Desabafo de uma qawwi

#10|Eterna magia de natal: Fica comigo

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Fatinha terminava a decoração da árvore quando a campainha tocou. Eu, ao som de “jingle bell rock”, retirava um bolo quentinho do forno.
Ela entrou na cozinha e sacudindo o resto de pó brilhante das mãos, anunciou com um sorriso malicioso:

– O teu mendigo, ou melhor, o teu lindo e apaixonado “mendi-gato” está aí.

Antes de ir ter com a visita, arremessei um pano de loiça contra Fatinha. Estava farta de dizer-lhe que Will era somente um amigo.
Ele aguardava num canto escuro da sala, onde incidiam as luzes da árvore. O aspecto bastante vítreo dos seus olhos, preocupou-me.

– Will? O que disseram os médicos?

Seguiu-se um longo suspiro.

– Está confirmado. Já não aparece nada nas biopsias nem nos exames. Sumiram! Entendes, Linan? Estou curado!
– Desculpa?
– É como ouviste, curado!

Vibramos de alegria.
Mas não contei a verdade.
Não podia.

A nossa amizade florescera muito nos últimos meses e ao saber sobre a terrível doença, tive de usar o Dijon que trouxe sem autorização, para curá-lo. Claro que Will não se lembrava, pois eu o compelira a esquecer-se disso.

– Deve ser um milagre, Linan. O mesmo que te trouxe para mim.
Suavemente ele envolveu-me num abraço. A lentidão do gesto causou-me um familiar calor. Era o mesmo fogo que invadia-me a espinha pelo estômago adentro, toda a vez que ele tocava-me. Entrou pela janela um resto de vento a tentar apaziguar-me, mas o fogo era voraz.
Consegui soltar-me, a tempo de evitar que o meu peito estoirasse. Relutante, ele acabou também por afastar-se. Afinal de contas, era essa a condição para a amizade prevalecer. Evitar aquele tipo de contacto, pois fazia-me sentir tão instável como quem abre portas às escuras.
Concentramo-nos então nos planos de Will: o seu desejo de voltar a tentar adoptar a menina Erica. Ainda que estivesse só.

Pensei que nada fosse estragar o sabor adocicado dos dias de sol que se seguiram. Mas uma voz proclamada numa medonha sequência patológica, fez-se ouvir no meu quarto, denunciando o contrário:

Pobre Linan. Tão longe de nós e tão parecida com eles!

Nunca senti-me tão arrepiada como naquele instante. Os olhos azuis índigo marcavam a mudança: um qawwi inimigo aterrara na terra!
Saltei da cadeira, em posição de defesa:

– Vallen! Porque é que estás aqui?
– Vim fazer aquilo que tu falhaste. Acabar com os qlubs.

Soltou-se de mim uma gargalhada, pese embora a garganta estivesse seca. Vallen olhou-me boquiaberto:

– Porque é que te ris, criatura?
– Meu caro, o riso é uma válvula de escape para os humanos. Escuta, a minha missão é salvar os qlubs, não o contrário!
E o que tens feito até agora? Usar dijons sem autorização para curar humanos que não merecem viver? Fui obrigado a vir pessoalmente e eliminar o tal Will. Mas não te preocupes. Ele morreu sem o desgosto de saber que és uma asquerosa extraterrestre infiltrada no mundo dele. Até porque…

Impelida a teletransportar-me para outro lugar, deixei de o ouvir.

Senti um líquido salgado descer dos olhos quando lancei duras investidas na porta. Will morto? O pensamento, por si só, paralisava-me os músculos. Até que a porta abriu-se:

– Linan?

Foi como mergulhar numa piscina em dia de 50 graus.

– Linan… estás pálida. O que é se passa?

A resposta era demasiado intensa. Fechei os olhos e quis esconder-me.

– Estás a assustar-me miúda, diz alguma coisa.

Falar não era capaz. Então, atirei-me nos seus braços e beijei-o. Era uma espécie de insurreição, de quem recusa-se e entrega-se ao prazer ao mesmo tempo. Um atentado contra todas as muralhas que construíra e que agora ruíam sozinhas ao nosso redor.

