Desabafo de uma qawwi

#7|Sonda-M – sinais de um homem player

 

A simpática humana com quem divido a casa, finalmente convenceu-me a sair para conhecer a “noite”. A música soava alta, os balcões abarrotavam de bebidas, e um adocicado fumo serpenteava pelos corredores. O recinto mais parecia uma gruta de segredos. As luzes minimalistas lá dentro faziam os diversos trajes cintilarem.

Considero-me uma qawwi razoavelmente inteligente e tenho assimilado com rapidez os hábitos humanos. Mas aquele cenário deixou-me abestalhada:

– Oh Fatinha, porque é que estas moças vestem pijamas?

Referia-me ao grupo de jovens semi-nuas que abanavam freneticamente os corpos, bem no centro do recinto. A contradição melindrava-me por completo.

– Disseram-me que este tipo de vestuário serve somente para a intimidade do sono, não para o convívio público! Afinal era mentira?

Fatinha reprimiu uma gargalhada, pese embora eu não tivesse percebido a piada.

Sentamo-nos num canto, e enquanto Fatinha fazia gestos no ar, eu ajustava o Sonda-M na orelha. O pequeno dispositivo permitia-me captar sinais dos qlubs, objectos importantes para a minha missão.

De seguida devolvi a atenção ao ambiente. Como é que as moças conseguiam respirar, sem sufocar em tecidos tão apertados? Infinito mistério, pois os sorrisos indicavam prazer descomunal no possível sofrimento. A meu ver, as jovens pareciam safiras à superfície, encontradas sem garimpo. E os homens à volta, ostentando sequiosos olhares, avaliadores dos potenciais tesouros. Muito estranho…

– A maioria destes gajos são pais de família que deixaram as esposas em casa, garanto-te – sussurrou Fatinha ao meu ouvido, antes de ausentar-se para atender uma chamada. Estava eu ainda a tentar alcançar o significado daquilo, quando um homem aproximou-se. Para nós qawwis, a estética nos traços dos humanos é neutra, mas pelo que percebi, podia dizer-se que aquele era um humano “atraente”. Captava muitos olhares femininos, à medida que deixava um rastro de aroma de basil e de origami lavado. Os seus olhos escuros faiscaram quando encostou-se ao sofá.

– Sou o Marcos. – informou, pedindo-me a mão para depositar um beijo – posso oferecer-te uma bebida?

– Não faço muita questão, mas agradeço.

O telemóvel no bolso do casaco do tal Marcos não parava de apitar. Ele sacou o aparelho e tratou de responder à uma mensagem antes de voltar a cravar-me o denso olhar, como quem afunda na imensidão do universo.

– Desculpa a curiosidade. Não és desta cidade, pois não?

– De facto. Nem sequer sou deste planeta.

Chegou-me aos ouvidos a sua gargalhada macia como algodão.

– Sem dúvidas! Linda como és, só podes ter vindo do céu. Um verdadeiro anjo!

Arregalei o sobrolho, contrariada.

– Anjo não! Quando muito uma qawwi.

– Qawwi? O que significa isso?

– Porquê importa?

– Importa porque és divertida e sexy demais.

O telemóvel dele continuava a afincar-se em nervosos bips.

– Não seria melhor atender as chamadas?

– Não é ninguém importante.

Foi nesse instante que senti um doloroso estampido no ouvido. O Sonda-M estava com uma anomalia. Ao invés de detectar pistas dos qlubs, estava a captar sinais de mentiras. Marcos inclinou-se, de modo a encurtar a distância que nos afastava e sussurrar:

– Neste momento estou a fazer algo muito mais interessante.

– E o que seria tão mais interessante? – perguntei ajeitando o minúsculo aparelho no meu ouvido – lançar-me essas suas observações generalistas?

Ele soltou mais uma gargalhada.

– Também sei ser bem específico. Olha, está muito barulho aqui, conheço um lugar mais tranquilo, gostavas de vir?

– Para quê?

– Para conversarmos mais à vontade e nos conhecermos melhor, só isso.

O Sonda-M voltou a dar um estalido, acusando a nova mentira. Farta das dores no ouvido, levantei-me e rodei nos calcanhares.

Fatinha, que, entretanto, já havia regressado, puxou-me para um canto.

– Homens players não, Linan. Esses são os piores!

– Desculpa?

– Está escrito na testa daquele tipo que é um player! Não viste a aliança no dedo?

Não tinha visto. Nem sequer entendia o que era uma aliança ou qual era o seu fim. Mas percebia que o termo “player” referia-se a jogador.

– Ele não disse-me que era jogador. Joga quê?

