500 days of summer (500 dias de Summer) – 2009Screen_Shot_2018-08-08_at_12.51.04_PM

Não se pode falar de um filme para curar o coração partido, sem mencionar o clássico 500 days of summer. Neste filme, um romântico escritor surpreende-se quando a sua namorada termina o namoro repentinamente. Retratando como um rompimento pode nos deixar devastados, especialmente se acreditamos que quem nos deixou era “a tal”, a nossa “alma gémea”, este filme mostra como recuperar e redescobrir as nossas paixões individuais, e que pese embora pareça o fim do mundo, há sempre uma reviravolta e todos os dias são um recomeço. O importante é não deixar de acreditar.

Confira o trailer:

  1. Table 19 (Mesa 19) – 2017

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É chato irmos para uma festa de casamento sozinhos, especialmente se o irmão da noiva é quem acabou de nos dar um pé na bunda para ficar com outra, não é verdade? Mas sabem o quê? Bola para frente, não vamos deixar de viver, nem de nos divertir. Afinal, sempre podemos fazer novos amigos e nunca sabemos o que, de facto, o destino e o futuro nos reserva.

Confira o trailer:

 

  1. Qualquer gato vira lata – 2011

qualquer-gatoDepois de ser desprezada pelo namorado mimado e mulherengo, Tati busca maneiras de reconquistá-lo. Para isso, ela procura Conrado, um professor de biologia que defende uma polêmica tese sobre as conquistas afectivas humanas e as atitudes dos animais.

Apesar de ser uma comédia romântica mediana e previsível, Malvino Salvador e Cleo Pires conseguem arrancar gargalhadas de qualquer gatinho/gatinha pinguço/a perdido nos becos dessa tragédia. Jamais se esqueça, você é um ser maravilhoso e ele (ou ela) está prestes a arrepender-se por o/a ter deixado/a.

Confira o trailer:

 

  1. Hes just not that into you (Ele não está tão a fim de você) – 2009

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Estão a ver quando alguém vem e nos diz “o problema não és tu, sou eu”? ou então “não tenho capacidade de assumir um compromisso agora?” não duvide da palavra, pois esta pessoa não está a brincar.

Esta é uma comédia deliciosa que vai fazer você entender, de uma vez por todas, que de nada serve forçar alguém a nos amar. Quando se ama, ama-se, senão, azar. O melhor está sempre por vir.

Confira o trailer:

  1. The War of the Roses (A Guerra das Rosas) – 1989

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Talvez sejam muitos anos de convivência, talvez você (acha que) ainda o/a ama, talvez haja o medo da sociedade, do que as pessoas vão falar, ou simplesmente tenha medo da solidão, seja como for, se a coisa está mal, não vale a pena insistir. Respire fundo e saia por bem da situação, antes que acabe saindo por mal. Na dúvida, dê uma olhada neste filme.

  1. Sliding Doors (1998)

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“Helen pode pegar o trem ou não. A sua vida será completamente diferente de acordo com o que fizer: se pegar o trem, vai conhecer James e encontrar seu namorado com outra, se não pegar, vai chegar tarde em casa tarde e continuar uma vida de enganos.”

O maravilhoso deste filme, é que nos deixa com uma inspiradora revelação. Nada acontece por acaso. Aquilo que hoje parece mau e nos deixa arrasados, amanhã pode ser uma verdadeira benção.

Trailer:

  1. Man Up (Desencontro Perfeito) – 2015

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Para o nosso top 1, escolhemos man up, pois este filme britânico é uma daquelas comédias românticas algo subestimadas. Com actuações leves e impecáveis, plausibilidade palpável no enredo a que se propõe, o filme deixa-nos com uma sensação de calor no coração, esperança no amor repentino e a ajustar a auto-estima. Antes de reclamarmos o amor de alguém, temos de nos permitir amar-nos a nós mesmos, e que quem tiver de gostar de nós, irá o fazer, com todas as nossas imperfeições. Só assim vale a pena.

Trailer:

 

Esperemos que goste 🙂

Especial Halloween