Encontrei forças para desatar os lábios e libertar a verdade:

– Eu amo-te – ao senti-lo ofegar perto de mim, não tive mais dúvidas – eu amo-te, eu amo-te… – insisti aflita, enquanto Will carregava-me com a mesma urgência nos seus braços. Tal como um buraco negro, o amor é um campo magnético de onde nenhuma matéria escapa. A solução é abandonar-se por completo a ele.

Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que Will fez foi oferecer-me icetea. Sabia que era a minha bebida preferida.

Súbito, ele levou os joelhos ao chão, abeirando-se ao pé de mim na cama.

– Estava só à espera que caísses em ti para que pudesse fazer isto. Eu amo-te como nunca amei ninguém antes, Linan.

As mãos trémulas seguravam uma minúscula caixa veluda e os seus olhos não eram mais do que duas pedras de gelo derretendo em fogo lento.

– O que é isso?

Ele abriu a caixinha. Continha um pequeno adorno brilhante.

– É o símbolo de tudo o que representas para mim. Fica comigo, para sempre?

Então era para isso que servia uma aliança? Para afiançar a eternidade ao lado do amor? Será que os humanos não percebiam que perante as suas limitações, mesmo com a infinidade do universo, tal propósito era irrealizável?

– Não posso – apressei-me a meter uma camisola no corpo – Isto foi um erro, não posso…
– Uou, uou, calma! Se achas que é apressado eu volto atrás. Mas não digas que somos um erro, por favor!
– Estás longe de compreender, Will!
– Escuta – ele segurou-me com força para que eu o olhasse nos olhos – Eu também decepcionei-me no passado, mas nestes últimos meses tu devolveste-me a capacidade de confiar. Quero-te como nunca quis ninguém Linan, e sei que sentes o mesmo! Porque é que hesitas tanto? Explica-me!

O coração travou-me na garganta. Ele julgava amar uma humana, que na realidade era uma ET. E por causa da incompetência dessa ET, ele corria agora perigo.

Ponderei depressa sobre o que fazer. Dizia a verdade? Arriscando-me a que ele passasse a abominar-me? Ou então compelia-o a apagar-me da sua memória? Não, isso eu não era capaz.

– Oh Will… – sem controlar as lágrimas, e mesmo sabendo as consequências que o meu acto traria, juntei os braços em frente ao corpo, e desapareci do quarto.

Desabafo de uma qawwi

#9|Eterna magia de natal: verdades secretas

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Linan, 

Um sorriso simpático, uma boa conversa de esquina, são coisas que abundam no nosso meio. Mas quando se trata de honestidade, a história é outra. A arte da sinceridade tornou-se cara nos dias de hoje.

Nesta carta, é tudo o que tenho para oferecer-te: honestidade.

Não sou um sem-abrigo, como deixei-te pensar que era. Sou apenas um homem impulsivo, que por breves instantes morreu por dentro e apartou-se das ilusões deste mundo. Um homem que só regressou a si, depois de ter-te conhecido.

Não sei exactamente o que impediu-me de dizer-te a verdade antes. Talvez a necessidade de sentir a fé que tinhas em mim enquanto pessoa. Sem bens materiais, sem grande utilidade. Apenas pessoa. Talvez porque precisava de voltar a acreditar na possibilidade da amizade, do amor, gratuitos.

Quando se perde tudo de uma vez como eu perdi, cai-se num vácuo sem fim. Eu tinha planos, tinha uma vida, uma companheira. Mas demorei a perceber que as traças da intolerância há muito haviam corroído aquela união. As diferenças, os insultos, eram só um pretexto. Lá no fundo, o que nos destruiu foi o facto de que eu não era capaz de realizar aquele desejo, dar um filho à minha companheira. E não existe nada pior para um homem do que viver confrontado por esta incapacidade. Todos os dias.

Julguei que a proposta que fiz fosse ser uma solução: adoptar a menina Érica. A papelada para formalizar o sonho estava quase tratada, mas o sonho dissolveu-se no dia em que Susana anunciou estar grávida de outro homem.