Fatinha riu-se admirada.

– Quanta inocência, filha! Não conheces o jogo da caça e do caçador? Da encruzilhada amorosa? Linan! O Player joga com o teu tempo, com o teu coração e com a tua paciência. Sabes aquele homem que tem uma, mas quer todas? Que roda pela cidade como um cão vadio, e faz da simplicidade do amor um jogo psicológico? Esse é o player. Fica longe dele, Linan! Há homens mais sérios por aí.

De facto, por aquele prisma, o tal homem player era uma criatura mais perigosa que os ikras do meu planeta. Todavia o cuidado de Fatinha era desnecessário. Sei que ela tinha esperanças que eu me interessasse por alguém, mas uma extraterrestre em missão de serviço como eu, não se dá à esses luxos. Pelo contrário. Abandona o qawwi que ama e não volta a apaixonar-se. Muito menos por um humano, espécie que sente volúpia pela desonestidade. Seria mais fácil o sol e saturno colidirem, do que eu envolver-me com um humano.

– Não te preocupes Fatinha – murmurei passando a mão pelo seu ombro. – Ficarei longe da espécie.

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Imagem via Pinterest

Desabafo de uma qawwi

#3| Os rapazes da fraternidade

A luz de um abajur perfurou-me a retina quando abri os olhos. Na cabeceira, a moldura de um retrato. Rolei pela cama, em busca de aconchego, e foi então que apanhei um susto de morte.

– Acordado, meu amor?

Pus-me em pé, num pulo. As pernas, de repente, estavam muito musculosas. Todavia, o mais preocupante era aquela situação. Uma humana, feminina, a chamar-me “meu amor”? O que diria o meu amado qawwi, se me visse agora, através de um satélite fónico? Para agravar os nervos, disparou pelo quarto uma ligeira e monocórdica melodia.

– Calma meu amor, é só o teu celular… atende.

Procurei o aparelho com urgência, como se dependesse do mesmo, a minha integridade. Encontrei-o encafuado entre as almofadas da cama.

– Alô?

– Até que enfim, Diego! Estavas a flutuar em cima de alguém, ou o quê?

– Hã? – o meu cérebro deu um nó – em cima? O que acontece com a gravidade?

Em resposta, gargalhadas.

– Deixa-te de tretas, bro! Já estamos perto daí. Podes descer?

A humana veio enroscar-se no meu pescoço, toda semi-nua. Tal obrigou-me a agarrar-me ao celular como se fosse uma bóia de salvação.

– Sim, estou a descer, até já! – vestida apenas da cintura para baixo, abandonei o quarto. A humana veio atrás, gritando-me coisas que não fiz questão de perceber.

– Vista mas é uma roupa, criatura! – implorei antes de embrenhar-me na fuga até alcançar a saída do edifício.

Na rua, um elegante jovem observou-me cima abaixo e gritou para quatro outros dentro de uma viatura:

– O nosso bro já está bem pedrado! Vens ou não?

Notei que os quatro dentro do carro, eram os mesmos da moldura na cabeceira. Decidi entrar e pedi-lhes que voássemos para longe, antes que a humana ressurgisse para capturar-me.

– A fugir da Vanessa, bro? – questionou um deles, engasgando-se de rir – ela é das moças mais cobiçadas pela nossa fraternidade, sabias? Hey Pete, passa lá um casaco antes que o nosso bro fique constipado.

Enquanto cobria o tronco, olhei-me num espelho. Afinal, eu também era um dos jovens da moldura! Era membro de uma “fraternidade”, e tinha Peter, Simon, Jamal e Noah, como “melhores amigos”.

Estacionamos num local escuro cheio de gente, poluído de luzes psicadélicas, e música muito alta. Havia tanta fumaça, que era quase impossível respirar. Um copo cheio de álcool na mão, parecia naquele ambiente, uma questão de sobrevivência.

– Olá, trago aqui uma preciosidade – disse-me alguém, cutucando-me nas costas – Só 50.

Pronto, lá estava a linguagem dos números.

– 50? Você está a tentar vender-me algo?

– É coisa das boas! Uma pedrinha, por exemplo, e garanto-te que terás a melhor experiência da tua vida!

Curiosa, tentei desvendar a oferta, mas não foi preciso nem sequer experimentar, para o meu radar de qawwi detectar o perigo. Aquilo iria causar-me um severo dano ao corpo. Experiência maravilhosa? No meu planeta experiência maravilhosa é saltar galáxias. Que raio de boa experiência é essa, que promove a automutilação? Mas afinal, o que se passa neste planeta?

– Diga-me algo, senhor, você já experimentou essa tal maravilha? – o silêncio dele confirmou o que eu temia: o sujeito estava a vender-me um mundo, que nem ele próprio tinha.

Entretanto, Simon chegou e aceitou a oferta.

– Não te armes, bro! – resmungou, enrolando o conteúdo num curioso aparato, que produzia fumo expelido pelas vias respiratórias – Estou a divertir-me, como todos os outros!

Fiquei especado, o choque assombrando-me o rosto.

– Bro – continuou Simon, expelindo mais fumo das narinas – conheço-te desde criança, muito antes da fraternidade. És um chato de nascença, nem sei como és o meu melhor bro, mas hoje, tu não estás em ti! Conta lá, o que é que se passa?

Fomos interrompidos por repentinos gritos, seguidos de total algazarra. Polícias terráqueos haviam invadido o recinto. Embora eu desconhecesse o crime que tinha cometido, percebi que estava em sérios apuros, e nem sequer podia teletransportar-me, já que estava fora do meu corpo de qawwi.

– Bro, bro fica tranquilo, vai dar tudo certo – murmurou Simon assustado, quando a polícia começou a revistar-nos. Tentou desculpar-se, porém, os homens da lei não ficaram satisfeitos com o que encontraram nos seus bolsos.

– Membros da fraternidade ómega à direita, hein? Vocês podiam ter um futuro brilhante, sabiam? Mas talvez as barras da cela ajudem a dar uma refrescada nestes cérebros, não é? Rob, recolhe todos eles!

– Sr. agente, ele não. – suplicou Simon debatendo-se quando um policial capturou-me – O Diego não fez nada, é um palerma, mas é bom rapaz. Não há nada com ele, podem ver, deixem-no ir, por favor!

Depois de uma forte revistadela e talvez convencidos pelo apelo de Simon, eles largaram-me.

– Fica tranquilo bro, eu eide safar-me! E sei que tu estás comigo, bro! – balbuciava Simon, enquanto era conduzido para onde a liberdade passaria a ser uma quimera. Havia algo no olhar de Simon, além do medo, disfarçado de coragem. Acabei por experimentar uma esquisita melancolia, pois o último acto de Simon colhera-me de supresa. Ele gostava de mim. Aquilo que eu vislumbrara nos olhos dele, era o verdadeiro sentido da “fraternidade”. Afinal, havia um sentimento tão bonito como aquele entre os humanos?

– Estou contigo, bro! – devolvi, sentindo umas gotas quentes entre as pálpebras. – estou contigo e vou ajudar-te!

Linan

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Crédito imagem: http://blog.trashness.com/prep-boys-on-a-mission

Opiniões, Telenovelas

Novelão | Cinco mulheres atrapalhadas que brilharam na telinha brasileira

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Há muitos anos que as telenovelas brasileiras têm ocupado um lugar de destaque na vida das pessoas, não só no Brasil, como em várias partes do mundo. Histórias de amor, de luta, paixão e aventuras que espelham-se no quotidiano tencionando trazer-nos lições de vida, tornam-se parte da nossa rotina, a ponto de influenciar comportamentos, vestuário e até o vocabulário. Admiramos tanto algumas personagens que às vezes queremos emular parte delas dentro do nosso ser. Hoje, mulheres e homens adoram uma bom folhetim na TV, sobretudo se tiver uma trama apelativa e personagens marcantes.

O diário de uma qawwi escolheu 5 cinco adoráveis mulheres na TV, que apesar de atrapalhadas, eram verdadeiras lutadoras e brilharam pelo seu carácter. Confira a nossa lista:

5. Irene Ribeiro (Vivianne Pasmanter) – A Próxima Vítima (1995)

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A próxima vítima foi um estrondoso sucesso e uma das melhores tramas policias da TV Globo. O assunto sobre quem era o assassino não deixou os telespectadores dormirem, agitando inclusive a classe política.

Uma das personagens que figurou neste folhetim foi Irene Ribeiro. Curiosa estudante de direito, Irene torna-se a detective da trama, sendo a típica personagem que no princípio não é dada ouvidos. Todavia, é ela quem acaba por convencer a polícia a desvendar o caso das vítimas do assassino do horóscopo chinês. Vezes sem conta, Irene mete-se em encrencas, expõe-se ao perigo, e quase perde o namorado/noivo Diego, por deixá-lo plantado. Facto é, que por fim, ela alcança o seu objectivo e resolve o mistério da trama. Coisa que só uma pessoa persistente e lutadora é capaz.