Levou tempo para reerguer-me do golpe.

No sábado em que conheci-te, Linan, tinha ido ao parque com os meus amigos fazer um “experimento social”. É o nosso passatempo favorito e temos milhares de seguidores. Disfarcei-me de sem abrigo, colocamos câmeras ocultas, e começamos a provocar as pessoas para filmarmos as suas reacções. Normalmente divertimo-nos bastante com estes experimentos. Mas naquele dia, tornei-me eu vítima da triste comédia. Fora exactamente naquela manhã, que recebera uns exames médicos confirmando a grave doença. A saúde, tão silenciosamente, também me havia abandonado. Ou seja, o buraco não tinha fim.

Os meus amigos foram-se embora, mas eu continuei ali, sentado, permitindo-me experimentar a miséria humana em toda a sua plenitude.

E então chegaste tu, Linan. Parecia que vinhas a navegar pelo sol, de propósito, apenas para recordar-me de como é bom sorrir. Vieste sem preconceitos, cheia de coragem. E avançaste para dentro de mim, sem pedir licença. Pelo tanto que gostaste de mim, Linan, não consigo medir o quanto eu gosto ti. És uma das poucas pessoas que faz-me não querer desistir. Perdoas-me e aceitas-me na tua vida, com todas estas falhas? Espero por ti na Avenida das Portas, logo na esquina. Vem ter comigo, pois quero estar perto de ti, nem que seja só mais uma vez. Se julgares que não o queres fazer, entenderei, sem problema. Mas espero, sinceramente, que aceites o convite.

 Will

Pelos portões do parque, mesmo acima dos baloiços que cortavam o ar fresco, via-se a tal Avenida das Portas. O peito trovejou-me arrítmico quando rasguei a carta em quatro pedaços e tomei a direcção oposta.

Não importava se ele deixava de ser ou não um sem-abrigo. O facto é que aquele humano vestira o coração nos dedos que escreveram as verdades mais secretas sobre o seu ser. Por muito que o quisesse ver, sentia-me ameaçada.

Como podia ser sua amiga, sem contar-lhe a minha própria verdade? Seria eu a qawwi que traria para a vida daquele frágil humano, a maior mentira do século? Ofereceria o oposto do que ele precisava?

Não, isso eu não ia fazer.

Subi o acentuado passeio e estava quase em casa, quando fui obrigada a reter o passo. Debaixo do reflexo de um satélite que clareava o céu nublado, aguardava-me uma figura masculina. Trazia rosas vermelhas sobre o capô de uma viatura.

A figura aproximou-se e tirou o capuz da cabeça.

– Pressenti que ias optar por não vir, Linan. Mas tinha de tentar.

Excepto a voz, tudo nele era estranho. A pele com aroma de iogurte de limão, o cabelo farto, os olhos amendoados. Engraçado… era a primeira vez que percebia alguma beleza, para não dizer bastante, nos traços de um rosto humano.

– Will?

– Sou eu.

Subitamente as palmas das minhas mãos humedeceram. Deu-me uma esquisita reacção no estômago. A princípio julguei que fosse a energia do satélite a interferir no meu corpo, mas depois percebi que não. Era o toque de Will. As suas mãos entrelaçadas às minhas, o ar morno dos seus lábios tão perto de mim, fizeram-me sentir dessincronizada. Os joelhos fraquejaram. Assustada, quis teletransportar-me para outro continente, mas como se tivesse percebido as minhas intenções, Will segurou-me e persistiu com delicadeza:

– Por favor. Não vás.

Desabafo de uma qawwi

#8|Eterna magia de natal: O banco

“Quais as probabilidades, e o que pode dar errado, numa súbita amizade entre uma extraterrestre e um sem abrigo?”

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O banco do parquinho continuava vazio. Não soube o que pensar. Teria Wilson encontrado um lugar melhor? A ser este o caso, devia ter ficado contente. Porém, o sorriso que escapou dos meus lábios era trémulo como as acácias ao vento. Conheci Will numa noite de frustração. É verdade que continuo a ter a capacidade de teletransportar-me, que posso compelir a vontade humana. Mas raramente uso essas habilidades. Tal significa que cada minuto que passa sem que eu cumpra a missão, enfraquece-me e afasta-me da natureza qawwi.

Na noite em que fiz essa constatação, bati com a porta de casa e fui à esplanada perto comprar uma hunter’s dry. Esvaziei-a ali mesmo, encostada ao balcão. Pedi mais duas garrafas, um hambúrguer, e decidi ir ao parque. Foi lá onde encontrei Will, um jovem envelhecido pela amargura. Estava sentado num banco, enrolado num cobertor sujo, e tinha os pés desnudos ressequidos pelo frio. Apesar do seu olhar distante e escondido pelo gorro buído, eu conseguia notar a melancolia com que ele observava os outros. Aspirei as essências que pairavam ao seu redor: abandono, sonhos quebrados e algumas sobras de esperança. Essências inevitavelmente humanas. Essências que eu não estava a conseguir salvar.

Sorvi o conteúdo da garrafa de uma vez.

– Já percebo porque é que os humanos gostam disto – murmurei a meio de um arroto.

Will virou-se para mim espantado. A voz rouca discorreu-lhe trépida:

– Gostam de quê?

– Álcool. É uma boa maneira de afastar os problemas.

Folhas secas voavam pelo parquinho, quando Will comentou:

– Nada nesta vida é definitivo, senhorita. Talvez, e tão somente, a morte e o amor. Olhe para mim. Um dia saio desta situação. Quando a música para, há que se fazer a própria melodia.

Os meus lábios abriram-se, e Will, tão naturalmente acanhado, sorriu. Devem ter se seguido uns tantos disparatares da minha boca, pois pouco depois Will baixava o cobertor para libertar o calor causado pelas gargalhadas.

– Toma – ofereci-lhe uma bebida e reparti o hambúrguer. Will tinha ar faminto. Todavia, manteve-se quieto, como que apavorado pelo gesto.

– A senhorita não se incomoda?

– Porque me incomodaria?

Ele baixou o rosto.

– Estou sujo, cheiro a urina, sou um sem abrigo, senhorita.

– Isso não faz de ti menos humano. Aliás, devo dizer que até agora és dos humanos mais genuínos que conheci.

Para falar a verdade, eu nem sequer entendia aquela situação. No meu planeta era impossível qawwis deixarem outros qawwis à mercê do incerto e do desamparo. Todos têm um lar em Stefanotis. Ser “sem abrigo” lá, significa ter o coração vazio. E esse não parecia o caso de Will. Ao perceber que já haviam passado muitas horas e dúzias de cidras, pus-me em pé.

– Tenho de ir.

A voz de Will galgou inibida pelas minhas costas. Tirou o gorro da cabeça e torceu-o nervosamente entre os dedos, antes de perguntar-me:

– A senhorita passará por aqui um outro dia?

A resposta saiu antes mesmo que eu pudesse processá-la:

– Amanhã eu volto para jantar contigo.

– Senhorita Linan – tornou ele a chamar-me – a senhorita tem um coração de ouro. Se as noites fossem tão bonitas como a de hoje, eu dispensaria as manhãs.

Voltei para segurar a sua mão entre as minhas e reafirmei:

– Mas sem o dia, a noite perde o valor. Eu volto, meu querido Will.

E de facto, passei a visitá-lo com frequência, a mesma hora, no banco do parque. Era fácil ser humana ao lado dele.

Sentei-me no banco vazio e telefonei à Fatinha, a minha housemate.

– Passam 4 dias e ele não está aqui. Desapareceu e acho que já não volta!

Ele quem, Linan?

– O meu amigo, o rapaz do parque.

O sem tecto? Ah porra Linan, tens que ir à um psiquiatra!

– Psiquiatria? Porquê?

Ainda perguntas? Tu realmente não vês o que aconteceu com esse coraçãozinho, pois não?

– Do que é que estás a falar?