Relembre aqui uma cena de Irene em A Próxima Vítima

https://www.youtube.com/watch?v=KWvP4ORIOrY

4. Desirée Oliveira (Mayana Neiva) – Ti-Ti-Ti (remake – 2010)

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Nós da tripulação do diário de uma qawwi somos grandes fans de Ti-Ti-Ti original de 1985, mas o remake de 2010 também ficou óptimo e alcançou um grande sucesso junto ao público. Uma das personagens que brilhou nesta trama foi Desirée, uma jovem extremamente linda e humilde. Ingénua e atrapalhada, Desirée demora a perceber a falsidade da prima Stéfany que rouba-lhe o namorado, e que ao contrário dela, só tem interesse em tornar-se rica. Desirée acaba alcançando a fama como modelo, de forma quase acidental, mas sempre honesta, batalhando pelos seus objectivos e sonhos sem ferir ninguém, amadurecendo pelo caminho e encontrando o verdadeiro amor.

3. Rosalva dos Anjos Rocha (Regina Casé) – As Filhas da Mãe (2001)

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Quem não se lembra de Regina Casé, no meio de escândalos e barracos ao som de “ela é bamba”? A trama de Sílvio de Abreu acabou não tendo a audiência desejável pelo autor, mas as Filhas da Mãe trouxe algumas personagens memoráveis, e uma delas é Rosalva. Mãe de quatro filhos, morando na zona leste de São Paulo, Rosalva tinha uma vida virada do avesso, que piorou após descobrir a infidelidade do falecido marido. Sem muita escolaridade ou classe, Rosalva foi sempre uma mulher batalhadora e isso não mudou, nem depois de o destino a transformar numa herdeira rica.

Relembre aqui o tema de Rosalva, “ela é bamba” de Ana Carolina

https://www.youtube.com/watch?v=YeQiCN51ang

2. Vivi (Christiane Torloni)– Cara & Coroa (1995)

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O contraste entre duas mulheres fisicamente idênticas, mas com personalidades opostas, era o que guiava Cara & Coroa, uma belíssima novela de António Calmon, com Christiane Torloni brilhando na pele das gémeas Fernanda e Vivi.

Embora Fernanda tivesse uma personalidade mais forte, é de Vivi que vamos falar. Vivi cresceu num orfanato, com uma adolescência difícil, mas manteve uma personalidade meiga e doce. No decorrer da trama, Vivi acaba por ter que fingir ser Fernanda, em situações simplesmente absurdas e cómicas, já que ela é desastrada. Porém, conseguir enfrentar a cadeia, uma família, um filho, um marido, e uma cidade inteira que a odeiam (porque odeiam Fernanda), entre tantos outros sacrifícios que ela faz pelo bem dos outros, só uma mulher verdadeiramente boa e valente é capaz.

Relembre aqui a abertura de Cara & Coroa.

https://www.youtube.com/watch?v=h_XdHJ8u7Rg

1. Maria do Carmo (Regina Duarte) – Rainha da Sucata (1990)

Rainha da Sucata é um dos grande sucessos da TV Globo que fez furor em vários países. A protagonista Maria do Carmo, interpretada por Regina Duarte, estreia-se numa cena tão cómica como dramática, que remete à Carrie (de Stephen King), sem finais sangrentos, e sim lixo jogado sobre a “sucateira”. Ajudando o pai desde cedo nos negócios, Maria do Carmo torna-se uma empresaria de sucesso, mantendo, todavia, bem patente a sua origem humilde. Habituada a ter tudo que quer, Maria do Carmo chega a ponto de “comprar” Edu (Tony Ramos) como marido, homem que a humilhou na juventude. Só uma trapalhona para achar que um casamento desses daria certo. Neste percurso, Maria do Carmo acaba perdendo toda a fortuna e inclusive enfrenta as barras da cela. Sem nada, ela recomeça do zero, com garra e firmezas arrebatadoras. Uma garra que todo o ser humano definitivamente devia ter.

Confira “coração pirata” tema de Maria do Carmo.

https://www.youtube.com/watch?v=I-9aKzhlsfw

E aí, o que você achou da nossa escolha? Deixe o seu comentário e junte-se ao blog para outras opiniões sobre livros, filmes, novelas e outras maravilhas humanas.