Tsk, tskvem para casa que conversaremos!

Desliguei o telemóvel e pousei a mão na madeira do banco. Foi então que acolheu-me uma súbita vontade de chorar. Por acaso as lágrimas mudariam aquele vazio? E porque é que tinha de entristecer-me assim, se Wilson não passava de um humano?

– Linan?

Apercebi-me tarde da repentina presença. Era uma das meninas que trabalhava na esplanada perto do parque.

– Sim?

– Trago uma carta para si.

– Carta?

– Exacto. Do moço que costuma estar aqui consigo. O engenheiro Wilson – esclareceu, antes de dar meia volta, deixando-me com o misterioso envelope na mão. Engenheiro Wilson?

Livros, Resenhas

Literatura – | Recados da Alma de “Bento Baloi” | – Opinião

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Título: Recados da Alma

Autor: Bento Baloi

Editora: Fundação Fernando Leite Couto (Moçambique); Ideia Fixa (Portugal)

Compre aqui: Wook

Sinopse:

Um jovem jornalista recebe papéis de um velho comerciante durante a cobertura à operação de salvamento de vítimas das cheias do vale do rio Save. Durante a leitura, o jornalista descobre nos papéis já amarelecidos autênticos retratos de várias vidas: o ambiente agitado de Lourenço Marques; o calor suburbano ao redor; a electrizante dinâmica dos bailes nocturnos (dos juke boxes aos gira-discos de 45 rotações).

Os terríveis «mabandido» estão à solta semeando pânico: «você é mufana de quem?» – perguntam. Há troca de mensagens subversivas. Fala-se à boca pequena dos rapazes de Mondlane e Machel. Do futuro. Mafalda e Eugénio revelam o seu amor num golpe inesperado, que acaba transformando as suas vidas no frenesim do 7 de Setembro e 21 de Outubro. Almas estilhaçam-se e espalham-se pela metrópole. Há revelações surpreendentes. A deusa «Afrodite» conspirará a favor? Ou será que o vaticínio da velha «nyamussoro» de Homoíne sobre o espírito dos brancos concretizar-se-á? A luta continua! É a palavra de ordem que atravessa o tempo.

Opinião:

Disse o escritor Luiz Ruffato numa ocasião, que começar uma leitura é como iniciar uma jornada por uma caverna escura. Ao fim da jornada, regressando à luz, somos uma pessoa diferente da que entrou na caverna. É isso que acontece-nos ao passear por “Recados da Alma”: uma experiência transformadora.

Com uma escrita leve e primorosa, o autor ambientou este romance de época / histórico, em Moçambique e em Portugal, e como pano de fundo usou a história de amor entre Mafalda e Eugénio. A tentativa de enlace  desenrola-se a meio de preconceitos sociais, na difícil época de transição do colonialismo à independência em Moçambique. Mas Recados da Alma não é, nem de longe, apenas uma história de amor. São recados de vozes de vários fragmentos num vasto horizonte temporal, que marcam a realidade do povo moçambicano e do povo português. São histórias do quotidiano, tão verdadeiras e tão intrinsecamente ligadas a nós, que fascinam e vão fascinar leitores de todas as gerações. Não poderia haver forma mais agradável de compreender o passado e o presente destes dois países: com um nível de detalhe aprofundado e rigor na pesquisa, o autor relata factos reais em forma de episódios emotivos, ligeiros, às vezes cómicos e outras vezes dramáticos, tão arrebatadores que fazem-nos devorar as páginas de um só fôlego. Todos os personagens são memoráveis. Aliás, é através de personagens equilibradas e amorosas como Eugénio e Simões, ou então de outras verdadeiramente tridimensionais como Zé Mundoni, Lopes, Original e a própria Mafalda, que o narrador mostra-nos que os desafios para uma melhor condição humana, passam pela tolerância, amor, pontes, alianças e amizade. Entre pessoas, entre países.

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A diagramação e a paginação da obra estão impecáveis. Graças a um excelente trabalho a este nível, é bastante fácil detectar a mudança de vozes/ pontos de vista, dos diferentes narradores. Num primeiro olhar, a capa não parece falar tão claramente sobre o género apresentado, mas ao longo da leitura, as razões para a escolha tornam-se bastante óbvias.

Então já sabem, recomendamos vivamente a leitura desta obra, que consideramos um grande triunfo da literatura moçambicana. Abra o seu coração e embarque numa inesquecível viagem, com os mabandido, os dragões da morte, os regressados, os amantes Eugénio e Mafalda, e os seus deuses africanos e europeus. Se por ventura este livro for adaptado ao cinema (tem toda a pinta para isso), será certamente a vivas cores. E como realça o misterioso narrador Castro, o amor permanecerá, “numa simbiose de almas em que a história escrever-se-á a preto e branco”.

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 Sobre o autor: Bento Baloi nasceu em 1968 no Vieira, um bairro de lata dos subúrbios da cidade de Maputo. É jornalista há 30 anos. Fez iniciação literária escrevendo contos e poemas publicados em páginas de especialidade de revistas e jornais moçambicanos. Dedicou parte significativa da sua carreira ao teatro escrevendo, dirigindo e interpretando papéis em peças, tanto de palco como de rádio. São da sua autoria as peças de teatro «Lágrimas»; «Grito Humano»; «Adão e Eva, Ámen»; «Alarme»; «Katina P, o Flagelo», entre outras. Escreveu os bailados «O Filho do Povo» e «Raízes e Percursos», encenados pela diva da coreografia moçambicana, Pérola Jaime. «Recados da Alma» é o seu romance de estreia e foi publicado pela primeira vez, em Moçambique pela Fundação Fernando Leite Couto, em Novembro de 2016.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

(por VF – da tripulação)

Cinema (Filmes / Séries)

Cinema |Top 7 filmes para ajudar a curar um coração partido|

Desde os mais experientes até os novatos, no amor todos nós já experimentamos em algum momento, partir o coração. Às vezes somos abandonados, e em outras ocasiões, abandonamos. Ambas situações não são nada divertidas. Uns recorrem à uma cervejinha e aos amigos, tentando dissimular a solidão que acomete nessa hora. Na ala feminina, o abraço das amigas, um bom vinho e a almofada, ou uma festa de pijama para as mais novas, normalmente serve. O bom é que todos superamos. Uns mais rápido que outros. O importante é não esquecer que sarar um coração partido é um processo, e quanto mais ajuda interior e exterior tivermos, melhor.

Se o seu coração neste momento deu uma de curtir um buraco negro, ou se você simplesmente quer sorrir e relaxar um pouco, continue a ler. O diário de uma qawwi seleccionou nesta resenha 7 maravilhosos filmes que vão ajudar a olhar para este drama da vida com outra perpesctiva. Sayonara às mazelas amorosas, agarre a tal cervejinha (ou não) e divirta-se com uma das nossas sugestões.

  1. 500 days of summer (500 dias de Summer) – 2009Screen_Shot_2018-08-08_at_12.51.04_PM

Não se pode falar de um filme para curar o coração partido, sem mencionar o clássico 500 days of summer. Neste filme, um romântico escritor surpreende-se quando a sua namorada termina o namoro repentinamente. Retratando como um rompimento pode nos deixar devastados, especialmente se acreditamos que quem nos deixou era “a tal”, a nossa “alma gémea”, este filme mostra como recuperar e redescobrir as nossas paixões individuais, e que pese embora pareça o fim do mundo, há sempre uma reviravolta e todos os dias são um recomeço. O importante é não deixar de acreditar.

Confira o trailer:

  1. Table 19 (Mesa 19) – 2017

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É chato irmos para uma festa de casamento sozinhos, especialmente se o irmão da noiva é quem acabou de nos dar um pé na bunda para ficar com outra, não é verdade? Mas sabem o quê? Bola para frente, não vamos deixar de viver, nem de nos divertir. Afinal, sempre podemos fazer novos amigos e nunca sabemos o que, de facto, o destino e o futuro nos reserva.