 

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(A tripulação de Linan)

Fontes:

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/a-proxima-vitima/curiosidades.htm

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/ti-ti-ti-2-versao/curiosidades.htm

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/as-filhas-da-mae/galeria-de-personagens.htm

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/cara-coroa/galeria-de-personagens.htm

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/rainha-da-sucata/trama-principal.htm

Imagens via Globo

Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Desabafo de uma qawwi

#2 | A síncope – o momento em que descobri que sou infiel

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Ao final de sexta-feira tive uma síncope. O beijo foi o gatilho, mas a causa maior residia no lento acumular de incongruências que estava a testemunhar nos últimos dias. Cheguei à terra faz pouco tempo, e quanto mais analiso, menos sentido encontro neste planeta. O uso excessivo de carros, por exemplo. É um paradoxo que escangalha-me o cérebro. Além de agravarem o sedentarismo, estas máquinas obsoletas são altamente poluentes. Sempre ouvi dizer que a poluição inquieta os humanos. Pela quantidade de veículos que prolifera pelas estradas, eu diria que essa preocupação é tão grande como o dedão do meu pé de qawwi. Seria exagero concluir que os humanos são vítimas intencionais de si mesmos?

– Pára de reclamar, mãe! Hoje em dia não se faz nada sem um carro – explicou-me uma das minhas filhas. – além do mais, ter um bom carro é uma questão de status.

Status?

– Sim, mãe, status!

– Ah, status. – cocei a cabeça – Faz sentido.

Tinha que disfarçar, mas claro que não fazia sentido. No princípio, cheguei a pensar que o tal “status” fosse uma comida. É um conceito de difícil compreensão e na verdade, sigo sem entendê-lo. Será que significa vestir trapos feios, só porque são caros? Estar cercada de bens inúteis e sorrir como num outdoor terráqueo? Ou pior, costurar o rosto para mascarar as pegadas do tempo? Para mim isso tudo não passa de esquisitice. Ou então a minha inteligência qawwiana reduziu drasticamente com a viagem. Só pode.

– Mãe! O que se passa contigo? Nem pareces tu a falar! Sempre adoraste o teu mercedes e as plásticas que te rejuvenescem, qual é o problema agora?

A minha pretensa filha tinha razão. Mas ela não fazia ideia de que a figura diante de si não era a sua verdadeira mãe. Nem sequer era um ser humano. Era um ser alienígena, vindo de outro planeta, camuflado na mãe.

Para poder seguir a minha missão pela terra sem ser notada, principalmente depois da desastrosa aterragem em Maputo, teletransportei-me para outro continente e em busca de um disfarce, apossei-me do corpo e da identidade desta mulher. Assim, nestes últimos dias, tenho sido esposa de um “empresário”, mãe de três “adolescentes”, “dona de casa”, com uma família cheia de “status”.

A minha filha lançou-me um olhar desdenhoso, pegou no telemóvel e foi perder-se pelas avenidas da cidade. Para quem nunca ouviu falar, o telemóvel é um dispositivo de comunicação que… não, esperem. Na verdade, o telemóvel é um órgão humano externo. Tão vital quanto os pulmões. Se quiserem causar um colapso à um humano, é só experimentarem arrancar-lhe o telemóvel. Difícil de imaginar, eu sei, mas já explico: enquanto no nosso planeta somos servidos pelas máquinas, aqui na terra elas é que são servidas pelos humanos. As máquinas escravizaram tanto os humanos, que até nos ritos sociais de confraternização, os humanos já não convivem. Apenas os telemóveis. Os humanos estão reduzidos à uma alarmante apatia. Mais recordam os zumbis do apocalipse tecnológico.

– Com licença, minha senhora – murmurou uma voz masculina, arrancando-me dos atribulados devaneios. Era o motorista lá de casa.

– Sim? Algum problema? – perguntei, vendo que o homem difundia aflitivamente a sua atenção para todos os cantos da luxuosa sala. Assim que percebeu que estávamos a sós, capturou-me e meteu os seus lábios carnívoros em cima dos meus. O meu peito trovejou de perplexidade e de nojo.

– Que raio está o senhor a fazer?

– Saudades tuas, meu docinho de coco.

– Docinho de coco? – a voz estava-me presa de pânico – eu sou casada, o senhor não sabe o que isso significa?!

– Ah meu docinho! Desde quando tal foi obstáculo para as nossas escapadelas? – Sussurrou com malícia, seus lábios feios e vingativos continuando a invadir a minha boca.

Foi nesse momento que me deu a síncope e perdi os sentidos, caindo no elegante tapete vermelho.

O planeta terra é um lugar cheio de regras. Uma delas, por exemplo, é que o casamento é um instituto sagrado, que obriga à estrita fidelidade entre duas pessoas. Talvez a dona deste corpo tenha um defeito de fabrico. Sim, é isso! Ela é um caso raro de avaria! Já imaginaram se de repente houvesse muitos humanos com uma disfunção assim? Não quero nem pensar.

                                                    @Linan