Confira o trailer:

 

  1. Qualquer gato vira lata – 2011

qualquer-gatoDepois de ser desprezada pelo namorado mimado e mulherengo, Tati busca maneiras de reconquistá-lo. Para isso, ela procura Conrado, um professor de biologia que defende uma polêmica tese sobre as conquistas afectivas humanas e as atitudes dos animais.

Apesar de ser uma comédia romântica mediana e previsível, Malvino Salvador e Cleo Pires conseguem arrancar gargalhadas de qualquer gatinho/gatinha pinguço/a perdido nos becos dessa tragédia. Jamais se esqueça, você é um ser maravilhoso e ele (ou ela) está prestes a arrepender-se por o/a ter deixado/a.

Confira o trailer:

 

  1. Hes just not that into you (Ele não está tão a fim de você) – 2009

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Estão a ver quando alguém vem e nos diz “o problema não és tu, sou eu”? ou então “não tenho capacidade de assumir um compromisso agora?” não duvide da palavra, pois esta pessoa não está a brincar.

Esta é uma comédia deliciosa que vai fazer você entender, de uma vez por todas, que de nada serve forçar alguém a nos amar. Quando se ama, ama-se, senão, azar. O melhor está sempre por vir.

Confira o trailer:

  1. The War of the Roses (A Guerra das Rosas) – 1989

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Talvez sejam muitos anos de convivência, talvez você (acha que) ainda o/a ama, talvez haja o medo da sociedade, do que as pessoas vão falar, ou simplesmente tenha medo da solidão, seja como for, se a coisa está mal, não vale a pena insistir. Respire fundo e saia por bem da situação, antes que acabe saindo por mal. Na dúvida, dê uma olhada neste filme.

  1. Sliding Doors (1998)

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“Helen pode pegar o trem ou não. A sua vida será completamente diferente de acordo com o que fizer: se pegar o trem, vai conhecer James e encontrar seu namorado com outra, se não pegar, vai chegar tarde em casa tarde e continuar uma vida de enganos.”

O maravilhoso deste filme, é que nos deixa com uma inspiradora revelação. Nada acontece por acaso. Aquilo que hoje parece mau e nos deixa arrasados, amanhã pode ser uma verdadeira benção.

Trailer:

  1. Man Up (Desencontro Perfeito) – 2015

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Para o nosso top 1, escolhemos man up, pois este filme britânico é uma daquelas comédias românticas algo subestimadas. Com actuações leves e impecáveis, plausibilidade palpável no enredo a que se propõe, o filme deixa-nos com uma sensação de calor no coração, esperança no amor repentino e a ajustar a auto-estima. Antes de reclamarmos o amor de alguém, temos de nos permitir amar-nos a nós mesmos, e que quem tiver de gostar de nós, irá o fazer, com todas as nossas imperfeições. Só assim vale a pena.

Trailer:

 

Esperemos que goste 🙂

Especial Halloween

 

 

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | “NAPPILY EVER AFTER” – Porque é que as mulheres deviam ver este filme| Opinião

 

Título: Nappily Ever After (PT: Agarra-te à vida, não ao cabelo)

Direcção: Haifaa al-Mansour

Elenco Principal: Sanaa Lathan, Ernie Hudson, Lyig Bent, Lynn Whitfield, Ricky Whittle e Camile Guaty

Género: Drama, Comédia Romântica

Ano: 2018

Sinopse:

“Violet Jones é uma mulher bem-sucedida que considera a sua vida perfeita. Um óptimo namorado e uma rotina organizada meticulosamente para conseguir estar sempre impecável. Quando o seu namorado mostra-se não ser quem ela esperava, Violet muda a vida radicalmente, descobrindo que o caminho em que se encontrava não era o ideal”

Opinião:

A Netflix continua a apostar em comédias românticas que tendem a mirar-se no seu público. A história de Violet, uma mulher de sucesso, que desde cedo alisa o cabelo para ter a aparência ideal e desejável pela sociedade, não é uma realidade estranha. Como muitas pessoas, Violet tem tudo para ser feliz, mas falha esse desiderato por uma simples razão: é a felicidade dos outros, e não a sua, que ela persegue. Ela percebe isso quando raspa o cabelo, numa intensa cena que faz rir e chorar ao mesmo tempo. O filme é baseado no romance de Trisha R. Thomas, e aposta em Sanaa Lathan para emprestar o lado leve e vulnerável de Violet. A trama tem uma e outra reviravolta comovente, mas de forma geral acaba sendo um lugar comum.

Apesar disso, é um filme bastante oportuno para o seu público alvo, especialmente para as mulheres que gostam do cabelo natural, seja ele crespo, liso, ou de qualquer outro feitio. Afinal de contas, vivemos numa sociedade que incentiva-nos a ser tudo, menos nós mesmas. Somos codificadas a acreditar que certo tipo de cabelo, de roupa, de corpo e até de comportamento, são melhores que outros, e acabamos por nos esquecer que tudo isso não passa de mero fabrico da sociedade. Aliás, para cumprir agendas impostas por essa mesma sociedade, afundamos as nossas necessidades e prioridades e acabamos por nos perder no abismo. A verdade é que não existe beleza física possível, sem brilharmos por dentro. Não é errado gostar-se de extensões, ou de cabelos lisos, até porque tudo o que nos torna belas é desejável. Errado é fazerem-nos acreditar que o cabelo natural é feio. O filme desmistifica essas possíveis inverdades e revela de forma gratificante, a protagonista a assumir o seu verdadeiro eu, depois de muito rebuscar a sua alma.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=3xh9XFxo2Hg

Imagens via Netflix.

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A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(por VF – da tripulação)

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema| – “SET IT UP ” para uma tarde aborrecida de Domingo |Opinião

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Título: Set it Up (BR: Plano Imperfeito

Direcção: Claire Scanlon

Elenco Principal: Zoey Deutch, Glen Powell, Taye Diggs e Lucy Liu

Género: Comédia Romântica

Enredo:

Desesperados por um pouco de sossego, dois assistentes criam um plano para fazer com que os seus dois chefes apaixonem-se.

Opinião:

Bom, depois das habituais atribulações da semana e da jornada laboral, às vezes o queremos num Domingo é tranquilidade, um filme leve para assistir e até quem sabe pipocas caseiras a acompanhar, não é verdade? Foi nessa senda que num fim de semana espreitei o trailer de “Set it Up” na Netflix. Cheirava a mais uma comédia romântica mediana cheia de clichés. Afinal, o trailer não era tão esclarecedor assim. Apesar dos seus contornos previsíveis, o plano diabólico de Charlie e Harper para que os seus horríveis chefes apaixonassem-se é hilariante e rende boas gargalhadas. Neste ambiente, de forma muito subtil, o filme remete também à outros temas, como independência, empoderamento e redescoberta tanto a nível profissional como pessoal, mostrando-nos que nunca é tarde para recomeçar. Quanto as actuações, para além de Lucy Liu, uma boa actriz, não conhecia os outros actores, mas a jovem que dá vida à Harper parece natural no seu papel, o que torna a personagem dela das mais engraçadas. O roteiro falha ao não desenvolver como merecia a relação dos dois chefes e os outros temas de fundo. A dada altura, é feita referência ao filme “the Parent Trap” (PT: Pai para mim, mãe para ti/BR: Operação cupido), que acaba inspirando todo o conceito de Set it Up. Enquanto considero the Parent Trap um clássico, acho que Set it Up não possui nenhuma robustez que o assegure tornar-se um filme inesquecível na memória dos telespectadores. Algum problema? Bom, eu não vejo mal em, de vez em quando, passarmos umas horinhas descontraídas, com um filme sem muita (ou nenhuma) profundidade para aquecer os neurônios. Este é o tipo de filme para quem procura isso. Ligeiro e engraçado, bom para uma tarde aborrecida de Domingo.

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Imagem via Netflix

Confira o trailer:

A nossa pontuação: 3,8 em 5 estrelas

(Por VF – da tripulação)